Chuva de dólares
O Brasil bate recorde em investimento
estrangeiro, e os nacionalistas se assustam
Eles estão chegando num movimento que poderia lembrar uma
grande invasão. Só no ano passado, os investidores estrangeiros
despejaram no Brasil 30 bilhões de seu arsenal de dólares.
O ataque, que promete repetir-se neste ano, não tem alvo
fixo. Ele pode atingir um posto de gasolina ou um grande
fabricante de aço. Pode tomar de assalto um banco, uma rede
de supermercados ou uma indústria alimentícia. No ano passado,
o Brasil foi o campeão na atração de capital estrangeiro
na categoria países emergentes. O Brasil é o destino preferido
dos investimentos produtivos entre os países em desenvolvimento
e o quarto em todo o mundo. O sucesso tem sido tão
grande que causa vertigem. Pois bem, atordoado pela preferência
internacional, aquele velho Brasil que segundo Tom Jobim
admira o fracasso e despreza o sucesso inventou agora um
grave defeito para a chegada dos dólares. É o pânico da
chamada "desnacionalização". Sob o fogo da concorrência
externa, empresários brasileiros andam chamando o país à
resistência. E a mídia tem ecoado essa preocupação com grande
insistência.
Até
1990, os estrangeiros tinham investido em empresas e propriedades
no Brasil o equivalente a 8% do PIB. Hoje têm 20%. Os dados
são da Unctad, a agência da Organização das Nações Unidas,
ONU, encarregada de mapear os investimentos estrangeiros
pelo mundo. Esse dinheiro em atividade agita o mercado de
fusões e aquisições de empresas. De acordo com um levantamento
feito pela consultoria KPMG, no ano passado, de cada dez
operações de compra de empresas realizadas no Brasil, seis
eram de estrangeiros comprando nacionais. Com as privatizações,
companhias das mais diversas procedências entraram no comando
de serviços públicos. Empresas espanholas, portuguesas,
canadenses, americanas, italianas estão hoje entre os novos
donos dos serviços de distribuição de energia, de telefonia
fixa e de telefonia móvel. Em cada orelhão e em cada poste
há uma lembrança da presença do capital estrangeiro. É natural
que surja em muitas pessoas uma dúvida bastante peculiar:
será que o Brasil não estará sendo fatiado como um pernil
para ser servido em banquete aos estrangeiros? Será que
a solução é mesmo "alugar o Brasil", como diz
a letra do rock Aluga-se, de Raul Seixas, regravado
agora com sucesso pelo grupo Titãs?
Um passeio pelos números coloca o problema alguns degraus
abaixo na escala da histeria que se vem formando. Para começar,
embora seja uma grande bolada, os 30 bilhões de dólares
que o Brasil recebeu no ano passado número recorde que
não deve repetir-se neste ano representaram cerca de
20% do total de investimentos realizados no país. Outros
80% dos investimentos são coisa genuinamente nacional, como
o sapoti, e nada têm a ver com bandeiras alienígenas. Isso
significa que a economia brasileira é um bicho muito grande
para ser deglutido assim rapidinho, mesmo por um animal
do porte do capital internacional. Existem outras estatísticas
reveladoras. Ao observar a presença do capital internacional
pelo mundo afora, percebe-se que o estoque de todo o dinheiro
estrangeiro que se enraizou em solo brasileiro corresponde,
por seu valor histórico, a aproximadamente um quinto do
PIB. É muito pouco em comparação ao que se vê em outros
países. A China, que se protege sob a carapaça do regime
comunista, tem 27% de sua economia internacionalizada. O
Canadá tem 23%, a Grã-Bretanha, 24%. O pobre Vietnã, orgulhoso
ainda de sua vitória sobre o imperialismo ianque em 1973,
tem 52%. O vizinho Chile tem 39% de suas empresas e propriedades
em mãos estrangeiras.
Na Austrália, o faturamento das dez maiores companhias
multinacionais é maior que o orçamento do governo. Os australianos
estão se descabelando? Nem um pouco. Atrair capitais estrangeiros
é uma obrigação de todo servidor público estabelecida em
lei. Hostilizar capital externo na Austrália é crime. "O
investimento direto estrangeiro não é nenhum bicho-papão.
A maior parte dos países o recebe bem", diz Antônio
Corrêa de Lacerda, economista, vice-presidente da Sobeet,
entidade que se dedica a estudar as empresas transnacionais
e a globalização econômica.
Em outra medida, a do movimento das vendas e compras externas,
a exposição brasileira ao cenário internacional é pífia.
O peso das importações em relação ao PIB é de 7% e o das
exportações, de 6,5%, contra uma média de 18% na América
Latina e de 40% a 45% na Europa. A experiência mostra que
muitas empresas, depois de compradas por estrangeiros, recebem
uma injeção de capital e se submetem a um processo de inovação
tecnológica, o que acaba aumentando sua produtividade e,
portanto, sua utilidade social. Empresas compradas por estrangeiros
têm mais chance de aumentar seu potencial exportador e trazer
mais divisas para o país.
Até Fidel Castro, ditador comunista que domina a Ilha de
Cuba com mão de ferro há mais de quarenta anos, já descobriu
que é mais vantajoso acariciar do que hostilizar o dinheiro
forasteiro. Os estrangeiros podem assumir integralmente
empreendimentos em Cuba. Estão liberados também para remeter
lucros para seus países de origem sem nenhuma taxação. Os
funcionários estrangeiros podem repatriar até dois terços
de seus salários nas mesmas condições, sem pagar impostos.
Tudo para dizer ao capital "que venga!". Em três
anos, segundo estimativas do Conselho Cuba-Estados Unidos
de Comércio, entidade privada baseada em Nova York, a ilha
de Fidel Castro recebeu mais de 10 bilhões de dólares de
investidores internacionais, especialmente nos setores de
mineração e hotelaria. E o que acontece quando uma empresa
estatal de Fidel se associa ao capital estrangeiro? Cessam
para aquele empreendimento as leis trabalhistas cubanas.
A empresa demite e contrata de acordo com seus próprios
critérios.
Os neonacionalistas brasileiros estão à esquerda de Fidel
Castro. É uma posição desconfortável. Irracional ou não,
fora de época, saudosista ou nostálgica, é inegável que
o nacionalismo está flutuando numa maré montante no Brasil
neste alvorecer do terceiro milênio. Banqueiros reclamam
da internacionalização do sistema financeiro. Industriais
levantam a bandeira brasileira contra concorrentes externos
que se instalam no país. E também bradam contra a liberação
da importação de produtos alienígenas. É um movimento curioso
porque é liderado por gente esclarecida, empreendedores
capazes que construíram a potência industrial e financeira
que é o Brasil do ano 2000. O parque instalado no país,
segundo todos os estudiosos que observam o cenário internacional,
precisa apenas de melhores condições macroeconômicas para
brigar no ringue da economia globalizada. O problema é que
existe um vício antigo no Brasil, alimentado por anos de
políticas protecionistas e de subsídios. Os bancos definem-se
como um setor estratégico que deveria ficar em poder do
capital nacional. Gostariam de ver o governo barrar a participação
dos estrangeiros nos leilões de privatização de bancos oficiais
que estão por vir, a começar pelo Banespa. Os industriais,
que viram muitos colegas sucumbirem à concorrência estrangeira,
brigam para que se preservem os que permaneceram. No governo,
é o ministro Alcides Tápias, do Desenvolvimento, quem mais
se aproxima dessa corrente. Ele é o verdadeiro inspirador
da fase nacionalista do Banco Nacional de Desenvolvimento
Econômico e Social, o BNDES. Os que giram em torno desse
tipo de pensamento rejeitam o rótulo de nacionalismo, que
consideram simplista. Na opinião deles, o governo não deve
criar barreiras aos estrangeiros. Simplesmente não deve
assistir passivamente à desnacionalização da economia brasileira.
Por isso, acham que o governo precisa agir abrindo os cofres
do dinheiro público para bons empresários brasileiros que
estejam perdendo a disputa com o dólar que vem de fora apenas
porque não conseguem financiamentos tão em conta quanto
a horda estrangeira. Se o problema é dinheiro barato, que
mal existe no fato de o governo querer fornecer dinheiro
barato ao empresariado nacional? Afinal, o estrangeiro toma
empréstimos a juros baixos em seu país de origem. De formulação
simples, esta questão carrega complexidades históricas,
geográficas e psicológicas.
A birra ancestral em relação ao que vem de fora é um dos
traços mais permanentes das sociedades humanas. Em diversos
idiomas a palavra estrangeiro tem uma raiz hostil. Países
geograficamente situados em corredores de deslocamento das
grandes migrações humanas no passado, como a Alemanha e
a Chechênia, para citar dois exemplos de economias díspares
mas de mentalidade parecida, tendem a desenvolver um nacionalismo
exacerbado, que pode se tornar doentio em certas épocas
de sua história. O nome oficial da doutrina nazista era
nacional-socialismo. Tanto os alemães quanto os habitantes
da Chechênia foram no passado remoto rota obrigatória dos
bárbaros asiáticos em suas incursões de rapina sobre a Europa.
Desenvolveram por isso um sentido de pátria tão forte que
nenhum regime conseguiu amainar.
O ponto puramente econômico da ressurgência do nacionalismo
no Brasil exige uma reflexão mais detida para ser entendido
em sua inteireza. Sua permanência forte entre líderes empresariais,
políticos e pensadores atuais tem muito mais um travo de
corporativismo e nostalgia do que de empuxo histórico. Muitas
das pessoas que hoje se alarmam com o que chamam de desnacionalização
foram as grandes beneficiárias do modelo de substituição
de importações e da forte presença estatal que imperaram
no Brasil durante a ditadura militar. Foram elas que prosperaram
no regime inflacionário das reservas de mercado. O embaixador
e ex-ministro do Planejamento Roberto Campos não acha sequer
que o termo "desnacionalização" seja adequado
para descrever o fenômeno que está ocorrendo na economia
brasileira neste começo de século. "Só há desnacionalização
quando ocorre perda de patrimônio", sustenta Campos.
O que está ocorrendo no Brasil, segundo ele, é transferência
de propriedade de patrimônio, já que as empresas continuam
no país depois de receber o aporte de capital estrangeiro.
Para Campos, essa alternativa é muito melhor do que ter
uma empresa nacional sem capital, incapaz de se expandir
e se desenvolver tecnologicamente por falta de recursos.
O Brasil ainda está no estágio básico no que diz respeito
a preparar o ambiente empresarial para a competição internacional.
O grande entrave para o fortalecimento da indústria nacional,
as altas taxas de juros praticadas no mercado interno, ainda
não foi eliminado. Enquanto as empresas espanholas e portuguesas,
que estão avançando sobre o território nacional, têm a vantagem
dos juros baixíssimos da Comunidade Européia, em torno de
3% ao ano, no Brasil o crédito é ainda muito caro. A taxa
básica determinada pelo Banco Central é de 19%. Para criar
conglomerados nacionais fortes, o crédito é fundamental.
Mais: o crédito é decisivo também para criar pequenas e
médias empresas, que na verdade são o grande sustentáculo
das economias. Não se imagine, porém, que dar crédito a
juros razoáveis deva ser uma doação estatal a empresários
escolhidos a dedo. Juros baixos são uma decorrência da saúde
financeira do governo e só se chegará a isso por meio das
reformas estruturais que o Brasil vem lutando para fazer.
Uma coisa os neonacionalistas conseguiram com sua pregação:
eles estão reeditando a velha briga entre desenvolvimentistas
e os defensores da estabilidade da economia. Essa briga
estéril parecia superada havia tempos. A ninguém de bom
senso ocorre que seja possível desenvolver o país num ambiente
de instabilidade monetária. Ou com as fronteiras fechadas
aos produtos estrangeiros. "Alguns abraçam a idéia
estapafúrdia de uma abertura pela metade, em que as fronteiras
sejam livres para a entrada de tudo que é insumo enquanto
se restringe a importação dos produtos que competem com
os nacionais", escreveu Gustavo Loyola, ex-presidente
do Banco Central, no boletim Tendências, que circula
entre os empresários. Outro sonho do neonacionalismo é a
volta de um BNDES que funcione como um ombro amigo para
as empresas de capital nacional. "O governo tem de
ter cuidado para não ceder à pressão nacionalista sob pena
de, ao recriar um BNDES dos tempos do estatismo dominante,
estar repetindo como farsa o que já foi uma tragédia no
passado", diz Loyola.
O
maior perigo em usar o pretexto da ameaça estrangeira para
arrancar crédito facilitado do Estado é desestimular a modernização,
tanto do Estado quanto das empresas. Pressionadas pelo novo
ambiente da concorrência global, muitas companhias brasileiras
estão se tornando mais ágeis e menos vulneráveis. É preciso
que se adaptem mesmo a padrões mais exigentes de desempenho,
caso contrário não terão espaço no mundo globalizado. Com
a proteção governamental, no entanto, haveria o risco de
baixarem a guarda. Ficariam inviáveis e precisariam continuamente
de socorro oficial. Depois, como se viu no passado do Brasil
estatizado, mandariam a conta para dois lugares. Para cima,
pedindo mais dinheiro público subsidiado. E para baixo,
na forma de inflação. O governo, por sua vez, tendo aberto
os cofres aos empresários nacionais que selecionasse, não
se sentiria mais pressionado a atacar as reais causas da
desvantagem competitiva das empresas brasileiras. Entre
essas causas, algumas se destacam. Em primeiro lugar, o
sistema tributário injusto, que engole 33% de toda a riqueza
nacional. Outra: o mercado de capitais inepto, que não funciona
como fonte de financiamento para os empresários. Uma terceira:
leis trabalhistas arcaicas, que engessam o mercado de trabalho,
desestimulando a contratação e encarecendo a formação e
o aprimoramento da mão-de-obra.
Existe um lado negativo na compra de empresas brasileiras
pelo capital de fora. No processo, muitos nacionais vendem
suas empresas familiares e são expelidos para outras áreas,
sem a mesma importância que tiveram no passado. Empregados
há décadas numa indústria podem ser demitidos como resultado
de cortes nos quadros promovidos pelos novos proprietários
estrangeiros, em busca de maior produtividade. "Esses
dramas humanos são terríveis e não devem ser esquecidos,
mas é preciso compreender que o investimento direto estrangeiro
produz resultados de longe mais positivos para a economia
e para a sociedade do que a tentativa de manter o país fechado
ao capital de fora", diz o ex-ministro da Fazenda Mailson
da Nóbrega.
Com injeção de dólares, muitas empresas nacionais mudaram
muito para melhor. Em maio de 1998, o controle da
siderúrgica mineira Acesita, especializada na produção de
aço inoxidável, foi adquirido pelo grupo francês Usinor.
O efeito imediato da transação foi que a Acesita saiu do
buraco. A empresa uma ex-estatal era um brinco
de modernidade. Mas construiu-se à custa de um endividamento
quase mortal. No auge do sufoco, chegou a pagar juros diários
de 1 milhão de reais. Os franceses vieram montados em cerca
de 600 milhões de dólares. Trouxeram mais. O grupo francês,
que é o quarto do mundo na produção de aço, abriu o mercado
internacional para o produto feito no Brasil.
No ano passado, a Acesita exportou o dobro do que embarcou
em 1998. A produtividade de cada empregado subiu de 177
toneladas ao ano para 230 e o faturamento cresceu 52%, chegando
a 869 milhões de reais. A vida mudou na empresa. No ano
passado, o engenheiro metalúrgico Leonam de Almeida, 44
anos, fez um estágio de um mês em outras siderúrgicas da
Usinor na França, como parte de um trabalho que levou missões
de técnicos brasileiros ao exterior e trouxe franceses ao
Brasil. "Em 22 anos de Acesita, nunca tive uma chance
dessas", diz ele. Na cidade de Timóteo, em Minas Gerais,
onde funciona a empresa, bateram novos ventos. Agora, os
moradores que querem trabalhar por conta própria na fabricação
de artefatos de aço inoxidável recebem suporte técnico da
Acesita. Várias fabriquetas surgiram nos últimos dois anos.
Eugênio Sávio
 |
A siderúrgica mineira Acesita foi
privatizada em 1992 e vendida
ao grupo francês Usinor, por 600
milhões de dólares, seis anos depois.
Seus resultados melhoraram muito
entre 1998 e 1999. O faturamento
aumentou mais que 50%, mesmo
com o preço do aço em queda no
mercado internacional. O volume
de exportação dobrou. Passou de
45 000 toneladas para 90 000. |
A sueca Electrolux, que comprou a Refripar, fabricante de
geladeiras da marca Prosdócimo, em 1996, sofreu um pouco
mais. Pegou o mercado brasileiro justamente quando as pessoas
já tinham renovado os equipamentos de cozinha, logo depois
do Plano Real, e o consumo de eletrodomésticos estava em
queda. Mesmo assim, fez reformas no modo de operação e nas
linhas de produção da empresa e passou a exigir e proporcionar
melhor formação aos empregados. Um de seus funcionários,
Paulo Cezar Barboza, de 29 anos, era carregador cinco anos
atrás. Hoje, bancado pela empresa, estuda inglês, já fez
estágio na Suécia e cursa uma faculdade de comércio exterior.
É operador de logística.
Na semana passada, as benesses e os estragos provocados
pelo capital estrangeiro estavam na pauta do Fórum Econômico
2000, que reúne chefes de Estado, empresários e representantes
de organizações não governamentais, em Davos, na Suíça.
Entre outros temas, estiveram em discussão os efeitos da
globalização em países emergentes, como o Brasil, a Tailândia
e a Rússia. Numa ponta, os mais radicais acusam as grandes
corporações transnacionais de estender seus tentáculos pelo
planeta ceifando empregos, depredando o meio ambiente e
pondo em xeque a soberania dos países mais pobres. Na outra
ponta, há os que defendem a idéia de que a internacionalização
da economia é um fenômeno irrefreável e seria mais simples
e enriquecedor para todos se as fronteiras, as moedas e
o sentimento de nacionalidade desaparecessem de uma vez
para que a economia pudesse, finalmente, tornar-se absolutamente
produtiva.
Joel Rocha
 |
Paulo Cezar Barboza, de 29 anos,
iniciou a carreira como carregador
de eletrodomésticos, há seis anos,
na antiga Refripar. Depois que
a empresa foi vendida para a
Eletrolux, fez curso de inglês,
estágio na Suécia e hoje é
operador de logística. |
Grandes conglomerados têm mais dinheiro, mais tecnologia,
maior competência gerencial. Podem transportar tudo isso para
países pobres. Ou podem simplesmente transformar suas sucursais
em montadoras de produtos feitos em outras regiões, apenas
para aproveitar o mercado consumidor. "Os investimentos
estrangeiros diretos não são invariavelmente bons ou maus.
É a qualidade da política pública que vai fazer com que eles
tragam mais benefícios e menos riscos para o país", diz
o secretário-geral da Unctad, o brasileiro Rubens Ricupero.
No Brasil, o Paraná é um exemplo de trabalho bem-feito
no trato com o investimento estrangeiro. Curitiba, a capital
do Estado, está lotada de empresas de dinheiro externo.
Não comporta mais gente, mais automóveis, mais poluição.
O que o governo está fazendo, há alguns anos, é buscar investimentos
para o interior. No sudoeste do Paraná há uma cidade chamada
Pato Branco, onde foram instaladas dezenas de pequenas empresas
nacionais que desenvolvem programas de computador. Para
completar o ciclo de produção, o governo trouxe da Ásia
uma companhia fabricante de componentes eletrônicos para
telecomunicações. A Hosonque investiu 3,5 milhões de dólares,
usa os serviços das firmas brasileiras da região, já produz
e exporta. Outras quatro empresas, uma espanhola, uma argentina
e duas americanas, investirão mais 12 milhões de dólares
para começar a operar na região. Em Maringá, no noroeste
do Estado, onde o forte é a criação de gado, instalou-se
uma companhia francesa, a Solabiá, que produz uma matéria-prima
para a fabricação de remédios a partir da cartilagem dos
bois criados na região. "Vendo as vantagens do Estado
no exterior como se fosse um empresário vendendo um produto.
E as empresas compram", diz o governador Jaime Lerner.
Moreira Mariz
 |
Sense Eletrônica,
fabricante de sensores
eletrônicos em Santa
Rita do Sapucaí, no
sul de Minas Gerais,
é uma das 105
pequenas e médias
indústrias de
tecnologia de ponta
da cidade. Mesmo
sendo considerada um
ambiente favorável
ao investimento
estrangeiro, Santa
Rita não abriga
nenhuma
multinacional.
"Estamos começando
a fazer contatos", diz
o prefeito Jeferson
Gonçalves Mendes. |
Em outras áreas, prefeitos, governadores, vereadores, deputados
ainda não perceberam que devem operar como administradores
de empresas e não como gerentes de massas falidas. É o caso
da cidade de Santa Rita do Sapucaí, que tem 30
.000
habitantes, fica no sul de Minas Gerais e é um dos pólos mais
importantes do país em desenvolvimento e produção de componentes
eletrônicos. Santa Rita tem três faculdades que formam 30%
dos engenheiros de telecomunicações que trabalham no Brasil.
Possui 105 pequenas e médias indústrias e fornece peças a
conglomerados do porte da Motorola e da Siemens. No entanto,
não há uma única grande multinacional instalada em seu território,
para aproveitar o potencial ali existente. O prefeito, Jeferson
Gonçalves Mendes, que está em seu segundo mandato, só agora
começou a perceber que tem de se mexer para fazer com que
o município, em vez de exportar mão-de-obra qualificada, enriqueça
com a gente que forma. Mas não consegue tomar atitudes práticas.
Em vez de falar com empresas, está negociando com diplomatas.
"Há duas semanas tivemos contato com o cônsul da Alemanha,
mas ainda não temos resultados concretos", diz. O impressionante
é que as faculdades de Santa Rita, e a própria prefeitura,
mantêm há anos convênios de treinamento e fornecimento de
tecnologia com empresas alemãs e nenhum dos lados ainda
se deu conta da oportunidade de negócios que a área oferece.
O Paraná e nosso "Vale do Silício" em Santa Rita
são dois exemplos de posturas diante da globalização. Descobrir
como lidar produtivamente com esse fenômeno é um enorme desafio
para os países e seus governos neste começo de século.
O mundo é pequeno
Brasileiro vende posto de gasolina via internet
para investir fora do país
Kiko Ferrite
 |
Claudio Rossi
 |
Rys no posto de
gasolina e o anúncio na internet:
investidor estrangeiro |
Para quem não se espanta com mais nada que aparece
na internet este é um bom teste. Além de CDs, livros,
computadores e verduras, agora até empresas estão
à venda na rede. O líder desse mercado é um serviço
associado ao jornal americano de negócios The Wall
Street Journal, o www.bizbuysell.com.
Ali estão listadas 10 000 empresas em busca de um
comprador. Uma dezena delas são brasileiras. O dono
de um restaurante mexicano em Fortaleza anuncia que
quer passar o negócio para a frente porque sua filha
vai estudar nos Estados Unidos. Oferecem-se também
um hotel-fazenda e um posto de gasolina em Limeira,
interior de São Paulo.
O dono do posto é Jorge Rys Júnior, um paulista formado
em economia, de 31 anos de idade. Há cinco ele largou
o emprego na multinacional IBM para tocar o negócio.
Fatura 250 000 reais por mês e emprega dezessete pessoas,
mas seu lucro vem caindo. Desde agosto está tentando
passar o posto adiante. Já contratou três corretores,
mas não teve sucesso. "Por aqui só aparecem propostas
de troca por outros negócios ou de pagamento num prazo
a perder de vista. Talvez na internet consiga algo
melhor", diz. Em apenas um mês de anúncio ele
já recebeu telefonemas de dois americanos querendo
saber detalhes sobre o posto de gasolina. Rys quer
investir os dólares que receber na compra de uma firma
no exterior e já pesquisou as ofertas nos Estados
Unidos, Canadá e Austrália. É o sinal dos tempos.
Mesmo sem ser dono de uma grande empresa, o brasileiro
pode ser investidor internacional.
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