A Europa vai
ao deserto
Las
Vegas ergue novos hotéis que
imitam
cartões-postais europeus e
incluem até os canais de Veneza
O
que mais poderia querer uma cidade que, erguida no meio
do deserto, atrai 30 milhões de visitantes por
ano, recebe magnatas do mundo inteiro e fatura 7 bilhões
de dólares anuais só com roletas? A resposta
é: atrair mais turistas, receber mais milionários
e faturar mais bilhões. Firme nesse propósito,
Las Vegas, a capital mundial da jogatina, investiu pesado
no multibilionário negócio dos hotéis
temáticos e o retorno está aparecendo rapidamente:
só no último ano, ganhou três empreendimentos
do gênero. A fonte de inspiração de
todos eles é a mesma: o glamour europeu. Por diárias
a partir de 109 dólares, hotéis como o Paris
Hilton, o Venetian e o Bellagio são uma tentativa
de criar um suspiro de civilização numa
área até há pouco dominada por cáctus,
cascavéis e mafiosos.
O Venetian,
inaugurado em maio por Sophia Loren em carne e osso, é
o mais vistoso resultado desse delírio. Ao atravessar
sua porta principal, o visitante estará entrando
num salão que é réplica em tamanho
natural do Palácio dos Doges. Dentro dele, encontrará
afrescos de Tintoretto, tetos em formato de abóbada,
um pátio que é a própria Piazza San
Marco e, claro, cantantes gondoleiros deslizando alegremente
por uma versão em miniatura do Grande Canal. É
ousadia típica do império americano neste
fim de século.
O
bilionário proprietário e idealizador do
Venetian, Sheldon Adelson, afirma que a idéia não
é fazer com que o hotel simplesmente lembre Veneza,
mas "conseguir que ele seja a própria Veneza".
Para isso, o empresário esmerou-se nos detalhes:
importou da Itália dois especialistas em maquiar
blocos de concreto para deixá-los com a aparência
de legítimas pedras com seis séculos de
existência e fez com que até a água
na qual passeiam os turistas fosse meticulosamente tingida
para exibir o exato tom verde-musgo da original italiana.
O Venetian tem 3.000
quartos e ainda pretende crescer. Deverá estar
concluído em 2001, quando terá consumido
1,2 bilhão de dólares.
Vulcão
artificial
A cifra só não é recorde mundial porque
perde por pouco para a que foi gasta com a construção
do Bellagio outro colossal hotel-cassino-centro de
convenções que reproduz os encantos da Itália.
Aberto em outubro do ano passado, custou 1,6 bilhão
de dólares. Entre suas grandezas, consta uma réplica
do Lago de Como. Ao entardecer, do meio de suas águas
ergue-se uma fonte de 45 milhões de dólares
que, a cada quinze minutos, lança jatos fulminantes
para o céu ao som de acordes de Puccini.
O Bellagio
orgulha-se do seu autoproclamado "requinte europeu": anuncia
como principal atração uma espetacular galeria
de arte moderna, que inclui obras de Matisse, Miró
e Picasso. Mas, se contempla gregos, não esquece
os troianos: butiques como Prada, Gucci e Armani enfileiram-se
por seus terraços para aplacar a fúria consumista
de quem, porventura, notar que a Itália americana
não inclui a Via Veneto.
O
Bellagio foi criado pelo empresário Steve Wynn, hoje
figura lendária em Las Vegas. No final dos anos 80,
quando as roletas passaram a girar menos do que gostariam
os donos dos cassinos, Wynn decidiu levantar o Mirage, um
megalomaníaco prédio de 29 andares que veio
a ser o primeiro da série de hotéis temáticos
da cidade. De inspiração tropical, ele exibia,
entre outras excentricidades, tigres brancos passeando pelos
jardins e um vulcão artificial que entrava em erupção
a cada meia hora. Pelos cálculos do empresário,
o hotel precisava faturar nada menos que 1 milhão
de dólares por dia para valer o investimento. A concorrência
previu um fracasso retumbante. Errou. Só em seu primeiro
ano de funcionamento, o Mirage teve um retorno de 720 milhões
de dólares quase 2 milhões por dia. O hotel
restaurou o fôlego de Las Vegas e Wynn ganhou fama
de visionário.
O sucesso do empreendimento encorajou outros empresários
a investir na mesma fórmula: um novo padrão
de hotel-cassino que mantém o jogo como pièce
de résistance, mas que, além disso, oferece
diversão para toda a família. Vieram então
o Treasure Island, uma espécie de Terra do Nunca
com piratas e canhões que atiram de verdade, o New
York, New York, outra maluquice arquitetônica que
imita a metrópole americana, e, mais recentemente,
o Mandalay Bay, resort na linha "tropical selvagem", com
cachoeiras artificiais e praia igualmente falsa onde os
hóspedes se dedicam à prática do surfe.
Colônia
de férias da Máfia
Las Vegas já nasceu bizarra. Desde que, em
1946, o gângster Bugsy Siegel emprestou dinheiro da
Máfia para construir o primeiro hotel de luxo da
cidade, o Flamingo, a mais efervescente cidade do Estado
de Nevada assumiu sua vocação para o espetáculo.
Seu público passou a ser formado por contraventores
de todo o planeta. Para lá acorriam fanfarrões
abonados e playboys ávidos por desfrutar as especialidades
locais jogo legal e sexo farto. Na década
de 70, o governo de Nevada percebeu que o negócio
era rentável demais para ficar nas mãos da
Máfia: expulsou os gângsteres e abriu espaço
para a entrada das megacorporações turísticas,
que transformaram a ex-colônia de férias da
bandidagem em uma espécie de filial da Disneylândia.
De lá para cá, os empresários dedicaram-se
a defender seus domínios. Afinal, trata-se de um
império que, só neste ano, terá atraído
mais de 32 milhões de turistas de todo o mundo
gente que vai despejar na cidade algo em torno de 24 bilhões
de dólares. Nada mau para um deserto com ar-condicionado.
O Brasil inteiro, com Pantanal e tudo, movimenta, ao ano,
pouco mais que um sétimo desse valor.
A febre dos mega-resorts "europeus" de Las Vegas só
começou. A mais recente proeza da hotelaria local
atende pelo sugestivo nome de Paris Hilton. Aberto em setembro,
inclui uma réplica com altura equivalente a cinqüenta
andares da Torre Eiffel, com direito a butiques em estilo
art-nouveau e megapadaria de onde saem a todo momento croissants
quentinhos. Amantes do Quartier Latin e apreciadores do
charme nostálgico da Pont Neuf certamente torcerão
o nariz para a iniciativa. Afinal, o cassino com suas maquininhas
caça-níqueis funciona dentro da réplica
da Academia de Ciências de Paris. Outra parte da jogatina
foi acomodada dentro de uma contrafação do
Museu d'Orsay. Tudo isso à sombra de um Arco do Triunfo
menor do que o original, mas imponente o bastante para compor
a cena parisiense no deserto. Para o público exigente,
Las Vegas, com seus neons e prédios de cenário,
jamais deixará de ser o símbolo supremo da
artificialidade americana. Levada na diversão, Las
Vegas, definitivamente, é uma experiência única
no mundo.