Edição 1 634 -2/2/2000

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Governo intervém no cinema nacional
A fusão Warner-EMI
Vivendo no Limite, de Martin Scorsese
Não é fácil ser escritor no mundo islâmico
Colunas
Claudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações
Veja recomenda

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


 

À sombra do islã

A literatura nos países muçulmanos continua
viva, apesar da opressão político-religiosa

Carlos Graieb

No começo do século XVIII, um livro incendiou a imaginação dos ocidentais. Ele se chamava As Mil e Uma Noites. Quem primeiro o traduziu do árabe foi o estudioso francês Antoine Galland, que retornou de uma viagem a Istambul trazendo na mala um exemplar do texto. Publicados entre 1707 e 1717, os doze volumes dessa tradução conquistaram desde cedo legiões de admiradores. O mundo árabe e adjacências se transformaram na terra das maravilhas. Hoje, passados três séculos, pouco resta dessa imagem. Gênios e odaliscas foram substituídos, no pensamento ocidental, por xeques do petróleo, mulheres de véu negro e fanáticos religiosos que aparecem na televisão. Curiosamente, no entanto, as histórias narradas por Sherazade continuaram sendo as únicas, de toda a literatura árabe ou muçulmana, conhecidas na Europa e nas Américas. Tudo se passa como se não houvesse escritores por lá. Mas eles existem. E vêm produzindo obras de grande valor, mesmo quando precisam desafiar a opressão política, a censura religiosa ou a pobreza.

Recentemente, alguns ficcionistas chegaram ao mercado brasileiro com o selo da editora Record. Do libanês Amin Maalouf temos Jardins de Luz, que fala sobre o fundador da religião maniqueísta. Já o marroquino Tahar Ben Jelloun, em Os Frutos da Dor, descreve a situação dos imigrantes islâmicos na França, escolhendo como narradora uma jovem que precisa enfrentar tanto o racismo dos europeus quanto as superstições de seu próprio povo. Por fim, o paquistanês Tariq Ali reconstitui de maneira empolgante, em O Livro de Saladino, a época das cruzadas sob o ponto de vista muçulmano. São três ótimos romances, diferentes entre si, que "desafiam os preconceitos do leitor ocidental" – para usar as palavras de Ali. Nenhum desses autores, porém, vive em seu país de origem. Os dois primeiros moram na França e publicam em francês, enquanto o último mora na Inglaterra e publica em inglês. Por causa disso, não representam à perfeição a atual cultura da região. É preciso ir às fontes.

Uma primeira surpresa, para quem começa a investigar o assunto, é descobrir que a literatura dessa parte do mundo vive num feliz estado de efervescência. Inaugurada na semana passada, a Feira do Livro do Cairo, no Egito, dá uma idéia da agitação. Um total de 79 países participa do evento e 25.000 títulos estão em exibição. "Nossa literatura não tem do que se envergonhar, seja em quantidade, seja em qualidade", afirma o contista egípcio Bahaa Taher (que traduziu O Alquimista, de Paulo Coelho, para o árabe). "Mesmo no romance, uma forma literária que só chegou por aqui há 100 anos, quase todos os países contam com grandes nomes. Azar do Ocidente, que ainda não os descobriu." A julgar pelos dois autores árabes de maior renome internacional, Taher tem mesmo razão. O egípcio Naguib Mahfouz, ganhador do Prêmio Nobel de 1988, é um genial retratista do Cairo. Já o saudita Abdelrahman Munif é responsável pela monumental trilogia Cidades de Sal, que fala sobre os dilemas de um país que se moderniza depois de descobrir petróleo.

"Sexo e álcool" – A falta de divulgação, entretanto, está longe de ser o maior problema desses escritores. Um levantamento realizado em 1999 pela PEN International, entidade que congrega literatos do mundo todo, mostra que setenta intelectuais foram mortos, encarcerados ou desapareceram nos últimos anos em países de maioria islâmica. Por certo, existem diferenças entre essas nações no que diz respeito à liberdade de expressão. No Marrocos, onde um regime democrático lançou raízes nos últimos dez anos, a censura veio ao chão. Em outro extremo acha-se o Irã, dominado pelo fundamentalismo. "Romances iranianos não podem ter cenas de sexo ou mencionar bebidas alcoólicas", diz a iraniana Azar Nafisi, professora de estudos culturais da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. "A repressão é tão intensa que os escritores se autocensuram, temendo represálias das autoridades." Azar conta que todos os meses recebe uns dez livros clandestinos de jovens compatriotas que não conseguem ser ouvidos em seu próprio país. "O assombroso é que eles são muçulmanos sinceros, que não desejam ofender sua religião." Por fim, há os casos intermediários. O próprio Egito, um grande centro de difusão cultural, não vive em regime de liberdade plena. Um governo autoritário controla a imprensa e as editoras. Como se não bastasse, grupos fundamentalistas perseguem os escritores. Até Naguib Mahfouz foi vítima de um atentado. Em 1994, um fanático o esfaqueou no pescoço, por achar que seus livros ofendem o islã.

Por que, então, muitos outros autores não seguem os passos daqueles que se mudaram para o Ocidente? Por que Mahfouz, apesar das ameaças e da fama que desfruta, continua vivendo no mesmo bairro onde sempre morou? "Ao contrário do que se pensa, o fundamentalismo e o autoritarismo não são traços imanentes de nossa cultura", acredita o filósofo Mohammed Abed al-Jabri. "Ambos são produto de uma distorção." Considerado o mais importante pensador marroquino da atualidade, Al-Jabri é autor de um best-seller no Oriente, Introdução à Crítica da Razão Árabe, lançado no Brasil pela editora Unesp. Seu principal objetivo é reviver o que chama de vertentes racionalistas da cultura árabe. "O pensamento árabe contemporâneo pode recuperar e reutilizar os ensinamentos racionais e liberais de sua própria tradição – a luta contra o feudalismo e o misticismo, a vontade de instaurar uma Cidade da razão e da justiça", escreve ele. Esse projeto está inscrito nas obras que acabam de sair no Brasil. Vale a pena conferir.