Edição 1890 . 2 de fevereiro de 2005

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Cinema
Todos amam Ray

Jamie Foxx, favorito absoluto ao
Oscar de melhor ator, arrasa no
papel do astro do soul Ray Charles


Isabela Boscov


Fotos divulgação
MAIS DO QUE UMA IMITAÇÃO
Foxx como Ray e, abaixo, o músico no estúdio de gravação, nos anos 60: uma atuação que vai além dos trejeitos

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"Passei a noite toda de olho em você", diz Ray à moça sentada no balcão do cabaré, que sorri, encantada com a piada irreverente, enquanto o músico cego discretamente apalpa seu pulso – sua tática para avaliar a conformação física das mulheres em quem está, como diz, de olho. O astro do soul Ray Charles, no desempenho arrebatador de Jamie Foxx em Ray (Estados Unidos, 2004) – que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional –, é o tipo mais obstinado de sobrevivente: aquele que faz de suas fraquezas um ponto de apoio. Quando é impedido de entrar num ônibus pelo motorista que alega não ter obrigação de "pajear um crioulo cego da Flórida até Seattle", por exemplo, ele não pensa duas vezes antes de pôr o insulto de lado. Conta, com humildade fingida, ter perdido a vista durante o Dia D, nas praias da Normandia. Na base da chantagem emocional, faz com que seu bilhete seja aceito. Ray Charles Robinson (1930-2004) nunca foi combatente: ficou cego bem antes da II Guerra Mundial, aos 6 anos de idade, em razão de um glaucoma tratado com receitas caseiras.

Filho de uma lavadeira, nascido na Geórgia e criado no interior da Flórida, "mais pobre do que os pobres", como se descreveu, no início de carreira Ray se rebatizou com seu nome do meio, Charles, para não ser confundido com o boxeador Sugar Ray Robinson. Saiu assim da sombra de um negro mais famoso na primeira oportunidade possível, mas não antes dela, numa estratégia que viria a repetir inúmeras vezes. Por exemplo, quando pouco a pouco deixou de imitar o som de músicos mais conhecidos para criar sua própria identidade artística, nas trocas de gravadora – sempre em busca de empresas mais poderosas e contratos mais vantajosos –, na substituição de amigos e namoradas que haviam se tornado pequenos demais para sua popularidade crescente ou quando, só no auge da celebridade, finalmente marcou uma posição contra o racismo ao se recusar a tocar num espetáculo segregado no seu estado natal (que o baniu pelos anos seguintes). Se esses são traços de caráter menos do que heróicos ou éticos, são eles que tornam o filme tão empolgante e sedutor: Ray Charles, aqui, é uma lenda que tem o tamanho e o feitio de um homem.


Divulgação
SEM PIEDADE
Sharon Warren, como a mãe de Ray, ensina o filho a ser um cego auto-suficiente: uma fortaleza feminina sem rival

Vibrante, sensual e generoso nas cores – sem falar na trilha sonora sensacional, claro –, Ray é uma contribuição inesperada do diretor Taylor Hackford (cujo currículo, não exatamente brilhante, inclui A Força do Destino, Advogado do Diabo e Prova de Vida) a um gênero muito em alta, o da cinebiografia. Seu filme não se afasta das convenções dedicadas pelo cinema americano às grandes personalidades, em que uma trajetória de tribulação e superação é item indispensável. Mas ele faz excelente uso delas. Um exemplo está na seqüência em que a mãe de Ray, pouco mais que uma menina, se despe de toda e qualquer piedade para ensinar o filho a ser cego sem ser coitado. Sharon Warren, uma potência como atriz, faz a cena de forma direta, sem floreios e sem tentar ganhar a solidariedade do espectador para com seu próprio sofrimento. Em poucos minutos, deixa claro por que Ray precisou conquistar tantas mulheres durante sua vida – nunca uma só daria conta de se equiparar a uma fortaleza materna como essa.

As indicações

Melhor filme
Ator
Jamie Foxx

Diretor
Taylor Hackford

Montagem
Figurino
Som

Outra passagem decisiva é aquela em que o irmão menor de Ray se afoga numa tina de lavar roupa, sem que este seja capaz de esboçar qualquer reação. A cena é calculada para chocar a platéia com sua desgraça indizível (e consegue), mas Hackford corta antes que o protagonista tenha tempo de sair de seu estupor. Tanto a platéia como Charles ficam privados de alguma catarse – porque o músico ficaria, na verdade, preso a esse instante pelas décadas seguintes, por força do trauma e da circunstância agravante de ter perdido a visão poucos meses depois. A morte do irmão é praticamente a última imagem que ele tem na mente, a que mais o revisita na sua cegueira e aquela de que ele quer se libertar por meio do vício em heroína, que acalentou até ficar claro que teria de escolher entre a droga e a música – o momento em que Ray se encerra.

Ray Charles, que em 1978 publicara uma autobiografia nua e crua, colaborou estreitamente na realização do filme – chegou a "vê-lo", por assim dizer, antes de sua morte, em junho do ano passado –, e esse calor da experiência em primeira mão, sem intermediários, faz muito por Ray. O fator decisivo para o sucesso do filme, entretanto, é a presença de Jamie Foxx, o favorito absoluto ao Oscar de melhor ator na cerimônia de 27 de fevereiro próximo. Comediante revelado no programa de televisão In Living Color (do qual saiu também Jim Carrey), Foxx já vinha se provando um talento dramático de primeira grandeza em filmes como Um Domingo Qualquer, Ali e Colateral (pelo qual disputa também o prêmio de coadjuvante). Seu trabalho em Ray, porém, é um capítulo à parte. Não porque sua mímica de Ray Charles seja perfeita (e é), nem porque sua formação como pianista clássico o tornasse uma escolha prática para o papel. Menos ególatra do que Will Smith e muito mais sintonizado com suas origens do que Denzel Washington, Foxx interpreta Ray acima de tudo como um negro que fez o que tinha de fazer para contornar suas adversidades pessoais – a pobreza, o preconceito, a cegueira, a tragédia familiar. E o músico fez isso com tanta força e convicção que acabou provocando, como efeito colateral, uma revolução. No momento em que fundiu, no seu piano, o gospel ao rhythm'n'blues e inventou o soul (e, com seu jeito manso, converteu o público branco a ele), Charles consolidou uma espécie de supremacia negra na música dos Estados Unidos. Em Ray, ninguém parece apreciar de forma tão completa a ironia e o prazer dessa jornada quanto Foxx.

 
 
 
 
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