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Entrevista: Roger
Federer
"Só temo contusões"
O tenista número 1 do mundo diz
que teme se machucar, como
aconteceu com Guga, e perder
o prazer de jogar

Gustavo Poloni
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AFP

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"Chega um estágio
na vida de um atleta profissional em que ele sente tanta
dor que precisa parar. É uma pena, mas é
a vida" |
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De noite, o tenista Roger Federer costuma sonhar
que está fazendo gols em um estádio de futebol lotado.
De dia, sua realidade é ainda mais espetacular. A Sports
Illustrated, uma das mais conceituadas revistas esportivas,
considera que Federer, de apenas 23 anos, tem tudo para se tornar
o melhor tenista de todos os tempos. Os admiradores de suas raquetadas
argumentam que ele não tem pontos fracos e que seus golpes
beiram a perfeição. O talento do suíço
ficou evidente na última temporada, quando encerrou o ano
em primeiro lugar no ranking dos melhores do mundo, com quase o
dobro de pontos do segundo colocado. Na semana passada, ele perdeu
sua primeira partida desde as Olimpíadas de Atenas, em agosto
de 2004. A derrota foi contra o russo Marat Safin durante o Aberto
da Austrália. Federer estava para ganhar o jogo quando sentiu
fortes dores nas costas. Em entrevista a VEJA, Federer, nascido
em Basel, na Suíça, disse temer que uma contusão
o tire do topo do esporte, como aconteceu com o brasileiro Gustavo
Kuerten.
Veja Você já
ganhou 15 milhões de dólares em prêmios, dinheiro
suficiente para viver bem o resto da vida. Qual a motivação
para continuar treinando e viajando?
Federer É difícil deixar o tênis.
Você passa a gostar do circuito. É uma vida muito movimentada.
Além de jogar, tenho de atender às exigências
dos patrocinadores, da imprensa e dos fãs. Não dá
para acordar um dia e simplesmente jogar tudo para o alto. É
claro que eu poderia, mas não quero. Sempre sonhei em ser
um grande esportista. Agora que cheguei lá, quero aproveitar
ao máximo. Quando comecei, não sabia que ser um tenista
famoso incluía entrevistas coletivas de imprensa após
cada partida e sessões de autógrafos.
Veja Como você gasta
o dinheiro que ganha?
Federer Adoro carros esportivos, como a Mercedes
conversível que ganhei em um torneio nos Estados Unidos,
no fim do ano passado. E cada vez mais me ligo em roupas de marca.
Comprei uma casa para meus pais, um bom apartamento para mim. É
bom saber que não preciso me preocupar com cada centavo que
gasto. Só viajo de primeira classe. Ter dinheiro faz com
que a vida seja muito mais fácil.
Veja Você se considera
um metrossexual, como o inglês David Beckham, jogador do Real
Madrid?
Federer Não sei bem o que é ser
um metrossexual, mas faço questão de cuidar bem de
mim mesmo. Vou com freqüência ao cabeleireiro e minha
namorada fica de olho na forma como me trato. As mulheres são
mais ligadas nessas coisas.
Veja Todo esportista de sucesso
agora faz questão de demonstrar generosidade e preocupação
social. Cultivar a imagem de cidadão preocupado com os pobres
se tornou obrigatório no mundo dos esportes?
Federer Nós, esportistas, às vezes
somos tão ricos e temos uma vida tão boa que sentimos
necessidade de dar alguma coisa de volta à sociedade. Queremos
ajudar as pessoas que, por um motivo ou outro, não tiveram
a mesma sorte que nós. Doei 15 000 dólares e várias
raquetes às vítimas do tsunami. A Fundação
Roger Federer, na África do Sul, dá educação
e alimentação a trinta crianças. Escolhi a
África do Sul porque minha mãe é de lá.
Criei a fundação quando ainda era muito jovem, com
22 anos. Quero apoiar o futuro do mundo, que são as crianças.
Fico feliz de poder usar meu nome para ajudá-las. Vou visitá-las
pela primeira vez em fevereiro e estou ansioso para encontrá-las.
Veja Se fosse técnico
de um outro tenista, o que diria para ele vencer o Roger Federer?
Federer Não posso revelar. O que me faz tão
forte é que posso me adaptar a diferentes tipos de pisos
e estilos de jogo. Durante o torneio em Doha (o primeiro deste
ano, vencido por Federer), por exemplo, joguei contra um tenista
que ficava mais no fundo da quadra, jogando de modo defensivo, e
contra outros dois que eram muito agressivos e jogavam no ataque.
Fui capaz de vencer todos. A temporada passada provou que posso
ganhar dos dez melhores jogadores do ranking o tempo todo. E eles
têm estilos completamente diferentes.
Veja Os tenistas disputam
tantos torneios seguidos por imposição do patrocinador,
para manter uma boa posição no ranking ou é
pelo dinheiro envolvido?
Federer A vida do tenista não é como
a de um jogador de futebol, que não pode tirar uns dias de
férias para esquiar por causa do risco de contusão.
Os tenistas são seus próprios patrões, podem
escolher que torneios querem disputar. A quantidade de jogos depende
muito da forma física do jogador e de como ele planeja sua
carreira. É claro que existem regras dos patrocinadores que
precisam ser seguidas, como disputar um torneio de Grand Slam ou
de Master Series. É curioso, mas subir no ranking significa
jogar mais partidas em cada torneio. Quando entrei no circuito profissional,
jogava trinta torneios por ano. Como saía de muitos deles
na primeira rodada, tinha mais tempo para descansar. De qualquer
forma, não jogo tanto assim. No ano passado, disputei apenas
dezessete torneios. Alguns jogadores no circuito jogam até
35 por ano.
Veja Você nunca fica
farto com tantas partidas?
Federer Eu me acostumei. Gostaria de ter férias
mais longas no fim do ano. Infelizmente, não dá para
ficar pensando em folga se tenho de participar de um torneio na
Austrália logo em janeiro. De qualquer forma, se estiver
muito cansado, consigo uma folga. Posso mudar meus planos da maneira
que quiser, conforme a necessidade. O que importa é tentar
enxergar a carreira como um projeto de longo prazo.
Veja O que você acha
do Gustavo Kuerten?
Federer Ele me traz más lembranças.
Foi o único jogador que me venceu numa partida de Grand Slam
no ano passado. Ele foi perfeito naquele dia. Eu o respeito muito,
é um sujeito excepcional e ótimo jogador. É
pena que esteja machucado. Espero que se recupere bem e que volte
às quadras mais forte do que nunca para que a gente possa
disputar mais jogos. Não sei qual é a gravidade da
contusão. Ter de passar por duas cirurgias nunca é
um bom sinal. Tive poucas chances de jogar contra ele e quero me
vingar da última derrota.
Veja Você tem medo
que uma contusão encurte sua carreira?
Federer Claro. Quando vejo o que aconteceu com
Guga e com outros tenistas, sinto que tenho muita sorte. Jogar com
dor não é bom. É o que está ocorrendo
com Guga. Chega um estágio na vida de um atleta profissional
em que ele sente tanta dor que não tem mais prazer em jogar.
É uma pena, mas é a vida.
Veja Os jogadores de futebol
costumam disputar partidas com os amigos durante a folga. Você
tem paciência para jogar tênis com os amigos nas horas
vagas?
Federer Nunca pego na raquete durante minha folga.
Os tenistas até marcam de jogar squash ou futebol juntos.
Quando entramos em uma quadra de tênis, no entanto, não
é para diversão. Será um jogo para valer. Por
isso preferimos fazer qualquer outro esporte que não o tênis.
Veja O que gosta de fazer
quando está de folga?
Federer Gosto de ficar sem fazer nada. Procuro
passar um dia bem relaxado com a família. Tento colocar o
papo em dia com os amigos. As pessoas acham que você quer
fazer coisas diferentes quando está de folga. Eu gosto mesmo
é de ficar em casa. É algo diferente, pois viajo muito
o ano inteiro.
Veja É difícil
se manter no topo do ranking?
Federer Todo mundo diz que é mais difícil
ficar no primeiro lugar do que chegar lá. Para mim, foi o
contrário. Virar o número 1 foi muito mais difícil,
eu sentia muita pressão e cobrança. Quando cheguei
lá, reagi com naturalidade. Pensei: "Poxa, isso é
ótimo. Quero ganhar mais torneios, mais Grand Slams. Quero
ficar no topo o maior tempo possível". Chegar ao primeiro
lugar me deu mais incentivo. Gostaria de ficar no topo por mais
dez anos, o que será muito difícil. Se não
conseguir, terei novas chances de reconquistar o primeiro lugar.
Veja O que é mais
importante para se dar bem no tênis feminino: ser bonita ou
jogar bem?
Federer O efeito Anna Kournikova fez com que
as mulheres ganhassem atenção tanto dentro quanto
fora da quadra. Elas passaram a trabalhar também como modelos.
O tênis feminino fica mais interessante com jogadoras bonitas,
desde que também saibam jogar.
Veja É por isso que
a tenista russa Anna Kournikova sempre disputa os maiores torneios,
apesar de nunca ter sido uma grande tenista?
Federer A Kournikova é um fenômeno. Ela
nunca ganhou um título importante, mas sempre teve muita
atenção porque é realmente bonita. Ela é
uma exceção. Não acho que outra tenista vá
conseguir repetir o que ela conseguiu.
Veja O americano John McEnroe,
um grande campeão da década de 80, disse que você
é o melhor tenista de todos os tempos. Como recebe esses
elogios?
Federer No começo da carreira foi difícil
lidar com isso, tinha medo de não corresponder. Hoje recebo
os elogios com naturalidade. Gosto de ser elogiado, mas sei que
preciso me concentrar muito no meu jogo para ter uma carreira bem-sucedida.
Não posso me arrepender de nada que fiz durante os anos em
que joguei tênis.
Veja Você acha que tem
algum ponto fraco?
Federer É claro que existem coisas que
eu gostaria de melhorar. Sou muito competitivo e perfeccionista,
e por isso quero sempre me aperfeiçoar, ainda que seja apenas
um pequeno detalhe. Preciso buscar a melhoria sempre, caso contrário
os outros tenistas chegam ao meu nível e me deixam para trás.
Veja Você diz que seus
ídolos no tênis são o alemão Boris Becker
e o sueco Stefan Edberg. Você acha que conseguiria vencê-los
quando estavam no auge?
Federer É difícil dizer, os tempos
mudaram. O tênis evoluiu muito desde então. Naquela
época o piso das quadras era muito mais rápido. Seria
um jogo muito difícil. Os dois eram muito bons na rede. Hoje
existem poucos jogadores tão bons quanto eles na rede.
Veja O técnico do
time suíço de futebol Basel disse que você é
um bom atacante. É verdade?
Federer Se não fosse um tenista, gostaria de
ter sido um grande jogador de futebol. Jogar nos grandes estádios
do mundo, marcar gols e comemorar como um louco. É com isso
que sonho quando estou dormindo. Um dia fui fazer um treino com
o time do Basel, do qual sou torcedor. Foi uma experiência
incrível, mas o técnico do Basel exagerou. Ele deve
ter sido obrigado a me elogiar.
Veja Por que você escolheu
o tênis e não o futebol?
Federer Eu tinha 3 anos quando segurei minha
primeira raquete. Meus pais costumavam jogar com os amigos nos fins
de semana, e eu estava sempre por perto, brincando na quadra, jogando
paredão e catando as bolinhas. Também gostava de jogar
futebol. Eram os dois esportes de que mais gostava. Aos 12 fui obrigado
a tomar uma decisão difícil: escolher entre o futebol
e o tênis. Optei pelo tênis porque é um esporte
que me permite controlar melhor meu destino. No futebol, o goleiro
pode cometer um erro que pode custar um título e jogar por
terra o esforço de todo o time.
Veja Qual é seu ídolo
no futebol?
Federer Meus jogadores favoritos são o
francês Zinedine Zidane (do Real Madrid) e o italiano
Francesco Totti (do Roma).
Veja E os brasileiros?
Federer Há quem diga que são os melhores
do mundo. Se tivesse de escolher um deles, seria o Ronaldo.
Veja Você quer bater
o recorde do Pete Sampras, que ganhou catorze torneios de Grand
Slam?
Federer Não gosto de me comparar com os outros.
É legal bater recordes, mas não é por isso
que jogo. Se meu maior objetivo na carreira fosse bater os recordes
do Sampras, daria a entender que disputar a Copa Davis ou o torneio
de minha cidade natal, Basel, não é importante. Não
gosto de ver a carreira dessa maneira.
Veja O que pretende fazer
quando largar o tênis?
Federer Vou me dedicar mais a minha fundação,
ajudando as pessoas que não tiveram a mesma sorte que eu.
Quero aproveitar a vida fora das quadras, talvez ter uma família.
Quero fazer coisas que não fiz enquanto estive envolvido
com o tênis.
Veja Você é
vaidoso?
Federer Procuro estar sempre bem vestido. Tenho
de ir a muitos eventos, shows, entregas de prêmios. É
importante estar com uma boa aparência. No começo,
gostava de usar calça jeans e camiseta. Hoje prefiro roupas
de marcas como Prada e de estilistas italianos. Não dá
para aparecer de jeans e camiseta num evento em que todas as outras
pessoas estão bem vestidas.
Veja Como é o assédio
das mulheres?
Federer É normal. Se minha namorada ainda
não me disse nada e não ficou morrendo de ciúme,
então acho que não é tão forte assim.
De qualquer forma, é bom saber que as mulheres sentem atração
por mim.
Veja Você gosta da
agitação decorrente da fama?
Federer Às vezes eu preferiria estar sentado
na frente da TV ou jantando tranqüilamente com minha namorada.
Mas sei que tenho a obrigação de retribuir de alguma
maneira o que o mundo do tênis me dá e que preciso
satisfazer meus fãs.
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