|
Tales
Alvarenga Os neoconservadores
"O
Fórum Social de Porto Alegre é uma reunião de alternativos.
O problema é que são alternativos previsíveis e sem imaginação. Eu
não gostaria de pensar que o futuro está nas mãos desses
ativistas" São essas as
crianças que vão transformar o mundo em alguma coisa melhor? Crianças
dos 18 aos 80 anos estão em Porto Alegre participando do 5º Fórum
Social Mundial. O encontro, apadrinhado pelo PT, recebeu mais de 100.000 brasileiros
e estrangeiros. O que os une é que são todos contra "tudo isso que
está aí". O Fórum
de Porto Alegre é uma reunião de alternativos. O problema é
que são alternativos previsíveis e sem imaginação.
Eu não gostaria de pensar que o futuro está nas mãos desses
ativistas. Fazem discurso contra velhos sacos de pancada: a globalização,
o imperialismo, o neoliberalismo. Têm todo o direito de protestar contra
o que julgam errado no mundo, mas estão um pouco atrasados. O que falta
em Porto Alegre são utopias adequadas ao século XXI. As apresentadas
no Fórum Social têm no mínimo um século de envelhecimento.
Podem-se perdoar as crianças por tudo menos por serem lentas.
A globalização começou há 100.000 anos, quando nossos
ancestrais sapiens sapiens forçaram as fronteiras do continente
africano em direção a outras terras. A partir daí, o ser
humano nunca mais deixou de se globalizar. A globalização sempre
teve vantagens e desvantagens. Todos os povos que se moveram para lugares mais
atrasados, no sentido físico, cultural ou econômico, levaram opressão
e progresso às terras por eles visitadas. O processo vem derrubando fronteiras
em todos os campos e está adquirindo uma velocidade muito maior nos dias
atuais. Essa transformação cinética não dá
a ninguém o direito de achar que ser contra ou a favor da globalização
é uma importante postura ideológica.
O imperialismo é outra dessas notáveis descobertas que o Fórum
Social acaba de fazer. Os romanos foram imperialistas, os espanhóis também
e os ingleses idem. Isso tudo já tem muitos anos. É bom? Em parte
sim, em parte não. Se os portugueses não tivessem sido imperialistas
na África, na Ásia e na América Latina, o Brasil poderia
ter sido colonizado pelos ingleses, e nós correríamos o risco de
ter hoje como presidente o imperialista George W. Bush. Isso é bom? Não
sei. O que sei é que, se você disser a George W. Bush que é
contra o imperialismo, ele responderá: "Eu também".
O neoliberalismo é a defesa da redução do papel do Estado
na vida econômica e social. Não é a novidade imaginada pelos
ativistas de Porto Alegre. O velho anarquismo também detestava o poder
do Estado. Outro velho, Karl Marx, pregava o fortalecimento do governo numa primeira
fase, com a instituição da ditadura do proletariado, para, no fim,
extinguir-se definitivamente o Estado. Essa idéia de Marx é fascinante,
mas inexeqüível. Já a diminuição dos tentáculos
do Estado não apenas é realizável como é muito necessária,
especialmente no Brasil. No Fórum
Social, dizia-se na semana passada que o governo Lula virou neoliberal. Acordem,
crianças! Como pode ser neoliberal um governo que toma 36% da renda nacional
em forma de impostos e se apossa de 80% dos empréstimos correntes no país,
além de aplicar uma política monetária que exibe a maior
taxa real de juros do mundo? Um governo assim, estritamente ortodoxo, só
pode ser chamado de neoconservador. Da mesma forma que os integrantes do Fórum
Social. Esses são os neoconservadores de passeata. |