O capital estrangeiro
"Números para enervar nacionalistas
à direita e à esquerda: como a nova onda
de investimento estrangeiro direto vai afetar
a economia brasileira no futuro"
Ilustração: Alê
Setti
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Nos últimos tempos tem havido muita agitação em torno da
presença de um tipo de capital que o mundo inteiro gosta
e costuma batalhar para atrair: o investimento estrangeiro
direto (IDE). Mede-se esse tipo de investimento por meio
do valor contábil (ou histórico) da parcela do capital das
empresas funcionando dentro do país cujos donos são cidadãos
de outros países. Em dezembro de 1995, 6.322
empresas com 10% ou mais de participação estrangeira responderam
a um censo feito pelo Banco Central, e os resultados foram
extraordinários.
Ficamos sabendo que essas companhias tinham um patrimônio
líquido de cerca de 94 bilhões de dólares, dos quais os
sócios estrangeiros detinham aproximadamente 49 bilhões,
ou seja, 52% do total. O censo mostrou também que elas tinham
ativos de 245 bilhões de dólares, faturamento de 199 bilhões,
podendo-se assim estimar que eram responsáveis por cerca
de 10% do valor adicionado gerado, ou seja, do PIB do Brasil.
As exportações dessas empresas foram de 22 bilhões de dólares,
em 1995, correspondendo a 47% do total. Seguramente, esse
pedaço do Brasil é bem mais exportador (e importador) que
o resto: cada 1.000 dólares
de valor adicionado gerado dentro do país nessas 6.322
empresas geravam 275 dólares em exportações e 242 dólares
em importações. Para o resto do Brasil, os números correspondentes
seriam 33 dólares de exportações e 42 de importações. Quanto
às remessas de lucro, note-se que, como porcentagem do estoque
(médio para o ano), elas oscilam em torno de 5%: foram recordes
em 1998, com 8%, mas não chegaram a 3,5% em 1999.
Essas empresas geravam 1 447 000 empregos diretos, cerca
de 9% do total. Produziam 55.000 dólares de valor adicionado por trabalhador empregado,
enquanto o resto do Brasil atingia 49.000.
O "gap" de produtividade não era, portanto, tão
significativo quanto a diferença na extensão dos laços com
o exterior.
É bastante ponderável, portanto, a contribuição para o
desenvolvimento econômico brasileiro proporcionada pelos
49 bilhões de dólares de IDE feitos no Brasil até dezembro
de 1995. E pelo menos o mesmo pode ser dito sobre o IDE
feito nos quatro anos posteriores, que ultrapassou a espantosa
marca de 83 bilhões de dólares, ou seja, 170% do estoque
acumulado até 1995. São números para enervar nacionalistas
à direita e à esquerda. Como essa nova onda de IDE, maior
que tudo que tivemos antes, vai afetar a economia brasileira
no futuro?
Basta imaginar o seguinte: se esse IDE "novo"
gerar ativos, vendas, empregos e comércio exterior, exatamente
nas mesmas proporções do IDE "velho", presumivelmente
depois de algum tempo (dez anos, por exemplo) teríamos 336
bilhões de dólares adicionais em faturamento, o que seria
correspondente a algo como 134 bilhões de dólares em valor
adicionado. Isso seria suficiente, caso o PIB do resto do
Brasil cresça 4% durante esses dez anos, para elevar para
5,5% a taxa de crescimento para o conjunto do país e ampliar
a parcela do PIB gerada pelas empresas estrangeiras para
algo ligeiramente superior a 20%, ou seja, o dobro da proporção
de 1995. Levando adiante o exercício, 441 bilhões de dólares
em ativos (investimentos) seriam gerados, junto com cerca
de 2,5 milhões de novos empregos, além de exportações e
importações adicionais de 37 bilhões e 32,5 bilhões de dólares,
respectivamente.
É claro que esses números são meras extrapolações e que
o "novo" IDE tem muitas diferenças com relação
ao "velho". É muito mais concentrado em serviços,
por exemplo, e compreende muitas aquisições de empresas
existentes, em contraste com o "velho", que tinha
que ver (em proporção maior, segundo se diz) com empreendimentos
inteiramente novos. Mas isso não é necessariamente mau,
pelo contrário, quer dizer que o "novo" IDE veio
para os setores mais atrasados da economia (empresas privatizadas,
a maioria caindo aos pedaços, e bancos quebrados, por exemplo),
o que é ótimo. E os brasileiros que venderam suas empresas
vão reinvestir no país e criar novas empresas e empregos,
porque acreditam mais no Brasil que os estrangeiros, ou
será que não?
Gustavo Franco é economista
da PUC-RJ e
ex-presidente do Banco Central (gfranco@palavra.inf.br)