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Cinema Fantasiar
é viver Como o autor de
Peter Pan, Johnny Depp faz de conta
que é possível derrotar a infelicidade  Isabela
Boscov
Divulgação
 | Depp,
com Freddie Highmore: uma segunda e merecida indicação ao Oscar
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É difícil
precisar em que ponto exatamente de sua carreira Johnny Depp se tornou um ator
tão especial, mas o fato é que, desde Edward Mãos-de-Tesoura
e Ed Wood, ele estabeleceu um padrão de excelência para personagens
tão vulneráveis na sua sensibilidade e no seu descompasso para com
as cruezas da vida real que se teme pelo que o mundo possa fazer com eles. Depp
explora novamente essas reservas, e com mais refinamento ainda, em Em Busca
da Terra do Nunca (Finding Neverland, Inglaterra/Estados Unidos, 2004)
o que mais do que justifica sua segunda indicação consecutiva
ao Oscar de melhor ator (no ano passado, ele concorreu por Piratas do Caribe),
além das seis outras conquistadas pelo filme que estréia nesta sexta-feira
no país. No papel do dramaturgo
escocês J.M. Barrie, que viria a ser celebrizado como o autor de Peter
Pan, Depp é a essência da infelicidade: um homem cuja imaginação
e desejo de afeto são proporcionais à aridez de sua vida pessoal
ao lado de uma mulher a ex-atriz Mary Ansell, interpretada pela australiana
Radha Mitchell que faz tudo para incentivar a carreira do marido, mas nada
por ele próprio ou pelo seu talento. Quando Barrie conhece Sylvia Llewelyn
Davies (Kate Winslet, sempre ótima), uma viúva com quatro filhos
pequenos, pouco dinheiro e uma mãe tão ríspida quanto a mulher
do escritor, as peças se encaixam para ambos. Barrie, Sylvia e os quatro
garotos vão, pelos meses seguintes, fazer de conta que são uma família
e na Londres do início do século XX não poderiam fazer
muito mais mesmo do que fantasiar, embora haja indícios de que a relação
entre a viúva e o escritor tenha ido além do platônico.
| As
indicações |
Melhor filme
Ator Johnny Depp
Roteiro adaptado
Montagem
Direção de arte
Figurino
Trilha sonora | | Qualquer
verbete de enciclopédia sobre Barrie inclui a informação
de que foi inspirado nos filhos de Sylvia, e para eles, que ele viria a escrever
Peter Pan. Sabe-se também que Barrie provavelmente nunca freqüentou
a cama de sua mulher, num casamento de mais de uma década, e que os aspectos
fantasiosos e regressivos do seu comportamento se deviam ao trauma de, aos 6 anos
de idade, ter perdido o irmão e se tornado objeto simultaneamente da indiferença
e da dominação da mãe. Todos esses fatos são sugeridos
em Em Busca da Terra do Nunca, mas o objetivo do diretor Marc Forster (de
A Última Ceia) não é escancarar a vida privada de
Barrie. O que ele faz, e com grande discrição, é expor os
sentimentos represados dos dois adultos e situar a Terra do Nunca onde
crianças não precisam crescer e pensamentos felizes fazem voar
não na imaginação do dramaturgo, mas no lar perfeito que
os seis personagens compartilharam por um breve período. |