Edição 1890 . 2 de fevereiro de 2005

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Entrevista: Roger Federer
"Só temo contusões"

O tenista número 1 do mundo diz
que teme se machucar, como
aconteceu com Guga, e perder
o prazer de jogar


Gustavo Poloni

AFP

"Chega um estágio na vida de um atleta profissional em que ele sente tanta dor que precisa parar. É uma pena, mas é a vida"

De noite, o tenista Roger Federer costuma sonhar que está fazendo gols em um estádio de futebol lotado. De dia, sua realidade é ainda mais espetacular. A Sports Illustrated, uma das mais conceituadas revistas esportivas, considera que Federer, de apenas 23 anos, tem tudo para se tornar o melhor tenista de todos os tempos. Os admiradores de suas raquetadas argumentam que ele não tem pontos fracos e que seus golpes beiram a perfeição. O talento do suíço ficou evidente na última temporada, quando encerrou o ano em primeiro lugar no ranking dos melhores do mundo, com quase o dobro de pontos do segundo colocado. Na semana passada, ele perdeu sua primeira partida desde as Olimpíadas de Atenas, em agosto de 2004. A derrota foi contra o russo Marat Safin durante o Aberto da Austrália. Federer estava para ganhar o jogo quando sentiu fortes dores nas costas. Em entrevista a VEJA, Federer, nascido em Basel, na Suíça, disse temer que uma contusão o tire do topo do esporte, como aconteceu com o brasileiro Gustavo Kuerten.

Veja – Você já ganhou 15 milhões de dólares em prêmios, dinheiro suficiente para viver bem o resto da vida. Qual a motivação para continuar treinando e viajando?
Federer – É difícil deixar o tênis. Você passa a gostar do circuito. É uma vida muito movimentada. Além de jogar, tenho de atender às exigências dos patrocinadores, da imprensa e dos fãs. Não dá para acordar um dia e simplesmente jogar tudo para o alto. É claro que eu poderia, mas não quero. Sempre sonhei em ser um grande esportista. Agora que cheguei lá, quero aproveitar ao máximo. Quando comecei, não sabia que ser um tenista famoso incluía entrevistas coletivas de imprensa após cada partida e sessões de autógrafos.

Veja – Como você gasta o dinheiro que ganha?
Federer – Adoro carros esportivos, como a Mercedes conversível que ganhei em um torneio nos Estados Unidos, no fim do ano passado. E cada vez mais me ligo em roupas de marca. Comprei uma casa para meus pais, um bom apartamento para mim. É bom saber que não preciso me preocupar com cada centavo que gasto. Só viajo de primeira classe. Ter dinheiro faz com que a vida seja muito mais fácil.

Veja – Você se considera um metrossexual, como o inglês David Beckham, jogador do Real Madrid?
Federer – Não sei bem o que é ser um metrossexual, mas faço questão de cuidar bem de mim mesmo. Vou com freqüência ao cabeleireiro e minha namorada fica de olho na forma como me trato. As mulheres são mais ligadas nessas coisas.

Veja – Todo esportista de sucesso agora faz questão de demonstrar generosidade e preocupação social. Cultivar a imagem de cidadão preocupado com os pobres se tornou obrigatório no mundo dos esportes?
Federer – Nós, esportistas, às vezes somos tão ricos e temos uma vida tão boa que sentimos necessidade de dar alguma coisa de volta à sociedade. Queremos ajudar as pessoas que, por um motivo ou outro, não tiveram a mesma sorte que nós. Doei 15 000 dólares e várias raquetes às vítimas do tsunami. A Fundação Roger Federer, na África do Sul, dá educação e alimentação a trinta crianças. Escolhi a África do Sul porque minha mãe é de lá. Criei a fundação quando ainda era muito jovem, com 22 anos. Quero apoiar o futuro do mundo, que são as crianças. Fico feliz de poder usar meu nome para ajudá-las. Vou visitá-las pela primeira vez em fevereiro e estou ansioso para encontrá-las.

Veja – Se fosse técnico de um outro tenista, o que diria para ele vencer o Roger Federer?
Federer – Não posso revelar. O que me faz tão forte é que posso me adaptar a diferentes tipos de pisos e estilos de jogo. Durante o torneio em Doha (o primeiro deste ano, vencido por Federer), por exemplo, joguei contra um tenista que ficava mais no fundo da quadra, jogando de modo defensivo, e contra outros dois que eram muito agressivos e jogavam no ataque. Fui capaz de vencer todos. A temporada passada provou que posso ganhar dos dez melhores jogadores do ranking o tempo todo. E eles têm estilos completamente diferentes.

Veja – Os tenistas disputam tantos torneios seguidos por imposição do patrocinador, para manter uma boa posição no ranking ou é pelo dinheiro envolvido?
Federer – A vida do tenista não é como a de um jogador de futebol, que não pode tirar uns dias de férias para esquiar por causa do risco de contusão. Os tenistas são seus próprios patrões, podem escolher que torneios querem disputar. A quantidade de jogos depende muito da forma física do jogador e de como ele planeja sua carreira. É claro que existem regras dos patrocinadores que precisam ser seguidas, como disputar um torneio de Grand Slam ou de Master Series. É curioso, mas subir no ranking significa jogar mais partidas em cada torneio. Quando entrei no circuito profissional, jogava trinta torneios por ano. Como saía de muitos deles na primeira rodada, tinha mais tempo para descansar. De qualquer forma, não jogo tanto assim. No ano passado, disputei apenas dezessete torneios. Alguns jogadores no circuito jogam até 35 por ano.

Veja – Você nunca fica farto com tantas partidas?
Federer – Eu me acostumei. Gostaria de ter férias mais longas no fim do ano. Infelizmente, não dá para ficar pensando em folga se tenho de participar de um torneio na Austrália logo em janeiro. De qualquer forma, se estiver muito cansado, consigo uma folga. Posso mudar meus planos da maneira que quiser, conforme a necessidade. O que importa é tentar enxergar a carreira como um projeto de longo prazo.

Veja – O que você acha do Gustavo Kuerten?
Federer – Ele me traz más lembranças. Foi o único jogador que me venceu numa partida de Grand Slam no ano passado. Ele foi perfeito naquele dia. Eu o respeito muito, é um sujeito excepcional e ótimo jogador. É pena que esteja machucado. Espero que se recupere bem e que volte às quadras mais forte do que nunca para que a gente possa disputar mais jogos. Não sei qual é a gravidade da contusão. Ter de passar por duas cirurgias nunca é um bom sinal. Tive poucas chances de jogar contra ele e quero me vingar da última derrota.

Veja – Você tem medo que uma contusão encurte sua carreira?
Federer – Claro. Quando vejo o que aconteceu com Guga e com outros tenistas, sinto que tenho muita sorte. Jogar com dor não é bom. É o que está ocorrendo com Guga. Chega um estágio na vida de um atleta profissional em que ele sente tanta dor que não tem mais prazer em jogar. É uma pena, mas é a vida.

Veja – Os jogadores de futebol costumam disputar partidas com os amigos durante a folga. Você tem paciência para jogar tênis com os amigos nas horas vagas?
Federer – Nunca pego na raquete durante minha folga. Os tenistas até marcam de jogar squash ou futebol juntos. Quando entramos em uma quadra de tênis, no entanto, não é para diversão. Será um jogo para valer. Por isso preferimos fazer qualquer outro esporte que não o tênis.

Veja – O que gosta de fazer quando está de folga?
Federer – Gosto de ficar sem fazer nada. Procuro passar um dia bem relaxado com a família. Tento colocar o papo em dia com os amigos. As pessoas acham que você quer fazer coisas diferentes quando está de folga. Eu gosto mesmo é de ficar em casa. É algo diferente, pois viajo muito o ano inteiro.

Veja – É difícil se manter no topo do ranking?
Federer – Todo mundo diz que é mais difícil ficar no primeiro lugar do que chegar lá. Para mim, foi o contrário. Virar o número 1 foi muito mais difícil, eu sentia muita pressão e cobrança. Quando cheguei lá, reagi com naturalidade. Pensei: "Poxa, isso é ótimo. Quero ganhar mais torneios, mais Grand Slams. Quero ficar no topo o maior tempo possível". Chegar ao primeiro lugar me deu mais incentivo. Gostaria de ficar no topo por mais dez anos, o que será muito difícil. Se não conseguir, terei novas chances de reconquistar o primeiro lugar.

Veja – O que é mais importante para se dar bem no tênis feminino: ser bonita ou jogar bem?
Federer – O efeito Anna Kournikova fez com que as mulheres ganhassem atenção tanto dentro quanto fora da quadra. Elas passaram a trabalhar também como modelos. O tênis feminino fica mais interessante com jogadoras bonitas, desde que também saibam jogar.

Veja – É por isso que a tenista russa Anna Kournikova sempre disputa os maiores torneios, apesar de nunca ter sido uma grande tenista?
Federer – A Kournikova é um fenômeno. Ela nunca ganhou um título importante, mas sempre teve muita atenção porque é realmente bonita. Ela é uma exceção. Não acho que outra tenista vá conseguir repetir o que ela conseguiu.

Veja – O americano John McEnroe, um grande campeão da década de 80, disse que você é o melhor tenista de todos os tempos. Como recebe esses elogios?
Federer – No começo da carreira foi difícil lidar com isso, tinha medo de não corresponder. Hoje recebo os elogios com naturalidade. Gosto de ser elogiado, mas sei que preciso me concentrar muito no meu jogo para ter uma carreira bem-sucedida. Não posso me arrepender de nada que fiz durante os anos em que joguei tênis.

Veja – Você acha que tem algum ponto fraco?
Federer – É claro que existem coisas que eu gostaria de melhorar. Sou muito competitivo e perfeccionista, e por isso quero sempre me aperfeiçoar, ainda que seja apenas um pequeno detalhe. Preciso buscar a melhoria sempre, caso contrário os outros tenistas chegam ao meu nível e me deixam para trás.

Veja – Você diz que seus ídolos no tênis são o alemão Boris Becker e o sueco Stefan Edberg. Você acha que conseguiria vencê-los quando estavam no auge?
Federer – É difícil dizer, os tempos mudaram. O tênis evoluiu muito desde então. Naquela época o piso das quadras era muito mais rápido. Seria um jogo muito difícil. Os dois eram muito bons na rede. Hoje existem poucos jogadores tão bons quanto eles na rede.

Veja – O técnico do time suíço de futebol Basel disse que você é um bom atacante. É verdade?
Federer – Se não fosse um tenista, gostaria de ter sido um grande jogador de futebol. Jogar nos grandes estádios do mundo, marcar gols e comemorar como um louco. É com isso que sonho quando estou dormindo. Um dia fui fazer um treino com o time do Basel, do qual sou torcedor. Foi uma experiência incrível, mas o técnico do Basel exagerou. Ele deve ter sido obrigado a me elogiar.

Veja – Por que você escolheu o tênis e não o futebol?
Federer – Eu tinha 3 anos quando segurei minha primeira raquete. Meus pais costumavam jogar com os amigos nos fins de semana, e eu estava sempre por perto, brincando na quadra, jogando paredão e catando as bolinhas. Também gostava de jogar futebol. Eram os dois esportes de que mais gostava. Aos 12 fui obrigado a tomar uma decisão difícil: escolher entre o futebol e o tênis. Optei pelo tênis porque é um esporte que me permite controlar melhor meu destino. No futebol, o goleiro pode cometer um erro que pode custar um título e jogar por terra o esforço de todo o time.

Veja – Qual é seu ídolo no futebol?
Federer – Meus jogadores favoritos são o francês Zinedine Zidane (do Real Madrid) e o italiano Francesco Totti (do Roma).

Veja – E os brasileiros?
Federer – Há quem diga que são os melhores do mundo. Se tivesse de escolher um deles, seria o Ronaldo.

Veja – Você quer bater o recorde do Pete Sampras, que ganhou catorze torneios de Grand Slam?
Federer – Não gosto de me comparar com os outros. É legal bater recordes, mas não é por isso que jogo. Se meu maior objetivo na carreira fosse bater os recordes do Sampras, daria a entender que disputar a Copa Davis ou o torneio de minha cidade natal, Basel, não é importante. Não gosto de ver a carreira dessa maneira.

Veja – O que pretende fazer quando largar o tênis?
Federer – Vou me dedicar mais a minha fundação, ajudando as pessoas que não tiveram a mesma sorte que eu. Quero aproveitar a vida fora das quadras, talvez ter uma família. Quero fazer coisas que não fiz enquanto estive envolvido com o tênis.

Veja – Você é vaidoso?
Federer – Procuro estar sempre bem vestido. Tenho de ir a muitos eventos, shows, entregas de prêmios. É importante estar com uma boa aparência. No começo, gostava de usar calça jeans e camiseta. Hoje prefiro roupas de marcas como Prada e de estilistas italianos. Não dá para aparecer de jeans e camiseta num evento em que todas as outras pessoas estão bem vestidas.

Veja – Como é o assédio das mulheres?
Federer – É normal. Se minha namorada ainda não me disse nada e não ficou morrendo de ciúme, então acho que não é tão forte assim. De qualquer forma, é bom saber que as mulheres sentem atração por mim.

Veja – Você gosta da agitação decorrente da fama?
Federer – Às vezes eu preferiria estar sentado na frente da TV ou jantando tranqüilamente com minha namorada. Mas sei que tenho a obrigação de retribuir de alguma maneira o que o mundo do tênis me dá e que preciso satisfazer meus fãs.

 
 
 
 
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