Edição 1 634 -2/2/2000

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Chuva de dólares

O Brasil bate recorde em investimento
estrangeiro, e os nacionalistas se assustam

Eles estão chegando num movimento que poderia lembrar uma grande invasão. Só no ano passado, os investidores estrangeiros despejaram no Brasil 30 bilhões de seu arsenal de dólares. O ataque, que promete repetir-se neste ano, não tem alvo fixo. Ele pode atingir um posto de gasolina ou um grande fabricante de aço. Pode tomar de assalto um banco, uma rede de supermercados ou uma indústria alimentícia. No ano passado, o Brasil foi o campeão na atração de capital estrangeiro na categoria países emergentes. O Brasil é o destino preferido dos investimentos produtivos entre os países em desenvolvimento – e o quarto em todo o mundo. O sucesso tem sido tão grande que causa vertigem. Pois bem, atordoado pela preferência internacional, aquele velho Brasil que segundo Tom Jobim admira o fracasso e despreza o sucesso inventou agora um grave defeito para a chegada dos dólares. É o pânico da chamada "desnacionalização". Sob o fogo da concorrência externa, empresários brasileiros andam chamando o país à resistência. E a mídia tem ecoado essa preocupação com grande insistência.

Até 1990, os estrangeiros tinham investido em empresas e propriedades no Brasil o equivalente a 8% do PIB. Hoje têm 20%. Os dados são da Unctad, a agência da Organização das Nações Unidas, ONU, encarregada de mapear os investimentos estrangeiros pelo mundo. Esse dinheiro em atividade agita o mercado de fusões e aquisições de empresas. De acordo com um levantamento feito pela consultoria KPMG, no ano passado, de cada dez operações de compra de empresas realizadas no Brasil, seis eram de estrangeiros comprando nacionais. Com as privatizações, companhias das mais diversas procedências entraram no comando de serviços públicos. Empresas espanholas, portuguesas, canadenses, americanas, italianas estão hoje entre os novos donos dos serviços de distribuição de energia, de telefonia fixa e de telefonia móvel. Em cada orelhão e em cada poste há uma lembrança da presença do capital estrangeiro. É natural que surja em muitas pessoas uma dúvida bastante peculiar: será que o Brasil não estará sendo fatiado como um pernil para ser servido em banquete aos estrangeiros? Será que a solução é mesmo "alugar o Brasil", como diz a letra do rock Aluga-se, de Raul Seixas, regravado agora com sucesso pelo grupo Titãs?

Um passeio pelos números coloca o problema alguns degraus abaixo na escala da histeria que se vem formando. Para começar, embora seja uma grande bolada, os 30 bilhões de dólares que o Brasil recebeu no ano passado – número recorde que não deve repetir-se neste ano – representaram cerca de 20% do total de investimentos realizados no país. Outros 80% dos investimentos são coisa genuinamente nacional, como o sapoti, e nada têm a ver com bandeiras alienígenas. Isso significa que a economia brasileira é um bicho muito grande para ser deglutido assim rapidinho, mesmo por um animal do porte do capital internacional. Existem outras estatísticas reveladoras. Ao observar a presença do capital internacional pelo mundo afora, percebe-se que o estoque de todo o dinheiro estrangeiro que se enraizou em solo brasileiro corresponde, por seu valor histórico, a aproximadamente um quinto do PIB. É muito pouco em comparação ao que se vê em outros países. A China, que se protege sob a carapaça do regime comunista, tem 27% de sua economia internacionalizada. O Canadá tem 23%, a Grã-Bretanha, 24%. O pobre Vietnã, orgulhoso ainda de sua vitória sobre o imperialismo ianque em 1973, tem 52%. O vizinho Chile tem 39% de suas empresas e propriedades em mãos estrangeiras.

Na Austrália, o faturamento das dez maiores companhias multinacionais é maior que o orçamento do governo. Os australianos estão se descabelando? Nem um pouco. Atrair capitais estrangeiros é uma obrigação de todo servidor público estabelecida em lei. Hostilizar capital externo na Austrália é crime. "O investimento direto estrangeiro não é nenhum bicho-papão. A maior parte dos países o recebe bem", diz Antônio Corrêa de Lacerda, economista, vice-presidente da Sobeet, entidade que se dedica a estudar as empresas transnacionais e a globalização econômica.

Em outra medida, a do movimento das vendas e compras externas, a exposição brasileira ao cenário internacional é pífia. O peso das importações em relação ao PIB é de 7% e o das exportações, de 6,5%, contra uma média de 18% na América Latina e de 40% a 45% na Europa. A experiência mostra que muitas empresas, depois de compradas por estrangeiros, recebem uma injeção de capital e se submetem a um processo de inovação tecnológica, o que acaba aumentando sua produtividade e, portanto, sua utilidade social. Empresas compradas por estrangeiros têm mais chance de aumentar seu potencial exportador e trazer mais divisas para o país.

Até Fidel Castro, ditador comunista que domina a Ilha de Cuba com mão de ferro há mais de quarenta anos, já descobriu que é mais vantajoso acariciar do que hostilizar o dinheiro forasteiro. Os estrangeiros podem assumir integralmente empreendimentos em Cuba. Estão liberados também para remeter lucros para seus países de origem sem nenhuma taxação. Os funcionários estrangeiros podem repatriar até dois terços de seus salários nas mesmas condições, sem pagar impostos. Tudo para dizer ao capital "que venga!". Em três anos, segundo estimativas do Conselho Cuba-Estados Unidos de Comércio, entidade privada baseada em Nova York, a ilha de Fidel Castro recebeu mais de 10 bilhões de dólares de investidores internacionais, especialmente nos setores de mineração e hotelaria. E o que acontece quando uma empresa estatal de Fidel se associa ao capital estrangeiro? Cessam para aquele empreendimento as leis trabalhistas cubanas. A empresa demite e contrata de acordo com seus próprios critérios.

Os neonacionalistas brasileiros estão à esquerda de Fidel Castro. É uma posição desconfortável. Irracional ou não, fora de época, saudosista ou nostálgica, é inegável que o nacionalismo está flutuando numa maré montante no Brasil neste alvorecer do terceiro milênio. Banqueiros reclamam da internacionalização do sistema financeiro. Industriais levantam a bandeira brasileira contra concorrentes externos que se instalam no país. E também bradam contra a liberação da importação de produtos alienígenas. É um movimento curioso porque é liderado por gente esclarecida, empreendedores capazes que construíram a potência industrial e financeira que é o Brasil do ano 2000. O parque instalado no país, segundo todos os estudiosos que observam o cenário internacional, precisa apenas de melhores condições macroeconômicas para brigar no ringue da economia globalizada. O problema é que existe um vício antigo no Brasil, alimentado por anos de políticas protecionistas e de subsídios. Os bancos definem-se como um setor estratégico que deveria ficar em poder do capital nacional. Gostariam de ver o governo barrar a participação dos estrangeiros nos leilões de privatização de bancos oficiais que estão por vir, a começar pelo Banespa. Os industriais, que viram muitos colegas sucumbirem à concorrência estrangeira, brigam para que se preservem os que permaneceram. No governo, é o ministro Alcides Tápias, do Desenvolvimento, quem mais se aproxima dessa corrente. Ele é o verdadeiro inspirador da fase nacionalista do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o BNDES. Os que giram em torno desse tipo de pensamento rejeitam o rótulo de nacionalismo, que consideram simplista. Na opinião deles, o governo não deve criar barreiras aos estrangeiros. Simplesmente não deve assistir passivamente à desnacionalização da economia brasileira. Por isso, acham que o governo precisa agir abrindo os cofres do dinheiro público para bons empresários brasileiros que estejam perdendo a disputa com o dólar que vem de fora apenas porque não conseguem financiamentos tão em conta quanto a horda estrangeira. Se o problema é dinheiro barato, que mal existe no fato de o governo querer fornecer dinheiro barato ao empresariado nacional? Afinal, o estrangeiro toma empréstimos a juros baixos em seu país de origem. De formulação simples, esta questão carrega complexidades históricas, geográficas e psicológicas.

A birra ancestral em relação ao que vem de fora é um dos traços mais permanentes das sociedades humanas. Em diversos idiomas a palavra estrangeiro tem uma raiz hostil. Países geograficamente situados em corredores de deslocamento das grandes migrações humanas no passado, como a Alemanha e a Chechênia, para citar dois exemplos de economias díspares mas de mentalidade parecida, tendem a desenvolver um nacionalismo exacerbado, que pode se tornar doentio em certas épocas de sua história. O nome oficial da doutrina nazista era nacional-socialismo. Tanto os alemães quanto os habitantes da Chechênia foram no passado remoto rota obrigatória dos bárbaros asiáticos em suas incursões de rapina sobre a Europa. Desenvolveram por isso um sentido de pátria tão forte que nenhum regime conseguiu amainar.

O ponto puramente econômico da ressurgência do nacionalismo no Brasil exige uma reflexão mais detida para ser entendido em sua inteireza. Sua permanência forte entre líderes empresariais, políticos e pensadores atuais tem muito mais um travo de corporativismo e nostalgia do que de empuxo histórico. Muitas das pessoas que hoje se alarmam com o que chamam de desnacionalização foram as grandes beneficiárias do modelo de substituição de importações e da forte presença estatal que imperaram no Brasil durante a ditadura militar. Foram elas que prosperaram no regime inflacionário das reservas de mercado. O embaixador e ex-ministro do Planejamento Roberto Campos não acha sequer que o termo "desnacionalização" seja adequado para descrever o fenômeno que está ocorrendo na economia brasileira neste começo de século. "Só há desnacionalização quando ocorre perda de patrimônio", sustenta Campos. O que está ocorrendo no Brasil, segundo ele, é transferência de propriedade de patrimônio, já que as empresas continuam no país depois de receber o aporte de capital estrangeiro. Para Campos, essa alternativa é muito melhor do que ter uma empresa nacional sem capital, incapaz de se expandir e se desenvolver tecnologicamente por falta de recursos.

O Brasil ainda está no estágio básico no que diz respeito a preparar o ambiente empresarial para a competição internacional. O grande entrave para o fortalecimento da indústria nacional, as altas taxas de juros praticadas no mercado interno, ainda não foi eliminado. Enquanto as empresas espanholas e portuguesas, que estão avançando sobre o território nacional, têm a vantagem dos juros baixíssimos da Comunidade Européia, em torno de 3% ao ano, no Brasil o crédito é ainda muito caro. A taxa básica determinada pelo Banco Central é de 19%. Para criar conglomerados nacionais fortes, o crédito é fundamental. Mais: o crédito é decisivo também para criar pequenas e médias empresas, que na verdade são o grande sustentáculo das economias. Não se imagine, porém, que dar crédito a juros razoáveis deva ser uma doação estatal a empresários escolhidos a dedo. Juros baixos são uma decorrência da saúde financeira do governo e só se chegará a isso por meio das reformas estruturais que o Brasil vem lutando para fazer.

Uma coisa os neonacionalistas conseguiram com sua pregação: eles estão reeditando a velha briga entre desenvolvimentistas e os defensores da estabilidade da economia. Essa briga estéril parecia superada havia tempos. A ninguém de bom senso ocorre que seja possível desenvolver o país num ambiente de instabilidade monetária. Ou com as fronteiras fechadas aos produtos estrangeiros. "Alguns abraçam a idéia estapafúrdia de uma abertura pela metade, em que as fronteiras sejam livres para a entrada de tudo que é insumo enquanto se restringe a importação dos produtos que competem com os nacionais", escreveu Gustavo Loyola, ex-presidente do Banco Central, no boletim Tendências, que circula entre os empresários. Outro sonho do neonacionalismo é a volta de um BNDES que funcione como um ombro amigo para as empresas de capital nacional. "O governo tem de ter cuidado para não ceder à pressão nacionalista sob pena de, ao recriar um BNDES dos tempos do estatismo dominante, estar repetindo como farsa o que já foi uma tragédia no passado", diz Loyola.

O maior perigo em usar o pretexto da ameaça estrangeira para arrancar crédito facilitado do Estado é desestimular a modernização, tanto do Estado quanto das empresas. Pressionadas pelo novo ambiente da concorrência global, muitas companhias brasileiras estão se tornando mais ágeis e menos vulneráveis. É preciso que se adaptem mesmo a padrões mais exigentes de desempenho, caso contrário não terão espaço no mundo globalizado. Com a proteção governamental, no entanto, haveria o risco de baixarem a guarda. Ficariam inviáveis e precisariam continuamente de socorro oficial. Depois, como se viu no passado do Brasil estatizado, mandariam a conta para dois lugares. Para cima, pedindo mais dinheiro público subsidiado. E para baixo, na forma de inflação. O governo, por sua vez, tendo aberto os cofres aos empresários nacionais que selecionasse, não se sentiria mais pressionado a atacar as reais causas da desvantagem competitiva das empresas brasileiras. Entre essas causas, algumas se destacam. Em primeiro lugar, o sistema tributário injusto, que engole 33% de toda a riqueza nacional. Outra: o mercado de capitais inepto, que não funciona como fonte de financiamento para os empresários. Uma terceira: leis trabalhistas arcaicas, que engessam o mercado de trabalho, desestimulando a contratação e encarecendo a formação e o aprimoramento da mão-de-obra.

Existe um lado negativo na compra de empresas brasileiras pelo capital de fora. No processo, muitos nacionais vendem suas empresas familiares e são expelidos para outras áreas, sem a mesma importância que tiveram no passado. Empregados há décadas numa indústria podem ser demitidos como resultado de cortes nos quadros promovidos pelos novos proprietários estrangeiros, em busca de maior produtividade. "Esses dramas humanos são terríveis e não devem ser esquecidos, mas é preciso compreender que o investimento direto estrangeiro produz resultados de longe mais positivos para a economia e para a sociedade do que a tentativa de manter o país fechado ao capital de fora", diz o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega.

Com injeção de dólares, muitas empresas nacionais mudaram muito – para melhor. Em maio de 1998, o controle da siderúrgica mineira Acesita, especializada na produção de aço inoxidável, foi adquirido pelo grupo francês Usinor. O efeito imediato da transação foi que a Acesita saiu do buraco. A empresa – uma ex-estatal – era um brinco de modernidade. Mas construiu-se à custa de um endividamento quase mortal. No auge do sufoco, chegou a pagar juros diários de 1 milhão de reais. Os franceses vieram montados em cerca de 600 milhões de dólares. Trouxeram mais. O grupo francês, que é o quarto do mundo na produção de aço, abriu o mercado internacional para o produto feito no Brasil. No ano passado, a Acesita exportou o dobro do que embarcou em 1998. A produtividade de cada empregado subiu de 177 toneladas ao ano para 230 e o faturamento cresceu 52%, chegando a 869 milhões de reais. A vida mudou na empresa. No ano passado, o engenheiro metalúrgico Leonam de Almeida, 44 anos, fez um estágio de um mês em outras siderúrgicas da Usinor na França, como parte de um trabalho que levou missões de técnicos brasileiros ao exterior e trouxe franceses ao Brasil. "Em 22 anos de Acesita, nunca tive uma chance dessas", diz ele. Na cidade de Timóteo, em Minas Gerais, onde funciona a empresa, bateram novos ventos. Agora, os moradores que querem trabalhar por conta própria na fabricação de artefatos de aço inoxidável recebem suporte técnico da Acesita. Várias fabriquetas surgiram nos últimos dois anos.

Eugênio Sávio
A siderúrgica mineira Acesita foi
privatizada em 1992 e vendida
ao grupo francês Usinor, por 600
milhões de dólares, seis anos depois.
Seus resultados melhoraram muito
entre 1998 e 1999. O faturamento
aumentou mais que 50%, mesmo
com o preço do aço em queda no
mercado internacional. O volume
de exportação dobrou. Passou de
45 000 toneladas para 90 000.


A sueca Electrolux, que comprou a Refripar, fabricante de geladeiras da marca Prosdócimo, em 1996, sofreu um pouco mais. Pegou o mercado brasileiro justamente quando as pessoas já tinham renovado os equipamentos de cozinha, logo depois do Plano Real, e o consumo de eletrodomésticos estava em queda. Mesmo assim, fez reformas no modo de operação e nas linhas de produção da empresa e passou a exigir e proporcionar melhor formação aos empregados. Um de seus funcionários, Paulo Cezar Barboza, de 29 anos, era carregador cinco anos atrás. Hoje, bancado pela empresa, estuda inglês, já fez estágio na Suécia e cursa uma faculdade de comércio exterior. É operador de logística.

Na semana passada, as benesses e os estragos provocados pelo capital estrangeiro estavam na pauta do Fórum Econômico 2000, que reúne chefes de Estado, empresários e representantes de organizações não governamentais, em Davos, na Suíça. Entre outros temas, estiveram em discussão os efeitos da globalização em países emergentes, como o Brasil, a Tailândia e a Rússia. Numa ponta, os mais radicais acusam as grandes corporações transnacionais de estender seus tentáculos pelo planeta ceifando empregos, depredando o meio ambiente e pondo em xeque a soberania dos países mais pobres. Na outra ponta, há os que defendem a idéia de que a internacionalização da economia é um fenômeno irrefreável e seria mais simples e enriquecedor para todos se as fronteiras, as moedas e o sentimento de nacionalidade desaparecessem de uma vez para que a economia pudesse, finalmente, tornar-se absolutamente produtiva.

Joel Rocha
Paulo Cezar Barboza, de 29 anos,
iniciou a carreira como carregador
de eletrodomésticos, há seis anos,
na antiga Refripar. Depois que
a empresa foi vendida para a
Eletrolux, fez curso de inglês,
estágio na Suécia e hoje é
operador de logística.

Grandes conglomerados têm mais dinheiro, mais tecnologia, maior competência gerencial. Podem transportar tudo isso para países pobres. Ou podem simplesmente transformar suas sucursais em montadoras de produtos feitos em outras regiões, apenas para aproveitar o mercado consumidor. "Os investimentos estrangeiros diretos não são invariavelmente bons ou maus. É a qualidade da política pública que vai fazer com que eles tragam mais benefícios e menos riscos para o país", diz o secretário-geral da Unctad, o brasileiro Rubens Ricupero.

No Brasil, o Paraná é um exemplo de trabalho bem-feito no trato com o investimento estrangeiro. Curitiba, a capital do Estado, está lotada de empresas de dinheiro externo. Não comporta mais gente, mais automóveis, mais poluição. O que o governo está fazendo, há alguns anos, é buscar investimentos para o interior. No sudoeste do Paraná há uma cidade chamada Pato Branco, onde foram instaladas dezenas de pequenas empresas nacionais que desenvolvem programas de computador. Para completar o ciclo de produção, o governo trouxe da Ásia uma companhia fabricante de componentes eletrônicos para telecomunicações. A Hosonque investiu 3,5 milhões de dólares, usa os serviços das firmas brasileiras da região, já produz e exporta. Outras quatro empresas, uma espanhola, uma argentina e duas americanas, investirão mais 12 milhões de dólares para começar a operar na região. Em Maringá, no noroeste do Estado, onde o forte é a criação de gado, instalou-se uma companhia francesa, a Solabiá, que produz uma matéria-prima para a fabricação de remédios a partir da cartilagem dos bois criados na região. "Vendo as vantagens do Estado no exterior como se fosse um empresário vendendo um produto. E as empresas compram", diz o governador Jaime Lerner.

Moreira Mariz
Sense Eletrônica,
fabricante de sensores
eletrônicos em Santa
Rita do Sapucaí, no
sul de Minas Gerais,
é uma das 105
pequenas e médias
indústrias de
tecnologia de ponta
da cidade. Mesmo
sendo considerada um
ambiente favorável
ao investimento
estrangeiro, Santa
Rita não abriga
nenhuma
multinacional.
"Estamos começando
a fazer contatos", diz
o prefeito Jeferson
Gonçalves Mendes.

Em outras áreas, prefeitos, governadores, vereadores, deputados ainda não perceberam que devem operar como administradores de empresas e não como gerentes de massas falidas. É o caso da cidade de Santa Rita do Sapucaí, que tem 30.000 habitantes, fica no sul de Minas Gerais e é um dos pólos mais importantes do país em desenvolvimento e produção de componentes eletrônicos. Santa Rita tem três faculdades que formam 30% dos engenheiros de telecomunicações que trabalham no Brasil. Possui 105 pequenas e médias indústrias e fornece peças a conglomerados do porte da Motorola e da Siemens. No entanto, não há uma única grande multinacional instalada em seu território, para aproveitar o potencial ali existente. O prefeito, Jeferson Gonçalves Mendes, que está em seu segundo mandato, só agora começou a perceber que tem de se mexer para fazer com que o município, em vez de exportar mão-de-obra qualificada, enriqueça com a gente que forma. Mas não consegue tomar atitudes práticas. Em vez de falar com empresas, está negociando com diplomatas. "Há duas semanas tivemos contato com o cônsul da Alemanha, mas ainda não temos resultados concretos", diz. O impressionante é que as faculdades de Santa Rita, e a própria prefeitura, mantêm há anos convênios de treinamento e fornecimento de tecnologia com empresas alemãs – e nenhum dos lados ainda se deu conta da oportunidade de negócios que a área oferece. O Paraná e nosso "Vale do Silício" em Santa Rita são dois exemplos de posturas diante da globalização. Descobrir como lidar produtivamente com esse fenômeno é um enorme desafio para os países e seus governos neste começo de século.

 

O mundo é pequeno

Brasileiro vende posto de gasolina via internet
para investir fora do país

Kiko Ferrite
Claudio Rossi
Rys no posto de gasolina e o anúncio na internet:
investidor estrangeiro

Para quem não se espanta com mais nada que aparece na internet este é um bom teste. Além de CDs, livros, computadores e verduras, agora até empresas estão à venda na rede. O líder desse mercado é um serviço associado ao jornal americano de negócios The Wall Street Journal, o www.bizbuysell.com. Ali estão listadas 10 000 empresas em busca de um comprador. Uma dezena delas são brasileiras. O dono de um restaurante mexicano em Fortaleza anuncia que quer passar o negócio para a frente porque sua filha vai estudar nos Estados Unidos. Oferecem-se também um hotel-fazenda e um posto de gasolina em Limeira, interior de São Paulo.

O dono do posto é Jorge Rys Júnior, um paulista formado em economia, de 31 anos de idade. Há cinco ele largou o emprego na multinacional IBM para tocar o negócio. Fatura 250 000 reais por mês e emprega dezessete pessoas, mas seu lucro vem caindo. Desde agosto está tentando passar o posto adiante. Já contratou três corretores, mas não teve sucesso. "Por aqui só aparecem propostas de troca por outros negócios ou de pagamento num prazo a perder de vista. Talvez na internet consiga algo melhor", diz. Em apenas um mês de anúncio ele já recebeu telefonemas de dois americanos querendo saber detalhes sobre o posto de gasolina. Rys quer investir os dólares que receber na compra de uma firma no exterior e já pesquisou as ofertas nos Estados Unidos, Canadá e Austrália. É o sinal dos tempos. Mesmo sem ser dono de uma grande empresa, o brasileiro pode ser investidor internacional.