Edição 1890 . 2 de fevereiro de 2005

Índice
Stephen Kanitz
Gustavo Franco
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Auto-retrato
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 
Cinema
Fantasiar é viver

Como o autor de Peter Pan, Johnny Depp faz
de conta que é possível derrotar a infelicidade


Isabela Boscov

 
Divulgação

Depp, com Freddie Highmore: uma segunda e merecida indicação
ao Oscar

EXCLUSIVO ON-LINE
Galeria de fotos

É difícil precisar em que ponto exatamente de sua carreira Johnny Depp se tornou um ator tão especial, mas o fato é que, desde Edward Mãos-de-Tesoura e Ed Wood, ele estabeleceu um padrão de excelência para personagens tão vulneráveis na sua sensibilidade e no seu descompasso para com as cruezas da vida real que se teme pelo que o mundo possa fazer com eles. Depp explora novamente essas reservas, e com mais refinamento ainda, em Em Busca da Terra do Nunca (Finding Neverland, Inglaterra/Estados Unidos, 2004) – o que mais do que justifica sua segunda indicação consecutiva ao Oscar de melhor ator (no ano passado, ele concorreu por Piratas do Caribe), além das seis outras conquistadas pelo filme que estréia nesta sexta-feira no país.

No papel do dramaturgo escocês J.M. Barrie, que viria a ser celebrizado como o autor de Peter Pan, Depp é a essência da infelicidade: um homem cuja imaginação e desejo de afeto são proporcionais à aridez de sua vida pessoal ao lado de uma mulher – a ex-atriz Mary Ansell, interpretada pela australiana Radha Mitchell – que faz tudo para incentivar a carreira do marido, mas nada por ele próprio ou pelo seu talento. Quando Barrie conhece Sylvia Llewelyn Davies (Kate Winslet, sempre ótima), uma viúva com quatro filhos pequenos, pouco dinheiro e uma mãe tão ríspida quanto a mulher do escritor, as peças se encaixam para ambos. Barrie, Sylvia e os quatro garotos vão, pelos meses seguintes, fazer de conta que são uma família – e na Londres do início do século XX não poderiam fazer muito mais mesmo do que fantasiar, embora haja indícios de que a relação entre a viúva e o escritor tenha ido além do platônico.

As indicações

Melhor filme
Ator
Johnny Depp

Roteiro adaptado
Montagem
Direção de arte
Figurino
Trilha sonora

Qualquer verbete de enciclopédia sobre Barrie inclui a informação de que foi inspirado nos filhos de Sylvia, e para eles, que ele viria a escrever Peter Pan. Sabe-se também que Barrie provavelmente nunca freqüentou a cama de sua mulher, num casamento de mais de uma década, e que os aspectos fantasiosos e regressivos do seu comportamento se deviam ao trauma de, aos 6 anos de idade, ter perdido o irmão e se tornado objeto simultaneamente da indiferença e da dominação da mãe. Todos esses fatos são sugeridos em Em Busca da Terra do Nunca, mas o objetivo do diretor Marc Forster (de A Última Ceia) não é escancarar a vida privada de Barrie. O que ele faz, e com grande discrição, é expor os sentimentos represados dos dois adultos e situar a Terra do Nunca – onde crianças não precisam crescer e pensamentos felizes fazem voar – não na imaginação do dramaturgo, mas no lar perfeito que os seis personagens compartilharam por um breve período.

 
 
 
 
topovoltar