Edição 1 634 -2/2/2000

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O capital estrangeiro

"Números para enervar nacionalistas
à direita e à esquerda: como a nova onda
de investimento estrangeiro direto vai afetar
a economia brasileira no futuro"

Ilustração: Alê Setti


Nos últimos tempos tem havido muita agitação em torno da presença de um tipo de capital que o mundo inteiro gosta e costuma batalhar para atrair: o investimento estrangeiro direto (IDE). Mede-se esse tipo de investimento por meio do valor contábil (ou histórico) da parcela do capital das empresas funcionando dentro do país cujos donos são cidadãos de outros países. Em dezembro de 1995, 6.322 empresas com 10% ou mais de participação estrangeira responderam a um censo feito pelo Banco Central, e os resultados foram extraordinários.

Ficamos sabendo que essas companhias tinham um patrimônio líquido de cerca de 94 bilhões de dólares, dos quais os sócios estrangeiros detinham aproximadamente 49 bilhões, ou seja, 52% do total. O censo mostrou também que elas tinham ativos de 245 bilhões de dólares, faturamento de 199 bilhões, podendo-se assim estimar que eram responsáveis por cerca de 10% do valor adicionado gerado, ou seja, do PIB do Brasil.

As exportações dessas empresas foram de 22 bilhões de dólares, em 1995, correspondendo a 47% do total. Seguramente, esse pedaço do Brasil é bem mais exportador (e importador) que o resto: cada 1.000 dólares de valor adicionado gerado dentro do país nessas 6.322 empresas geravam 275 dólares em exportações e 242 dólares em importações. Para o resto do Brasil, os números correspondentes seriam 33 dólares de exportações e 42 de importações. Quanto às remessas de lucro, note-se que, como porcentagem do estoque (médio para o ano), elas oscilam em torno de 5%: foram recordes em 1998, com 8%, mas não chegaram a 3,5% em 1999.

Essas empresas geravam 1 447 000 empregos diretos, cerca de 9% do total. Produziam 55.000 dólares de valor adicionado por trabalhador empregado, enquanto o resto do Brasil atingia 49.000. O "gap" de produtividade não era, portanto, tão significativo quanto a diferença na extensão dos laços com o exterior.

É bastante ponderável, portanto, a contribuição para o desenvolvimento econômico brasileiro proporcionada pelos 49 bilhões de dólares de IDE feitos no Brasil até dezembro de 1995. E pelo menos o mesmo pode ser dito sobre o IDE feito nos quatro anos posteriores, que ultrapassou a espantosa marca de 83 bilhões de dólares, ou seja, 170% do estoque acumulado até 1995. São números para enervar nacionalistas à direita e à esquerda. Como essa nova onda de IDE, maior que tudo que tivemos antes, vai afetar a economia brasileira no futuro?

Basta imaginar o seguinte: se esse IDE "novo" gerar ativos, vendas, empregos e comércio exterior, exatamente nas mesmas proporções do IDE "velho", presumivelmente depois de algum tempo (dez anos, por exemplo) teríamos 336 bilhões de dólares adicionais em faturamento, o que seria correspondente a algo como 134 bilhões de dólares em valor adicionado. Isso seria suficiente, caso o PIB do resto do Brasil cresça 4% durante esses dez anos, para elevar para 5,5% a taxa de crescimento para o conjunto do país e ampliar a parcela do PIB gerada pelas empresas estrangeiras para algo ligeiramente superior a 20%, ou seja, o dobro da proporção de 1995. Levando adiante o exercício, 441 bilhões de dólares em ativos (investimentos) seriam gerados, junto com cerca de 2,5 milhões de novos empregos, além de exportações e importações adicionais de 37 bilhões e 32,5 bilhões de dólares, respectivamente.

É claro que esses números são meras extrapolações e que o "novo" IDE tem muitas diferenças com relação ao "velho". É muito mais concentrado em serviços, por exemplo, e compreende muitas aquisições de empresas existentes, em contraste com o "velho", que tinha que ver (em proporção maior, segundo se diz) com empreendimentos inteiramente novos. Mas isso não é necessariamente mau, pelo contrário, quer dizer que o "novo" IDE veio para os setores mais atrasados da economia (empresas privatizadas, a maioria caindo aos pedaços, e bancos quebrados, por exemplo), o que é ótimo. E os brasileiros que venderam suas empresas vão reinvestir no país e criar novas empresas e empregos, porque acreditam mais no Brasil que os estrangeiros, ou será que não?

Gustavo Franco é economista da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)