Edição 1890 . 2 de fevereiro de 2005

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Tales Alvarenga
Os neoconservadores

"O Fórum Social de Porto Alegre é uma
reunião de alternativos. O problema é que
são alternativos previsíveis e sem imaginação.
Eu não gostaria de pensar que o futuro está
nas mãos desses ativistas"

São essas as crianças que vão transformar o mundo em alguma coisa melhor? Crianças dos 18 aos 80 anos estão em Porto Alegre participando do 5º Fórum Social Mundial. O encontro, apadrinhado pelo PT, recebeu mais de 100.000 brasileiros e estrangeiros. O que os une é que são todos contra "tudo isso que está aí".

O Fórum de Porto Alegre é uma reunião de alternativos. O problema é que são alternativos previsíveis e sem imaginação. Eu não gostaria de pensar que o futuro está nas mãos desses ativistas. Fazem discurso contra velhos sacos de pancada: a globalização, o imperialismo, o neoliberalismo. Têm todo o direito de protestar contra o que julgam errado no mundo, mas estão um pouco atrasados. O que falta em Porto Alegre são utopias adequadas ao século XXI. As apresentadas no Fórum Social têm no mínimo um século de envelhecimento. Podem-se perdoar as crianças por tudo – menos por serem lentas.

A globalização começou há 100.000 anos, quando nossos ancestrais sapiens sapiens forçaram as fronteiras do continente africano em direção a outras terras. A partir daí, o ser humano nunca mais deixou de se globalizar. A globalização sempre teve vantagens e desvantagens. Todos os povos que se moveram para lugares mais atrasados, no sentido físico, cultural ou econômico, levaram opressão e progresso às terras por eles visitadas. O processo vem derrubando fronteiras em todos os campos e está adquirindo uma velocidade muito maior nos dias atuais. Essa transformação cinética não dá a ninguém o direito de achar que ser contra ou a favor da globalização é uma importante postura ideológica.

O imperialismo é outra dessas notáveis descobertas que o Fórum Social acaba de fazer. Os romanos foram imperialistas, os espanhóis também e os ingleses idem. Isso tudo já tem muitos anos. É bom? Em parte sim, em parte não. Se os portugueses não tivessem sido imperialistas na África, na Ásia e na América Latina, o Brasil poderia ter sido colonizado pelos ingleses, e nós correríamos o risco de ter hoje como presidente o imperialista George W. Bush. Isso é bom? Não sei. O que sei é que, se você disser a George W. Bush que é contra o imperialismo, ele responderá: "Eu também".

O neoliberalismo é a defesa da redução do papel do Estado na vida econômica e social. Não é a novidade imaginada pelos ativistas de Porto Alegre. O velho anarquismo também detestava o poder do Estado. Outro velho, Karl Marx, pregava o fortalecimento do governo numa primeira fase, com a instituição da ditadura do proletariado, para, no fim, extinguir-se definitivamente o Estado. Essa idéia de Marx é fascinante, mas inexeqüível. Já a diminuição dos tentáculos do Estado não apenas é realizável como é muito necessária, especialmente no Brasil.

No Fórum Social, dizia-se na semana passada que o governo Lula virou neoliberal. Acordem, crianças! Como pode ser neoliberal um governo que toma 36% da renda nacional em forma de impostos e se apossa de 80% dos empréstimos correntes no país, além de aplicar uma política monetária que exibe a maior taxa real de juros do mundo? Um governo assim, estritamente ortodoxo, só pode ser chamado de neoconservador. Da mesma forma que os integrantes do Fórum Social. Esses são os neoconservadores de passeata.

 
 
 
 
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