Ele continua bom
Mesmo quando não cria obras-primas,
como
Touro Indomável, Scorsese faz grandes filmes
Isabela Boscov
Segundo um ditado muito popular em Hollywood, a pior coisa
que pode acontecer a um ator é se tornar um astro.
Pela mesma lógica, a pior sina para um diretor é
ter seu talento posto nas alturas. A vítima mais
óbvia dessa contradição é Francis
Ford Coppola, que a cada nova fita tem de amargar comparações
com o seu jovem eu, aquele que dirigiu O Poderoso Chefão.
Ou seja, está condenado a ser um cineasta inferior
a si mesmo. É a maldição da genialidade.
Nos últimos anos, um outro peso pesado foi atingido
por ela: Martin Scorsese. Com Taxi Driver, de 1976,
Scorsese formulou o vocabulário e a gramática
do que viria a se tornar um gênero do cinema o
drama urbano. Foi macaqueado à exaustão por
gente menos talentosa. Agora vive tendo sua estatura medida
pela do Scorsese do passado, o de Taxi Driver e Touro
Indomável. Invariavelmente, sai perdendo. É
criticado quando foge do seu universo habitual e também
quando volta a ele, como em Vivendo no Limite (Bringing
out the Dead, Estados Unidos, 1999), que estréia
nesta sexta-feira em circuito nacional.
Vivendo no Limite deixa claro que isso é
uma injustiça. Adaptado de um romance inspirado em
fatos verídicos, o filme acompanha três noites
na vida (se é que se pode chamá-la assim)
de um paramédico aquele profissional estressadíssimo
que, a bordo de uma ambulância, presta os primeiros
socorros aos doentes e feridos e os despeja no hospital.
O território do protagonista Frank (interpretado
por Nicolas Cage) é a região de Nova York
apropriadamente apelidada de Hell's Kitchen, ou "cozinha
do inferno". É a esse horror repleto de drogados,
baleados e esfaqueados que Frank desce todas as noites.
Sua repulsa só rivaliza com seu desalento. Há
um ano ele não consegue salvar ninguém da
morte. É essa chance, portanto, que ele persegue
obstinadamente e não a oportunidade de lavar a
sujeira com sangue, como fazia o protagonista de Taxi
Driver.
Ritmo febril Essa atitude compassiva é
uma marca do Scorsese da última década, que
cada vez mais se condói dos desvalidos que povoam
seus enredos. O que não mudou é seu domínio
extraordinário da câmara. Filmado com toda
espécie de recurso visual, Vivendo no Limite
tem um ritmo tão febril, e tão angustiante,
quanto o das incursões noturnas do paramédico
Frank. Não há diálogo que não
tenha um propósito nem personagem que não
tenha uma função. E, como de costume, o diretor
arranca ótimas atuações de seu elenco.
Até da geralmente insossa Patricia Arquette e do
desconhecido Cliff Curtis, que faz um traficante de fala
mansa. É ele quem, trespassado pelas lanças
de uma grade no alto de um edifício, contempla o
horizonte noturno de Nova York e se admira: "Esta cidade
não é mesmo linda?" Com Scorsese no comando,
até do inferno se pode ver o céu.