À sombra do islã
A literatura nos países muçulmanos
continua
viva, apesar da opressão político-religiosa
Carlos Graieb
No começo do século XVIII, um
livro incendiou a imaginação dos ocidentais.
Ele se chamava As Mil e Uma Noites. Quem primeiro
o traduziu do árabe foi o estudioso francês
Antoine Galland, que retornou de uma viagem a Istambul trazendo
na mala um exemplar do texto. Publicados entre 1707 e 1717,
os doze volumes dessa tradução conquistaram
desde cedo legiões de admiradores. O mundo árabe
e adjacências se transformaram na terra das maravilhas.
Hoje, passados três séculos, pouco resta dessa
imagem. Gênios e odaliscas foram substituídos,
no pensamento ocidental, por xeques do petróleo,
mulheres de véu negro e fanáticos religiosos
que aparecem na televisão. Curiosamente, no entanto,
as histórias narradas por Sherazade continuaram sendo
as únicas, de toda a literatura árabe ou muçulmana,
conhecidas na Europa e nas Américas. Tudo se passa
como se não houvesse escritores por lá. Mas
eles existem. E vêm produzindo obras de grande valor,
mesmo quando precisam desafiar a opressão política,
a censura religiosa ou a pobreza.
Recentemente, alguns ficcionistas chegaram ao mercado
brasileiro com o selo da editora Record. Do libanês
Amin Maalouf temos Jardins de Luz, que fala sobre
o fundador da religião maniqueísta. Já
o marroquino Tahar Ben Jelloun, em Os Frutos da Dor,
descreve a situação dos imigrantes islâmicos
na França, escolhendo como narradora uma jovem que
precisa enfrentar tanto o racismo dos europeus quanto as
superstições de seu próprio povo. Por
fim, o paquistanês Tariq Ali reconstitui de maneira
empolgante, em O Livro de Saladino, a época
das cruzadas sob o ponto de vista muçulmano. São
três ótimos romances, diferentes entre si,
que "desafiam os preconceitos do leitor ocidental" para
usar as palavras de Ali. Nenhum desses autores, porém,
vive em seu país de origem. Os dois primeiros moram
na França e publicam em francês, enquanto o
último mora na Inglaterra e publica em inglês.
Por causa disso, não representam à perfeição
a atual cultura da região. É preciso ir às
fontes.
Uma primeira surpresa, para quem começa a investigar
o assunto, é descobrir que a literatura dessa parte
do mundo vive num feliz estado de efervescência. Inaugurada
na semana passada, a Feira do Livro do Cairo, no Egito,
dá uma idéia da agitação. Um
total de 79 países participa do evento e 25.000
títulos estão em exibição. "Nossa
literatura não tem do que se envergonhar, seja em
quantidade, seja em qualidade", afirma o contista egípcio
Bahaa Taher (que traduziu O Alquimista, de Paulo
Coelho, para o árabe). "Mesmo no romance, uma forma
literária que só chegou por aqui há
100 anos, quase todos os países contam com grandes
nomes. Azar do Ocidente, que ainda não os descobriu."
A julgar pelos dois autores árabes de maior renome
internacional, Taher tem mesmo razão. O egípcio
Naguib Mahfouz, ganhador do Prêmio Nobel de 1988,
é um genial retratista do Cairo. Já o saudita
Abdelrahman Munif é responsável pela monumental
trilogia Cidades de Sal, que fala sobre os dilemas
de um país que se moderniza depois de descobrir petróleo.
"Sexo e álcool" A falta de divulgação,
entretanto, está longe de ser o maior problema desses
escritores. Um levantamento realizado em 1999 pela PEN International,
entidade que congrega literatos do mundo todo, mostra que
setenta intelectuais foram mortos, encarcerados ou desapareceram
nos últimos anos em países de maioria islâmica.
Por certo, existem diferenças entre essas nações
no que diz respeito à liberdade de expressão.
No Marrocos, onde um regime democrático lançou
raízes nos últimos dez anos, a censura veio
ao chão. Em outro extremo acha-se o Irã, dominado
pelo fundamentalismo. "Romances iranianos não podem
ter cenas de sexo ou mencionar bebidas alcoólicas",
diz a iraniana Azar Nafisi, professora de estudos culturais
da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos. "A repressão
é tão intensa que os escritores se autocensuram,
temendo represálias das autoridades." Azar conta
que todos os meses recebe uns dez livros clandestinos de
jovens compatriotas que não conseguem ser ouvidos
em seu próprio país. "O assombroso é
que eles são muçulmanos sinceros, que não
desejam ofender sua religião." Por fim, há
os casos intermediários. O próprio Egito,
um grande centro de difusão cultural, não
vive em regime de liberdade plena. Um governo autoritário
controla a imprensa e as editoras. Como se não bastasse,
grupos fundamentalistas perseguem os escritores. Até
Naguib Mahfouz foi vítima de um atentado. Em 1994,
um fanático o esfaqueou no pescoço, por achar
que seus livros ofendem o islã.
Por que, então, muitos outros autores não
seguem os passos daqueles que se mudaram para o Ocidente?
Por que Mahfouz, apesar das ameaças e da fama que
desfruta, continua vivendo no mesmo bairro onde sempre morou?
"Ao contrário do que se pensa, o fundamentalismo
e o autoritarismo não são traços imanentes
de nossa cultura", acredita o filósofo Mohammed Abed
al-Jabri. "Ambos são produto de uma distorção."
Considerado o mais importante pensador marroquino da atualidade,
Al-Jabri é autor de um best-seller no Oriente, Introdução
à Crítica da Razão Árabe,
lançado no Brasil pela editora Unesp. Seu principal
objetivo é reviver o que chama de vertentes racionalistas
da cultura árabe. "O pensamento árabe contemporâneo
pode recuperar e reutilizar os ensinamentos racionais e
liberais de sua própria tradição
a luta contra o feudalismo e o misticismo, a vontade de
instaurar uma Cidade da razão e da justiça",
escreve ele. Esse projeto está inscrito nas obras
que acabam de sair no Brasil. Vale a pena conferir.