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André
Petry O dogma ou a vida
"A
realidade sem rodeios é conhecida
de todo mundo, inclusive do prefeito e do arcebispo: adolescentes
fazem sexo sem proteção e as meninas ficam grávidas
sem querer. Infelizmente" O que uma sociedade
deve fazer: defender o dogma ou defender a vida? Formulada assim, a pergunta parece
óbvia, mas não é. O prefeito Cesar Maia, do Rio de Janeiro,
por exemplo, acaba de se decidir pela defesa do dogma em detrimento da vida. Fazendo
uma melancólica genuflexão diante das pressões da cúpula
da Igreja Católica, o prefeito cancelou um projeto que vinha sendo executado
desde o ano passado em caráter experimental: a distribuição
gratuita da chamada pílula do dia seguinte nos postos de saúde da
cidade. O contraceptivo pode ser ingerido até 72 horas depois da relação
sexual para evitar uma gravidez indesejada. A Igreja Católica, que tem
alergia até mesmo a camisinha, sustenta que a pílula é abortiva,
ainda que não haja consenso científico sobre isso, e fez pressão
para que o programa fosse cancelado e o prefeito cancelou. Felizmente,
o efeito prático é quase nulo, pois os postos de saúde do
SUS distribuem a pílula de graça desde o governo anterior. No ano
passado, conforme cálculos elaborados por entidades feministas, 120.000
pílulas foram distribuídas em 2.000 cidades brasileiras entre
elas, é claro, o Rio de Janeiro. O caso
mostra que, entre defender a vida das adolescentes cariocas e encarar a realidade
delas sem rodeios, o prefeito preferiu defender o dogma católico
e ficar de bem com o arcebispo. A realidade sem rodeios é conhecida de
todo mundo, inclusive do prefeito e do arcebispo: adolescentes fazem sexo sem
proteção e as meninas ficam grávidas sem querer. Infelizmente.
Cancelar a distribuição de pílulas do dia seguinte não
altera em nada essa realidade. Trata-se apenas de um caso clássico de moralismo
hipócrita segundo o qual é sempre preferível esconder a realidade
a ter de lidar com franqueza com seus desdobramentos. A prostituição
é um exemplo lapidar de como essa hipocrisia moral funciona. A prostituição
é ilegal, mas todo mundo sabe inclusive o prefeito e o arcebispo
que seu exercício clandestino gera doença, crime e corrupção.
O que fazer então? A opção mais realista seria admitir sua
existência e a impossibilidade histórica de sua erradicação
aqui ou em qualquer parte do mundo e deflagrar um debate franco sobre o
problema com o objetivo de reduzir seus danos. Em vez disso, o moralismo finge
que estamos na luta inglória pela erradicação completa do
comércio do sexo... As vitrines de Amsterdã
onde as prostitutas se oferecem aos passantes são uma agressão ao
dogma católico da virgindade e um deboche à idéia do sexo
só para fins reprodutivos e costumam escandalizar os turistas. O
que o moralismo hipócrita não gosta de reconhecer é que,
por trás das escandalosas vitrines holandesas, há prostitutas protegidas
da doença, do crime e dos achaques de policiais corruptos, pois, não
exercendo uma função ilegal, elas têm assistência à
saúde e orientação sexual. Vivem longe do submundo do qual
as prostitutas brasileiras, que jamais se expõem despudoradamente em vitrines,
são reféns permanentes. Mas tirá-las do atoleiro é
bastante complicado porque é preciso enfrentar os dogmas católicos
e desmontar os mitos e, o que é mais difícil ainda, encarar
a realidade. |