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Xô, inflação!
Em
O Desafio Brasileiro, Gustavo Franco mostra
como o desenvolvimentismo afundou o país
Mailson
da Nóbrega*
O
novo livro de Gustavo Franco, O
Desafio Brasileiro Ensaios sobre Desenvolvimento,
Globalização e Moeda
(Editora
34; 352 páginas; 32 reais) é polêmico
e contém a marca de seu estilo incisivo. Ao contrário
do que dirão seus críticos, não é
uma defesa emocional da política cambial, à
qual, embora pertencente ao governo, ele se vinculou indelevelmente.
O câmbio e outros assuntos são tratados sem
a paixão dos sectários. A análise
funda-se em sólida cultura acadêmica, na
pesquisa séria e na experiência de seis anos
de governo. Seu receio é de que a megadesvalorização
contribua para reduzir o ímpeto reformista e os
ganhos de produtividade, minando a própria base
do desenvolvimento sustentado, isto é, sem inflação
e com distribuição de renda.
Bia Parreiras
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Franco:
para o
professor, vem
de muito longe
nossa hesitação
em
abraçar
teses vencedoras
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Alguns dos
seus críticos foram mais detratores do que detentores
de uma visão alternativa séria. Com esses,
Gustavo Franco é impiedoso. A uma professora que
o tratou descortesmente em um artigo, ele respondeu dizendo
que ela falava mal da "atual etapa do sistema capitalista"
com um nojo equivalente ao de segurar "um rato com as mãos".
No mesmo ensaio, foi implacável e corrosivo com outros
críticos. A um deles chamou de "analista de porta
de cadeia", à moda do tratamento dado aos advogados
de quinta categoria. Ele não demonstra mágoa
desses embates, mas é dúbio quanto a uma eventual
volta ao governo. Ora diz que a carreira foi "encerrada",
ora que foi "interrompida". Prefiro a última situação,
pois um país com escassez de talentos e vocações
para o serviço público não pode dispensar
a colaboração de pessoas de seu quilate.
O melhor
do livro é a crítica ao nacional-desenvolvimentismo,
presente em vários capítulos. Gustavo Franco
mostra que vem de longe nossa hesitação
em abraçar teses vencedoras, como a da integração
ao comércio internacional. Antes de 1914, ao contrário
do que ocorria na maioria dos países, "nossas exportações
per capita
crescem
menos do que nossa renda per
capita". Após
a II Guerra, diz ele, embarcamos na onda latino-americana
do isolamento. Tornamo-nos entusiastas das teses da Comissão
Econômica para a América Latina e o Caribe,
Cepal, isto é, do desenvolvimento hacia
dentro,
privilegiando o mercado interno, a substituição
de importações e a redução
de vínculos com o exterior.
Na análise
do binômio desenvolvimentismo versus inflacionismo,
ele mostra como "a primazia do desenvolvimento", erigida
no pós-guerra, tornou a industrialização
uma causa tão nobre que se relegaram ao desprezo
os alertas contra os seus efeitos inflacionários.
Nos anos 60, quando a inflação começou
a perder funcionalidade, a correção monetária
"foi acolhida pelos desenvolvimentistas com verdadeiro
entusiasmo", pois a indexação "definia novos
e mais favoráveis termos de troca entre inflação
e desenvolvimento". A inédita tolerância
brasileira com a inflação e a desigualdade
social é examinada de forma competente. O livro
escancara as ineficiências, as injustiças
sociais e a concentração de renda engendradas
por políticas desenvolvimentistas, cujo esgotamento
nos conduziu ao processo hiperinflacionário do
período que vai de 1987 a 1994.
A obra
aborda também os meandros da globalização,
o papel das empresas transnacionais na aceleração
dos fluxos do comércio e as vantagens da abertura
econômica. Inclui um instigante ensaio sobre o pessimismo,
que denuncia seu otimismo e funciona como elegante condenação
dos seus críticos. O último capítulo,
dedicado ao real e ao câmbio, é um relato
do plano e dos tensos momentos de suas crises cambiais.
Constitui uma defesa robusta da política cambial
e de seus benefícios. Gustavo Franco transmite
a impressão de que nenhuma contribuição
importante aconteceu antes da era Fernando Henrique. O
senão, talvez o único, é comum em
textos de seus ex-colegas de governo. O livro pretende
chegar ao leitor pouco familiarizado com o economês
e as formulações matemáticas. Salvo
algumas poucas passagens, o objetivo parece alcançável.
*Mailson
da Nóbrega é
economista e ex-ministro da Fazenda
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