Edição 1894 . 2 de março de 2005

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Auto-retrato
Pedrinho

Anderson Schneider
EXCLUSIVO ON-LINE
Íntegra da entrevista


A vida de Pedro Braule Pinto, de 19 anos, mudou drasticamente em 2002, quando ele descobriu que Vilma Martins Costa não era sua mãe verdadeira e o havia seqüestrado ainda bebê de uma maternidade em Brasília. Depois do turbilhão, Pedrinho foi morar com os pais biológicos. Ele conversou com a repórter Rosana Zakabi sobre sua nova família e sobre o que sente por Vilma, que hoje está presa.

COMO VOCÊ SE SENTE TRÊS ANOS DEPOIS DE DESCOBRIR QUE FOI SEQÜESTRADO NA MATERNIDADE PELA MULHER QUE VOCÊ PENSAVA SER SUA MÃE?
Ainda é difícil assimilar tudo o que aconteceu, mas estou refazendo minha vida aos poucos. Às vezes penso como teria sido se eu tivesse conhecido meus pais e meus irmãos antes, se eu não tivesse sido seqüestrado, como teria sido a minha vida. Nunca saberei a resposta. O que me conforta é que não me coube escolher.

COMO FOI A ADAPTAÇÃO À SUA FAMÍLIA VERDADEIRA?
No começo eu me sentia como uma visita, alguém que vai à casa de parentes de vez em quando. Com o tempo, a gente começou a conviver mais e eu passei a notar que eu e meus pais tínhamos muitas coisas em comum, algumas manias, o jeito de falar. A cada comemoração, a cada almoço em que todos sentávamos juntos e começávamos a rezar, eu me sentia mais próximo da família. Quando percebi, já estava chamando meus pais de pai e mãe.

O QUE SENTE HOJE PELA VILMA, QUE DURANTE DEZESSEIS ANOS VOCÊ JULGOU SER SUA MÃE?
Ela também é minha mãe e sempre será. Mas hoje ela é uma mãe mais distante, que ficou no passado, na lembrança. Eu ainda gosto dela, mas não sinto o amor de antes porque toda essa história abalou nossa relação.

VOCÊ A PERDOA?
O crime que ela cometeu foi horrível, mas eu a perdoei. Ainda tenho muito carinho por ela. Não havia como não a perdoar.

SUA MÃE VERDADEIRA TAMBÉM A PERDOOU?
Ela age como se tivesse passado uma borracha no passado. Minha mãe costuma dizer que o que importa é nossa vida daqui para a frente.

COMO VOCÊ SE SENTIU NO DIA EM QUE CONHECEU SEUS PAIS?
Eu estava completamente perdido, sem entender direito o que acontecia. A imprensa toda na frente da gente, meus pais de um lado, a Vilma de outro, mas era como se eu não estivesse ali, estava atordoado. Eu já sabia que era filho da Lia e do Jayro por causa do teste de DNA, mas ainda não sabia que a Vilma havia me seqüestrado. Achei que seria uma história parecida com a das famílias em que ocorre troca de bebês. Naquele momento, achei que estava apenas ganhando dois novos amigos, que as duas famílias teriam uma convivência.

COMO ERA SUA RELAÇÃO COM SEUS PAIS ILEGÍTIMOS?
A Vilma era como qualquer outra mãe. Ela me achava o filho perfeito. O Osvaldo era mais fechado, não era muito de conversar, mas eu sabia que ele gostava de mim. Foi um superpai, acompanhava tudo da minha vida. Morreu semanas antes de eu descobrir que não era seu filho legítimo. Sabíamos que ele ia morrer, porque estava com câncer, mas a gente nunca está preparado para isso. Sinto muita falta dele.

O JAYRO, SEU PAI VERDADEIRO, PREENCHEU O ESPAÇO DEIXADO POR OSVALDO?
Ganhei um novo pai e isso foi muito bom, mas um não substitui o outro. Considero ambos meus pais e cada um tem seu espaço na minha vida.

POR QUE VOCÊ ESCOLHEU ESTUDAR DIREITO?
Sempre tive vontade de ser delegado de polícia. Aquele período em que fiquei freqüentando a delegacia direto me deixou encantado com o trabalho dos policiais.

VOCÊ SE IDENTIFICA COM A PERSONAGEM DE CAROLINA DIECKMANN, DA NOVELA SENHORA DO DESTINO, QUE TAMBÉM FOI SEQÜESTRADA QUANDO ERA BEBÊ E SÓ DESCOBRIU A VERDADE ANOS DEPOIS?
Em algumas coisas. Ela não aceitou a verdade quando a descobriu, chegou a fugir. Eu tentei ser mais frio, manter a cabeça no lugar e enfrentar a situação. Sou muito calmo, penso duas vezes antes de tomar qualquer atitude. Acho que, se eu fosse uma pessoa estourada, teria enlouquecido.

 
 
 
 
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