Edição 1 626 - 1º/12/1999

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Flores do campo

Nova geração de cantoras injeta novidades –
e muita sensualidade – no gênero country

Sérgio Martins

Quem se lembra da cantora Dolly Parton e de suas dezenas de imitadoras? Até há pouco tempo, cantora de música country era sinônimo de jovens senhoras com uns quilinhos a mais, perucas exuberantes, roupas com muitas franjas e baladas chorosas no repertório. Isso mudou, e como. Hoje, as estrelas do gênero preferem um visual mais pop e suas curvas fazem qualquer caubói se enrolar com o próprio laço. As canções ganharam arranjos mais modernos e, nas letras, as chorumelas habituais foram substituídas por temas como a sensualidade e a independência feminina. É uma espécie de estética Thelma & Louise. Essa mudança radical no universo caipira americano vem se refletindo nas paradas de sucessos. Antes, a música country aparecia com destaque apenas na parada dedicada a ela. Agora, com freqüência, aparece nos primeiros lugares da parada que considera o mercado como um todo. É sinal de que ela passou a ser consumida também por adeptos dos demais gêneros.

A principal responsável por essa mudança chama-se Shania Twain. Ela é uma espécie de Garth Brooks metida em apertadíssimas calças de couro. Brooks entrou para a história, no início dos anos 90, como o primeiro artista a tirar a country music de seu gueto e atrair outras platéias. Ele chegou a bater concorrentes como Madonna e Michael Jackson. Shania, por sua vez, está há mais de dois anos entre os trinta artistas mais vendidos nos Estados Unidos. Lançado em 1997, o álbum Come on Over vendeu até agora 14 milhões de cópias. Ao todo, a moça já vendeu 30 milhões de CDs. Boa parte de seu êxito deve-se ao fato de que ela não faz country music tradicional. As músicas têm uma sonoridade pesada e solos de guitarra que poderiam estar em qualquer bom disco de rock. Por isso, não são poucos os que acreditam que Shania poderá em breve superar as marcas de Garth Brooks. "Como tem uma linguagem mais roqueira, Shania é adorada em diversos países da Europa, enquanto o sucesso de Garth Brooks é mais restrito aos Estados Unidos", analisa Carlos Beni, diretor-geral do Country Music Television, CMT.

O fenômeno Shania Twain abriu caminho para outras artistas de estilo semelhante. A vocalista Faith Hill sempre teve uma carreira voltada para a música caipira tradicional. Tinha boas vendas, mas nunca foi além da parada country. Em seu último lançamento, Breathe, ela optou por arranjos pop. Resultado: o disco entrou em primeiro lugar na parada americana tradicional, batendo na mesma semana os roqueiros do Rage Against the Machine. A opção de Faith Hill chegou a despertar a ira de seus fãs mais tradicionalistas, que a acusaram de trair o gênero. A cantora, naturalmente, está satisfeita com a mudança. "Eu queria mostrar que posso ser eclética", justificou. Já o Dixie Chicks, formado por três beldades, emplacou 2 milhões de cópias vendidas de seu CD Fly, depois que elas participaram da trilha sonora do filme Noiva em Fuga, estrelado por Julia Roberts e Richard Gere.

Há também quem consiga fazer um bom cruzamento entre a música country tradicional e a moderna. Essa é a especialidade de LeAnn Rimes, vocalista de 17 anos e profissional desde os 11. Sua voz melancólica já foi comparada às das grandes intérpretes do gênero no passado. Entre seus admiradores (de suas qualidades artísticas, bem entendido) está o papa João Paulo II. Recentemente, ele a elogiou depois de ouvi-la cantar o tema principal da minissérie Jesus, um especial de Natal produzido pela emissora americana CBS que foi mostrado em primeira mão no Vaticano.

No Brasil, por enquanto, a única das novas divas country a emplacar é Shania Twain. Seus dois CDs lançados no país venderam 280 000 cópias. Na esteira desse sucesso, os organizadores da Festa do Peão Boiadeiro de Barretos, o mais tradicional rodeio brasileiro, já a convidaram para se apresentar na próxima edição do evento. "No rodeio deste ano fizemos uma pesquisa de preferência entre o público e o nome de Shania bateu o de artistas tradicionais, como Willie Nelson", diz Alcino Badra Neto, diretor musical da Festa do Peão. Pudera. Além de bonita e talentosa, Shania gosta de fazer o gênero provocante. Seus vídeos são recheados de cenas sensuais e ela freqüentemente faz alusões ao esporte preferido dos vaqueiros (não, não é aquele de laçar novilhos). "Entre quatro paredes, toda garota gosta de ouvir de seu homem que ela é especial", costuma dizer. Como se vê, Shania tem a fórmula do sucesso na ponta da língua.