Edição 1 634 -2/2/2000

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Parabéns para mim

Ilustração Alê Setti
Estou completando um ano de coluna em VEJA. Parabéns para mim. Pode parecer moleza o trabalho de preencher dois terços de página semanalmente, mas eu sempre tenho dificuldade para encontrar assuntos. Isso faz com que eu viva em função da coluna. Quando abro um jornal, por exemplo, já não me importa saber quantos civis os russos mataram na Chechênia, mas apenas se a notícia rende ou não um parágrafo. O mesmo acontece nas minhas relações humanas. Muitas vezes, numa conversa, ouço algo que me inspira um artigo e simplesmente me abstraio, deixando a pessoa falar sozinha enquanto componho frases isoladas na cabeça.

O fato é que, antes de começar a escrever aqui, eu tinha poucas idéias a respeito de poucas coisas. Agora, tenho um excesso de idéias sobre quase tudo. No decorrer desse ano, tratei de temas tão disparatados quanto a influência dos evangélicos numa tribo de índios do Pará, a pintura da Renascença, a feiúra das nossas cidades, a literatura de Thomas Bernhard, os alimentos transgênicos, os insultos que costumo receber por parte dos leitores. Em todas essas circunstâncias, sempre me deixei levar por opiniões extremas. Porque essa é outra característica do trabalho de colunista: contrariando meu temperamento comedido, tolerante, pacato, transformo-me num insuportável histrião palpiteiro toda vez que me detenho a pensar por mais de cinco minutos acerca de algum argumento.

Para comemorar esse primeiro ano de coluna, resolvi abandonar o meu doce refúgio italiano e passar duas semanas no Brasil. A primeira coisa que me ocorreu, ao desembarcar em solo pátrio, é que eu não sou o único insuportável histrião palpiteiro da parada. Eu nunca tinha me dado conta, mas todo mundo neste país é igual a mim, cheio de idéias e opiniões extremas sobre as coisas. Não me refiro somente ao ex-presidente da República que, tomando cerveja no bar da esquina, sugere jogar bombas atômicas nas favelas, mas àquele estado de ânimo coletivo que oscila de acordo com o momento. Quando visitei o Brasil pela última vez, um ano atrás, meus interlocutores defendiam obstinadamente o real sobrevalorizado da mesma maneira que agora defendem o câmbio flutuante e, no passado, defenderam o confisco da poupança ou uma daquelas quatro ou cinco moedas que inventaram desde que decidi fazer as malas e ir embora do país.

Por menos que eu queira, esse radicalismo volúvel e irresponsável é meu traço mais genuinamente nacional. Nesse ponto, invejo os americanos. Não sei se você chegou a ver a notícia, mas uma pesquisa de opinião nos Estados Unidos revelou que sete entre dez eleitores desejam que o próximo presidente dê "passos pequenos e firmes" para resolver os problemas do país, e só um em cada cinco estaria disposto a votar em alguém que tivesse "idéias grandes e novas". Juro que eu também gostaria de ser assim. Passos pequenos e firmes. Mas, infelizmente, sou igual a você. Um insuportável histrião palpiteiro.