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Pelé, Senna
e agora Gisele
A história
de sucesso da
gaúcha de
19 anos que se
tornou a mais requisitada
modelo do milionário
mundo da moda
Angela Pimenta,
de
Nova York
É
fácil saber quando você está frente a
frente com uma celebridade mundial. Ela chega enrolada num
xale, de óculos escuros e cabeça baixa, tentando
se manter incógnita. No restaurante, embora possa desbancar
qualquer freguês da melhor mesa da casa, ela segue direto
para um canto mais protegido. Geralmente, quando uma celebridade
abre a boca, mesmo que seja apenas para pedir um prosaico
filé com fritas, é o garçom quem fica
engasgado. Aos 19 anos, a gaúcha Gisele Bündchen
se enquadra em todas as categorias acima e em muitas outras
mais. Nos últimos tempos, para fugir do assédio,
teve de trocar cinco vezes o número do telefone. Em
Nova York, onde mora, sempre que põe o pé na
rua para passear com sua cadelinha "Vida", é assediada
por fãs e caçadores de celebridades. "É
impressionante como de uma hora para outra todo mundo acha
que é meu amigo, que me viu nascer. É um inferno",
desabafa Gisele diante de um bife bem passado, numa conversa
com VEJA na semana passada.
Sua
rotina, que já era agitada, acelerou-se ainda mais
desde que a revista americana Vogue,
meca e consagração de todas as modelos, estampou
Gisele não em uma, mas em duas capas neste ano. Uma
foi em julho, sozinha, num delicado ensaio em preto-e-branco.
A outra foi na edição especial de novembro,
a "do milênio", em que a menina brasileira (sim, adolescente
ainda, com toda aquela exuberância de atributos) aparece
ao lado de veteranas como Claudia Schiffer, Naomi Campbell
e Kate Moss, no time dos "rostos do século". Gisele
se destaca pelo fato de, ao contrário das outras beldades,
ser uma estrela ascendente, uma novidade nas passarelas. Apontada
na Europa e nos Estados Unidos como a modelo número
1 do mundo no momento, foi neste final de ano mais
precisamente no desfile das coleções de primavera-verão
em Nova York, Milão e Paris que a estrela de
Gisele atingiu aquele estágio de luminosidade extrema.
"Gisele chegou ao topo porque tem o visual certo na hora certa.
Sua carreira está apenas começando", diz o empresário
Mark McCormack, dono da agência IMG, com quem ela assinou
contrato há dois meses. Como ele, toda uma legião
de costureiros, fotógrafos e jornalistas se derrete
pela menina nascida e criada em Horizontina, cidade gaúcha
de 17.000
habitantes perto da fronteira com a Argentina.
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Gisele, supermodel:
caçula (sentada no
chão) na capa com
o time das maiorais |
Cliques
de famosos "Ela
encarna à perfeição o tipo de beleza
do novo milênio", avalia Sally Singer, da Vogue
americana. "Gisele é deslumbrante justamente porque
não é perfeita. Ela tem sardas, um nariz meio
engraçado e uma alegria contagiante", completa. Também
ajuda o fato de se encaixar à risca no padrão
de beleza americano. Tem olhos azuis, cabelos castanho-claros
e um corpo longilíneo: pernas e quadris estreitos,
seios fartos e 51 quilos distribuídos por 1,79 de
altura. Outra de suas virtudes fotogênicas é
o temperamento expansivo. "Gisele é uma camaleoa
e uma boa atriz", elogia o fotógrafo Steven Meisel,
uma fera em sua área. "Ser atriz faz parte do ofício
de modelo. Ela é capaz de encarnar uma série
de emoções."
Vestida com
simplicidade, ela passa tranqüilamente por uma garota
comum, bonita e sapeca. Mas de salto alto, envolta em seda
ou tafetá, é a deusa inatingível das
passarelas. "Gisele é hoje a modelo ideal para nós",
disse recentemente Donatella Versace à revista New
York.
"Ela infunde vida às roupas, tornando-as sexy e fortes."
Traduzidos para o universo das cifras, a beleza e o carisma
deverão render a Gisele cerca de 5 milhões
de dólares no ano que vem só em desfiles e
fotos para grifes chiques, como Christian Dior, Dolce &
Gabbana e Ralph Lauren. O convite para posar em revistas
de moda, como a Vogue,
resulta em cachê simbólico de cerca de 300
dólares por dia, mas, como ainda é novata,
tão cedo não poderá dispensar as extenuantes
sessões de cliques de fotógrafos famosos,
justamente o trabalho que mais lhe dá prestígio
e exposição. O próximo passo de Gisele,
para coroar sua carreira de supermodel, é assinar
algum contrato exclusivo com uma fábrica de cosméticos.
A atriz Andie MacDowell, por exemplo, fatura 2 milhões
de dólares por ano para anunciar uma tintura de cabelo.
"Predadora
e gananciosa" O
desafio de Gisele agora é agarrar as oportunidades
e saber selecionar muitíssimo bem os trabalhos que
lhe são oferecidos. "Como modelo, ela está no
auge. O que tem de fazer agora é segurar, não
cair no estrelismo", aconselha Regina Guerreiro, crítica
de moda que acompanha o sobe-desce das modelos há trinta
anos. Aos 19, Gisele ainda é uma garota em ascensão.
Aos 25, a inglesa Kate Moss, top model do primeiro time, desfila
pouco, quase não fotografa e tem o nome mais ligado
à temporada que passou internada numa clínica
de desintoxicação do que às (raras) capas
em que aparece.
Gisele marcou um tento numa carreira fugaz e competitiva ao
chegar aonde chegou: o topo, o patamar da diva disputada,
cercada de mordomias e paparicações. Mas agora
vai ter de gastar muito salto alto e se munir de imenso tino
e bom senso para se manter onde está e, se possível,
seguir adiante, sabendo que, a cada magnífico volteio
na passarela, dezenas de lolitas deslumbrantes cobiçam
seu lugar.
Da morena Dalma Calado, que nos anos 70 aqueceu as passarelas
européias, à glacial Shirley Mallmann, que
recentemente teve seus quinze minutos de brilho em Manhattan
(veja
quadro),
até hoje nenhuma brasileira chegou aos calcanhares
de Gisele, seja em prestígio, dinheiro ou popularidade.
"Ela é pontual como os britânicos, eficiente
como os americanos e criativa como os brasileiros", compara
Carlos Miéle, dono da M. Officer, que a contratou
por 175.000
reais para uma campanha no começo do ano. No auge,
perfeita, elogiada, Gisele tromba neste instante com seu
primeiro grande problema: é o pivô de uma guerra
entre seu ex-patrão John Casablancas, da agência
Elite, e o atual, McCormack, da IMG. Há pouco mais
de um mês, Casablancas entrou com um processo nos
tribunais de Nova York contra a IMG, pedindo 15 milhões
de dólares de indenização por Gisele
ter rompido um contrato que só venceria em fevereiro.
Responsável direto pela mudança de Gisele
de Horizontina para Nova York e pela estratégia de
marketing que a ajudou a chegar ao topo, Casablancas não
esconde sua fúria. "Gisele Bündchen é
uma predadora. Ela se vendeu como um Judas para a IMG. É
a criatura mais avara e gananciosa que já conheci.
É egoísta, fanática por poder e dinheiro.
Na caixinha de Natal dos funcionários do ano passado,
quando todas as modelos contribuíram com 4.000
dólares, ela deu 500." Casablancas está inconsolável
pela perda do talento que ele identificou antes de todo
mundo e perdeu quando o retorno seria mais significativo.
Quer vingança. "Infelizmente, ela não é
a garota saudável e cheia de vida que todo mundo
pensa. A Gisele fuma maconha. Precisa de um baseado porque
é a única maneira que tem de controlar a ansiedade."
Gisele nega tudo. "É mentira! Nunca usei drogas.
Só posso dizer que estou muito triste por ele."
No mundo
inteiro, modelos trocam de agência com a mesma facilidade
com que trocam de roupa. O que esquenta a briga de Gisele
Bündchen e John Casablancas é ter, de um lado
do ringue, o dono da maior agência de modelos do mundo
que acaba de se ver envolvida em um escândalo
de agenciamento de menores na Europa (veja
quadro)
, e do outro, a modelo mais cobiçada do planeta.
Como nos divórcios litigiosos de gente milionária,
este também envolve dinheiro, orgulho ferido e desejo
de reparação financeira. O ressentimento de
Casablancas contra Gisele é imenso porque ela deixou
a Elite justamente no momento em que decolava, graças
a um plano detalhado de carreira que ele mesmo elaborou,
a pedido dos pais dela, Valdir e Vânia, quando a levou
para Nova York em 1996. Nesta fase de bate-boca e troca
de fax indignados, os Bündchen reconhecem, numa carta
enviada a Casablancas, que o trabalho de marketing da Elite
foi primoroso.
De
sua parte, Gisele afirma que deixou a Elite porque sua agente,
Anne Nelson, que goza de sua inteira confiança, foi
trabalhar na IMG. "No fundo, quando você é uma
modelo de renome, tanto faz a agência em que trabalha",
acredita Gisele. Ajuda muito na escolha, claro, algum acréscimo
na conta bancária: a IMG não cobra de Gisele
nenhum tostão para representá-la, enquanto a
Elite, nos últimos tempos, ficava com 10% a título
de comissão. As empresas que contratam as modelos também
pagam uma taxa às agências. Pelas cifras e personagens
envolvidos no imbróglio, a disputa deve se arrastar
nos tribunais americanos por pelo menos dois anos.
Marketing
apenas não fabrica uma modelo como Gisele. A cada
ano desembarcam em Nova York cerca de trezentas meninas
loucas para se tornarem uma Gisele Bündchen. Quase
todas se desiludem. "Só eu sei o que passei para
chegar onde estou. Não devo nada a ninguém,
a não ser a meus pais, que sempre me apoiaram", desafia
Gisele. Ela foi descoberta em 1995, por olheiros da Elite,
quando passeava em um shopping numa excursão a São
Paulo. Aos 15 anos, sem nenhuma idéia do que vinha
pela frente e sem nem saber direito se queria ser modelo,
participou do concurso Look of the Year, tirou segundo lugar,
terminou (por muita insistência da mãe) o 1º
colegial e caiu no mundo da moda.
Contratada
pela filial paulista da Elite, em 1996 Gisele foi morar
com mais sete meninas, todas do interior, num apartamento
na esquina das avenidas Rebouças e Henrique Schaumann,
em São Paulo. "Eu morria de saudade de casa. A grana
só dava para ir ao McDonald's", diz Gisele. Não
que fosse sacrifício ela adora hambúrguer.
Naquele tempo, durante os testes (castings, no jargão
da profissão), Gisele ouviu os mais disparatados
veredictos sobre seu futuro. Alguns produtores diziam que
ela era muito "clássica" e não servia para
fotos de moda jovem. Outros, que seu nariz, charmosíssimo,
era grande demais. Pontual, paciente e compenetrada, ela
foi abrindo caminho até desembarcar em Nova York,
sem saber falar uma palavra em inglês. (Hoje se vira
perfeitamente. Com sotaque, mas sem constrangimentos.) "Aqui
eu estava na mão da Elite. O John Casablancas me
sustentava, mas eu nunca via a cor do dinheiro", ela diz.
"Um dia, você descobre que está devendo 5.000
dólares à agência." Nos últimos
dois anos, depois de virar capa de revistas importantes
e tirar sua conta do vermelho, Gisele se dá ao luxo
de não fazer mais castings e só fotografar
com os grandes, como Steven Meisel, Bruce Weber e Mario
Testino.
Por
enquanto, o patrimônio da modelo se resume a um apartamento
em Tribeca, no sul de Manhattan, uma casa de campo nas montanhas
de Woodstock, perto de Nova York, e um jipão Toyota
do ano. "Cansei de ficar torrando dinheiro com aluguel. Decorei
meu apartamento com móveis artesanais e tapetes marroquinos.
Minha casa é toda colorida e cheia de bichos
cachorro, peixes, um iguana", descreve Gisele, em sua típica
fala, rápida como uma metralhadora. Ela tem fama de
ser dona de casa prendada. Pilota o aspirador (só agora
está contratando uma faxineira mexicana para o trabalho
pesado), põe as roupas para lavar e, quando dá
tempo, cozinha. Quando não dá, encomenda comida
chinesa ou japonesa e pizza. "Nunca fiz regime e como um monte
de porcarias: chocolate, biscoito, sanduíche. Minha
bolsa é cheia de balas. Adoro doces. Quase nunca bebo
álcool", diz. Gisele não tem muito tempo para
gastar o que ganha nem gosta muito dessa atividade. É
pão-dura assumida, mas garante que já foi mais.
"No ano passado, comecei a viajar de primeira classe só
porque na econômica não tinha mais sossego. Todo
mundo vinha puxar papo, pedir autógrafo, dizer que
era amigo da família, e eu acabava não dormindo
nada", reclama.
Com os primeiros
cachês, fez uma reforma na espaçosa casa com
piscina da família em Horizontina, a mesma onde os
pais a criaram com suas cinco irmãs, uma delas a
gêmea (não idêntica) Patrícia,
que estuda relações públicas em Santa
Maria. Mas Vânia, que é bancária aposentada,
e Valdir, que tem uma agência de empregos, fazem questão
de não tocar no dinheiro da filha. "As pessoas pensam
que ficamos ricos", diz ele. "Mas não é verdade.
O dinheiro dela está com ela. O nosso continua o
mesmo de sempre." Presentes ela dá, porque gosta.
"Nem minha mãe nem minhas irmãs ligam muito
para roupas, mas, como ganho um monte de coisas legais,
dou muitas para elas", conta Gisele.
Quando dá,
mais ou menos duas vezes por ano, foge para descansar em
Horizontina e cavalgar a égua "Paloma", que comprou
há dois anos. Mas ultimamente Gisele não tem
tempo nem para namorar. (Terminou o namoro com o modelo
Scott Barnhill. "Ele é muito meu amigo, mora a duas
quadras e a gente se fala pra caramba.") "Não sei
como ela agüenta", diz a irmã Gabriela, que
mora com Gisele em Nova York. Nos últimos tempos,
ela tem trabalhado seis dias por semana, muitas vezes das
6 da manhã às 10 da noite. Os estúdios
fotográficos são bem menos glamourosos do
que o que aparece nas páginas de uma revista, mas
Gisele suporta estoicamente dores nas costas, no pescoço
e cãibras nas pernas, enquanto faz uma cara de felicidade
absoluta para o fotógrafo.
Nas
temporadas de desfiles, costuma dormir quatro horas por noite
e mal tem tempo de comer ou ir ao banheiro. Freqüentemente
cochila no chão dos bastidores, deitada sobre o casaco.
Sabe que não pode perder tempo, já que a moda
nunca foi tão veloz em entronizar e destronar modelos.
Já faz seis meses, uma eternidade, que Gisele é
a número 1 das passarelas. É difícil
dizer se daqui a um semestre o pódio ainda será
dela. Mas, como qualquer moça de 19 anos, não
pensa nessa coisa de futuro. O máximo que arrisca em
matéria de previsões é: "Claro que se
o Steven Spielberg me chamasse para um filme eu iria na hora.
Gostaria de ter um programa de entrevista, quem sabe na MTV.
Adoro conversar e acho que me daria bem. Também pretendo
voltar a estudar". Mas é tudo sem prazo. "Na verdade,
não tenho nenhum plano para o futuro, pelo menos agora",
diz Gisele. E, garfo e faca em punho, põe-se a comer
seu filé, com o gosto de quem tem o mundo pela frente.
Com
reportagem de
Rachel Campello, de
São Paulo,
e
Rodrigo Vieira da Cunha, de
Horizontina
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