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Em
foco: Gustavo Franco
É preciso acreditar
"O PT tem pouca credibilidade ao praticar
políticas convencionais, pois sempre as criticou
e parece estar apenas fingindo acreditar nelas"
Já parecem superadas quaisquer dúvidas
sobre o fato de que a política macroeconômica deste
governo é idêntica à do anterior. Para muitos,
isso é motivo de festejo, para outros, de decepção.
O fato é que esse debate parece esgotado. O interessante,
todavia, é que os efeitos das mesmas políticas parecem
diferentes quando conduzidas pelo PT, e que o problema tem a ver
com credibilidade. Há três eixos de explicação:
Ilustração Ale Setti
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Em primeiro lugar, há o problema de praticar políticas
monetária (metas de inflação) e cambial (livre
flutuação) extremamente convencionais em uma situação
de déficit de credibilidade. Em muito maior escala, o BC
do PT enfrenta um problema que também existia no governo
anterior, a saber, a forte oposição de alguns setores
e figuras influentes do governo às políticas praticadas.
Nesse contexto, o mercado não tem restrições
aos dirigentes do BC nem à consistência de suas visões
e políticas, mas tem todo o medo do mundo quando o "verdadeiro
PT" ameaça se intrometer na política monetária.
A credibilidade, portanto, depende de fatores alheios ao BC, os
quais, neste governo, têm sido matéria de constante
apreensão.
Assim, tudo se passa como se, ao subir os
juros, o BC ganhasse credibilidade ao demonstrar desprendimento.
E, sempre que baixa os juros, a percepção é
que o faz por pressão de diáfanas "figuras palacianas",
ou mesmo do presidente, conforme vazamentos credenciados. Cria-se,
dessa forma, uma espécie de "viés político
de alta", diretamente proporcional à divisão no governo
e à falta de independência do BC. É possível
que o problema possa ser diminuído com avanços institucionais
concretos no terreno do fortalecimento institucional do BC. A conferir.
Em segundo lugar, parece se manter uma tendência
dos últimos anos de aumento simultâneo do gasto público
e da carga tributária. Nos primeiros anos da estabilização,
a "carta branca" dada à Receita tinha a ver com a perda das
"receitas" decorrentes da pintura de papel-moeda: era preciso transformar
essas "receitas", conhecidas como "o imposto inflacionário",
em impostos convencionais. Desde então, a Receita ganhou
uma autoridade que só fez crescer. De outro lado, para cada
novo recorde de arrecadação, a despesa parece sempre
crescer na mesma proporção ou mais.
Depois do acordo com o FMI, as coisas se arrumaram
um pouco, mas a tendência prossegue: parece que estamos nos
encaixando num padrão internacional segundo o qual a esquerda
aumenta gastos e impostos, a direita gostaria de diminuir os impostos,
enquanto o bom senso apontaria no sentido de diminuir os dois. Infelizmente,
não existe no país um partido político comprometido
muito fortemente com essa terceira alternativa, e por isso não
se vislumbra nenhum sinal de alteração nessa tendência.
Uma terceira área de problemas engloba
um conjunto de temas geralmente designados sob a rubrica da "incerteza
regulatória". Na verdade, não é bem isso, mas
muito mais. Muitas iniciativas regulatórias, boas e ruins,
já foram deflagradas, o novo modelo elétrico está
no lugar e as PPPs foram aprovadas, mas o investimento em infra-estrutura
não se moveu significativamente. Há enorme cautela
no ar, pois parece bastante evidente que o PT é absolutamente
novato em entender a lógica do investimento privado de longo
prazo. Para os acostumados com a "liderança do Estado" no
processo de investimento, o problema é de vontade política,
e portanto de convocar o empresariado a cumprir seu dever. Isso
não funciona mais. O conjunto de atores envolvido no processo
de investimento obedece a fatores intangíveis, como a confiança,
e seu julgamento sobre as reais convicções do governo,
todos muito difíceis de manobrar. Os efeitos de uma melhoria
no marco regulatório, por exemplo, podem ser destruídos
por uma nomeação política numa agência
reguladora.
A conclusão é curiosa: o PT
tem pouca credibilidade ao praticar políticas convencionais,
pois sempre as criticou e parece estar apenas fingindo acreditar
nelas. Essas políticas são muito mais eficientes e
imaginativas quando praticadas por um governo que, unido, genuinamente
acredita nelas.
Gustavo Franco é
economista da PUC-RJ e ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.com;
www.gfranco.com.br)
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