|
|
Em nome da cura
Religiosos
ganham importância nos hospitais e se aliam aos
médicos no diagnóstico e
tratamento de doentes
Sandra Boccia
O
médico Eduardo Ramos de Andrade Neto não
se conformava com os efeitos devastadores de uma pneumonia
sobre o organismo daquele paciente de 93 anos. O doente
definhava dia após dia em um leito da UTI da Santa
Casa de São Paulo. Primeiro foram as infecções.
Depois, as escaras. Uma complicação atrás
de outra. O respirador artificial já não
bastava para sustentar-lhe a vida, transformada em um
inferno de tubos de plástico, fios, máquinas
computadorizadas. A luta parecia insana, mas Andrade Neto
não esmorecia na tentativa de mantê-lo vivo.
Aos 35 anos, como a maioria dos jovens médicos,
custava a reconhecer a impotência da medicina diante
daquele corpo exausto. A agonia já se prolongava
por quatro meses quando o padre Carlos Pigatto, capelão
do hospital, chamou Andrade Neto para uma conversa: "Doutor,
o senhor não percebeu que não há
mais vida nessa pessoa?" Andrade Neto fora educado e treinado
para evitar a morte ainda que pelo prolongamento artificial
da vida. Naquele momento, no entanto, viu que lutava contra
o inexorável. Suspendeu as medidas extraordinárias.
"Prolongar indefinidamente aquela vida seria inútil",
reconhece o médico. "Era impossível devolver
integridade ao paciente." O doente morreu. Em paz.
Fotos: Ricardo Benichio
 |
| Capelão Pigatto, da Santa Casa: pela dignidade
do paciente |
O capelão
Pigatto e o médico Andrade Neto são exemplos
de uma filosofia que pouco a pouco ganha adeptos no Brasil.
A de que os religiosos que perambulam pelos corredores dos
hospitais não estão lá apenas para
rezar com o doente, dar a extrema-unção, o
temido sacramento dos moribundos, ou confortar uma família
em luto. De jaleco branco, bip na cintura, bem informados
sobre procedimentos médicos, os capelães
não importa o credo agora são chamados
a ajudar nos diagnósticos e opinar nos tratamentos.
"Vivemos uma retomada de consciência do sentimento
religioso no processo de doença, terapia, cura e
fim de vida", diz o padre Júlio Munaro, professor
de história do cristianismo e coordenador da Pastoral
da Saúde da Arquidiocese de São Paulo.
O trabalho
dos capelães é bem recebido e até
incentivado por muitos médicos. "Por causa do grande
tecnicismo que vem permeando a prática médica,
os capelães e os médicos estiveram distantes
uns dos outros por muito tempo", observa Paulo Chiavone,
diretor do serviço de terapia intensiva da Santa
Casa paulista. "Hoje a tendência é ver o
capelão como parte ativa da equipe." Há
seis meses, o capelão Anísio Baldessin conquistou
uma cadeira cativa na seletíssima comissão
de bioética do Hospital das Clínicas, HC,
de São Paulo, o maior e um dos mais importantes
da América Latina. Nas reuniões com os homens
de branco, faz-se ouvir sobre todos os assuntos. Numa
tarde de janeiro passado, o bip do capelão Baldessin
tocou. O chamado urgente era de um médico da equipe
de transplantes do hospital. Os pais de um menino de 13
anos, vítima de morte cerebral devido a uma queda
do telhado quando tentava pegar uma pipa, recusavam-se
a doar os órgãos do garoto. "Deus nos deu
o filho inteiro e agora nós vamos devolvê-lo
em pedaços?", argumentavam. "O corpo perde a importância
depois da morte e Deus só se alegraria com atos
em defesa da vida, como a doação dos órgãos
de seu filho", explicou o capelão. Os paic concordaram
com a doação.
 |
|
Missa
na capela do HC: religião integra
o tratamento
receitado pelos
médicos
|
Hoje, médicos
chegam a recomendar a seus pacientes que compareçam
às celebrações religiosas realizadas
nos hospitais. Pode parecer um ritual inútil no tratamento
médico, mas é cada vez maior a crença
de que ter uma religião faz bem. "A religiosidade
é promotora da saúde", diz Francisco Lotufo,
professor do departamento de psiquiatria da Universidade
de São Paulo. "O contato com o capelão ajuda
a aliviar o stress causado pela doença e a aumentar
a sensação de bem-estar." Um dos cultos mais
concorridos do HC paulista é realizado na ala psiquiátrica.
Os pacientes participam ativamente. Nem sempre de modo comportado.
"O padre fala para beber e comer o corpo de Cristo, mas
no fim das contas só ele bebe", protesta um doente.
Outro se levanta, reclama que o sermão do padre Evangelista
Moisés de Figueiredo é de uma chatice só
e vai embora. Com uma risada alta, um terceiro corta o silêncio
sagrado da entrega da hóstia e dispara: "Não
é que estalou, gente?"
Em forma
de cruz
Os
religiosos sempre estiveram presentes no atendimento aos
doentes. O primeiro concílio ecumênico, realizado
no ano 325, em Nicéia, na Ásia Menor, determinou
que os bispos deveriam organizar a comunidade de forma
que nenhum doente ficasse sem assistência espiritual
e material. Os primeiros grandes hospitais europeus, surgidos
a partir do século XIII, eram construídos
sempre em forma de cruz. Todas as enfermarias convergiam
para o altar, instalado no centro do edifício.
Era um tempo em que doença se traduzia por castigo
divino. Antes de ser submetido a qualquer tratamento,
o enfermo era obrigado a se confessar. Entre os séculos
XVI e XIX, consolidou-se a noção de que
o sofrimento orgânico não decorria do pecado,
começava-se a fazer a distinção entre
cuidados médicos e espirituais. Estetoscópio
de um lado, Bíblia
de outro. Agora, os dois voltam a se encontrar. É
uma mudança e tanto. E com bons resultados.
Há
duas semanas, um médico do Hospital do Câncer,
de Curitiba, pediu que o capelão Mario Sonntag,
pastor luterano, fosse ver uma jovem de 24 anos, vítima
de um tumor no útero em estágio avançado.
A moça simplesmente se recusava a falar sobre a
doença com a equipe médica, o que dificultava
o tratamento. "Comigo ela conversou e percebi que a paciente
estava extremamente deprimida", conta o religioso. Ele
então sugeriu um aumento na dose diária
de sedativos. Funcionou. Uma semana depois, a jovem se
sentia mais bem-disposta, com ânimo para seguir
as orientações médicas.
 |
|
Padre
Figueiredo na ala psiquiátrica: ritual com
participação ativa
dos
doentes
mentais
|
O trabalho
dos capelães nos hospitais brasileiros ainda é
tímido se comparado ao que ocorre em outros países.
Nos Estados Unidos, a comissão responsável
por legislar e implantar os padrões de tratamento
nos hospitais determina que toda instituição
de saúde está obrigada a dar apoio espiritual
aos pacientes e funcionários. "Nós nos reunimos
toda semana com médicos, enfermeiras e assistentes
sociais para discutir a necessidade de cada paciente",
diz o capelão carioca Renato Santos, pastor batista
que trabalha no Baptist Hospital of Miami, na Flórida.
Formado em capelania nos Estados Unidos, ele terminou
sua residência hospitalar em 1992. Não há
no Brasil ensino equivalente, apenas cursos de pouca duração.
O de três meses do Centro Universitário São
Camilo, em São Paulo, criado em 1997, forma, em
média, vinte capelães por ano.
A
aproximação da medicina com a religião
não significa a prevalência da fé sobre
a razão. "Cura mais um bom médico do que um
santo; cura mais um bom hospital do que o Santuário
de Aparecida", diz o padre Júlio Munaro. "A função
da fé não é curar, mas dar sentido
à vida, à doença e à morte."
Afinal, o homem não é apenas um amontoado
de órgãos e tecidos. Amém.
|