Edição 1 626 - 1/12/1999

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Nunca é cedo demais

Preocupados em envelhecer com saúde, os
jovens procuram ajuda dos médicos geriatras

Cristina Poles

Nunca os consultórios dos geriatras estiveram tão cheios como agora. Era de esperar que os pacientes fossem senhores e senhoras sexagenários. Afinal, a geriatria é aquela especialidade da medicina que se ocupa das doenças dos velhos. Nas salas de espera, o que se vê, com freqüência cada vez maior, é uma legião de jovens saudáveis, muitos ainda na casa dos 30 anos. Em média, de cada dez pessoas que batem à porta de um geriatra, cinco têm menos de 50. Em 1996 não passavam de duas. A mudança explica-se, em parte, pelo aumento na expectativa de vida do brasileiro. Hoje, 65% dos homens e 78% das mulheres chegam aos 60 anos. No início do século, só um em cada quatro vivia tanto. O que decide a ida aos consultórios, contudo, é a consciência de que nunca é cedo demais para se preparar para a terceira idade. Graças aos avanços científicos, sabe-se que fatores genéticos pesam apenas 40% na maneira como o ser humano envelhece. Muito mais importante é a atenção dispensada ao corpo na época em que o organismo funciona com pleno vigor. Quem espera sentir o peso dos anos para começar a se cuidar pode ter desperdiçado a chance de uma velhice saudável e ativa.

 



O esforço para chegar à terceira idade com saúde deve seguir o mesmo raciocínio de quem poupa dinheiro para uma aposentadoria tranqüila. Ainda que discretos, os primeiros sinais de que a poupança é ou não suficiente começam a ficar evidentes depois dos 30 anos. "Se antes dessa idade a falta de exercício físico só deixa o sujeito sem fôlego numa ladeira, a partir dela pode significar dores nas articulações, acúmulo de stress e risco de problemas cardiovasculares", diz o geriatra João Toniolo Neto, da Universidade Federal de São Paulo. A grande arma em busca da velhice sadia é a prevenção
(veja quadro ao lado). Pelo histórico familiar de osteoporose, o enfraquecimento dos ossos, a fonoaudióloga Angélica Nakamura procurou o médico e foi orientada a abandonar o sedentarismo e tomar muito leite. Aos 27 anos, ela está se armando contra uma doença que tende a aparecer apenas por volta dos 50.

 

A professora paulistana Ana Beatriz Menghini pisou pela primeira vez o consultório de um geriatra aos 33 anos, muito antes de sentir o corpo reclamar. Lá descobriu que tinha tendência a desenvolver artrose, doença que provoca o desgaste das articulações e pode causar dores terríveis. Foi aconselhada a tirar radiografias periódicas da coluna, fazer exercícios de reeducação postural e trocar as sessões de musculação por atividades físicas de baixo impacto, como a natação. Atualmente com 41 anos, Ana Beatriz está em perfeita forma. "A intenção é nunca deixar a doença se instalar", diz. Angélica e Ana agiram corretamente ao procurar um médico especialista. Com isso evitaram o risco dos modismos. São aqueles remédios e tratamentos que, de tempo em tempo, se anunciam como milagrosos para conter o envelhecimento.

Quem não se lembra do auê em torno das supostas benesses dos hormônios do crescimento e do Dhea, que seriam capazes de manter a massa muscular sempre jovem e evitar a obesidade? Mais tarde, comprovou-se que esses compostos aumentavam os riscos de diabetes e de câncer de próstata e de útero. Desde a década passada foi lançada uma infinidade de vitaminas e minerais que seriam capazes de impedir a formação dos radicais livres, que, acredita-se, têm papel decisivo no processo de envelhecimento. A maioria não passou de blefe. Mas algumas substâncias entraram para o arsenal dos geriatras. É o caso da vitamina E, do selênio e do zinco, que ajudam na prevenção de distúrbios cardiovasculares e do câncer, mais comuns na velhice. "A vitamina E também parece retardar a progressão do Alzheimer, doença que atinge 5% dos idosos", afirma o psiquiatra Wagner Gattaz, da Universidade de São Paulo.

Uma das mais novas promessas contra o envelhecimento é a dieta de baixas calorias. Recentemente, o geneticista brasileiro Tomas Prolla, pesquisador da Universidade de Wisconsin, nos Estados Unidos, divulgou um trabalho em que conseguiu prolongar em 40% a vida de ratos de laboratório reduzindo em 30% o consumo calórico diário. Para os seres humanos, equivaleria a uma ingestão de 1.400 calorias por dia – o que se come em um regime de emagrecimento. "Isso só pode ser tentado com suplementação vitamínica por meio de comprimidos, sob o risco de a pessoa ficar desnutrida", adverte Prolla. Os médicos concordam quanto à necessidade de uma dieta equilibrada e com pouca gordura – mas são radicalmente contra modismos, sobretudo se as experiências só foram realizadas em ratos.

Não há dúvida de que a alimentação pode ajudar a envelhecer bem. Os estudos com os chamados nutracêuticos autorizam previsões otimistas. "Presentes em diversos alimentos, essas substâncias não são consideradas nutrientes, mas previnem doenças", diz Silvia Franciscato Cozzolino, presidente da Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição. Um poderoso nutracêutico é a isoflavona, presente na soja, que protege contra câncer, osteoporose e problemas cardíacos. De nada adianta, no entanto, tentar contrabalançar uma alimentação desequilibrada com suplementos vitamínicos. O profissional de marketing Danilo Piccoli visitou pela primeira vez o geriatra com 25 anos. Estava estressado e se alimentava mal. O médico recomendou que reduzisse o consumo de gorduras, parasse de pular refeições e, junto com a musculação, fizesse exercícios aeróbicos.

Nunca se estudou tanto o processo de envelhecimento. Recentemente, foi identificado o principal mecanismo do relógio biológico humano: os telômeros, espécie de capa que envolve as extremidades dos cromossomos. São eles que restringem o tempo de vida das células. À descoberta, seguiu-se a de que o organismo produz uma enzima capaz de conter a atuação dos telômeros. Na teoria é fácil: basta fazer com que essa enzima aja nas células, impedindo sua morte. Na prática, contudo, tem-se um longo caminho pela frente até chegar à fonte da juventude. Enquanto isso, a única coisa que ajuda a ter uma velhice saudável é uma juventude saudável.