Edição 1 626 - 1º/12/1999

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Índio quer pincel

A sensibilidade estética dos ticunas
vem à tona com a ajuda
de uma professora cara-pálida

Gráficos Burti
Animais em luta: traços que lembram
o
impressionismo


Em 1977, a professora de arte Jussara Gruber fez uma opção profissional diferente. Foi trabalhar numa aldeia de índios ticunas, na região do Alto Solimões, fronteira do Brasil com o Peru e a Colômbia. Os 32.000 nativos que formam a nação ticuna sempre tiveram fama de bons artistas. Em vez de se limitar às máscaras primitivas e às pinturas corporais, procuram também documentar as paisagens e os habitantes da selva. Jussara passou a ensinar técnicas de desenho e pintura aos índios. A seguir, amparada por um fundo ligado à Organização das Nações Unidas, ONU, criou uma escola destinada à formação de professores entre os nativos. Seu trabalho gerou ótimos resultados. Há dois anos, parte da produção de seus formandos foi publicada no Livro das Árvores, sobre a flora da região. A obra chamou a atenção dos donos da gráfica Burti, uma das maiores do país, que tradicionalmente enfoca temas brasileiros em seus caprichados calendários promocionais. A empresa confiou aos ticunas as ilustrações de seu calendário para o ano que vem, que será vendido a partir desta semana no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro e na Pinacoteca do Estado, em São Paulo.


Gráficos Burti
Paisagem: parece obra do austríaco
Gustav Klimt

Os trabalhos surpreendem pela beleza e pela técnica apurada, que em alguns casos lembram movimentos pictóricos europeus. "Esse tipo de traço nasceu de minha observação das folhas no mato", explica o índio Nhaimatücü, ou Manuel Alfredo Rosindo, como foi registrado no mundo dos caras-pálidas. Além de produzir boas pinturas, alguns deles conseguem justificar, melhor do que muitos artistas da cidade grande, as motivações de seu entusiasmo com os pincéis. "Sem o desenho e a pintura, perderíamos nossa memória mais depressa", diz Memücü, ou José Custódio Marques, um dos índios que estiveram em São Paulo para promover o calendário. A arte desses ticunas não cabe no trinômio vernissage badalado/vinho branco/críticos amiguinhos.