André
Petry
Lula está só
"Se até encobriu um crime para
não 'achincalhar' o antecessor, só o fígado
explica que tenha agora confessado
em público uma postura ilegal apenas
para 'achincalhar' o antecessor..."
É quase certo que não terá
conseqüência prática o disparate cometido pelo
presidente Lula num discurso no Espírito Santo, mas trata-se
de um episódio com alguns preciosos ensinamentos. Diante
de uma platéia formada por 400 áulicos, Lula contou
que, ao assumir o governo, um "alto companheiro" mostrou-lhe as
vísceras de uma "instituição" que fora levada
à "quebradeira" devido ao "processo de corrupção"
ocorrido em "algumas privatizações" feitas na gestão
de Fernando Henrique. Acrescentou que, para não "achincalhar"
a gestão do antecessor, orientou o "alto companheiro" a "fechar
a boca". Ao dizer que tomou conhecimento de um crime e decidiu ocultá-lo,
Lula está sujeito a ser processado por prevaricação
ou por crime de responsabilidade. Nada disso deve acontecer, dada
a ilimitada generosidade com que as falas do presidente têm
sido encaradas pela opinião pública. Mas isso não
encerra a questão:
A solidão O caso mostra que o presidente está
muito solitário. Sua trajetória espetacular de retirante
nordestino a presidente da República deu-lhe uma extraordinária
e merecida autoconfiança, mas no comando do
país ninguém pode ficar só. Não apareceu
um único assessor, amigo, aliado, conselheiro para avisá-lo
de que estava dizendo uma tremenda tolice em público? Ao
fim da confissão, a platéia aplaudiu...
O fígado Lula é vítima de uma ânsia
incontrolável para rebater qualquer crítica lançada
pelo ex-presidente Fernando Henrique. Com isso, comete o erro imperdoável
em gente experiente como ele de fazer política com o fígado.
Se até encobriu um crime para não "achincalhar" o
governo do antecessor, só o fígado explica que tenha
agora chegado ao ponto de confessar publicamente uma postura ilegal
apenas para achincalhar o governo do antecessor...
A ética O presidente autoriza o país a
imaginar que sua celebrada retidão ética navega nas
ondas do interesse da hora. Se chegou a esconder as irregularidades
cometidas na gestão de um adversário político,
é lícito imaginar que faria a mesma coisa, quem sabe
até com mais empenho, para proteger um amigo ou aliado. Ao
narrar o episódio, Lula parece querer nos dizer que ser generoso
e magnânimo é isso...
A lei Lula desconhece um dos rudimentos de sua missão
como presidente da República. Ele não pode esconder
crimes, sob pena de cometer um crime ele mesmo. Se quiser esconder,
então que não diga que o fez. Mas, ao esconder e contar
para todo mundo, Lula nos indica dois caminhos. O primeiro: acha
que está acima da lei, mas isso não parece provável,
pois a lei, diz ele, vale para "o presidente ou o pistoleiro". O
segundo: ele não conhece a lei...
A credibilidade O inusitado do episódio é
patente. Para alguns, ficou a impressão de que o presidente
pode ter contado algo desprovido de fundamento real. Como se fosse
uma anedota, uma parábola, uma alegoria. Esta alternativa
para o episódio pode parecer a mais inocente, mas é
indicadora de uma rachadura na aura da credibilidade presidencial.
Por tudo isso, talvez Lula devesse ter feito
ele mesmo o que recomendou ao "alto companheiro" que lhe denunciou
o "processo de corrupção": fechar a boca. Mas, pelo
visto, Lula está muito só. Autoconfiante e só.
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