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Nunca é
cedo demais
Preocupados
em envelhecer com saúde, os
jovens
procuram ajuda dos médicos geriatras
Cristina
Poles
Nunca
os consultórios dos geriatras estiveram tão
cheios como agora. Era de esperar que os pacientes fossem
senhores e senhoras sexagenários. Afinal, a geriatria
é aquela especialidade da medicina que se ocupa
das doenças dos velhos. Nas salas de espera, o
que se vê, com freqüência cada vez maior,
é uma legião de jovens saudáveis,
muitos ainda na casa dos 30 anos. Em média, de
cada dez pessoas que batem à porta de um geriatra,
cinco têm menos de 50. Em 1996 não passavam
de duas. A mudança explica-se, em parte, pelo aumento
na expectativa de vida do brasileiro. Hoje, 65% dos homens
e 78% das mulheres chegam aos 60 anos. No início
do século, só um em cada quatro vivia tanto.
O que decide a ida aos consultórios, contudo, é
a consciência de que nunca é cedo demais
para se preparar para a terceira idade. Graças
aos avanços científicos, sabe-se que fatores
genéticos pesam apenas 40% na maneira como o ser
humano envelhece. Muito mais importante é a atenção
dispensada ao corpo na época em que o organismo
funciona com pleno vigor. Quem espera sentir o peso dos
anos para começar a se cuidar pode ter desperdiçado
a chance de uma velhice saudável e ativa.

O esforço para chegar à terceira idade com
saúde deve seguir o mesmo raciocínio de
quem poupa dinheiro para uma aposentadoria tranqüila.
Ainda que discretos, os primeiros sinais de que a poupança
é ou não suficiente começam a ficar
evidentes depois dos 30 anos. "Se antes dessa idade a
falta de exercício físico só deixa
o sujeito sem fôlego numa ladeira, a partir dela
pode significar dores nas articulações,
acúmulo de stress e risco de problemas cardiovasculares",
diz o geriatra João Toniolo Neto, da Universidade
Federal de São Paulo. A grande arma em busca da
velhice sadia é a prevenção (veja
quadro ao lado). Pelo
histórico familiar de osteoporose, o enfraquecimento
dos ossos, a fonoaudióloga Angélica Nakamura
procurou o médico e foi orientada a abandonar o
sedentarismo e tomar muito leite. Aos 27 anos, ela está
se armando contra uma doença que tende a aparecer
apenas por volta dos 50.
A professora
paulistana Ana Beatriz Menghini pisou pela primeira vez
o consultório de um geriatra aos 33 anos, muito
antes de sentir o corpo reclamar. Lá descobriu
que tinha tendência a desenvolver artrose, doença
que provoca o desgaste das articulações
e pode causar dores terríveis. Foi aconselhada
a tirar radiografias periódicas da coluna, fazer
exercícios de reeducação postural
e trocar as sessões de musculação
por atividades físicas de baixo impacto, como a
natação. Atualmente com 41 anos, Ana Beatriz
está em perfeita forma. "A intenção
é nunca deixar a doença se instalar", diz.
Angélica e Ana agiram corretamente ao procurar
um médico especialista. Com isso evitaram o risco
dos modismos. São aqueles remédios e tratamentos
que, de tempo em tempo, se anunciam como milagrosos para
conter o envelhecimento.
Quem não
se lembra do auê em torno das supostas benesses
dos hormônios do crescimento e do Dhea, que seriam
capazes de manter a massa muscular sempre jovem e evitar
a obesidade? Mais tarde, comprovou-se que esses compostos
aumentavam os riscos de diabetes e de câncer de
próstata e de útero. Desde a década
passada foi lançada uma infinidade de vitaminas
e minerais que seriam capazes de impedir a formação
dos radicais livres, que, acredita-se, têm papel
decisivo no processo de envelhecimento. A maioria não
passou de blefe. Mas algumas substâncias entraram
para o arsenal dos geriatras. É o caso da vitamina
E, do selênio e do zinco, que ajudam na prevenção
de distúrbios cardiovasculares e do câncer,
mais comuns na velhice. "A vitamina E também parece
retardar a progressão do Alzheimer, doença
que atinge 5% dos idosos", afirma o psiquiatra Wagner
Gattaz, da Universidade de São Paulo.
Uma das
mais novas promessas contra o envelhecimento é
a dieta de baixas calorias. Recentemente, o geneticista
brasileiro Tomas Prolla, pesquisador da Universidade de
Wisconsin, nos Estados Unidos, divulgou um trabalho em
que conseguiu prolongar em 40% a vida de ratos de laboratório
reduzindo em 30% o consumo calórico diário.
Para os seres humanos, equivaleria a uma ingestão
de 1.400
calorias por dia o que se come em um regime de emagrecimento.
"Isso só pode ser tentado com suplementação
vitamínica por meio de comprimidos, sob o risco
de a pessoa ficar desnutrida", adverte Prolla. Os médicos
concordam quanto à necessidade de uma dieta equilibrada
e com pouca gordura mas são radicalmente contra
modismos, sobretudo se as experiências só
foram realizadas em ratos.
Não
há dúvida de que a alimentação
pode ajudar a envelhecer bem. Os estudos com os chamados
nutracêuticos autorizam previsões otimistas.
"Presentes em diversos alimentos, essas substâncias
não são consideradas nutrientes, mas previnem
doenças", diz Silvia Franciscato Cozzolino, presidente
da Sociedade Brasileira de Alimentação e
Nutrição. Um poderoso nutracêutico
é a isoflavona, presente na soja, que protege contra
câncer, osteoporose e problemas cardíacos.
De nada adianta, no entanto, tentar contrabalançar
uma alimentação desequilibrada com suplementos
vitamínicos. O profissional de marketing Danilo
Piccoli visitou pela primeira vez o geriatra com 25 anos.
Estava estressado e se alimentava mal. O médico
recomendou que reduzisse o consumo de gorduras, parasse
de pular refeições e, junto com a musculação,
fizesse exercícios aeróbicos.
Nunca
se estudou tanto o processo de envelhecimento. Recentemente,
foi identificado o principal mecanismo do relógio
biológico humano: os telômeros, espécie
de capa que envolve as extremidades dos cromossomos. São
eles que restringem o tempo de vida das células.
À descoberta, seguiu-se a de que o organismo produz
uma enzima capaz de conter a atuação dos telômeros.
Na teoria é fácil: basta fazer com que essa
enzima aja nas células, impedindo sua morte. Na prática,
contudo, tem-se um longo caminho pela frente até
chegar à fonte da juventude. Enquanto isso, a única
coisa que ajuda a ter uma velhice saudável é
uma juventude saudável.
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