Edição 1 634 -2/2/2000

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Ele continua bom

Mesmo quando não cria obras-primas, como
Touro Indomável, Scorsese faz grandes filmes

Isabela Boscov

Segundo um ditado muito popular em Hollywood, a pior coisa que pode acontecer a um ator é se tornar um astro. Pela mesma lógica, a pior sina para um diretor é ter seu talento posto nas alturas. A vítima mais óbvia dessa contradição é Francis Ford Coppola, que a cada nova fita tem de amargar comparações com o seu jovem eu, aquele que dirigiu O Poderoso Chefão. Ou seja, está condenado a ser um cineasta inferior a si mesmo. É a maldição da genialidade. Nos últimos anos, um outro peso pesado foi atingido por ela: Martin Scorsese. Com Taxi Driver, de 1976, Scorsese formulou o vocabulário e a gramática do que viria a se tornar um gênero do cinema – o drama urbano. Foi macaqueado à exaustão por gente menos talentosa. Agora vive tendo sua estatura medida pela do Scorsese do passado, o de Taxi Driver e Touro Indomável. Invariavelmente, sai perdendo. É criticado quando foge do seu universo habitual e também quando volta a ele, como em Vivendo no Limite (Bringing out the Dead, Estados Unidos, 1999), que estréia nesta sexta-feira em circuito nacional.

Vivendo no Limite deixa claro que isso é uma injustiça. Adaptado de um romance inspirado em fatos verídicos, o filme acompanha três noites na vida (se é que se pode chamá-la assim) de um paramédico – aquele profissional estressadíssimo que, a bordo de uma ambulância, presta os primeiros socorros aos doentes e feridos e os despeja no hospital. O território do protagonista Frank (interpretado por Nicolas Cage) é a região de Nova York apropriadamente apelidada de Hell's Kitchen, ou "cozinha do inferno". É a esse horror repleto de drogados, baleados e esfaqueados que Frank desce todas as noites. Sua repulsa só rivaliza com seu desalento. Há um ano ele não consegue salvar ninguém da morte. É essa chance, portanto, que ele persegue obstinadamente – e não a oportunidade de lavar a sujeira com sangue, como fazia o protagonista de Taxi Driver.

Ritmo febril – Essa atitude compassiva é uma marca do Scorsese da última década, que cada vez mais se condói dos desvalidos que povoam seus enredos. O que não mudou é seu domínio extraordinário da câmara. Filmado com toda espécie de recurso visual, Vivendo no Limite tem um ritmo tão febril, e tão angustiante, quanto o das incursões noturnas do paramédico Frank. Não há diálogo que não tenha um propósito nem personagem que não tenha uma função. E, como de costume, o diretor arranca ótimas atuações de seu elenco. Até da geralmente insossa Patricia Arquette e do desconhecido Cliff Curtis, que faz um traficante de fala mansa. É ele quem, trespassado pelas lanças de uma grade no alto de um edifício, contempla o horizonte noturno de Nova York e se admira: "Esta cidade não é mesmo linda?" Com Scorsese no comando, até do inferno se pode ver o céu.