Edição 1 626 - 1º/12/1999

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Xô, inflação!

Em O Desafio Brasileiro, Gustavo Franco mostra
como o desenvolvimentismo afundou o país

Mailson da Nóbrega*

O novo livro de Gustavo Franco, O Desafio Brasileiro – Ensaios sobre Desenvolvimento, Globalização e Moeda (Editora 34; 352 páginas; 32 reais) é polêmico e contém a marca de seu estilo incisivo. Ao contrário do que dirão seus críticos, não é uma defesa emocional da política cambial, à qual, embora pertencente ao governo, ele se vinculou indelevelmente. O câmbio e outros assuntos são tratados sem a paixão dos sectários. A análise funda-se em sólida cultura acadêmica, na pesquisa séria e na experiência de seis anos de governo. Seu receio é de que a megadesvalorização contribua para reduzir o ímpeto reformista e os ganhos de produtividade, minando a própria base do desenvolvimento sustentado, isto é, sem inflação e com distribuição de renda.

Bia Parreiras
Franco: para o professor, vem
de muito
longe nossa hesitação em
abraçar teses vencedoras

Alguns dos seus críticos foram mais detratores do que detentores de uma visão alternativa séria. Com esses, Gustavo Franco é impiedoso. A uma professora que o tratou descortesmente em um artigo, ele respondeu dizendo que ela falava mal da "atual etapa do sistema capitalista" com um nojo equivalente ao de segurar "um rato com as mãos". No mesmo ensaio, foi implacável e corrosivo com outros críticos. A um deles chamou de "analista de porta de cadeia", à moda do tratamento dado aos advogados de quinta categoria. Ele não demonstra mágoa desses embates, mas é dúbio quanto a uma eventual volta ao governo. Ora diz que a carreira foi "encerrada", ora que foi "interrompida". Prefiro a última situação, pois um país com escassez de talentos e vocações para o serviço público não pode dispensar a colaboração de pessoas de seu quilate.

O melhor do livro é a crítica ao nacional-desenvolvimentismo, presente em vários capítulos. Gustavo Franco mostra que vem de longe nossa hesitação em abraçar teses vencedoras, como a da integração ao comércio internacional. Antes de 1914, ao contrário do que ocorria na maioria dos países, "nossas exportações per capita crescem menos do que nossa renda per capita". Após a II Guerra, diz ele, embarcamos na onda latino-americana do isolamento. Tornamo-nos entusiastas das teses da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe, Cepal, isto é, do desenvolvimento hacia dentro, privilegiando o mercado interno, a substituição de importações e a redução de vínculos com o exterior.

Na análise do binômio desenvolvimentismo versus inflacionismo, ele mostra como "a primazia do desenvolvimento", erigida no pós-guerra, tornou a industrialização uma causa tão nobre que se relegaram ao desprezo os alertas contra os seus efeitos inflacionários. Nos anos 60, quando a inflação começou a perder funcionalidade, a correção monetária "foi acolhida pelos desenvolvimentistas com verdadeiro entusiasmo", pois a indexação "definia novos e mais favoráveis termos de troca entre inflação e desenvolvimento". A inédita tolerância brasileira com a inflação e a desigualdade social é examinada de forma competente. O livro escancara as ineficiências, as injustiças sociais e a concentração de renda engendradas por políticas desenvolvimentistas, cujo esgotamento nos conduziu ao processo hiperinflacionário do período que vai de 1987 a 1994.

A obra aborda também os meandros da globalização, o papel das empresas transnacionais na aceleração dos fluxos do comércio e as vantagens da abertura econômica. Inclui um instigante ensaio sobre o pessimismo, que denuncia seu otimismo e funciona como elegante condenação dos seus críticos. O último capítulo, dedicado ao real e ao câmbio, é um relato do plano e dos tensos momentos de suas crises cambiais. Constitui uma defesa robusta da política cambial e de seus benefícios. Gustavo Franco transmite a impressão de que nenhuma contribuição importante aconteceu antes da era Fernando Henrique. O senão, talvez o único, é comum em textos de seus ex-colegas de governo. O livro pretende chegar ao leitor pouco familiarizado com o economês e as formulações matemáticas. Salvo algumas poucas passagens, o objetivo parece alcançável.

*Mailson da Nóbrega é economista e ex-ministro da Fazenda