Edição 1890 . 2 de fevereiro de 2005

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André Petry
O dogma ou a vida

"A realidade sem rodeios é conhecida de todo
mundo, inclusive do prefeito e
do arcebispo:
adolescentes fazem sexo sem proteção e as
meninas ficam grávidas
sem querer. Infelizmente"

O que uma sociedade deve fazer: defender o dogma ou defender a vida? Formulada assim, a pergunta parece óbvia, mas não é. O prefeito Cesar Maia, do Rio de Janeiro, por exemplo, acaba de se decidir pela defesa do dogma em detrimento da vida. Fazendo uma melancólica genuflexão diante das pressões da cúpula da Igreja Católica, o prefeito cancelou um projeto que vinha sendo executado desde o ano passado em caráter experimental: a distribuição gratuita da chamada pílula do dia seguinte nos postos de saúde da cidade. O contraceptivo pode ser ingerido até 72 horas depois da relação sexual para evitar uma gravidez indesejada. A Igreja Católica, que tem alergia até mesmo a camisinha, sustenta que a pílula é abortiva, ainda que não haja consenso científico sobre isso, e fez pressão para que o programa fosse cancelado – e o prefeito cancelou. Felizmente, o efeito prático é quase nulo, pois os postos de saúde do SUS distribuem a pílula de graça desde o governo anterior. No ano passado, conforme cálculos elaborados por entidades feministas, 120.000 pílulas foram distribuídas em 2.000 cidades brasileiras – entre elas, é claro, o Rio de Janeiro.

O caso mostra que, entre defender a vida das adolescentes cariocas e encarar a realidade delas sem rodeios, o prefeito preferiu defender o dogma católico – e ficar de bem com o arcebispo. A realidade sem rodeios é conhecida de todo mundo, inclusive do prefeito e do arcebispo: adolescentes fazem sexo sem proteção e as meninas ficam grávidas sem querer. Infelizmente. Cancelar a distribuição de pílulas do dia seguinte não altera em nada essa realidade. Trata-se apenas de um caso clássico de moralismo hipócrita segundo o qual é sempre preferível esconder a realidade a ter de lidar com franqueza com seus desdobramentos. A prostituição é um exemplo lapidar de como essa hipocrisia moral funciona. A prostituição é ilegal, mas todo mundo sabe – inclusive o prefeito e o arcebispo – que seu exercício clandestino gera doença, crime e corrupção. O que fazer então? A opção mais realista seria admitir sua existência – e a impossibilidade histórica de sua erradicação aqui ou em qualquer parte do mundo – e deflagrar um debate franco sobre o problema com o objetivo de reduzir seus danos. Em vez disso, o moralismo finge que estamos na luta inglória pela erradicação completa do comércio do sexo...

As vitrines de Amsterdã onde as prostitutas se oferecem aos passantes são uma agressão ao dogma católico da virgindade e um deboche à idéia do sexo só para fins reprodutivos – e costumam escandalizar os turistas. O que o moralismo hipócrita não gosta de reconhecer é que, por trás das escandalosas vitrines holandesas, há prostitutas protegidas da doença, do crime e dos achaques de policiais corruptos, pois, não exercendo uma função ilegal, elas têm assistência à saúde e orientação sexual. Vivem longe do submundo do qual as prostitutas brasileiras, que jamais se expõem despudoradamente em vitrines, são reféns permanentes. Mas tirá-las do atoleiro é bastante complicado porque é preciso enfrentar os dogmas católicos e desmontar os mitos – e, o que é mais difícil ainda, encarar a realidade.

 
 
 
 
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