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Cinema Todos
amam Ray Jamie Foxx, favorito absoluto ao Oscar
de melhor ator, arrasa no papel do astro do soul Ray Charles 
Isabela Boscov
Fotos divulgação  |
MAIS DO QUE
UMA IMITAÇÃO Foxx como Ray e, abaixo, o músico no estúdio de gravação,
nos anos 60: uma atuação que vai além dos trejeitos |  |
"Passei
a noite toda de olho em você", diz Ray à moça sentada no balcão
do cabaré, que sorri, encantada com a piada irreverente, enquanto o músico
cego discretamente apalpa seu pulso sua tática para avaliar a conformação
física das mulheres em quem está, como diz, de olho. O astro do
soul Ray Charles, no desempenho arrebatador de Jamie Foxx em Ray
(Estados Unidos, 2004) que estréia nesta sexta-feira em circuito
nacional , é o tipo mais obstinado de sobrevivente: aquele que faz
de suas fraquezas um ponto de apoio. Quando é impedido de entrar num ônibus
pelo motorista que alega não ter obrigação de "pajear um
crioulo cego da Flórida até Seattle", por exemplo, ele não
pensa duas vezes antes de pôr o insulto de lado. Conta, com humildade fingida,
ter perdido a vista durante o Dia D, nas praias da Normandia. Na base da chantagem
emocional, faz com que seu bilhete seja aceito. Ray Charles Robinson (1930-2004)
nunca foi combatente: ficou cego bem antes da II Guerra Mundial, aos 6 anos de
idade, em razão de um glaucoma tratado com receitas caseiras.
Filho de uma lavadeira, nascido na Geórgia e criado no interior da Flórida,
"mais pobre do que os pobres", como se descreveu, no início de carreira
Ray se rebatizou com seu nome do meio, Charles, para não ser confundido
com o boxeador Sugar Ray Robinson. Saiu assim da sombra de um negro mais famoso
na primeira oportunidade possível, mas não antes dela, numa estratégia
que viria a repetir inúmeras vezes. Por exemplo, quando pouco a pouco deixou
de imitar o som de músicos mais conhecidos para criar sua própria
identidade artística, nas trocas de gravadora sempre em busca de
empresas mais poderosas e contratos mais vantajosos , na substituição
de amigos e namoradas que haviam se tornado pequenos demais para sua popularidade
crescente ou quando, só no auge da celebridade, finalmente marcou uma posição
contra o racismo ao se recusar a tocar num espetáculo segregado no seu
estado natal (que o baniu pelos anos seguintes). Se esses são traços
de caráter menos do que heróicos ou éticos, são eles
que tornam o filme tão empolgante e sedutor: Ray Charles, aqui, é
uma lenda que tem o tamanho e o feitio de um homem.
Divulgação  |
SEM PIEDADE
Sharon Warren, como a mãe de Ray, ensina o filho a ser um cego auto-suficiente:
uma fortaleza feminina sem rival | Vibrante,
sensual e generoso nas cores sem falar na trilha sonora sensacional, claro
, Ray é uma contribuição inesperada do diretor
Taylor Hackford (cujo currículo, não exatamente brilhante, inclui
A Força do Destino, Advogado do Diabo e Prova de Vida) a
um gênero muito em alta, o da cinebiografia. Seu filme não se afasta
das convenções dedicadas pelo cinema americano às grandes
personalidades, em que uma trajetória de tribulação e superação
é item indispensável. Mas ele faz excelente uso delas. Um exemplo
está na seqüência em que a mãe de Ray, pouco mais que
uma menina, se despe de toda e qualquer piedade para ensinar o filho a ser cego
sem ser coitado. Sharon Warren, uma potência como atriz, faz a cena de forma
direta, sem floreios e sem tentar ganhar a solidariedade do espectador para com
seu próprio sofrimento. Em poucos minutos, deixa claro por que Ray precisou
conquistar tantas mulheres durante sua vida nunca uma só daria conta
de se equiparar a uma fortaleza materna como essa.
| As
indicações |
Melhor filme
Ator Jamie Foxx
Diretor Taylor Hackford
Montagem
Figurino
Som | | Outra
passagem decisiva é aquela em que o irmão menor de Ray se afoga
numa tina de lavar roupa, sem que este seja capaz de esboçar qualquer reação.
A cena é calculada para chocar a platéia com sua desgraça
indizível (e consegue), mas Hackford corta antes que o protagonista tenha
tempo de sair de seu estupor. Tanto a platéia como Charles ficam privados
de alguma catarse porque o músico ficaria, na verdade, preso a esse
instante pelas décadas seguintes, por força do trauma e da circunstância
agravante de ter perdido a visão poucos meses depois. A morte do irmão
é praticamente a última imagem que ele tem na mente, a que mais
o revisita na sua cegueira e aquela de que ele quer se libertar por meio do vício
em heroína, que acalentou até ficar claro que teria de escolher
entre a droga e a música o momento em que Ray se encerra.
Ray Charles, que em 1978 publicara
uma autobiografia nua e crua, colaborou estreitamente na realização
do filme chegou a "vê-lo", por assim dizer, antes de sua morte, em
junho do ano passado , e esse calor da experiência em primeira mão,
sem intermediários, faz muito por Ray. O fator decisivo para o sucesso
do filme, entretanto, é a presença de Jamie Foxx, o favorito absoluto
ao Oscar de melhor ator na cerimônia de 27 de fevereiro próximo.
Comediante revelado no programa de televisão In Living Color (do
qual saiu também Jim Carrey), Foxx já vinha se provando um talento
dramático de primeira grandeza em filmes como Um Domingo Qualquer, Ali
e Colateral (pelo qual disputa também o prêmio de coadjuvante).
Seu trabalho em Ray, porém, é um capítulo à
parte. Não porque sua mímica de Ray Charles seja perfeita (e é),
nem porque sua formação como pianista clássico o tornasse
uma escolha prática para o papel. Menos ególatra do que Will Smith
e muito mais sintonizado com suas origens do que Denzel Washington, Foxx interpreta
Ray acima de tudo como um negro que fez o que tinha de fazer para contornar suas
adversidades pessoais a pobreza, o preconceito, a cegueira, a tragédia
familiar. E o músico fez isso com tanta força e convicção
que acabou provocando, como efeito colateral, uma revolução. No
momento em que fundiu, no seu piano, o gospel ao rhythm'n'blues e inventou o soul
(e, com seu jeito manso, converteu o público branco a ele), Charles consolidou
uma espécie de supremacia negra na música dos Estados Unidos. Em
Ray, ninguém parece apreciar de forma tão completa a ironia
e o prazer dessa jornada quanto Foxx. |