Edição 1 634 -2/2/2000

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A cabeça dói...

...e os brasileiros não sabem tratar o tipo
mais comum de cefaléia

Karina Pastore e Cristina Poles

O executivo vara a noite a preparar o relatório da empresa e a cabeça dói. A jovem senhora se desdobra para cuidar do escritório e das crianças e a cabeça dói. O garoto se entope de cafezinho por causa dos estudos e a cabeça dói. Feliz de quem nunca sentiu a cabeça doer. Feliz, não... abençoado, sobretudo no mundo estressante de hoje. A cabeça dói para 97% das pessoas. Pode não doer sempre, pode doer pouco, mas, em algum momento da vida, dói. Para a maioria, é como se uma faixa apertasse o crânio, de uma têmpora a outra. Cerca de 4,5 bilhões de pessoas em todo o mundo, 121 milhões no Brasil, conhecem a aflição. Descrito pela primeira vez em 3000 a.C., o mal-estar foi batizado de cefaléia do tipo tensional episódica – nome pomposo para a dor de cabeça mais comum. Era de esperar que a humanidade já soubesse como enfrentar tormento tão vulgar e antigo. Mas não sabe. Pelo menos no Brasil, conforme revela a maior e mais minuciosa radiografia da dor de cabeça já feita no país.

Patrocinados pelo laboratório Bristol-Myers Squibb, 2.042 especialistas do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e do Hospital Beneficência Portuguesa entrevistaram 5.490 pacientes, de 19 a 91 anos, selecionados em consultórios e ambulatórios de todo o país. A Dor de Cabeça no Brasil revelou um cenário sombrio. Na terra da automedicação, os pacientes engolem uma quantidade exagerada de remédios (nem sempre os mais indicados) e demoram para procurar ajuda especializada. Por insegurança e desinformação, grande parte dos médicos adota condutas equivocadas (ou erra no diagnóstico ou no tratamento, freqüentemente em ambos). Os resultados podem ser desastrosos.

Desde que os primeiros hominídeos desceram das árvores, 4,5 milhões de anos atrás, nunca como agora homens, mulheres e crianças conviveram tão de perto e tão intensamente com a ansiedade, o stress e a depressão. Os males da vida moderna não são a causa, mas disparam o gatilho para a dor de cabeça. "O ser humano não foi feito para agüentar o ritmo imposto pelos tempos atuais", diz Edgard Raffaelli Jr., um dos mais conceituados neurologistas brasileiros. Dor é útil. Sem dor não haveria vida. Funciona como sinal de alerta do organismo: "Ops... Calma aí. Não exageremos". Do contrário, a dor perde a utilidade. Tolerável, fácil de ser debelada e pouco duradoura, a dor de cabeça comum pode ser uma armadilha das mais traiçoeiras. A grande ameaça não está na cefaléia em si, mas no jeito como é tratada.

O Brasil é o segundo maior mercado consumidor de analgésicos do mundo, com cerca de 500 milhões de dólares movimentados anualmente. Só perde para a China, com 1,3 bilhão de habitantes – uma população oito vezes maior que a nossa. Tomamos muito remédio porque demoramos para nos medicar. Simples, assim. "Dor de cabeça deve ser combatida como incêndio: quanto mais cedo, melhor", compara o neurologista Alberto Alain Gabbai, professor da Universidade Federal de São Paulo. "Mas receitamos um comprimido e os pacientes tomam meio, achando que é uma vantagem." Um pouquinho agora, outro tantinho depois... até o absurdo consumo de 3,5 doses de analgésico por crise. Um estudo da Sociedade Brasileira de Cefaléia, SBC, de 1998 mostra: mais da metade dos brasileiros só toma remédio depois de uma hora do primeiro sintoma de dor. Até lá, a cefaléia vai se instalando, ficando cada vez mais forte e difícil de ser superada. Quanto maior a crise, maior a quantidade de analgésicos e maiores os riscos de dependência.

Processo de desintoxicação – Mais de três analgésicos, duas vezes por semana, durante três meses, é o suficiente para que aquela dorzinha se transforme em martírio. Não há quem se vicie em cocaína? Pois há quem se vicie em analgésicos. Isso mesmo, analgésicos. "Precisar de doses cada vez maiores do medicamento para o alívio da cefaléia é um sinal claro do vício", diz o neurologista Carlos Alberto Bordini, presidente da SBC. Quando alguém toma um analgésico, desobriga o cérebro de produzir endorfina, a versão da morfina fabricada pelo próprio organismo, uma espécie de doping natural. O problema é que o organismo pára de sintetizar sua endorfina se a pessoa consome analgésicos sistematicamente. Afinal, para que produzir se o remédio vem de fora? Mantido o ritmo de um comprimido agora, outro logo em seguida, com o tempo o organismo cria resistência aos medicamentos. Desprotegido, o doente fica à mercê da dor crônica e diária. Um desespero, com 2,5 milhões de vítimas no Brasil. "A única forma de curar o vício é suspender completa e abruptamente o consumo de analgésicos", afirma o neurologista Abouch Valenty Krymchantowski, do Centro de Avaliação e Tratamento da Dor de Cabeça, no Rio de Janeiro. No primeiro mês do processo de desintoxicação, além da cefaléia constante, alguns pacientes vivem os sintomas clássicos das crises de abstinência. São acometidos de tremores, suores frios, agitação, náuseas, vômitos e insônia. "Muitos precisam ser internados para suportar essa fase", diz o doutor Krymchantowski.

 

Ansiedade sob controle

Ricardo Benichio


"Faço um tratamento preventivo à base de antidepressivo. O remédio funciona mas não é milagroso. Tenho de aprender a controlar a ansiedade."


Sandro Giusti, 23 anos, estudante paulista

Longo demais – De cada dez pacientes, revela A Dor de Cabeça no Brasil, sete sofrem até cinco crises mensais. As pessoas levam em média cinco anos antes de procurar ajuda médica para a dor de cabeça constante. Até conseguem levar o trabalho adiante, mas trabalham mal, irritadas, de péssimo humor. E dá-lhe remédio. Outro problema: cerca de 40% das pessoas tratam a dor de cabeça com medicamentos errados. Recorrem sobretudo às drogas contra enxaqueca. "Não funcionam para a cefaléia do tipo tensional", decreta o doutor Getúlio Daré Rabello, chefe do ambulatório de cefaléia do Hospital das Clínicas de São Paulo. Além de não encontrar alívio, o paciente fica sujeito a efeitos colaterais mais sérios. E o que dizer do 1,31% de pessoas que tentam debelar a dor com derivados de opiáceos? Utilizados como analgésicos em casos específicos, como em tratamentos pós-operatórios e de pacientes vítimas de câncer, esses remédios podem causar dependência se consumidos em doses superiores a um comprimido por semana. "Muitas pessoas acham que dor de cabeça é tudo igual e acabam tomando medicamentos inadequados", diz o médico Marco Aurélio Lana Peixoto, presidente da Sociedade Brasileira de Neuroftalmologia.

 

O terror do vício

Renan Cepeda


"Por oito anos tomei meia dúzia de comprimidos por dia. Fiquei viciada. Passei por uma desintoxicação. Dor, hoje, duas vezes por mês."

Ofélia Sabbagh, 46 anos, professora carioca

Em 1988, a Sociedade Internacional de Cefaléia catalogou mais de 150 tipos da doença. Até hoje, no entanto, persiste o antigo mito de que dor de cabeça é enxaqueca. O erro na medicação é apenas uma das conseqüências da confusão. De forte componente genético – 75% dos pacientes têm parentes sofredores do mesmo mal – , a enxaqueca não faz nem metade do número de vítimas da dor de cabeça mais comum. Desperta, contudo, mais atenção. "O impacto da enxaqueca é muito maior", diz Daré Rabello. O suplício que ela impõe a suas vítimas é aterrador – náuseas, vômito, formigamento das mãos, vista embaralhada, raciocínio confuso, aversão à luz, ao barulho e a odores fortes.

Apesar de mais comum, a cefaléia do tipo tensional não é a mais fácil de diagnosticar. Não tem um quadro clínico tão nítido quanto a enxaqueca. Ou a cefaléia de pontadas e sobressaltos, a dor súbita e forte, com duração de segundos e que obriga o paciente a movimentar a cabeça no sentido contrário ao da pontada. Ou orgásmica, da qual os principais alvos são os homens e cujas crises aparecem durante o ato sexual, principalmente quando praticado de pé. Conforme o novo estudo, os médicos tendem a pedir duas vezes mais exames para o diagnóstico da dor de cabeça do tipo tensional do que para a enxaqueca. Dos quatro exames mais solicitados, três – raio X do crânio, da coluna cervical e eletroencefalograma – têm pouca serventia no diagnóstico da dor de cabeça comum. São de grande utilidade para identificar doenças em que a dor de cabeça é sintoma – hipertensão e tumores cerebrais, entre as mais graves. "É perfeitamente possível diagnosticar a cefaléia do tipo tensional, tanto episódica como crônica, sem esses exames", afirma Raffaelli Jr.

 

Culpa do stress

Eugenio Sávio


"As dores pioraram em 1996, quando sofri dois abortos espontâneos. Chegavam a durar sete dias seguidos. Com o sucesso da última gravidez, reduziram."

Patrícia Silveira, 37 anos, dentista mineira, com o filho Uriel, de 11 meses

"Borboletas" – Na maioria das vezes, um médico bem preparado é capaz de determinar a causa da cefaléia sem toda essa parafernália. Basta que interrogue o paciente minuciosamente e que saiba o que perguntar. Do contrário, nada poderá fazer. E há uma legião de aflitos em peregrinação por ajuda. Oito em cada dez brasileiros visitam, em média, três médicos até encontrar o alívio desejado. São as chamadas "borboletas de consultório". Algumas dessas "borboletas" chegam a procurar dez, até quinze especialistas das mais diversas áreas – do clínico geral ao massagista. Quando o diagnóstico é assinado por um não-especialista em dor de cabeça, a avaliação tende a estar errada em 93% dos casos.

Do ponto de vista orgânico, a cefaléia do tipo tensional é caracterizada por um desequilíbrio na química do cérebro. As flutuações nos níveis das substâncias responsáveis pela sensação de bem-estar e pela supressão da dor aumentam a suscetibilidade aos episódios dolorosos. No final dos anos 80, os antidepressivos começaram a ser usados no tratamento profilático da dor de cabeça. As drogas contra depressão, sobretudo as mais antigas, os chamados tricíclicos, ajustam a bioquímica cerebral. São, como se vê, descobertas recentes. Até a década de 60, acreditava-se que a dor de cabeça seria causada pela tensão muscular – daí o nome tensional. Errado. A contração da musculatura é decorrente da dor. E não a causa. Se a dor persiste, os músculos contraídos agravam a sensação dolorosa.

Com os avanços nos conhecimentos científicos sobre a dor de cabeça, as armas disponíveis hoje para combatê-la são muitas e eficazes. Além dos analgésicos e dos antidepressivos, há o trabalho dos fisioterapeutas e psicólogos. Os primeiros usam técnicas manuais de relaxamento da musculatura da região cervical. Os segundos ensinam o paciente a não se deixar abater tanto pelo stress e pela ansiedade. Qualquer atividade que deixe a pessoa mais relaxada é de grande ajuda contra a dor de cabeça do tipo tensional. "Ioga e ginástica costumam surtir efeito", diz o doutor Bordini, da Sociedade Brasileira de Cefaléia. Os exercícios físicos, principalmente os aeróbicos, como natação e caminhada, estimulam a liberação da endorfina, o analgésico natural. Mas é preciso praticá-los com prazer. "Do contrário, só geram mais tensão", adverte o neurologista.

As sociedades antigas viam a dor como uma intrusão de fluidos mágicos. Não é mais preciso rogar às divindades pelo alívio da dor de cabeça. Ele pode ser encontrado de forma bem mais simples. Basta não abusar dos medicamentos e tentar se proteger contra o stress da vida moderna.

 

Ilustrações de Anderson Marçal sobre foto de Paschoal Rodrigues

 

Com reportagem de Daniella Camargos, de Belo Horizonte