O futuro chegou
A fusão das gravadoras Warner e
EMI
vai mudar a forma de ouvir e comprar música
O
mundo do disco estremeceu com o anúncio de um dos
maiores negócios já realizados na área:
a fusão da gravadora americana Warner com a inglesa
EMI. A nova companhia nasce como a segunda do mercado fonográfico.
À frente dela está apenas a Universal, controlada
pelo grupo canadense Seagram, que há um ano comprou
a holandesa PolyGram. Batizada de Warner EMI Music, a nova
empresa reunirá sob o mesmo teto 2.500
artistas, entre eles alguns dos mais populares do século,
como os Beatles, os Rolling Stones, Madonna e Frank Sinatra.
Ela irá deter 20% do mercado internacional de discos,
um negócio que hoje gira em torno de 38 bilhões
de dólares anuais. Embora figurassem entre as grandes
gravadoras do planeta, tanto a Warner como a EMI vinham
apresentando problemas de saúde. A primeira viu sua
fatia de mercado cair de 20% para 14% em três anos.
A segunda acumula uma dívida de 1,5 bilhão
de dólares. Com a união, os executivos das
duas empresas esperam ganhar novo fôlego e chegar
ao primeiro lugar no ranking do disco. "Se existe casamento
perfeito, ele acaba de ser celebrado", comemorou Richard
Parsons, um dos diretores da AOL Time Warner, empresa-mãe
do selo americano, numa entrevista coletiva à imprensa.
Há apenas três semanas, a Time Warner, maior
conglomerado de informação e entretenimento
do planeta, foi vendida à America Online, o mais
popular provedor de internet dos Estados Unidos. A fusão
entre as duas empresas faz com que a Warner EMI Music já
surja com uma estrada aberta para o futuro das comunicações.
Para o ouvinte comum, a gravadora recém-nascida significa
bem mais do que um logotipo estampado nos CDs. Ela dará
início a uma revolução na maneira de
comprar e ouvir música. Entre os planos estratégicos
do novo selo está o de consagrar a venda de canções
pela internet. Em lugar de comprar um CD na loja ou encomendá-lo
pelo comércio virtual, o ouvinte faz o download de
seu conteúdo diretamente em um computador. A partir
daí, pode gravá-lo em pequenos aparelhos de
reprodução do tamanho de um walkman. Se preferir,
pode ainda transferir as canções do computador
para CDs virgens, fabricando em casa sua própria
discoteca. Antigamente, captar as canções
de um CD pela rede levava dez horas e o som deixava muito
a desejar. Com a popularização do padrão
MP3, esse tempo diminuiu para uma hora e o som resultante
é idêntico ao de um CD convencional. Hoje,
com cabos e modems de última geração,
já se pode capturar um CD na rede em dez minutos.
Drausio Tuzzolo
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O aparelho Rio: para ouvir canções
captadas na internet
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O download de músicas via internet já é
um procedimento comum, mas apenas artistas desconhecidos
colocam seu repertório nos sites especializados,
em busca de promoção. Entre as grandes gravadoras,
até hoje, o termo MP3 provoca calafrios. Ainda não
se encontrou uma maneira de comercializar música
na rede que evite a pirataria. Um usuário, ao fazer
o download de um disco, mesmo pagando por ele por meio de
cartão de crédito, pode depois enviá-lo
para vários outros computadores pela própria
internet. Nenhuma dessas cópias, naturalmente, gera
lucro para as gravadoras nem paga direitos autorais aos
compositores e intérpretes. A pirataria musical já
se consagrou principalmente entre o público jovem,
grande consumidor de música e mais propenso a adotar
novidades. Uma pesquisa recente feita pela Associação
da Indústria Fonográfica Americana mostra
que, em 1989, o público entre 15 e 29 anos representava
58% dos consumidores de discos nos Estados Unidos. Hoje,
essa cifra caiu para 40%. Para a entidade, a queda se deve
ao uso do MP3. Até hoje, a política das grandes
gravadoras com relação ao fenômeno era
de franca hostilidade. Há pouco mais de um ano, quando
a indústria americana de eletrônicos Diamond
lançou o Rio, o aparelhinho capaz de armazenar e
reproduzir músicas captadas da internet, elas entraram
na Justiça para tirá-lo de circulação.
Não conseguiram. O Rio e seus equivalentes são
comercializados por cerca de 200 dólares.
O tamanho de cada uma
A fusão entre Warner e EMI cria a segunda
maior gravadora do mundo, com 2 500 artistas contratados
e 8 bilhões de dólares de faturamento
WARNER
MUSIC
Faturamento
anual (em dólares): 3,9 bilhões*
Principais selos: Warner Bros., Atlantic, Elektra,Maverick
e Sire
Número de funcionários: 12 000
Maiores artistas: Madonna, Eric Clapton, Red
Hot Chili Peppers, Alanis Morissette, REM
Artistas brasileiros: Gilberto Gil, Titãs,
Raimundos
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EMI
Faturamento
anual (em dólares): 4,0 bilhões*
Principais selos: Virgin, Capitol, Priority
e Blue Note
Número de funcionários: 10 500
Maiores artistas: The Beatles, The Rolling
Stones, Spice Girls, Beastie Boys, David Bowie, Frank
Sinatra
Artistas brasileiros: Paralamas do Sucesso,
Marisa Monte, Carlinhos Brown
* As cifras se referem ao período
de 30/9/1998 a 30/9/1999
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Anúncios em CDs Agora, a Warner EMI
Music surge com um discurso completamente diferente. Convencida
de que a distribuição de música pela
internet já mudou o perfil do mercado, a gravadora
quer tirar o melhor proveito dela. Para isso, conta com
o trunfo da America Online. A Warner EMI espera que o catálogo
musical da gravadora e os 22 milhões de assinantes
da AOL formem as bases de um negócio muito lucrativo.
"Embora a internet vá diminuir o controle das companhias
sobre o mercado musical, ela também poderá
tornar a música mais barata e melhorar nossas margens
de ganhos", discursou Richard Parsons no lançamento
do selo.
Num futuro próximo, a Warner EMI Music pretende
criar uma maneira de impedir que os CDs captados por download
possam ser reproduzidos infinitamente na rede. A saída
pode ser um dispositivo eletrônico acoplado aos sites
ou aos computadores. A gravadora também acena com
outras idéias para o novo mercado que se desenha.
Uma delas é inserir anúncios nos CDs oferecidos
via internet. Outra possibilidade é instituir o sistema
pay-per-use: como ocorre em alguns filmes de TVs a cabo,
o ouvinte pagaria cada audição do disco na
rede. Para os analistas do setor fonográfico americano,
a iniciativa da Warner EMI de aderir ao MP3 em lugar de
combatê-lo será suficiente para que outras
gravadoras também se reposicionem. Calcula-se que,
já em 2004, 10% da música comercializada nos
Estados Unidos use a internet como suporte. Previsões
como essas já provocaram reações dos
grandes varejistas de CD. Na semana passada, a Virgin Megastores
ameaçou retirar-se do negócio caso as gravadoras
acelerem seus investimentos na venda de música pela
internet. "Se o nosso setor perder 10% das vendas atuais,
as grandes cadeias terão de fechar as portas", declarou
Simon Wright, diretor operacional da Virgin, ao jornal de
negócios Financial Times.
A fusão entre a Warner e a EMI, por fim, deverá
beneficiar os artistas de ambos os selos. A Warner tinha
uma maioria de contratados americanos e suas vendas eram
mais fortes nos Estados Unidos. As atrações
de maior sucesso da EMI eram nomes europeus e seus principais
mercados estavam na Europa e na Ásia principalmente
no Japão. Agora, será mais fácil promover
os artistas entre os continentes, consolidando a indústria
do disco como um dos setores mais globalizados da economia
mundial. Na verdade, muito antes de o próprio mercado
financeiro se tornar planetário, a música
já cruzava fronteiras com facilidade, e as gravadoras
desenvolviam estratégias para "estourar" artistas
mundialmente (veja quadro abaixo). "A música
tem uma linguagem universal que não precisa ser traduzida,
e por isso ela se globalizou tão facilmente", disse
na semana passada a VEJA o vice-presidente de mídia
da Warner EMI, Will Tanous. Em breve, com a ajuda dos CDs
comercializados pela internet, a música viajará
pelos quatro cantos da Terra com velocidade ainda maior.
Como globalizar um astro
Com a globalização, as
grandes gravadoras apostam em artistas capazes de
ultrapassar as fronteiras de seus países. Para
que a exportação seja bem-sucedida,
elas usam um arsenal de recursos promocionais. Três
exemplos recentes de nomes que estouraram no mercado
brasileiro ilustram essa estratégia. A cantora
Alanis Morissette já havia vendido milhões
de cópias de seu CD de estréia nos Estados
Unidos e na Europa, mas não tinha jeito de
emplacá-la no Brasil. A Warner despachou um
de seus executivos americanos para o Rio de Janeiro
com a missão de ensinar aos colegas daqui como
vender Alanis para o público jovem. A ordem
era construir em torno dela a imagem de garota durona
com os namorados. Deu certo. Já o cantor Ricky
Martin foi obrigado a regravar um trecho de seu sucesso
mundial Maria para adequá-lo à
campanha de lançamento do ídolo no Brasil.
Ricky incluiu na letra a expressão "salsa e
merengue" para que a TV Globo usasse a música
na abertura da novela homônima. No caso das
Spice Girls, o recurso usado para conquistar o público
foi uma montanha de dinheiro. Inconformada com os
míseros 500 discos vendidos pelas meninas no
Brasil, a Virgin liberou uma verba de 1 milhão
de dólares para alardeá-las nas rádios
e em anúncios de TV. Além disso, a gravadora
inventou um cover das Spice Girls, para que a publicidade
em torno das cantoras inglesas crescesse ainda mais.
Em poucos meses, a vendagem do grupo no país
bateu na casa de 1 milhão de cópias.
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