Edição 1 626 - 1/12/1999

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Pelé, Senna e agora Gisele

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A história de sucesso da
gaúcha
de 19 anos que se
tornou a mais requisitada
modelo do milionário
mundo da moda

Angela Pimenta, de Nova York


É fácil saber quando você está frente a frente com uma celebridade mundial. Ela chega enrolada num xale, de óculos escuros e cabeça baixa, tentando se manter incógnita. No restaurante, embora possa desbancar qualquer freguês da melhor mesa da casa, ela segue direto para um canto mais protegido. Geralmente, quando uma celebridade abre a boca, mesmo que seja apenas para pedir um prosaico filé com fritas, é o garçom quem fica engasgado. Aos 19 anos, a gaúcha Gisele Bündchen se enquadra em todas as categorias acima e em muitas outras mais. Nos últimos tempos, para fugir do assédio, teve de trocar cinco vezes o número do telefone. Em Nova York, onde mora, sempre que põe o pé na rua para passear com sua cadelinha "Vida", é assediada por fãs e caçadores de celebridades. "É impressionante como de uma hora para outra todo mundo acha que é meu amigo, que me viu nascer. É um inferno", desabafa Gisele diante de um bife bem passado, numa conversa com VEJA na semana passada.

Sua rotina, que já era agitada, acelerou-se ainda mais desde que a revista americana Vogue, meca e consagração de todas as modelos, estampou Gisele não em uma, mas em duas capas neste ano. Uma foi em julho, sozinha, num delicado ensaio em preto-e-branco. A outra foi na edição especial de novembro, a "do milênio", em que a menina brasileira (sim, adolescente ainda, com toda aquela exuberância de atributos) aparece ao lado de veteranas como Claudia Schiffer, Naomi Campbell e Kate Moss, no time dos "rostos do século". Gisele se destaca pelo fato de, ao contrário das outras beldades, ser uma estrela ascendente, uma novidade nas passarelas. Apontada na Europa e nos Estados Unidos como a modelo número 1 do mundo no momento, foi neste final de ano – mais precisamente no desfile das coleções de primavera-verão em Nova York, Milão e Paris – que a estrela de Gisele atingiu aquele estágio de luminosidade extrema. "Gisele chegou ao topo porque tem o visual certo na hora certa. Sua carreira está apenas começando", diz o empresário Mark McCormack, dono da agência IMG, com quem ela assinou contrato há dois meses. Como ele, toda uma legião de costureiros, fotógrafos e jornalistas se derrete pela menina nascida e criada em Horizontina, cidade gaúcha de 17.000 habitantes perto da fronteira com a Argentina.
 

Gisele, supermodel:
caçula (sentada no
chão) na capa com
o time das maiorais

Cliques de famosos – "Ela encarna à perfeição o tipo de beleza do novo milênio", avalia Sally Singer, da Vogue americana. "Gisele é deslumbrante justamente porque não é perfeita. Ela tem sardas, um nariz meio engraçado e uma alegria contagiante", completa. Também ajuda o fato de se encaixar à risca no padrão de beleza americano. Tem olhos azuis, cabelos castanho-claros e um corpo longilíneo: pernas e quadris estreitos, seios fartos e 51 quilos distribuídos por 1,79 de altura. Outra de suas virtudes fotogênicas é o temperamento expansivo. "Gisele é uma camaleoa e uma boa atriz", elogia o fotógrafo Steven Meisel, uma fera em sua área. "Ser atriz faz parte do ofício de modelo. Ela é capaz de encarnar uma série de emoções."

Vestida com simplicidade, ela passa tranqüilamente por uma garota comum, bonita e sapeca. Mas de salto alto, envolta em seda ou tafetá, é a deusa inatingível das passarelas. "Gisele é hoje a modelo ideal para nós", disse recentemente Donatella Versace à revista New York. "Ela infunde vida às roupas, tornando-as sexy e fortes." Traduzidos para o universo das cifras, a beleza e o carisma deverão render a Gisele cerca de 5 milhões de dólares no ano que vem só em desfiles e fotos para grifes chiques, como Christian Dior, Dolce & Gabbana e Ralph Lauren. O convite para posar em revistas de moda, como a Vogue, resulta em cachê simbólico de cerca de 300 dólares por dia, mas, como ainda é novata, tão cedo não poderá dispensar as extenuantes sessões de cliques de fotógrafos famosos, justamente o trabalho que mais lhe dá prestígio e exposição. O próximo passo de Gisele, para coroar sua carreira de supermodel, é assinar algum contrato exclusivo com uma fábrica de cosméticos. A atriz Andie MacDowell, por exemplo, fatura 2 milhões de dólares por ano para anunciar uma tintura de cabelo.

"Predadora e gananciosa" – O desafio de Gisele agora é agarrar as oportunidades e saber selecionar muitíssimo bem os trabalhos que lhe são oferecidos. "Como modelo, ela está no auge. O que tem de fazer agora é segurar, não cair no estrelismo", aconselha Regina Guerreiro, crítica de moda que acompanha o sobe-desce das modelos há trinta anos. Aos 19, Gisele ainda é uma garota em ascensão. Aos 25, a inglesa Kate Moss, top model do primeiro time, desfila pouco, quase não fotografa e tem o nome mais ligado à temporada que passou internada numa clínica de desintoxicação do que às (raras) capas em que aparece. Gisele marcou um tento numa carreira fugaz e competitiva ao chegar aonde chegou: o topo, o patamar da diva disputada, cercada de mordomias e paparicações. Mas agora vai ter de gastar muito salto alto e se munir de imenso tino e bom senso para se manter onde está e, se possível, seguir adiante, sabendo que, a cada magnífico volteio na passarela, dezenas de lolitas deslumbrantes cobiçam seu lugar.


Da morena Dalma Calado, que nos anos 70 aqueceu as passarelas européias, à glacial Shirley Mallmann, que recentemente teve seus quinze minutos de brilho em Manhattan
(veja quadro), até hoje nenhuma brasileira chegou aos calcanhares de Gisele, seja em prestígio, dinheiro ou popularidade. "Ela é pontual como os britânicos, eficiente como os americanos e criativa como os brasileiros", compara Carlos Miéle, dono da M. Officer, que a contratou por 175.000 reais para uma campanha no começo do ano. No auge, perfeita, elogiada, Gisele tromba neste instante com seu primeiro grande problema: é o pivô de uma guerra entre seu ex-patrão John Casablancas, da agência Elite, e o atual, McCormack, da IMG. Há pouco mais de um mês, Casablancas entrou com um processo nos tribunais de Nova York contra a IMG, pedindo 15 milhões de dólares de indenização por Gisele ter rompido um contrato que só venceria em fevereiro. Responsável direto pela mudança de Gisele de Horizontina para Nova York e pela estratégia de marketing que a ajudou a chegar ao topo, Casablancas não esconde sua fúria. "Gisele Bündchen é uma predadora. Ela se vendeu como um Judas para a IMG. É a criatura mais avara e gananciosa que já conheci. É egoísta, fanática por poder e dinheiro. Na caixinha de Natal dos funcionários do ano passado, quando todas as modelos contribuíram com 4.000 dólares, ela deu 500." Casablancas está inconsolável pela perda do talento que ele identificou antes de todo mundo e perdeu quando o retorno seria mais significativo. Quer vingança. "Infelizmente, ela não é a garota saudável e cheia de vida que todo mundo pensa. A Gisele fuma maconha. Precisa de um baseado porque é a única maneira que tem de controlar a ansiedade." Gisele nega tudo. "É mentira! Nunca usei drogas. Só posso dizer que estou muito triste por ele."

No mundo inteiro, modelos trocam de agência com a mesma facilidade com que trocam de roupa. O que esquenta a briga de Gisele Bündchen e John Casablancas é ter, de um lado do ringue, o dono da maior agência de modelos do mundo – que acaba de se ver envolvida em um escândalo de agenciamento de menores na Europa (veja quadro) – , e do outro, a modelo mais cobiçada do planeta. Como nos divórcios litigiosos de gente milionária, este também envolve dinheiro, orgulho ferido e desejo de reparação financeira. O ressentimento de Casablancas contra Gisele é imenso porque ela deixou a Elite justamente no momento em que decolava, graças a um plano detalhado de carreira que ele mesmo elaborou, a pedido dos pais dela, Valdir e Vânia, quando a levou para Nova York em 1996. Nesta fase de bate-boca e troca de fax indignados, os Bündchen reconhecem, numa carta enviada a Casablancas, que o trabalho de marketing da Elite foi primoroso.

De sua parte, Gisele afirma que deixou a Elite porque sua agente, Anne Nelson, que goza de sua inteira confiança, foi trabalhar na IMG. "No fundo, quando você é uma modelo de renome, tanto faz a agência em que trabalha", acredita Gisele. Ajuda muito na escolha, claro, algum acréscimo na conta bancária: a IMG não cobra de Gisele nenhum tostão para representá-la, enquanto a Elite, nos últimos tempos, ficava com 10% a título de comissão. As empresas que contratam as modelos também pagam uma taxa às agências. Pelas cifras e personagens envolvidos no imbróglio, a disputa deve se arrastar nos tribunais americanos por pelo menos dois anos.

Marketing apenas não fabrica uma modelo como Gisele. A cada ano desembarcam em Nova York cerca de trezentas meninas loucas para se tornarem uma Gisele Bündchen. Quase todas se desiludem. "Só eu sei o que passei para chegar onde estou. Não devo nada a ninguém, a não ser a meus pais, que sempre me apoiaram", desafia Gisele. Ela foi descoberta em 1995, por olheiros da Elite, quando passeava em um shopping numa excursão a São Paulo. Aos 15 anos, sem nenhuma idéia do que vinha pela frente e sem nem saber direito se queria ser modelo, participou do concurso Look of the Year, tirou segundo lugar, terminou (por muita insistência da mãe) o 1º colegial e caiu no mundo da moda.

Contratada pela filial paulista da Elite, em 1996 Gisele foi morar com mais sete meninas, todas do interior, num apartamento na esquina das avenidas Rebouças e Henrique Schaumann, em São Paulo. "Eu morria de saudade de casa. A grana só dava para ir ao McDonald's", diz Gisele. Não que fosse sacrifício – ela adora hambúrguer. Naquele tempo, durante os testes (castings, no jargão da profissão), Gisele ouviu os mais disparatados veredictos sobre seu futuro. Alguns produtores diziam que ela era muito "clássica" e não servia para fotos de moda jovem. Outros, que seu nariz, charmosíssimo, era grande demais. Pontual, paciente e compenetrada, ela foi abrindo caminho até desembarcar em Nova York, sem saber falar uma palavra em inglês. (Hoje se vira perfeitamente. Com sotaque, mas sem constrangimentos.) "Aqui eu estava na mão da Elite. O John Casablancas me sustentava, mas eu nunca via a cor do dinheiro", ela diz. "Um dia, você descobre que está devendo 5.000 dólares à agência." Nos últimos dois anos, depois de virar capa de revistas importantes e tirar sua conta do vermelho, Gisele se dá ao luxo de não fazer mais castings e só fotografar com os grandes, como Steven Meisel, Bruce Weber e Mario Testino.

Por enquanto, o patrimônio da modelo se resume a um apartamento em Tribeca, no sul de Manhattan, uma casa de campo nas montanhas de Woodstock, perto de Nova York, e um jipão Toyota do ano. "Cansei de ficar torrando dinheiro com aluguel. Decorei meu apartamento com móveis artesanais e tapetes marroquinos. Minha casa é toda colorida e cheia de bichos – cachorro, peixes, um iguana", descreve Gisele, em sua típica fala, rápida como uma metralhadora. Ela tem fama de ser dona de casa prendada. Pilota o aspirador (só agora está contratando uma faxineira mexicana para o trabalho pesado), põe as roupas para lavar e, quando dá tempo, cozinha. Quando não dá, encomenda comida chinesa ou japonesa e pizza. "Nunca fiz regime e como um monte de porcarias: chocolate, biscoito, sanduíche. Minha bolsa é cheia de balas. Adoro doces. Quase nunca bebo álcool", diz. Gisele não tem muito tempo para gastar o que ganha nem gosta muito dessa atividade. É pão-dura assumida, mas garante que já foi mais. "No ano passado, comecei a viajar de primeira classe só porque na econômica não tinha mais sossego. Todo mundo vinha puxar papo, pedir autógrafo, dizer que era amigo da família, e eu acabava não dormindo nada", reclama.

Com os primeiros cachês, fez uma reforma na espaçosa casa com piscina da família em Horizontina, a mesma onde os pais a criaram com suas cinco irmãs, uma delas a gêmea (não idêntica) Patrícia, que estuda relações públicas em Santa Maria. Mas Vânia, que é bancária aposentada, e Valdir, que tem uma agência de empregos, fazem questão de não tocar no dinheiro da filha. "As pessoas pensam que ficamos ricos", diz ele. "Mas não é verdade. O dinheiro dela está com ela. O nosso continua o mesmo de sempre." Presentes ela dá, porque gosta. "Nem minha mãe nem minhas irmãs ligam muito para roupas, mas, como ganho um monte de coisas legais, dou muitas para elas", conta Gisele.

Quando dá, mais ou menos duas vezes por ano, foge para descansar em Horizontina e cavalgar a égua "Paloma", que comprou há dois anos. Mas ultimamente Gisele não tem tempo nem para namorar. (Terminou o namoro com o modelo Scott Barnhill. "Ele é muito meu amigo, mora a duas quadras e a gente se fala pra caramba.") "Não sei como ela agüenta", diz a irmã Gabriela, que mora com Gisele em Nova York. Nos últimos tempos, ela tem trabalhado seis dias por semana, muitas vezes das 6 da manhã às 10 da noite. Os estúdios fotográficos são bem menos glamourosos do que o que aparece nas páginas de uma revista, mas Gisele suporta estoicamente dores nas costas, no pescoço e cãibras nas pernas, enquanto faz uma cara de felicidade absoluta para o fotógrafo.

Nas temporadas de desfiles, costuma dormir quatro horas por noite e mal tem tempo de comer ou ir ao banheiro. Freqüentemente cochila no chão dos bastidores, deitada sobre o casaco. Sabe que não pode perder tempo, já que a moda nunca foi tão veloz em entronizar e destronar modelos. Já faz seis meses, uma eternidade, que Gisele é a número 1 das passarelas. É difícil dizer se daqui a um semestre o pódio ainda será dela. Mas, como qualquer moça de 19 anos, não pensa nessa coisa de futuro. O máximo que arrisca em matéria de previsões é: "Claro que se o Steven Spielberg me chamasse para um filme eu iria na hora. Gostaria de ter um programa de entrevista, quem sabe na MTV. Adoro conversar e acho que me daria bem. Também pretendo voltar a estudar". Mas é tudo sem prazo. "Na verdade, não tenho nenhum plano para o futuro, pelo menos agora", diz Gisele. E, garfo e faca em punho, põe-se a comer seu filé, com o gosto de quem tem o mundo pela frente.


Com reportagem de Rachel Campello, de São Paulo,
e
Rodrigo Vieira da Cunha, de Horizontina