Sexo só atrapalha
A autora de Mulher Solteira Procura
Homem Impotente diz que eles não conseguem entender
o que elas querem porque só pensam naquilo
Isabela Boscov
Qualquer mulher sabe que um príncipe encantado
tem de ser bonito, gentil, inteligente e sedutor. A escritora
alemã Gaby Hauptmann conseguiu transformar um pequeno
livro em best-seller, acrescentando uma característica
inusitada à lista: impotente. Com mais de 3 milhões
de cópias vendidas apenas na Alemanha e traduzido
para quase trinta países, o romance Mulher Solteira
Procura Homem Impotente para Relacionamento Sério,
lançado agora no Brasil, conta a história
de uma jovem bem-sucedida, Carmen Legg, que se cansa dos
parceiros que só pensam naquilo e publica um anúncio
nos jornais buscando um companheiro que não tenha
a menor chance de assediá-la. O que Carmen quer é
um homem que curta praticar aquele curiosíssimo esporte
feminino: discutir a relação. A escritora
diz que jamais pensou em tomar uma atitude semelhante à
de sua personagem, mas defende que o sexo é o pivô
dos desencontros entre homens e mulheres na maioria das
vezes, por culpa deles, que se preocupam demais com os efeitos
pirotécnicos da própria virilidade. Gaby,
que tem 42 anos e é mãe de uma menina de 8,
nunca se casou, e nem pretende fazê-lo. "Estou melhor
assim", afirma. A autora deu a seguinte entrevista a VEJA.
Veja O que querem as mulheres?
Gaby Querem um homem que possa controlar sua
potência sexual e que saiba o que fazer com ela. Recebo
cartas de mulheres de todas as partes do mundo concordando
num ponto: para a maioria dos seus parceiros, a solução
para qualquer problema de relacionamento é sexo,
sexo e mais sexo. A mulher quer conversar, discutir. Já
o homem acha que, se forem para a cama, tudo vai ficar bem.
Não entendem que uma parceria tem de ir além
do sexo. Um homem de verdade tem de se preocupar com os
anseios de sua mulher, e não só com os seus
12 centímetros de masculinidade.
Veja Não é uma visão estereotipada
acreditar que tudo o que os homens buscam em um relacionamento
é sexo?
Gaby Eles de fato não sabem o que as mulheres
querem. O problema central do meu livro é o "não"
na cama. Se uma mulher chega em casa cansada demais para
fazer sexo, seu parceiro se ofende. Não consegue
entender que não se trata de uma recusa à
sua pessoa. Quando uma mulher recebe uma negativa dessas,
ela é capaz de perceber que o marido talvez esteja
exausto demais para o amor. O homem, por sua vez, sempre
sai à cata de uma outra explicação:
pensa que talvez esteja sendo traído ou acha que
já não é mais desejado. Assim, para
evitar brigas, muitas mulheres acabam concordando em fazer
sexo, mesmo sem ter a menor vontade.
Veja A senhora coloca os maridos como sátiros
insaciáveis, mas em geral o que se ouve é
o contrário: mulheres reclamando de maridos desinteressados,
que preferem trair a satisfazer as esposas.
Gaby Bem, nunca fui casada. É possível
que os homens busquem coisas diferentes numa amante e numa
esposa. Mas não consigo imaginar que um homem não
queira fazer sexo com sua mulher. O contrário é
mais provável. Uma mulher só gosta do sexo
quando esse desejo encontra eco no seu coração
e nos seus sentimentos. Num relacionamento estável
há, ainda, outros fatores. Por exemplo, as mudanças
por que passa o desejo sexual da mulher após o nascimento
de um filho. Ela pode não querer mais ir para a cama
com a freqüência de antes, e o homem custa a
entender essas alterações hormonais. Ele sempre
precisa de menos razões do que a mulher para fazer
sexo.
Veja Como a senhora supõe que as mulheres
se sentiriam se os homens simplesmente parassem de manifestar
qualquer interesse sexual por elas?
Gaby É importante que os homens manifestem
seu interesse pelas mulheres, mas não só o
sexual. Sexo é diversão, é vida, mas
não pode ser o único componente do desejo.
Veja No jogo da sedução, a mulher
está deixando de ser "caça" para se tornar
"caçadora". Por quê?
Gaby Porque ela está descobrindo que,
ao inverter os papéis, tem a chance de imprimir seu
próprio ritmo a um relacionamento. Veja o exemplo
de Carmen, a protagonista de meu livro. Ela é muito
sensual, e todos os homens se sentem atraídos por
ela. Mas Carmen está cansada de ser a presa. Gostaria
de desempenhar um pouco o papel do caçador: decidir
com quem quer fazer sexo, sem se limitar a aceitar ou recusar
uma investida. Eu pessoalmente prefiro que a decisão
caiba a mim.
Veja A senhora diria que essa nova atitude é
conseqüência do movimento feminista?
Gaby Provavelmente. Mas hoje o feminismo tem
mais humor do que há vinte anos, digamos. Não
se trata só de culpar os homens, mas sim de fazer
com que mulheres e homens encontrem juntos uma solução
para seus problemas.
Veja É comum ouvir que o feminismo é
coisa de mulheres feias ou mal-amadas. O que a senhora acha
dessas afirmações?
Gaby Os homens realmente gostariam que fosse
assim. Posso imaginar um grupo sentado num bar, bebendo
cerveja e dizendo: "Se uma mulher não consegue arrumar
um namorado, é natural que ela seja contra os homens!"
Mas há muitas mulheres belas, sérias e bem-sucedidas
que são feministas. O feminismo não é
uma ameaça para todos os homens. Só para aqueles
cuja potência se resume ao que têm dentro das
calças.
Veja Mulheres bonitas e feias têm os mesmos
problemas em relação aos homens?
Gaby É claro que não. Mas analise
a questão de outro ângulo. Basta olhar em volta
para perceber que nem todo homem é um Adônis.
Muitos nem devem ter espelho em casa: medem cada mulher
como se pudessem escolher. A maioria não tem esse
privilégio. Então, a questão da beleza
não é realmente fundamental. Há mulheres
magras e gordas, altas e baixas, feias e bonitas, brancas
e negras e o mesmo vale para os homens. Com a maturidade,
percebe-se que essas características não são
decisivas na escolha de um parceiro. Se fossem, o mundo
seria povoado por solitárias e solitários.
Veja Em várias ocasiões, a protagonista
de seu livro tira proveito da sensualidade para fechar
contratos, por exemplo, ou para conseguir uma atenção
especial num restaurante. Por que então ela se incomoda
tanto com o fato de os homens a desejarem?
Gaby Esse é um jogo plenamente aceito
na sociedade, e ao qual os homens também recorrem
com freqüência. Há uma diferença
fundamental entre a vida social e a pessoal. No primeiro
caso, é possível bancar a atriz, sem que isso
cause maiores sofrimentos. Na vida pessoal, não.
É importante poder vestir uma roupa velha em casa
sem que o namorado reclame. Não dá para ficar
representando o tempo todo o papel de fêmea dos sonhos
de um macho voraz. Acredito ser essa a razão pela
qual tantos relacionamentos acabam tão rápido.
Veja Qual seria o homem ideal?
Gaby A maioria das mulheres procura um homem
para toda a vida. Para isso, querem que ele seja generoso,
tenha um bom caráter e uma boa situação
profissional. A harmonia sexual não é prioridade.
O ideal seria ter dois homens um para a vida cotidiana
e outro para o sexo. Muitas mulheres não têm
uma situação financeira que lhes permita escolher
um parceiro pelo critério do sexo. Elas ganham menos
do que os homens e ainda têm de gastar mais do que
eles no cabeleireiro, nas roupas etc. O fator dinheiro,
então, pesa muito na escolha do parceiro. Mas depois
de um tempo elas não querem mais saber de sexo com
o marido, porque não é o homem que verdadeiramente
desejam. Deixam de ser felizes não só na cama,
mas também na vida.
Veja Um dos sonhos femininos, segundo a senhora,
é passar a noite deitada no sofá, metida em
roupas velhas, assistindo a um bom filme romântico
na televisão. Uma mulher pode ser feliz sem ter um
homem para chamar de seu?
Gaby É claro. Se você não
encontrar um homem com que tenha empatia, talvez seja melhor
mesmo ficar sozinha, confortável em casa, com uma
boa amiga ao telefone.
Veja Há homens capazes de enfrentar a
humilhação de admitir a impotência,
ou de fazer-se passar por impotentes, como em seu livro,
para conquistar o coração de uma mulher?
Gaby Não, isso só existe na ficção.
Não é o homem que possui um pênis, é
o pênis que possui o homem. No caso do meu livro,
contudo, o personagem que finge ser impotente aprende muito
com essa experiência. Isso o obriga a pensar em outros
meios de agradar a uma mulher que não envolvam o
sexo. Talvez devêssemos incluir algo assim no currículo
das escolas cinco ou seis semanas de impotência
obrigatória.
Veja A senhora diz que, para os homens, potência
sexual e poder são equivalentes. Isso também
não é válido para as mulheres? Como
se sentiria uma mulher que se tornasse sexualmente incapacitada?
Gaby A não ser em caso de doença,
não há mulheres sexualmente incapacitadas.
Esse é um mito masculino. Várias mulheres
se queixam de que não têm prazer com seu parceiro.
Dê a elas o amante certo, faça com que elas
se apaixonem e os problemas sexuais acabam. Ao contrário
dos homens, as mulheres não precisam alardear suas
proezas sexuais para se sentirem completas. Já os
homens freqüentemente se definem por sua sexualidade.
Orgulhar-se do tamanho de seu pênis, fazer sexo seis
vezes numa noite, isso é o que conta para eles.
Veja O mundo não seria muito tedioso
se homens e mulheres tivessem exatamente os mesmos pontos
de vista sobre a vida, o amor e o sexo?
Gaby De fato, seria. Eles falam línguas
distintas, e me divirto observando essas diferenças.
Os homens não entendem as mulheres, e as mulheres
não entendem os homens e é isso que
torna tudo interessante.
Veja Por que a senhora não se casou?
Gaby Durante toda a minha vida acreditei que
o casamento me paralisaria, me deixaria no meio do meu caminho.
Lembro-me nitidamente de que na primeira vez em que fui
pedida em casamento, aos 23 anos, pensei: "Se eu aceitar,
aqui começa o fim da minha vida". Por isso nunca
quis me casar. Mudei várias vezes de cidade no curso
de minha carreira e a cada vez mudava também
de namorado. Agora tenho um rumo bem estabelecido e encontrei
minha paz, sou eu mesma. Mas nunca teria sido a mulher que
me tornei se tivesse um marido.
Veja A senhora consegue se imaginar casada algum
dia?
Gaby Talvez aos 80 anos eu tente encontrar um
rapaz de 20 anos que se interesse em ficar comigo. Fora
de brincadeira, há pouco mais de um ano tenho um
ótimo parceiro e estou muito apaixonada. Mas todas
as coisas têm um fim na vida, e não sei o que
o futuro reserva. Por isso prefiro ser cuidadosa.
Veja A maioria das pessoas tem medo de ficar
sozinha na velhice. A senhora pensa nisso?
Gaby Não. Tenho tantas coisas a fazer
que nunca penso na minha idade. Tanto que confesso meus
42 anos sem o menor constrangimento. Às vezes até
digo que sou mais velha, para que me achem bem conservada.
O segredo é não desistir da vida. E isso pode
acontecer tanto na velhice quanto na juventude.
Veja Sua filha de 8 anos tem um relacionamento
próximo com o pai?
Gaby Tive muitos homens na vida, e permaneço
amiga de todos os meus ex. Se houve amor, não há
razão para que ele deva se transformar em hostilidade.
Mas o pai verdadeiro dela foi um caso passageiro. Veja só,
com tantos relacionamentos, foi de um tão breve que
engravidei... Logo depois conheci um homem que foi meu parceiro
durante seis anos, e é ele que minha filha considera
pai, embora nunca tenhamos morado na mesma cidade. Recentemente,
fizemos um cruzeiro os três juntos, porque minha filha
gosta de tê-lo por perto. E meu namorado não
se importa, porque sabe que não há mais nada
entre meu ex e eu.
Veja A senhora esteve no Brasil antes de escrever
seu livro. Nele há uma personagem que acaba de voltar
de férias do Rio de Janeiro e descreve os brasileiros
como "morenos, baixinhos e quase todos homossexuais". Tirou
essa impressão de sua viagem?
Gaby Não, de forma alguma. Isso não
tem nada a ver com minhas impressões do Brasil. Acontece
que a personagem está atravessando um momento difícil
e se encontra muito mal-humorada. Tivesse ela voltado de
Los Angeles ou da Tailândia, teria dito algo do mesmo
teor.
Veja Já ocorreu à senhora publicar
nos jornais um anúncio semelhante ao do livro, procurando
por um homem impotente?
Gaby Não. Primeiro, porque nunca quis
necessariamente ter um parceiro estável. E, depois...
Bem, eu gosto de sexo.