A cabeça dói...
...e os brasileiros não sabem tratar
o tipo
mais comum de cefaléia
Karina Pastore e Cristina Poles
O executivo vara a noite a preparar o relatório
da empresa e a cabeça dói. A jovem senhora
se desdobra para cuidar do escritório e das crianças
e a cabeça dói. O garoto se entope de cafezinho
por causa dos estudos e a cabeça dói. Feliz
de quem nunca sentiu a cabeça doer. Feliz, não...
abençoado, sobretudo no mundo estressante de hoje.
A cabeça dói para 97% das pessoas. Pode não
doer sempre, pode doer pouco, mas, em algum momento da vida,
dói. Para a maioria, é como se uma faixa apertasse
o crânio, de uma têmpora a outra. Cerca de 4,5
bilhões de pessoas em todo o mundo, 121 milhões
no Brasil, conhecem a aflição. Descrito pela
primeira vez em 3000 a.C., o mal-estar foi batizado de cefaléia
do tipo tensional episódica nome pomposo para
a dor de cabeça mais comum. Era de esperar que a
humanidade já soubesse como enfrentar tormento tão
vulgar e antigo. Mas não sabe. Pelo menos no Brasil,
conforme revela a maior e mais minuciosa radiografia da
dor de cabeça já feita no país.
Patrocinados pelo laboratório Bristol-Myers Squibb,
2.042 especialistas do Hospital
das Clínicas da Universidade de São Paulo
e do Hospital Beneficência Portuguesa entrevistaram
5.490 pacientes, de 19 a 91 anos,
selecionados em consultórios e ambulatórios
de todo o país. A Dor de Cabeça no Brasil
revelou um cenário sombrio. Na terra da automedicação,
os pacientes engolem uma quantidade exagerada de remédios
(nem sempre os mais indicados) e demoram para procurar ajuda
especializada. Por insegurança e desinformação,
grande parte dos médicos adota condutas equivocadas
(ou erra no diagnóstico ou no tratamento, freqüentemente
em ambos). Os resultados podem ser desastrosos.
Desde que os primeiros hominídeos desceram das árvores,
4,5 milhões de anos atrás, nunca como agora
homens, mulheres e crianças conviveram tão
de perto e tão intensamente com a ansiedade, o stress
e a depressão. Os males da vida moderna não
são a causa, mas disparam o gatilho para a dor de
cabeça. "O ser humano não foi feito para agüentar
o ritmo imposto pelos tempos atuais", diz Edgard Raffaelli
Jr., um dos mais conceituados neurologistas brasileiros.
Dor é útil. Sem dor não haveria vida.
Funciona como sinal de alerta do organismo: "Ops... Calma
aí. Não exageremos". Do contrário,
a dor perde a utilidade. Tolerável, fácil
de ser debelada e pouco duradoura, a dor de cabeça
comum pode ser uma armadilha das mais traiçoeiras.
A grande ameaça não está na cefaléia
em si, mas no jeito como é tratada.
O Brasil é o segundo maior mercado consumidor de
analgésicos do mundo, com cerca de 500 milhões
de dólares movimentados anualmente. Só perde
para a China, com 1,3 bilhão de habitantes
uma população oito vezes maior que a nossa.
Tomamos muito remédio porque demoramos para nos medicar.
Simples, assim. "Dor de cabeça deve ser combatida
como incêndio: quanto mais cedo, melhor", compara
o neurologista Alberto Alain Gabbai, professor da Universidade
Federal de São Paulo. "Mas receitamos um comprimido
e os pacientes tomam meio, achando que é uma vantagem."
Um pouquinho agora, outro tantinho depois... até
o absurdo consumo de 3,5 doses de analgésico por
crise. Um estudo da Sociedade Brasileira de Cefaléia,
SBC, de 1998 mostra: mais da metade dos brasileiros só
toma remédio depois de uma hora do primeiro sintoma
de dor. Até lá, a cefaléia vai se instalando,
ficando cada vez mais forte e difícil de ser superada.
Quanto maior a crise, maior a quantidade de analgésicos
e maiores os riscos de dependência.
Processo de desintoxicação
Mais de três analgésicos, duas vezes por semana,
durante três meses, é o suficiente para que
aquela dorzinha se transforme em martírio. Não
há quem se vicie em cocaína? Pois há
quem se vicie em analgésicos. Isso mesmo, analgésicos.
"Precisar de doses cada vez maiores do medicamento para
o alívio da cefaléia é um sinal claro
do vício", diz o neurologista Carlos Alberto Bordini,
presidente da SBC. Quando alguém toma um analgésico,
desobriga o cérebro de produzir endorfina, a versão
da morfina fabricada pelo próprio organismo, uma
espécie de doping natural. O problema é que
o organismo pára de sintetizar sua endorfina se a
pessoa consome analgésicos sistematicamente. Afinal,
para que produzir se o remédio vem de fora? Mantido
o ritmo de um comprimido agora, outro logo em seguida, com
o tempo o organismo cria resistência aos medicamentos.
Desprotegido, o doente fica à mercê da dor
crônica e diária. Um desespero, com 2,5 milhões
de vítimas no Brasil. "A única forma de curar
o vício é suspender completa e abruptamente
o consumo de analgésicos", afirma o neurologista
Abouch Valenty Krymchantowski, do Centro de Avaliação
e Tratamento da Dor de Cabeça, no Rio de Janeiro.
No primeiro mês do processo de desintoxicação,
além da cefaléia constante, alguns pacientes
vivem os sintomas clássicos das crises de abstinência.
São acometidos de tremores, suores frios, agitação,
náuseas, vômitos e insônia. "Muitos precisam
ser internados para suportar essa fase", diz o doutor Krymchantowski.
Ansiedade sob controle
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Ricardo Benichio
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"Faço um tratamento preventivo à
base de antidepressivo. O remédio funciona
mas não é milagroso. Tenho de aprender
a controlar a ansiedade."
Sandro Giusti, 23
anos, estudante paulista
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Longo demais De cada dez pacientes, revela
A Dor de Cabeça no Brasil, sete sofrem até
cinco crises mensais. As pessoas levam em média cinco
anos antes de procurar ajuda médica para a dor de
cabeça constante. Até conseguem levar o trabalho
adiante, mas trabalham mal, irritadas, de péssimo
humor. E dá-lhe remédio. Outro problema: cerca
de 40% das pessoas tratam a dor de cabeça com medicamentos
errados. Recorrem sobretudo às drogas contra enxaqueca.
"Não funcionam para a cefaléia do tipo tensional",
decreta o doutor Getúlio Daré Rabello, chefe
do ambulatório de cefaléia do Hospital das
Clínicas de São Paulo. Além de não
encontrar alívio, o paciente fica sujeito a efeitos
colaterais mais sérios. E o que dizer do 1,31% de
pessoas que tentam debelar a dor com derivados de opiáceos?
Utilizados como analgésicos em casos específicos,
como em tratamentos pós-operatórios e de pacientes
vítimas de câncer, esses remédios podem
causar dependência se consumidos em doses superiores
a um comprimido por semana. "Muitas pessoas acham que dor
de cabeça é tudo igual e acabam tomando medicamentos
inadequados", diz o médico Marco Aurélio Lana
Peixoto, presidente da Sociedade Brasileira de Neuroftalmologia.
O terror do vício
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Renan
Cepeda
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"Por oito anos tomei meia dúzia de comprimidos
por dia. Fiquei viciada. Passei por uma desintoxicação.
Dor, hoje, duas vezes por mês."
Ofélia
Sabbagh, 46 anos, professora carioca
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Em 1988, a Sociedade Internacional de Cefaléia catalogou
mais de 150 tipos da doença. Até hoje, no
entanto, persiste o antigo mito de que dor de cabeça
é enxaqueca. O erro na medicação é
apenas uma das conseqüências da confusão.
De forte componente genético 75% dos pacientes
têm parentes sofredores do mesmo mal , a enxaqueca
não faz nem metade do número de vítimas
da dor de cabeça mais comum. Desperta, contudo, mais
atenção. "O impacto da enxaqueca é
muito maior", diz Daré Rabello. O suplício
que ela impõe a suas vítimas é aterrador
náuseas, vômito, formigamento das mãos,
vista embaralhada, raciocínio confuso, aversão
à luz, ao barulho e a odores fortes.
Apesar de mais comum, a cefaléia do tipo tensional
não é a mais fácil de diagnosticar.
Não tem um quadro clínico tão nítido
quanto a enxaqueca. Ou a cefaléia de pontadas e sobressaltos,
a dor súbita e forte, com duração de
segundos e que obriga o paciente a movimentar a cabeça
no sentido contrário ao da pontada. Ou orgásmica,
da qual os principais alvos são os homens e cujas
crises aparecem durante o ato sexual, principalmente quando
praticado de pé. Conforme o novo estudo, os médicos
tendem a pedir duas vezes mais exames para o diagnóstico
da dor de cabeça do tipo tensional do que para a
enxaqueca. Dos quatro exames mais solicitados, três
raio X do crânio, da coluna cervical e eletroencefalograma
têm pouca serventia no diagnóstico da
dor de cabeça comum. São de grande utilidade
para identificar doenças em que a dor de cabeça
é sintoma hipertensão e tumores cerebrais,
entre as mais graves. "É perfeitamente possível
diagnosticar a cefaléia do tipo tensional, tanto
episódica como crônica, sem esses exames",
afirma Raffaelli Jr.
Culpa do stress
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Eugenio
Sávio
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"As dores pioraram em 1996, quando sofri
dois abortos espontâneos. Chegavam a durar sete
dias seguidos. Com o sucesso da última gravidez,
reduziram."
Patrícia
Silveira, 37 anos, dentista mineira, com o filho
Uriel, de 11 meses
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"Borboletas" Na maioria das vezes, um médico
bem preparado é capaz de determinar a causa da cefaléia
sem toda essa parafernália. Basta que interrogue
o paciente minuciosamente e que saiba o que perguntar. Do
contrário, nada poderá fazer. E há
uma legião de aflitos em peregrinação
por ajuda. Oito em cada dez brasileiros visitam, em média,
três médicos até encontrar o alívio
desejado. São as chamadas "borboletas de consultório".
Algumas dessas "borboletas" chegam a procurar dez, até
quinze especialistas das mais diversas áreas
do clínico geral ao massagista. Quando o diagnóstico
é assinado por um não-especialista em dor
de cabeça, a avaliação tende a estar
errada em 93% dos casos.
Do ponto de vista orgânico, a cefaléia do
tipo tensional é caracterizada por um desequilíbrio
na química do cérebro. As flutuações
nos níveis das substâncias responsáveis
pela sensação de bem-estar e pela supressão
da dor aumentam a suscetibilidade aos episódios dolorosos.
No final dos anos 80, os antidepressivos começaram
a ser usados no tratamento profilático da dor de
cabeça. As drogas contra depressão, sobretudo
as mais antigas, os chamados tricíclicos, ajustam
a bioquímica cerebral. São, como se vê,
descobertas recentes. Até a década de 60,
acreditava-se que a dor de cabeça seria causada pela
tensão muscular daí o nome tensional. Errado.
A contração da musculatura é decorrente
da dor. E não a causa. Se a dor persiste, os músculos
contraídos agravam a sensação dolorosa.
Com os avanços nos conhecimentos científicos
sobre a dor de cabeça, as armas disponíveis
hoje para combatê-la são muitas e eficazes.
Além dos analgésicos e dos antidepressivos,
há o trabalho dos fisioterapeutas e psicólogos.
Os primeiros usam técnicas manuais de relaxamento
da musculatura da região cervical. Os segundos ensinam
o paciente a não se deixar abater tanto pelo stress
e pela ansiedade. Qualquer atividade que deixe a pessoa
mais relaxada é de grande ajuda contra a dor de cabeça
do tipo tensional. "Ioga e ginástica costumam surtir
efeito", diz o doutor Bordini, da Sociedade Brasileira de
Cefaléia. Os exercícios físicos, principalmente
os aeróbicos, como natação e caminhada,
estimulam a liberação da endorfina, o analgésico
natural. Mas é preciso praticá-los com prazer.
"Do contrário, só geram mais tensão",
adverte o neurologista.
As sociedades antigas viam a dor como uma intrusão
de fluidos mágicos. Não é mais preciso
rogar às divindades pelo alívio da dor de
cabeça. Ele pode ser encontrado de forma bem mais
simples. Basta não abusar dos medicamentos e tentar
se proteger contra o stress da vida moderna.
Ilustrações de
Anderson Marçal sobre foto de Paschoal Rodrigues