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Ensaio:
Roberto
Pompeu de Toledo
A funcionária
e a parideira
Lima Barreto queria mudar tudo
na sociedade, mas lugar de mulher
devia continuar sendo a cozinha
Lima Barreto (1881-1922), o autor de Triste
Fim de Policarpo Quaresma, um escritor talentoso, atrevido,
admirado, temido, sofrido, negro e bêbado, é um dos
mais interessantes brasileiros do seu tempo. Inteligente e antenado,
era um crítico impiedoso da política e dos costumes
brasileiros. Falava mal tanto de intocáveis do Estado, como
o barão do Rio Branco, quanto de xodós da literatura,
como o precioso Coelho Neto. Dizia-se "maximalista", o que queria
dizer que desejava nada menos do que "o máximo" de transformação
da sociedade. Admirava a Revolução Russa. Em matéria
de mulher, porém, horrorizava-se de que elas pudessem assumir
cargos habitualmente destinados aos homens. Gostava de vê-las
na cozinha.
A produção jornalística
de Lima Barreto foi reunida em dois caprichados volumes que acabam
de ser lançados, com organização de Beatriz
Resende e Rachel Valença Toda Crônica
(Editora Agir). Há ali, para delícia de quem gosta
do autor, ou de revisitar uma época, Lima Barreto que não
acaba mais: o comentarista da política, o crítico
de costumes, o cronista apaixonado de sua cidade. Fiquemos nesse
assunto de mulher. Por um lado, ele se fazia de defensor delas no
que se refere aos maus-tratos físicos a que eram (e são)
submetidas e nessa modalidade então tão em voga (hoje
parece que menos), que era o assassinato da adúltera pelo
marido. Numa crônica de 1920, conta ter ido ao velório
de uma vítima desse crime. O que mais o chocou foi constatar
que mesmo as mulheres presentes, amigas da morta, achavam que ela
mereceu o castigo. Lima se insurge contra "essa estúpida
opinião do nosso povo", que não só desculpa
esse tipo de crime, mas "parece até impor ao marido ultrajado
o dever de matar sua ex-cara-metade".
Por outro lado, ele tinha como tema recorrente
o combate às incipientes tentativas de abrir às mulheres
carreiras que lhes eram vedadas. Quando Nilo Peçanha, então
ministro das Relações Exteriores era o ano
de 1918 , nomeou uma moça para trabalhar no ministério,
Lima considerou que o ato "aberra de todas as nossas concepções
políticas e vai de encontro a todos os princípios
sociais". Em outra ocasião agora é setembro
de 1921 comenta reportagem de jornal em que diferentes chefes
de repartição elogiam as mulheres sob seu comando.
Com ironia, observa que não se surpreende que elas se saiam
bem: "(...) não é boa recomendação para
ser bom escriturário ou ótimo oficial de secretaria
a posse de uma individualidade, de um temperamento; e, raramente,
a mulher é dona dessas coisas". Para Lima, as mulheres "têm
muita aptidão para a retenção e para a repetição",
mas "não filtram os conhecimentos através de seu temperamento,
não os incorporam à sua inteligência".
Mais ou menos no mesmo diapasão, defende
que as mulheres "em geral em artes nunca foram criadoras". Até
aí, não serão poucos os que ainda hoje pensariam
parecido. Mais desconcertante é o argumento de que a ocupação,
pelas mulheres, de cargos "naturalmente destinados aos homens" prejudica
"a reprodução de nossa raça". Se a questão
fosse que, trabalhando fora, a mulher teria menos tempo para os
afazeres que levam à reprodução da espécie,
o argumento seria mais compreensível. Mas parece não
ser disso que se trata, pois em seguida, citando Spencer, ele expõe
a tese de que na Europa, depois que as mulheres galgaram postos
antes reservados aos homens, diminuíram, nos diferentes Exércitos,
"as dimensões antropométricas exigidas para os recrutas".
Se bem se entende, teria havido uma queda na qualidade dos rebentos
paridos. Os Exércitos tiveram de se contentar com soldados
mais baixos e franzinos.
O cronista, em contrapartida, exulta em constatar
que muitas candidatas acorreram, em novembro de 1919, a um curso
de culinária. "Com prazer, verifiquei que a vocação
da mulher para a cozinha ainda não foi morta pela de auxiliar
de escrita da estrada de ferro", afirma. E acrescenta: "Um tutu
de feijão com um bom molho de tomates, cebolas e vinagre,
seguido de uma carne-seca picadinha, vale mais do que qualquer ofício
limpo, redigidinho naquela pobretona literatura oficial, sem calor
nem gosto".
Terminemos com uma advertência e uma
constatação. A advertência é para que
o(a) leitor(a) não ria do autor de Clara dos Anjos.
Muito do que hoje é tido por verdade científica soará
daqui a 100 anos igual ao argumento de que o trabalho feminino interfere
na qualidade da procriação. Que se ria, no máximo,
do tempo. O tempo é um grande humorista. A constatação
é de quanto é difícil, para uma pessoa, ir
inteira e sólida numa mesma direção. Lima era
um igualitário. "Alemães, negros, caboclos, italianos,
portugueses, gregos e vagabundos, nós todos somos homens
e nos devemos entender na vasta e ampla terra do Brasil", escreveu.
Mas esqueceu os judeus, alvo de freqüentes invectivas. Em suas
pretensões maximalistas, por outro lado, queria reformar
a sociedade de alto a baixo. Mas, em seu mundo ideal, o máximo
de comando a que as mulheres poderiam aspirar era o do fogão.
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