Parabéns para mim
Ilustração Alê Setti
Estou
completando um ano de coluna em VEJA. Parabéns para
mim. Pode parecer moleza o trabalho de preencher dois terços
de página semanalmente, mas eu sempre tenho dificuldade
para encontrar assuntos. Isso faz com que eu viva em função
da coluna. Quando abro um jornal, por exemplo, já
não me importa saber quantos civis os russos mataram
na Chechênia, mas apenas se a notícia rende
ou não um parágrafo. O mesmo acontece nas
minhas relações humanas. Muitas vezes, numa
conversa, ouço algo que me inspira um artigo e simplesmente
me abstraio, deixando a pessoa falar sozinha enquanto componho
frases isoladas na cabeça.
O fato é que, antes de começar a escrever
aqui, eu tinha poucas idéias a respeito de poucas
coisas. Agora, tenho um excesso de idéias sobre quase
tudo. No decorrer desse ano, tratei de temas tão
disparatados quanto a influência dos evangélicos
numa tribo de índios do Pará, a pintura da
Renascença, a feiúra das nossas cidades, a
literatura de Thomas Bernhard, os alimentos transgênicos,
os insultos que costumo receber por parte dos leitores.
Em todas essas circunstâncias, sempre me deixei levar
por opiniões extremas. Porque essa é outra
característica do trabalho de colunista: contrariando
meu temperamento comedido, tolerante, pacato, transformo-me
num insuportável histrião palpiteiro toda
vez que me detenho a pensar por mais de cinco minutos acerca
de algum argumento.
Para comemorar esse primeiro ano de coluna, resolvi abandonar
o meu doce refúgio italiano e passar duas semanas
no Brasil. A primeira coisa que me ocorreu, ao desembarcar
em solo pátrio, é que eu não sou o
único insuportável histrião palpiteiro
da parada. Eu nunca tinha me dado conta, mas todo mundo
neste país é igual a mim, cheio de idéias
e opiniões extremas sobre as coisas. Não me
refiro somente ao ex-presidente da República que,
tomando cerveja no bar da esquina, sugere jogar bombas atômicas
nas favelas, mas àquele estado de ânimo coletivo
que oscila de acordo com o momento. Quando visitei o Brasil
pela última vez, um ano atrás, meus interlocutores
defendiam obstinadamente o real sobrevalorizado da mesma
maneira que agora defendem o câmbio flutuante e, no
passado, defenderam o confisco da poupança ou uma
daquelas quatro ou cinco moedas que inventaram desde que
decidi fazer as malas e ir embora do país.
Por menos que eu queira, esse radicalismo volúvel
e irresponsável é meu traço mais genuinamente
nacional. Nesse ponto, invejo os americanos. Não
sei se você chegou a ver a notícia, mas uma
pesquisa de opinião nos Estados Unidos revelou que
sete entre dez eleitores desejam que o próximo presidente
dê "passos pequenos e firmes" para resolver os problemas
do país, e só um em cada cinco estaria disposto
a votar em alguém que tivesse "idéias grandes
e novas". Juro que eu também gostaria de ser assim.
Passos pequenos e firmes. Mas, infelizmente, sou igual a
você. Um insuportável histrião palpiteiro.