Edição 1 634 -2/2/2000

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O futuro chegou

A fusão das gravadoras Warner e EMI
vai mudar a forma de ouvir e comprar música

 

O mundo do disco estremeceu com o anúncio de um dos maiores negócios já realizados na área: a fusão da gravadora americana Warner com a inglesa EMI. A nova companhia nasce como a segunda do mercado fonográfico. À frente dela está apenas a Universal, controlada pelo grupo canadense Seagram, que há um ano comprou a holandesa PolyGram. Batizada de Warner EMI Music, a nova empresa reunirá sob o mesmo teto 2.500 artistas, entre eles alguns dos mais populares do século, como os Beatles, os Rolling Stones, Madonna e Frank Sinatra. Ela irá deter 20% do mercado internacional de discos, um negócio que hoje gira em torno de 38 bilhões de dólares anuais. Embora figurassem entre as grandes gravadoras do planeta, tanto a Warner como a EMI vinham apresentando problemas de saúde. A primeira viu sua fatia de mercado cair de 20% para 14% em três anos. A segunda acumula uma dívida de 1,5 bilhão de dólares. Com a união, os executivos das duas empresas esperam ganhar novo fôlego e chegar ao primeiro lugar no ranking do disco. "Se existe casamento perfeito, ele acaba de ser celebrado", comemorou Richard Parsons, um dos diretores da AOL Time Warner, empresa-mãe do selo americano, numa entrevista coletiva à imprensa.

Há apenas três semanas, a Time Warner, maior conglomerado de informação e entretenimento do planeta, foi vendida à America Online, o mais popular provedor de internet dos Estados Unidos. A fusão entre as duas empresas faz com que a Warner EMI Music já surja com uma estrada aberta para o futuro das comunicações. Para o ouvinte comum, a gravadora recém-nascida significa bem mais do que um logotipo estampado nos CDs. Ela dará início a uma revolução na maneira de comprar e ouvir música. Entre os planos estratégicos do novo selo está o de consagrar a venda de canções pela internet. Em lugar de comprar um CD na loja ou encomendá-lo pelo comércio virtual, o ouvinte faz o download de seu conteúdo diretamente em um computador. A partir daí, pode gravá-lo em pequenos aparelhos de reprodução do tamanho de um walkman. Se preferir, pode ainda transferir as canções do computador para CDs virgens, fabricando em casa sua própria discoteca. Antigamente, captar as canções de um CD pela rede levava dez horas e o som deixava muito a desejar. Com a popularização do padrão MP3, esse tempo diminuiu para uma hora e o som resultante é idêntico ao de um CD convencional. Hoje, com cabos e modems de última geração, já se pode capturar um CD na rede em dez minutos.

 
Drausio Tuzzolo

O aparelho Rio: para ouvir canções captadas na internet

O download de músicas via internet já é um procedimento comum, mas apenas artistas desconhecidos colocam seu repertório nos sites especializados, em busca de promoção. Entre as grandes gravadoras, até hoje, o termo MP3 provoca calafrios. Ainda não se encontrou uma maneira de comercializar música na rede que evite a pirataria. Um usuário, ao fazer o download de um disco, mesmo pagando por ele por meio de cartão de crédito, pode depois enviá-lo para vários outros computadores pela própria internet. Nenhuma dessas cópias, naturalmente, gera lucro para as gravadoras nem paga direitos autorais aos compositores e intérpretes. A pirataria musical já se consagrou principalmente entre o público jovem, grande consumidor de música e mais propenso a adotar novidades. Uma pesquisa recente feita pela Associação da Indústria Fonográfica Americana mostra que, em 1989, o público entre 15 e 29 anos representava 58% dos consumidores de discos nos Estados Unidos. Hoje, essa cifra caiu para 40%. Para a entidade, a queda se deve ao uso do MP3. Até hoje, a política das grandes gravadoras com relação ao fenômeno era de franca hostilidade. Há pouco mais de um ano, quando a indústria americana de eletrônicos Diamond lançou o Rio, o aparelhinho capaz de armazenar e reproduzir músicas captadas da internet, elas entraram na Justiça para tirá-lo de circulação. Não conseguiram. O Rio e seus equivalentes são comercializados por cerca de 200 dólares.

 

O tamanho de cada uma

A fusão entre Warner e EMI cria a segunda maior gravadora do mundo, com 2 500 artistas contratados e 8 bilhões de dólares de faturamento

WARNER MUSIC

Faturamento anual (em dólares): 3,9 bilhões*
Principais selos: Warner Bros., Atlantic, Elektra,Maverick e Sire
Número de funcionários: 12 000
Maiores artistas: Madonna, Eric Clapton, Red Hot Chili Peppers, Alanis Morissette, REM
Artistas brasileiros: Gilberto Gil, Titãs, Raimundos

 

EMI

Faturamento anual (em dólares): 4,0 bilhões*
Principais selos: Virgin, Capitol, Priority e Blue Note
Número de funcionários: 10 500
Maiores artistas: The Beatles, The Rolling Stones, Spice Girls, Beastie Boys, David Bowie, Frank Sinatra
Artistas brasileiros: Paralamas do Sucesso, Marisa Monte, Carlinhos Brown

* As cifras se referem ao período de 30/9/1998 a 30/9/1999

 

Anúncios em CDs – Agora, a Warner EMI Music surge com um discurso completamente diferente. Convencida de que a distribuição de música pela internet já mudou o perfil do mercado, a gravadora quer tirar o melhor proveito dela. Para isso, conta com o trunfo da America Online. A Warner EMI espera que o catálogo musical da gravadora e os 22 milhões de assinantes da AOL formem as bases de um negócio muito lucrativo. "Embora a internet vá diminuir o controle das companhias sobre o mercado musical, ela também poderá tornar a música mais barata e melhorar nossas margens de ganhos", discursou Richard Parsons no lançamento do selo.

Num futuro próximo, a Warner EMI Music pretende criar uma maneira de impedir que os CDs captados por download possam ser reproduzidos infinitamente na rede. A saída pode ser um dispositivo eletrônico acoplado aos sites ou aos computadores. A gravadora também acena com outras idéias para o novo mercado que se desenha. Uma delas é inserir anúncios nos CDs oferecidos via internet. Outra possibilidade é instituir o sistema pay-per-use: como ocorre em alguns filmes de TVs a cabo, o ouvinte pagaria cada audição do disco na rede. Para os analistas do setor fonográfico americano, a iniciativa da Warner EMI de aderir ao MP3 em lugar de combatê-lo será suficiente para que outras gravadoras também se reposicionem. Calcula-se que, já em 2004, 10% da música comercializada nos Estados Unidos use a internet como suporte. Previsões como essas já provocaram reações dos grandes varejistas de CD. Na semana passada, a Virgin Megastores ameaçou retirar-se do negócio caso as gravadoras acelerem seus investimentos na venda de música pela internet. "Se o nosso setor perder 10% das vendas atuais, as grandes cadeias terão de fechar as portas", declarou Simon Wright, diretor operacional da Virgin, ao jornal de negócios Financial Times.

A fusão entre a Warner e a EMI, por fim, deverá beneficiar os artistas de ambos os selos. A Warner tinha uma maioria de contratados americanos e suas vendas eram mais fortes nos Estados Unidos. As atrações de maior sucesso da EMI eram nomes europeus e seus principais mercados estavam na Europa e na Ásia – principalmente no Japão. Agora, será mais fácil promover os artistas entre os continentes, consolidando a indústria do disco como um dos setores mais globalizados da economia mundial. Na verdade, muito antes de o próprio mercado financeiro se tornar planetário, a música já cruzava fronteiras com facilidade, e as gravadoras desenvolviam estratégias para "estourar" artistas mundialmente (veja quadro abaixo). "A música tem uma linguagem universal que não precisa ser traduzida, e por isso ela se globalizou tão facilmente", disse na semana passada a VEJA o vice-presidente de mídia da Warner EMI, Will Tanous. Em breve, com a ajuda dos CDs comercializados pela internet, a música viajará pelos quatro cantos da Terra com velocidade ainda maior.

 

Como globalizar um astro

Com a globalização, as grandes gravadoras apostam em artistas capazes de ultrapassar as fronteiras de seus países. Para que a exportação seja bem-sucedida, elas usam um arsenal de recursos promocionais. Três exemplos recentes de nomes que estouraram no mercado brasileiro ilustram essa estratégia. A cantora Alanis Morissette já havia vendido milhões de cópias de seu CD de estréia nos Estados Unidos e na Europa, mas não tinha jeito de emplacá-la no Brasil. A Warner despachou um de seus executivos americanos para o Rio de Janeiro com a missão de ensinar aos colegas daqui como vender Alanis para o público jovem. A ordem era construir em torno dela a imagem de garota durona com os namorados. Deu certo. Já o cantor Ricky Martin foi obrigado a regravar um trecho de seu sucesso mundial Maria para adequá-lo à campanha de lançamento do ídolo no Brasil. Ricky incluiu na letra a expressão "salsa e merengue" para que a TV Globo usasse a música na abertura da novela homônima. No caso das Spice Girls, o recurso usado para conquistar o público foi uma montanha de dinheiro. Inconformada com os míseros 500 discos vendidos pelas meninas no Brasil, a Virgin liberou uma verba de 1 milhão de dólares para alardeá-las nas rádios e em anúncios de TV. Além disso, a gravadora inventou um cover das Spice Girls, para que a publicidade em torno das cantoras inglesas crescesse ainda mais. Em poucos meses, a vendagem do grupo no país bateu na casa de 1 milhão de cópias.