Edição 1 626 - 1/12/1999

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Em nome da cura

Religiosos ganham importância nos hospitais e se aliam aos médicos no diagnóstico e tratamento de doentes

Sandra Boccia

O médico Eduardo Ramos de Andrade Neto não se conformava com os efeitos devastadores de uma pneumonia sobre o organismo daquele paciente de 93 anos. O doente definhava dia após dia em um leito da UTI da Santa Casa de São Paulo. Primeiro foram as infecções. Depois, as escaras. Uma complicação atrás de outra. O respirador artificial já não bastava para sustentar-lhe a vida, transformada em um inferno de tubos de plástico, fios, máquinas computadorizadas. A luta parecia insana, mas Andrade Neto não esmorecia na tentativa de mantê-lo vivo. Aos 35 anos, como a maioria dos jovens médicos, custava a reconhecer a impotência da medicina diante daquele corpo exausto. A agonia já se prolongava por quatro meses quando o padre Carlos Pigatto, capelão do hospital, chamou Andrade Neto para uma conversa: "Doutor, o senhor não percebeu que não há mais vida nessa pessoa?" Andrade Neto fora educado e treinado para evitar a morte – ainda que pelo prolongamento artificial da vida. Naquele momento, no entanto, viu que lutava contra o inexorável. Suspendeu as medidas extraordinárias. "Prolongar indefinidamente aquela vida seria inútil", reconhece o médico. "Era impossível devolver integridade ao paciente." O doente morreu. Em paz.

 

Fotos: Ricardo Benichio
Capelão Pigatto, da Santa Casa: pela dignidade do paciente
O capelão Pigatto e o médico Andrade Neto são exemplos de uma filosofia que pouco a pouco ganha adeptos no Brasil. A de que os religiosos que perambulam pelos corredores dos hospitais não estão lá apenas para rezar com o doente, dar a extrema-unção, o temido sacramento dos moribundos, ou confortar uma família em luto. De jaleco branco, bip na cintura, bem informados sobre procedimentos médicos, os capelães – não importa o credo – agora são chamados a ajudar nos diagnósticos e opinar nos tratamentos. "Vivemos uma retomada de consciência do sentimento religioso no processo de doença, terapia, cura e fim de vida", diz o padre Júlio Munaro, professor de história do cristianismo e coordenador da Pastoral da Saúde da Arquidiocese de São Paulo.

O trabalho dos capelães é bem recebido e até incentivado por muitos médicos. "Por causa do grande tecnicismo que vem permeando a prática médica, os capelães e os médicos estiveram distantes uns dos outros por muito tempo", observa Paulo Chiavone, diretor do serviço de terapia intensiva da Santa Casa paulista. "Hoje a tendência é ver o capelão como parte ativa da equipe." Há seis meses, o capelão Anísio Baldessin conquistou uma cadeira cativa na seletíssima comissão de bioética do Hospital das Clínicas, HC, de São Paulo, o maior e um dos mais importantes da América Latina. Nas reuniões com os homens de branco, faz-se ouvir sobre todos os assuntos. Numa tarde de janeiro passado, o bip do capelão Baldessin tocou. O chamado urgente era de um médico da equipe de transplantes do hospital. Os pais de um menino de 13 anos, vítima de morte cerebral devido a uma queda do telhado quando tentava pegar uma pipa, recusavam-se a doar os órgãos do garoto. "Deus nos deu o filho inteiro e agora nós vamos devolvê-lo em pedaços?", argumentavam. "O corpo perde a importância depois da morte e Deus só se alegraria com atos em defesa da vida, como a doação dos órgãos de seu filho", explicou o capelão. Os paic concordaram com a doação.

 

Missa na capela do HC: religião integra o tratamento receitado pelos médicos
Hoje, médicos chegam a recomendar a seus pacientes que compareçam às celebrações religiosas realizadas nos hospitais. Pode parecer um ritual inútil no tratamento médico, mas é cada vez maior a crença de que ter uma religião faz bem. "A religiosidade é promotora da saúde", diz Francisco Lotufo, professor do departamento de psiquiatria da Universidade de São Paulo. "O contato com o capelão ajuda a aliviar o stress causado pela doença e a aumentar a sensação de bem-estar." Um dos cultos mais concorridos do HC paulista é realizado na ala psiquiátrica. Os pacientes participam ativamente. Nem sempre de modo comportado. "O padre fala para beber e comer o corpo de Cristo, mas no fim das contas só ele bebe", protesta um doente. Outro se levanta, reclama que o sermão do padre Evangelista Moisés de Figueiredo é de uma chatice só e vai embora. Com uma risada alta, um terceiro corta o silêncio sagrado da entrega da hóstia e dispara: "Não é que estalou, gente?"
 

Em forma de cruzOs religiosos sempre estiveram presentes no atendimento aos doentes. O primeiro concílio ecumênico, realizado no ano 325, em Nicéia, na Ásia Menor, determinou que os bispos deveriam organizar a comunidade de forma que nenhum doente ficasse sem assistência espiritual e material. Os primeiros grandes hospitais europeus, surgidos a partir do século XIII, eram construídos sempre em forma de cruz. Todas as enfermarias convergiam para o altar, instalado no centro do edifício. Era um tempo em que doença se traduzia por castigo divino. Antes de ser submetido a qualquer tratamento, o enfermo era obrigado a se confessar. Entre os séculos XVI e XIX, consolidou-se a noção de que o sofrimento orgânico não decorria do pecado, começava-se a fazer a distinção entre cuidados médicos e espirituais. Estetoscópio de um lado, Bíblia de outro. Agora, os dois voltam a se encontrar. É uma mudança e tanto. E com bons resultados.

Há duas semanas, um médico do Hospital do Câncer, de Curitiba, pediu que o capelão Mario Sonntag, pastor luterano, fosse ver uma jovem de 24 anos, vítima de um tumor no útero em estágio avançado. A moça simplesmente se recusava a falar sobre a doença com a equipe médica, o que dificultava o tratamento. "Comigo ela conversou e percebi que a paciente estava extremamente deprimida", conta o religioso. Ele então sugeriu um aumento na dose diária de sedativos. Funcionou. Uma semana depois, a jovem se sentia mais bem-disposta, com ânimo para seguir as orientações médicas.

 


Padre Figueiredo na ala psiquiátrica: ritual com participação ativa dos
doentes mentais

O trabalho dos capelães nos hospitais brasileiros ainda é tímido se comparado ao que ocorre em outros países. Nos Estados Unidos, a comissão responsável por legislar e implantar os padrões de tratamento nos hospitais determina que toda instituição de saúde está obrigada a dar apoio espiritual aos pacientes e funcionários. "Nós nos reunimos toda semana com médicos, enfermeiras e assistentes sociais para discutir a necessidade de cada paciente", diz o capelão carioca Renato Santos, pastor batista que trabalha no Baptist Hospital of Miami, na Flórida. Formado em capelania nos Estados Unidos, ele terminou sua residência hospitalar em 1992. Não há no Brasil ensino equivalente, apenas cursos de pouca duração. O de três meses do Centro Universitário São Camilo, em São Paulo, criado em 1997, forma, em média, vinte capelães por ano.

A aproximação da medicina com a religião não significa a prevalência da fé sobre a razão. "Cura mais um bom médico do que um santo; cura mais um bom hospital do que o Santuário de Aparecida", diz o padre Júlio Munaro. "A função da fé não é curar, mas dar sentido à vida, à doença e à morte." Afinal, o homem não é apenas um amontoado de órgãos e tecidos. Amém.