Edição 1890 . 2 de fevereiro de 2005

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
A funcionária
e a parideira

Lima Barreto queria mudar tudo
na sociedade, mas lugar de mulher
devia continuar sendo a cozinha

Lima Barreto (1881-1922), o autor de Triste Fim de Policarpo Quaresma, um escritor talentoso, atrevido, admirado, temido, sofrido, negro e bêbado, é um dos mais interessantes brasileiros do seu tempo. Inteligente e antenado, era um crítico impiedoso da política e dos costumes brasileiros. Falava mal tanto de intocáveis do Estado, como o barão do Rio Branco, quanto de xodós da literatura, como o precioso Coelho Neto. Dizia-se "maximalista", o que queria dizer que desejava nada menos do que "o máximo" de transformação da sociedade. Admirava a Revolução Russa. Em matéria de mulher, porém, horrorizava-se de que elas pudessem assumir cargos habitualmente destinados aos homens. Gostava de vê-las na cozinha.

A produção jornalística de Lima Barreto foi reunida em dois caprichados volumes que acabam de ser lançados, com organização de Beatriz Resende e Rachel Valença – Toda Crônica (Editora Agir). Há ali, para delícia de quem gosta do autor, ou de revisitar uma época, Lima Barreto que não acaba mais: o comentarista da política, o crítico de costumes, o cronista apaixonado de sua cidade. Fiquemos nesse assunto de mulher. Por um lado, ele se fazia de defensor delas no que se refere aos maus-tratos físicos a que eram (e são) submetidas e nessa modalidade então tão em voga (hoje parece que menos), que era o assassinato da adúltera pelo marido. Numa crônica de 1920, conta ter ido ao velório de uma vítima desse crime. O que mais o chocou foi constatar que mesmo as mulheres presentes, amigas da morta, achavam que ela mereceu o castigo. Lima se insurge contra "essa estúpida opinião do nosso povo", que não só desculpa esse tipo de crime, mas "parece até impor ao marido ultrajado o dever de matar sua ex-cara-metade".

Por outro lado, ele tinha como tema recorrente o combate às incipientes tentativas de abrir às mulheres carreiras que lhes eram vedadas. Quando Nilo Peçanha, então ministro das Relações Exteriores – era o ano de 1918 –, nomeou uma moça para trabalhar no ministério, Lima considerou que o ato "aberra de todas as nossas concepções políticas e vai de encontro a todos os princípios sociais". Em outra ocasião – agora é setembro de 1921 – comenta reportagem de jornal em que diferentes chefes de repartição elogiam as mulheres sob seu comando. Com ironia, observa que não se surpreende que elas se saiam bem: "(...) não é boa recomendação para ser bom escriturário ou ótimo oficial de secretaria a posse de uma individualidade, de um temperamento; e, raramente, a mulher é dona dessas coisas". Para Lima, as mulheres "têm muita aptidão para a retenção e para a repetição", mas "não filtram os conhecimentos através de seu temperamento, não os incorporam à sua inteligência".

Mais ou menos no mesmo diapasão, defende que as mulheres "em geral em artes nunca foram criadoras". Até aí, não serão poucos os que ainda hoje pensariam parecido. Mais desconcertante é o argumento de que a ocupação, pelas mulheres, de cargos "naturalmente destinados aos homens" prejudica "a reprodução de nossa raça". Se a questão fosse que, trabalhando fora, a mulher teria menos tempo para os afazeres que levam à reprodução da espécie, o argumento seria mais compreensível. Mas parece não ser disso que se trata, pois em seguida, citando Spencer, ele expõe a tese de que na Europa, depois que as mulheres galgaram postos antes reservados aos homens, diminuíram, nos diferentes Exércitos, "as dimensões antropométricas exigidas para os recrutas". Se bem se entende, teria havido uma queda na qualidade dos rebentos paridos. Os Exércitos tiveram de se contentar com soldados mais baixos e franzinos.

O cronista, em contrapartida, exulta em constatar que muitas candidatas acorreram, em novembro de 1919, a um curso de culinária. "Com prazer, verifiquei que a vocação da mulher para a cozinha ainda não foi morta pela de auxiliar de escrita da estrada de ferro", afirma. E acrescenta: "Um tutu de feijão com um bom molho de tomates, cebolas e vinagre, seguido de uma carne-seca picadinha, vale mais do que qualquer ofício limpo, redigidinho naquela pobretona literatura oficial, sem calor nem gosto".

Terminemos com uma advertência e uma constatação. A advertência é para que o(a) leitor(a) não ria do autor de Clara dos Anjos. Muito do que hoje é tido por verdade científica soará daqui a 100 anos igual ao argumento de que o trabalho feminino interfere na qualidade da procriação. Que se ria, no máximo, do tempo. O tempo é um grande humorista. A constatação é de quanto é difícil, para uma pessoa, ir inteira e sólida numa mesma direção. Lima era um igualitário. "Alemães, negros, caboclos, italianos, portugueses, gregos e vagabundos, nós todos somos homens e nos devemos entender na vasta e ampla terra do Brasil", escreveu. Mas esqueceu os judeus, alvo de freqüentes invectivas. Em suas pretensões maximalistas, por outro lado, queria reformar a sociedade de alto a baixo. Mas, em seu mundo ideal, o máximo de comando a que as mulheres poderiam aspirar era o do fogão.

 
 
 
 
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