Santas causas, efeitos nem tanto
Em dois episódios, crianças
são feitas de santos para defender certas causas.
Mas há um problema...
São dois episódios distintos, ocorridos
cada um de um lado do mundo. Um teve lugar, ou está
tendo, na Flórida e em Cuba. O outro, na fronteira
entre Mianmar, a antiga Birmânia, e a Tailândia,
no sudeste da Ásia. O primeiro tem a ver com a disputa,
velha de quarenta anos, entre os Estados Unidos e Cuba,
bem como entre os grupos anticastristas exilados nos Estados
Unidos e os partidários de Fidel Castro. O segundo,
com grupos guerrilheiros que lutam contra o regime ditatorial
de Mianmar e, em busca de reforço para a causa, com
freqüência estendem suas ações
à vizinha Tailândia. O primeiro tem um pé,
pelo menos um, no mundo desenvolvido. Conecta-se com os
interesses e a política dos Estados Unidos. O outro
tem os dois pés mergulhados na lama do Terceiro Mundo.
Não se conecta senão com a miséria,
o desespero e a opressão. Os dois episódios
são diferentes em muito, mas possuem um ponto comum:
ambos envolvem crianças.
O caso cubano-americano é o do menino Elian. Salvo
de um naufrágio em que morreu sua mãe, ao
tentar a fuga de Cuba para os Estados Unidos, Elian, de
6 anos, foi acolhido por parentes na Flórida que
se recusam a devolvê-lo ao pai, que ficou em Cuba.
Descrito assim, em sua expressão mais simples, até
parece um caso de disputa de guarda. É mesmo, mas
não entre pais, ou avôs, ou tios. É
uma disputa de guarda entre duas comunidades, a anticastrista
da Flórida e a castrista. Por extensão, entre
Estados Unidos e Cuba. E, por extensão, entre duas
ideologias, a capitalista e o que resta da socialista.
O caso de Mianmar envolve dois meninos gêmeos que,
aos 12 anos, são apresentados como chefes guerrilheiros.
O mundo tomou conhecimento deles quando um comando invadiu
um hospital da Tailândia, apoderou-se de suas instalações,
manteve como reféns médicos, enfermeiros e
pacientes e fez um certo número de exigências.
Tudo acabou mal para os guerrilheiros, que foram todos mortos.
Nas poucas horas que durou a operação, no
entanto, o grupo teve a oportunidade de propagar sua causa
e a si próprio, merecendo a imediata atenção
da mídia ao dizer-se comandado pelas duas crianças.
Filmes com os dois meninos, que felizmente, para sua integridade,
não participaram da operação, permanecendo
nos refúgios do grupo em Mianmar, foram exibidos
pela televisão mundo afora.
Nos dois episódios, as crianças são
objetos de manipulação para fins políticos.
Mas há mais: num como no outro, ousou-se forçar
a passagem, perigosa entre todas, que separa a política
da religião. As crianças, não contentes
seus respectivos patronos com serem elas crianças,
tiveram sua preeminência reforçada pela condição
de entidades sagradas. No mais bizarro desdobramento do
caso do menino cubano deu-se um momento em que setores da
comunidade anticastrista começaram a tê-lo
como ungido pela divindade. Não é à
toa que teria sobrevivido dois dias e meio no mar, antes
de ser achado por dois pescadores americanos. Elian virou
objeto de devoção. Sua intercessão
realizaria desejos, tocá-lo quem sabe pudesse curar.
No caso dos meninos de Mianmar, a sacralização
não ocorre por iniciativa apenas de setores do grupo
a que pertencem é, digamos assim, "oficial". O
grupo de guerrilheiros, descritos pela imprensa internacional
como "cristãos fundamentalistas", chama-se Exército
de Deus, nada menos do que isso. E as crianças, cujos
nomes são Johnny e Luther Htoo ou seja, Joãozinho
e Lutero Htoo , são apresentadas como "crianças
de Deus". No filme exibido pelas TVs, os dois aparecem armados
e fumando. Enquanto o cubaninho Elian tem cara de anjo e
a graça do filho que se queria ter, os gêmeos
de Mianmar mais pareceriam, a uma sensibilidade convencional,
encarnações do maligno. Mas vá lá
há diferentes maneiras de representar as emanações
do divino. Elas variam conforme a cultura e o gosto de cada
um.
Há uma lógica que conduz uma causa política
a encarnar-se numa criança e, em seguida, saltar
à religião. A criança tem a vantagem
de conferir inocência e pureza à causa. Quando
já se tem a pureza e a inocência, o passo seguinte
é revesti-las de religião. Não é
a primeira vez, nem será a última, que tal
estratagema dá o ar de sua graça, na história
do mundo. Lembre-se de Joana d'Arc, que aos 16 anos assumiu
o comando do exército que salvaria a França
e a fé. O problema, o grande e grave problema, é
que não há nada pior, para a solução
de um problema político, do que revesti-lo de religião.
Tome-se o caso que opõe Cuba e Estados Unidos, castristas
e anticastristas. Na verdade, há muito que, de um
lado e de outro, o furor é de cruzados. A santificação
de Elian é apenas a conseqüência de um
combate que se trava com o fanatismo de defensores das verdades
últimas e da virtude suprema. Ora, quando uma causa
política se traveste de religião, acaba-se
trocando o melhor da política pelo pior da religião.
Perdem-se a conversa, a transigência e a negociação,
que são o melhor da política. Fica-se com
a intolerância, que é o pior da religião.