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Parasitas federais
Como
os novos municípios sugam
o dinheiroduto que corre pelo país
Franco
Iacomini
Houve
um tempo, no Brasil, em que cidades pobres, vizinhas de
grandes municípios, chegavam a fazer plebiscitos
para abrir mão de sua independência e gozar
das riquezas e da boa administração de uma
prima mais rica. Foi assim com Santo Amaro, na década
de 30. A cidade era um núcleo rural paupérrimo
que sobrevivia colado à capital paulista, um centro
próspero, de avenidas largas e iluminadas. Naquele
tempo, cada cidade vivia do que arrecadava de impostos
em seu território. Como Santo Amaro não
tinha riqueza alguma, não tinha como crescer. Depois
que aderiu a São Paulo, Santo Amaro passou a ser
um bairro de algum futuro, com indústrias e comércio
ativos. Nos dez últimos anos o panorama se inverteu.
O governo federal passou a centralizar o caixa dos impostos
e redistribuí-los, conforme a população
dos municípios. Resultado: criou-se uma indústria
oportunista, responsável pelo surgimento de 1.343
prefeituras (com prefeito, secretários, vereadores,
funcionários burocráticos, faxineiros, motoristas
e tudo o mais que custam os olhos da cara da população).
É uma máquina que está sugando os
escassos recursos do Estado brasileiro. De cada cinco
cidades do país, uma foi emancipada há menos
de dez anos. Nove em cada dez dependem do dinheiro federal
para subsistir (veja algumas
no quadro).
A prefeitura
de Campina do Monte Alegre, no sul de São Paulo,
tem 60% de seu orçamento garantido por repasses
da União. Ou seja, sem a riqueza gerada por brasileiros
de outros quadrantes que nem sabem onde fica Campina do
Monte Alegre, a cidade não resistiria. Ou teria
de cortar seus gastos substancialmente. Com dinheiro de
contribuintes de todo o país, a prefeitura paga
despesas da delegacia, do correio e do posto bancário.
Está construindo um ginásio de esportes
com capacidade para abrigar metade da população
local, que é de 6.000
habitantes. Há dois anos, a cidade assumiu a administração
do Campina Futebol Clube, o único clube da cidade,
e implantou lá cursos de dança, capoeira
e tênis de mesa.
Caiçara
do Norte, no Rio Grande do Norte, também não
deveria existir como cidade até porque está
em via de ser apagada do mapa. Ela está sendo soterrada
por dunas. As marés já devoraram duas ruas
da cidade. Caiçara do Norte pode desaparecer em
pouco tempo, mas os recursos continuam chegando de Brasília.
Num vício de cidade grande, em vez de gastar os
repasses em obras de contenção para segurar
a força do mar e da areia, o dinheiro é
usado para sustentar 130 funcionários e sete secretários
municipais.
Criar um
município é um bom negócio para as
elites locais. Na cabeça dos legisladores, a riqueza
do governo é infinita. A ninguém ocorre
que cada centavo de dinheiro público tem de ser
tomado da população. Graças a algum
dispositivo espertalhão, sucede que dois municípios
de 5.000
habitantes recebem o dobro da verba que caberia a um único
com 10.000
moradores. Pela lei, todo município com menos de
10.188
habitantes tem direito a uma verba mínima, de cerca
de 70.000
reais. Se uma cidade de 12.000
habitantes se dividir em quatro, cada uma vai levar 70.000
reais de Brasília. Um exemplo de beneficiado é
o município de São Bento do Norte, que deu
à luz Caiçara do Norte. Com a divisão,
foi-se metade da população de São
Bento. Apesar disso, o dinheiro do fundo federal destinado
à cidade não caiu: continua em torno de
70.000
reais por mês. Caiçara do Norte recebe o
mesmo valor. "A região ganhou com a divisão",
diz o prefeito Edmilson de Albuquerque Júnior,
de Caiçara.
Ninguém
duvida. A questão é saber se brasileiros
de todo o país devem ser obrigados a contribuir
para que políticos locais inchem suas máquinas
administrativas. Quando se trata de cidades muito pequenas,
é quase certo que em cada família pelo menos
uma pessoa encontrará emprego na administração
pública. Há casos como o de Vila Maria,
no Rio Grande do Sul, que viu sua renda per capita multiplicar-se
por oito depois que se transformou em município.
Alfredo Vasconcelos, em Minas Gerais, ampliou o único
posto de saúde da cidade e asfaltou ruas. "A qualidade
de vida, a distribuição de renda e a representatividade
política melhoram com a emancipação.
Essa é uma maneira de impedir que as pessoas deixem
o interior para engrossar as favelas nas grandes cidades",
diz Jamil Reston, superintendente do Instituto Brasileiro
de Administração Municipal, Ibam, uma organização
não governamental que presta consultoria a prefeituras
por todo o país.
Há
também uma razão política para esse
boom de natalidade municipal. Políticos interessados
em alavancar votos em determinada região apresentam
projetos para emancipar municípios e esforçam-se
em aprová-los. Ganham popularidade com isso. Nos
últimos dez anos foram criadas 13.500
vagas para vereadores em todo o país. Cada um deles
recebe salário e tem seu séquito de auxiliares.
Estima-se que existam hoje 225.000
funcionários públicos trabalhando nas câmaras
municipais o dobro do número de empregados
na indústria automobilística instalada no
país. "Há cidades em que os vereadores se
reúnem uma vez por mês e não votam nada",
observa o secretário do Saneamento do Rio de Janeiro,
Alexandre Cardoso, que está escrevendo um livro sobre
a indústria dos municípios. "São pequenos
abusos que geraram um enorme buraco nas contas públicas.
A moda de criar municípios é um dos motivos
que levaram à deterioração das finanças
públicas nos anos 90", afirma o economista Eduardo
Gianetti da Fonseca, professor da Universidade de São
Paulo e estudioso do assunto.
Para conter gastos públicos o governo já
privatizou empresas, reduziu funcionários federais,
cortou investimentos. Ainda não conseguiu enquadrar
Estados e municípios. Há um projeto de lei
que pretende responsabilizar os administradores que gastarem
mais do que arrecadam. É o projeto de responsabilidade
fiscal, que está encalhado no Congresso desde o
início do ano. Todas as medidas no sentido de disciplinar
essa farra dos vereadores são tímidas, quase
inócuas. Um projeto, de autoria do senador catarinense
Geraldo Althoff, determina que para se tornar um novo
município o candidato deverá ter mais de
10% do orçamento coberto por receitas próprias.
Se falhar em cobrir as despesas por dois anos seguidos,
será automaticamente incorporado a uma cidade maior
da vizinhança. É pouco. Mesmo que não
consiga gerar mais de 1 de cada 9 reais que gasta, o município
ainda poderá subsistir.
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