Onde está o dinheiro?
Governo intervém na área
cinematográfica
para tentar responder à pergunta acima
Celso Masson
O cinema brasileiro não é ruim só
nas telas. Seus bastidores também são lamentáveis.
Na semana passada, estouraram nos jornais dois casos emblemáticos
de como o dinheiro que o governo vem gastando para impulsionar
a produção nacional é mal-empregado.
O primeiro é o da cineasta que aprontou o filme,
mas não consegue prestar contas. O segundo, do diretor
que aparentemente justifica seus gastos, mas não
finaliza o filme. Norma Bengell é a protagonista
do thriller do dinheiro desaparecido. Na prestação
de contas de seu O Guarani, a auditoria da Secretaria
de Controle Interno do Ministério da Cultura encontrou
duas notas frias, emitidas por empresas fantasmas, que somam
1 358 640 reais. Há ainda gastos da ordem de 273.000
reais não justificados. Isso significa que cerca
de 1,5 milhão dos 3,3 milhões de reais que
ela usou para terminar O Guarani foi parar num buraco
negro. A contabilidade de Norma Bengell tramita, atualmente,
no Tribunal de Contas da União. Dependendo do parecer
emitido lá, a aventura da diretora pode acabar em
pizza ou ter o desfecho de um filme policial. Na melhor
das hipóteses, ela paga uma multa, já que
até agora não há prova de que tenha
usado o dinheiro em proveito próprio. Essa multa
pode chegar a duas vezes o valor total recebido pela diretora.
Na pior, o TCU, em conjunto com o Ministério Público,
pode processar Norma Bengell por falsidade ideológica,
por causa das notas fiscais frias. Se ficar provado que
ela usou o dinheiro com outra finalidade, a diretora ainda
pode responder pelos crimes de estelionato e apropriação
indébita. A confusão fez com que Norma se
recolhesse ao silêncio. Está mais inaudível
do que as falas de seu filme.
O enredo protagonizado por Guilherme Fontes é mais
de novela do que de filme. Ele deveria ter entregue seu
Chatô O Rei do Brasil, baseado no livro
de Fernando Morais, no dia 23 de dezembro. Na semana passada,
foi a Brasília para pedir uma dilatação
de prazo e um incremento no orçamento da produção.
As duas solicitações foram negadas. Chatô
estava orçado em 11,3 milhões de reais. Desse
montante, Fontes conseguiu captar cerca de 9 milhões.
Ele queria que o orçamento aumentasse para 13,5 milhões.
A Secretaria do Audiovisual deu um ultimato ao diretor.
Ele deve entregar o filme imediatamente e apresentar a prestação
de contas dentro de noventa dias. "Isso é um absurdo,
eu vou falar com o ministro Francisco Weffort na semana
que vem e ele, que é um homem de bom senso, irá
atender ao meu pedido", acredita Fontes. O diretor está
nervoso porque, embora diga ter filmado 95% das cenas previstas
no roteiro, falta uma das seqüências principais.
Ele tem ainda outro problema. De acordo com reportagem publicada
no Jornal do Brasil, o diretor estaria inadimplente
com a Financiadora de Estudos e Projetos, Finep, vinculada
ao Ministério da Ciência e Tecnologia. Fontes
foi financiado por essa entidade na aquisição
de equipamentos para sua produtora, a ZB Facilities. A dívida,
segundo a Finep, seria de 200.000
reais. O diretor nega que esteja inadimplente. "Devo, não
nego, mas já renegociei com eles o pagamento, em
prestações mais suaves."
Frutas podres Os imbróglios de Norma
Bengell e Guilherme Fontes vêm confirmar uma suspeita
que o governo federal já tinha há bastante
tempo: a de que a Secretaria do Audiovisual, vinculada ao
Ministério da Cultura, não vinha gerindo de
forma competente os recursos públicos ali aplicados.
Foi para colocar ordem no barraco que José Álvaro
Moisés se viu nomeado para a secretaria em janeiro
de 1999. Ao assumir, ele já contava com uma legislação
mais austera do que os secretários anteriores, no
que se refere ao controle dos recursos para a área
cinematográfica. A atuação de Moisés,
no entanto, vem sendo considerada fraca dentro do próprio
governo (veja quadro). No que
se refere a Norma Bengell, ele protelou ao máximo
que se tomassem providências a respeito das contas
da cineasta, que desde 1997 já se mostravam irregulares.
Também foi leniente na apuração da
denúncia, feita por VEJA em junho do ano passado,
de que cineastas estavam usando notas frias para justificar
seus gastos ao Ministério da Cultura.
A falta de pulso na fiscalização do dinheiro
investido em cinema, por meio de renúncia fiscal,
é tanta que o presidente Fernando Henrique Cardoso
fez uma "intervenção branca" na Secretaria
do Audiovisual. FHC colocou nas mãos do secretário
de Comunicação, Andrea Matarazzo, a tarefa
de controlar as somas que chegam aos cineastas via Lei Rouanet
e Lei do Audiovisual. Há denúncias de que
empresas estatais estariam superfaturando quantias destinadas
à produção de filmes. Os cineastas
estão em polvorosa com a nova determinação.
"É preciso jogar fora as maçãs podres
que estão envenenando todo o cesto", ataca Leonardo
Monteiro de Barros, um dos sócios da Conspiração
Filmes, do Rio de Janeiro. Guilherme Fontes, a mais notória
dessas "maçãs podres", rebate: "O governo
e os outros cineastas estão querendo me usar como
bode expiatório, para que fique parecendo que o Ministério
da Cultura está fazendo alguma coisa. Isso fornece
um manto sob o qual outros podem continuar com suas falcatruas".
Num ponto Guilherme Fontes pode estar certo. Talvez haja
mais frutas podres nesse cesto do que se imagina. Desconfiados,
os empresários estão destinando cada vez menos
dinheiro ao cinema. Em 1999, a captação de
verbas para o setor foi de cerca de 27 milhões de
reais, contra 63 milhões de reais em 1998 e 112 milhões
em 1997.
Um secretário
bem trapalhão
José Álvaro Moisés foi empossado
secretário do Audiovisual em janeiro de 1999
com o objetivo de disciplinar a área de cinema.
A recente intervenção de Andrea Matarazzo
mostra que ele teve uma avaliação negativa
por parte do primeiro escalão do governo. Reportagens
como a publicada por VEJA em junho do ano passado
tentaram em vão ajudar Moisés. Na ocasião,
ficou demonstrado que alguns cineastas, entre outras
coisas, falsificavam notas fiscais para maquiar suas
prestações de contas. Em vez de fazer
uma investigação exaustiva sobre o assunto,
Moisés preferiu denunciar um suposto complô
contra o cinema nacional. Para que suas invectivas
ganhassem eco, recorreu a amigos na imprensa, muitos
deles lotados no Caderno 2 do jornal O Estado
de S. Paulo. Em entrevistas, sonegava informações
sobre desvio de dinheiro e manipulava números
com o intuito de mostrar que tudo ia bem. Agora ficou
provado que reportagens como a de VEJA estavam certas.
Amigo de Francisco Weffort na Universidade de São
Paulo onde era apelidado de "Wefraco", num trocadilho
com o nome do atual ministro da Cultura , Moisés
ensaia uma volta à carreira acadêmica.
É candidato a uma cadeira de professor titular
no Departamento de Ciência Política da
USP. Se passar na prova e largar o governo, é
possível que o país ganhe um bom professor
no lugar de um secretário trapalhão.
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Com reportagem de Valéria
Blanc