Edição 1 626 - 1/12/1999

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Hotéis de Las Vegas reproduzem a Europa no deserto
Pacotes para o final de ano encalham nas agências
China entra para o fechado clube
Lua de Júpiter lembra passado da Terra
A importância do pai na formação dos filhos
O mineiro Jefferson, que virou Jéssica
Brasileira entre os dez melhores do surfe mundial
Amapá vira maior pólo de atração de migrantes
O Chuí, marco do extremo sul do país, está sumindo
A preocupação com a velhice começa mais cedo
O papel do capelão na assistência aos doentes

Novos municípios sugam recursos federais
O tratamento que recupera viciados em heroína
Como entrar em forma antes da virada do ano
Peixes avançam sobre menu de restaurantes finos
A dose semanal de álcool que pode evitar o infarto
Os Airbus chegam para substituir os Fokker da TAM
Gisele Bündchen, a top model brasileira
Livro fala sobre a imprensa no governo Collor
A influência da turma clubber
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Cláudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


A Europa vai ao deserto

Las Vegas ergue novos hotéis que
imitam cartões-postais europeus e
incluem até os canais de Veneza

O que mais poderia querer uma cidade que, erguida no meio do deserto, atrai 30 milhões de visitantes por ano, recebe magnatas do mundo inteiro e fatura 7 bilhões de dólares anuais só com roletas? A resposta é: atrair mais turistas, receber mais milionários e faturar mais bilhões. Firme nesse propósito, Las Vegas, a capital mundial da jogatina, investiu pesado no multibilionário negócio dos hotéis temáticos e o retorno está aparecendo rapidamente: só no último ano, ganhou três empreendimentos do gênero. A fonte de inspiração de todos eles é a mesma: o glamour europeu. Por diárias a partir de 109 dólares, hotéis como o Paris Hilton, o Venetian e o Bellagio são uma tentativa de criar um suspiro de civilização numa área até há pouco dominada por cáctus, cascavéis e mafiosos.

O Venetian, inaugurado em maio por Sophia Loren em carne e osso, é o mais vistoso resultado desse delírio. Ao atravessar sua porta principal, o visitante estará entrando num salão que é réplica em tamanho natural do Palácio dos Doges. Dentro dele, encontrará afrescos de Tintoretto, tetos em formato de abóbada, um pátio que é a própria Piazza San Marco e, claro, cantantes gondoleiros deslizando alegremente por uma versão em miniatura do Grande Canal. É ousadia típica do império americano neste fim de século.

O bilionário proprietário e idealizador do Venetian, Sheldon Adelson, afirma que a idéia não é fazer com que o hotel simplesmente lembre Veneza, mas "conseguir que ele seja a própria Veneza". Para isso, o empresário esmerou-se nos detalhes: importou da Itália dois especialistas em maquiar blocos de concreto para deixá-los com a aparência de legítimas pedras com seis séculos de existência e fez com que até a água na qual passeiam os turistas fosse meticulosamente tingida para exibir o exato tom verde-musgo da original italiana. O Venetian tem 3.000 quartos e ainda pretende crescer. Deverá estar concluído em 2001, quando terá consumido 1,2 bilhão de dólares.

 
Vulcão artificial A cifra só não é recorde mundial porque perde por pouco para a que foi gasta com a construção do Bellagio – outro colossal hotel-cassino-centro de convenções que reproduz os encantos da Itália. Aberto em outubro do ano passado, custou 1,6 bilhão de dólares. Entre suas grandezas, consta uma réplica do Lago de Como. Ao entardecer, do meio de suas águas ergue-se uma fonte de 45 milhões de dólares que, a cada quinze minutos, lança jatos fulminantes para o céu ao som de acordes de Puccini.

O Bellagio orgulha-se do seu autoproclamado "requinte europeu": anuncia como principal atração uma espetacular galeria de arte moderna, que inclui obras de Matisse, Miró e Picasso. Mas, se contempla gregos, não esquece os troianos: butiques como Prada, Gucci e Armani enfileiram-se por seus terraços para aplacar a fúria consumista de quem, porventura, notar que a Itália americana não inclui a Via Veneto.

O Bellagio foi criado pelo empresário Steve Wynn, hoje figura lendária em Las Vegas. No final dos anos 80, quando as roletas passaram a girar menos do que gostariam os donos dos cassinos, Wynn decidiu levantar o Mirage, um megalomaníaco prédio de 29 andares que veio a ser o primeiro da série de hotéis temáticos da cidade. De inspiração tropical, ele exibia, entre outras excentricidades, tigres brancos passeando pelos jardins e um vulcão artificial que entrava em erupção a cada meia hora. Pelos cálculos do empresário, o hotel precisava faturar nada menos que 1 milhão de dólares por dia para valer o investimento. A concorrência previu um fracasso retumbante. Errou. Só em seu primeiro ano de funcionamento, o Mirage teve um retorno de 720 milhões de dólares – quase 2 milhões por dia. O hotel restaurou o fôlego de Las Vegas e Wynn ganhou fama de visionário.

O sucesso do empreendimento encorajou outros empresários a investir na mesma fórmula: um novo padrão de hotel-cassino que mantém o jogo como pièce de résistance, mas que, além disso, oferece diversão para toda a família. Vieram então o Treasure Island, uma espécie de Terra do Nunca com piratas e canhões que atiram de verdade, o New York, New York, outra maluquice arquitetônica que imita a metrópole americana, e, mais recentemente, o Mandalay Bay, resort na linha "tropical selvagem", com cachoeiras artificiais e praia igualmente falsa onde os hóspedes se dedicam à prática do surfe.
 
Colônia de férias da Máfia – Las Vegas já nasceu bizarra. Desde que, em 1946, o gângster Bugsy Siegel emprestou dinheiro da Máfia para construir o primeiro hotel de luxo da cidade, o Flamingo, a mais efervescente cidade do Estado de Nevada assumiu sua vocação para o espetáculo. Seu público passou a ser formado por contraventores de todo o planeta. Para lá acorriam fanfarrões abonados e playboys ávidos por desfrutar as especialidades locais – jogo legal e sexo farto. Na década de 70, o governo de Nevada percebeu que o negócio era rentável demais para ficar nas mãos da Máfia: expulsou os gângsteres e abriu espaço para a entrada das megacorporações turísticas, que transformaram a ex-colônia de férias da bandidagem em uma espécie de filial da Disneylândia.

De lá para cá, os empresários dedicaram-se a defender seus domínios. Afinal, trata-se de um império que, só neste ano, terá atraído mais de 32 milhões de turistas de todo o mundo – gente que vai despejar na cidade algo em torno de 24 bilhões de dólares. Nada mau para um deserto com ar-condicionado. O Brasil inteiro, com Pantanal e tudo, movimenta, ao ano, pouco mais que um sétimo desse valor.

A febre dos mega-resorts "europeus" de Las Vegas só começou. A mais recente proeza da hotelaria local atende pelo sugestivo nome de Paris Hilton. Aberto em setembro, inclui uma réplica com altura equivalente a cinqüenta andares da Torre Eiffel, com direito a butiques em estilo art-nouveau e megapadaria de onde saem a todo momento croissants quentinhos. Amantes do Quartier Latin e apreciadores do charme nostálgico da Pont Neuf certamente torcerão o nariz para a iniciativa. Afinal, o cassino com suas maquininhas caça-níqueis funciona dentro da réplica da Academia de Ciências de Paris. Outra parte da jogatina foi acomodada dentro de uma contrafação do Museu d'Orsay. Tudo isso à sombra de um Arco do Triunfo menor do que o original, mas imponente o bastante para compor a cena parisiense no deserto. Para o público exigente, Las Vegas, com seus neons e prédios de cenário, jamais deixará de ser o símbolo supremo da artificialidade americana. Levada na diversão, Las Vegas, definitivamente, é uma experiência única no mundo.