Edição 1 626 - 1º/12/1999

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Maldade diluída

Nova obra sobre o psicopata Hannibal Lecter
prejudica a mística em torno do personagem

Carlos Graieb

Miolos fritos com fatias de trufa. Eis aí uma guloseima que poucos chefs ousariam incluir no cardápio. Para o escritor americano Thomas Harris, no entanto, imaginar pratos assim tornou-se um hábito. E ele vai ainda mais longe. Em seu último romance, Hannibal (tradução de Alves Calado; Record; 445 páginas; 30 reais), os miolos são humanos e acabam de ser extraídos antes de ir para o fogão. Não é para menos. Harris precisa alimentar o mais sinistro psicopata surgido na ficção das últimas décadas. Dono de inteligência assombrosa, o personagem possui também macabra predileção pela carne de seus semelhantes. Seu nome é Hannibal Lecter – e você provavelmente já se assustou com ele, seja lendo o romance O Silêncio dos Inocentes, seja assistindo ao filme homônimo de enorme sucesso, estrelado por Jodie Foster e Anthony Hopkins. Mas isso foi há muito tempo. Agora, o matador está de volta.

Paciência de píton

"Não querendo atrair atenção, o Dr. Lecter espera até que os outros passageiros tenham engolido a comida lamentável. Ele espera com a paciência de uma píton. Na parte superior do avião largo, as luzes de leitura vão se apagando. Então, e só então, com um olhar furtivo ao redor, o Dr. Lecter tira de baixo da poltrona à frente o seu lanche, embalado numa elegante caixa amarela enfeitada com duas fitas de gaze de seda em cores complementares. O laço de seda cede com um sussurro."
Trecho de Hannibal

Infelizmente, no entanto, há dúvidas a respeito da habilidade de Harris em ampliar o retrato que já havia traçado de Lecter. Não que Hannibal seja um mau livro. Nos lugares onde foi lançado, ele angariou um número considerável de elogios. Escritores de renome, como o americano Stephen King, mestre do gênero terror, e Will Self, um dos principais nomes da literatura inglesa na atualidade, foram alguns dos que lhe dedicaram boas resenhas. Um dos pontos fortes do livro é a movimentação de sua trama. Quem conhece a história de O Silêncio dos Inocentes sabe que ela termina com a fuga de Lecter. E Hannibal parte daí. Para o leitor brasileiro, uma surpresa logo de cara. É para cá que Lecter vem logo depois de escapar. Aqui, ele fica o tempo suficiente para trocar de rosto. Depois, vai em busca de um local mais aprazível: a cidade italiana de Florença. Mas logo seu sossego acaba. Ele se torna alvo do desejo obsessivo de vingança de uma de suas antigas vítimas. Desfigurado e quase morto por Lecter, o milionário Mason Verger quer dar o troco. Para tanto, não poupa esforços e consegue até mesmo manipular o FBI. Sua isca principal torna-se a detetive Clarice Starling, a mesma de O Silêncio dos Inocentes, que desenvolveu uma relação de fascínio e repulsa com Lecter. Montado esse enredo, Harris entretém o leitor com um surpreendente número de reviravoltas.

Mas isso não basta. E o problema é que, em vez de fortalecer, Harris talvez tenha enfraquecido a mística criada em torno de Hannibal Lecter depois de O Silêncio dos Inocentes. Afinal, no livro anterior o personagem assustava justamente por ser uma espécie de encarnação da maldade em seu estado mais puro. "Eu simplesmente existo", dizia ele. "Você não pode me explicar." Já em Hannibal, o mistério vai por água abaixo. Lecter é explicado, e da maneira mais banal: a partir de um trauma na infância. Ao mesmo tempo, ele acaba sendo dotado de habilidades para lá de extraordinárias. Sua força é espantosa, sua inteligência é sobre-humana, sua cultura é mais vasta que a de qualquer mortal. Com isso, tem-se a impressão de que ele estaria mais bem situado numa história em quadrinhos. E o romance, que deveria ser de suspense, às vezes corre o risco de se converter numa bizarra fantasia, na qual nem sempre o humor é voluntário e os sustos planejados podem se converter em risadas. Como Bram Stoker, criador do Drácula, ou Mary Shelley, criadora de Frankenstein, Harris talvez devesse ter percebido que um único livro muitas vezes basta para criar um mito. O tempo dirá se Hannibal é uma obra da qual ele deve arrepender-se.