Edição 1 634 -2/2/2000

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Sexo só atrapalha

A autora de Mulher Solteira Procura Homem Impotente diz que eles não conseguem entender o que elas querem porque só pensam naquilo

Isabela Boscov

Qualquer mulher sabe que um príncipe encantado tem de ser bonito, gentil, inteligente e sedutor. A escritora alemã Gaby Hauptmann conseguiu transformar um pequeno livro em best-seller, acrescentando uma característica inusitada à lista: impotente. Com mais de 3 milhões de cópias vendidas apenas na Alemanha e traduzido para quase trinta países, o romance Mulher Solteira Procura Homem Impotente para Relacionamento Sério, lançado agora no Brasil, conta a história de uma jovem bem-sucedida, Carmen Legg, que se cansa dos parceiros que só pensam naquilo e publica um anúncio nos jornais buscando um companheiro que não tenha a menor chance de assediá-la. O que Carmen quer é um homem que curta praticar aquele curiosíssimo esporte feminino: discutir a relação. A escritora diz que jamais pensou em tomar uma atitude semelhante à de sua personagem, mas defende que o sexo é o pivô dos desencontros entre homens e mulheres – na maioria das vezes, por culpa deles, que se preocupam demais com os efeitos pirotécnicos da própria virilidade. Gaby, que tem 42 anos e é mãe de uma menina de 8, nunca se casou, e nem pretende fazê-lo. "Estou melhor assim", afirma. A autora deu a seguinte entrevista a VEJA.

Veja – O que querem as mulheres?
Gaby –
Querem um homem que possa controlar sua potência sexual e que saiba o que fazer com ela. Recebo cartas de mulheres de todas as partes do mundo concordando num ponto: para a maioria dos seus parceiros, a solução para qualquer problema de relacionamento é sexo, sexo e mais sexo. A mulher quer conversar, discutir. Já o homem acha que, se forem para a cama, tudo vai ficar bem. Não entendem que uma parceria tem de ir além do sexo. Um homem de verdade tem de se preocupar com os anseios de sua mulher, e não só com os seus 12 centímetros de masculinidade.  

Veja – Não é uma visão estereotipada acreditar que tudo o que os homens buscam em um relacionamento é sexo?
Gaby –
Eles de fato não sabem o que as mulheres querem. O problema central do meu livro é o "não" na cama. Se uma mulher chega em casa cansada demais para fazer sexo, seu parceiro se ofende. Não consegue entender que não se trata de uma recusa à sua pessoa. Quando uma mulher recebe uma negativa dessas, ela é capaz de perceber que o marido talvez esteja exausto demais para o amor. O homem, por sua vez, sempre sai à cata de uma outra explicação: pensa que talvez esteja sendo traído ou acha que já não é mais desejado. Assim, para evitar brigas, muitas mulheres acabam concordando em fazer sexo, mesmo sem ter a menor vontade.  

Veja – A senhora coloca os maridos como sátiros insaciáveis, mas em geral o que se ouve é o contrário: mulheres reclamando de maridos desinteressados, que preferem trair a satisfazer as esposas.
Gaby –
Bem, nunca fui casada. É possível que os homens busquem coisas diferentes numa amante e numa esposa. Mas não consigo imaginar que um homem não queira fazer sexo com sua mulher. O contrário é mais provável. Uma mulher só gosta do sexo quando esse desejo encontra eco no seu coração e nos seus sentimentos. Num relacionamento estável há, ainda, outros fatores. Por exemplo, as mudanças por que passa o desejo sexual da mulher após o nascimento de um filho. Ela pode não querer mais ir para a cama com a freqüência de antes, e o homem custa a entender essas alterações hormonais. Ele sempre precisa de menos razões do que a mulher para fazer sexo.  

Veja – Como a senhora supõe que as mulheres se sentiriam se os homens simplesmente parassem de manifestar qualquer interesse sexual por elas?
Gaby –
É importante que os homens manifestem seu interesse pelas mulheres, mas não só o sexual. Sexo é diversão, é vida, mas não pode ser o único componente do desejo.

Veja – No jogo da sedução, a mulher está deixando de ser "caça" para se tornar "caçadora". Por quê?
Gaby –
Porque ela está descobrindo que, ao inverter os papéis, tem a chance de imprimir seu próprio ritmo a um relacionamento. Veja o exemplo de Carmen, a protagonista de meu livro. Ela é muito sensual, e todos os homens se sentem atraídos por ela. Mas Carmen está cansada de ser a presa. Gostaria de desempenhar um pouco o papel do caçador: decidir com quem quer fazer sexo, sem se limitar a aceitar ou recusar uma investida. Eu pessoalmente prefiro que a decisão caiba a mim.

Veja – A senhora diria que essa nova atitude é conseqüência do movimento feminista?
Gaby –
Provavelmente. Mas hoje o feminismo tem mais humor do que há vinte anos, digamos. Não se trata só de culpar os homens, mas sim de fazer com que mulheres e homens encontrem juntos uma solução para seus problemas.  

Veja – É comum ouvir que o feminismo é coisa de mulheres feias ou mal-amadas. O que a senhora acha dessas afirmações?
Gaby –
Os homens realmente gostariam que fosse assim. Posso imaginar um grupo sentado num bar, bebendo cerveja e dizendo: "Se uma mulher não consegue arrumar um namorado, é natural que ela seja contra os homens!" Mas há muitas mulheres belas, sérias e bem-sucedidas que são feministas. O feminismo não é uma ameaça para todos os homens. Só para aqueles cuja potência se resume ao que têm dentro das calças.  

Veja – Mulheres bonitas e feias têm os mesmos problemas em relação aos homens?
Gaby –
É claro que não. Mas analise a questão de outro ângulo. Basta olhar em volta para perceber que nem todo homem é um Adônis. Muitos nem devem ter espelho em casa: medem cada mulher como se pudessem escolher. A maioria não tem esse privilégio. Então, a questão da beleza não é realmente fundamental. Há mulheres magras e gordas, altas e baixas, feias e bonitas, brancas e negras – e o mesmo vale para os homens. Com a maturidade, percebe-se que essas características não são decisivas na escolha de um parceiro. Se fossem, o mundo seria povoado por solitárias e solitários.

Veja – Em várias ocasiões, a protagonista de seu livro tira proveito da sensualidade – para fechar contratos, por exemplo, ou para conseguir uma atenção especial num restaurante. Por que então ela se incomoda tanto com o fato de os homens a desejarem?
Gaby –
Esse é um jogo plenamente aceito na sociedade, e ao qual os homens também recorrem com freqüência. Há uma diferença fundamental entre a vida social e a pessoal. No primeiro caso, é possível bancar a atriz, sem que isso cause maiores sofrimentos. Na vida pessoal, não. É importante poder vestir uma roupa velha em casa sem que o namorado reclame. Não dá para ficar representando o tempo todo o papel de fêmea dos sonhos de um macho voraz. Acredito ser essa a razão pela qual tantos relacionamentos acabam tão rápido.  

Veja – Qual seria o homem ideal?
Gaby –
A maioria das mulheres procura um homem para toda a vida. Para isso, querem que ele seja generoso, tenha um bom caráter e uma boa situação profissional. A harmonia sexual não é prioridade. O ideal seria ter dois homens – um para a vida cotidiana e outro para o sexo. Muitas mulheres não têm uma situação financeira que lhes permita escolher um parceiro pelo critério do sexo. Elas ganham menos do que os homens e ainda têm de gastar mais do que eles – no cabeleireiro, nas roupas etc. O fator dinheiro, então, pesa muito na escolha do parceiro. Mas depois de um tempo elas não querem mais saber de sexo com o marido, porque não é o homem que verdadeiramente desejam. Deixam de ser felizes não só na cama, mas também na vida.

Veja – Um dos sonhos femininos, segundo a senhora, é passar a noite deitada no sofá, metida em roupas velhas, assistindo a um bom filme romântico na televisão. Uma mulher pode ser feliz sem ter um homem para chamar de seu?
Gaby –
É claro. Se você não encontrar um homem com que tenha empatia, talvez seja melhor mesmo ficar sozinha, confortável em casa, com uma boa amiga ao telefone.

Veja – Há homens capazes de enfrentar a humilhação de admitir a impotência, ou de fazer-se passar por impotentes, como em seu livro, para conquistar o coração de uma mulher?
Gaby –
Não, isso só existe na ficção. Não é o homem que possui um pênis, é o pênis que possui o homem. No caso do meu livro, contudo, o personagem que finge ser impotente aprende muito com essa experiência. Isso o obriga a pensar em outros meios de agradar a uma mulher que não envolvam o sexo. Talvez devêssemos incluir algo assim no currículo das escolas – cinco ou seis semanas de impotência obrigatória.

Veja – A senhora diz que, para os homens, potência sexual e poder são equivalentes. Isso também não é válido para as mulheres? Como se sentiria uma mulher que se tornasse sexualmente incapacitada?
Gaby –
A não ser em caso de doença, não há mulheres sexualmente incapacitadas. Esse é um mito masculino. Várias mulheres se queixam de que não têm prazer com seu parceiro. Dê a elas o amante certo, faça com que elas se apaixonem e os problemas sexuais acabam. Ao contrário dos homens, as mulheres não precisam alardear suas proezas sexuais para se sentirem completas. Já os homens freqüentemente se definem por sua sexualidade. Orgulhar-se do tamanho de seu pênis, fazer sexo seis vezes numa noite, isso é o que conta para eles.  

Veja – O mundo não seria muito tedioso se homens e mulheres tivessem exatamente os mesmos pontos de vista sobre a vida, o amor e o sexo?
Gaby –
De fato, seria. Eles falam línguas distintas, e me divirto observando essas diferenças. Os homens não entendem as mulheres, e as mulheres não entendem os homens – e é isso que torna tudo interessante.

Veja – Por que a senhora não se casou?
Gaby –
Durante toda a minha vida acreditei que o casamento me paralisaria, me deixaria no meio do meu caminho. Lembro-me nitidamente de que na primeira vez em que fui pedida em casamento, aos 23 anos, pensei: "Se eu aceitar, aqui começa o fim da minha vida". Por isso nunca quis me casar. Mudei várias vezes de cidade no curso de minha carreira – e a cada vez mudava também de namorado. Agora tenho um rumo bem estabelecido e encontrei minha paz, sou eu mesma. Mas nunca teria sido a mulher que me tornei se tivesse um marido.

Veja – A senhora consegue se imaginar casada algum dia?
Gaby –
Talvez aos 80 anos eu tente encontrar um rapaz de 20 anos que se interesse em ficar comigo. Fora de brincadeira, há pouco mais de um ano tenho um ótimo parceiro e estou muito apaixonada. Mas todas as coisas têm um fim na vida, e não sei o que o futuro reserva. Por isso prefiro ser cuidadosa.  

Veja – A maioria das pessoas tem medo de ficar sozinha na velhice. A senhora pensa nisso?
Gaby –
Não. Tenho tantas coisas a fazer que nunca penso na minha idade. Tanto que confesso meus 42 anos sem o menor constrangimento. Às vezes até digo que sou mais velha, para que me achem bem conservada. O segredo é não desistir da vida. E isso pode acontecer tanto na velhice quanto na juventude.  

Veja – Sua filha de 8 anos tem um relacionamento próximo com o pai?
Gaby –
Tive muitos homens na vida, e permaneço amiga de todos os meus ex. Se houve amor, não há razão para que ele deva se transformar em hostilidade. Mas o pai verdadeiro dela foi um caso passageiro. Veja só, com tantos relacionamentos, foi de um tão breve que engravidei... Logo depois conheci um homem que foi meu parceiro durante seis anos, e é ele que minha filha considera pai, embora nunca tenhamos morado na mesma cidade. Recentemente, fizemos um cruzeiro os três juntos, porque minha filha gosta de tê-lo por perto. E meu namorado não se importa, porque sabe que não há mais nada entre meu ex e eu.  

Veja – A senhora esteve no Brasil antes de escrever seu livro. Nele há uma personagem que acaba de voltar de férias do Rio de Janeiro e descreve os brasileiros como "morenos, baixinhos e quase todos homossexuais". Tirou essa impressão de sua viagem?
Gaby –
Não, de forma alguma. Isso não tem nada a ver com minhas impressões do Brasil. Acontece que a personagem está atravessando um momento difícil e se encontra muito mal-humorada. Tivesse ela voltado de Los Angeles ou da Tailândia, teria dito algo do mesmo teor.  

Veja – Já ocorreu à senhora publicar nos jornais um anúncio semelhante ao do livro, procurando por um homem impotente?
Gaby –
Não. Primeiro, porque nunca quis necessariamente ter um parceiro estável. E, depois... Bem, eu gosto de sexo.