Edição 1 626 - 1º/12/1999

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Reforma

Neste ano não sai

Governo breca andamento da reforma tributária
por temer queda na arrecadação fiscal

Expedito Filho e Leandra Peres

Ana Araujo
Malan: seu relatório diz que Estados perderiam até 95% da
arrecadação

A
reforma tributária, que há quatro anos vinha andando a passos de tartaruga no Congresso, sofreu uma brusca freada na semana passada. Mesmo diante da remota possibilidade de vê-la aprovada já para o exercício do próximo ano fiscal, o governo decidiu retardar seu andamento por temer que ela provoque queda na arrecadação federal. Na terça- feira, o ministro da Fazenda, Pedro Malan, divulgou um parecer atacando o substitutivo do deputado Mussa Demes, relator da reforma na Câmara. Além disso, convenceu o presidente Fernando Henrique a se empenhar, com a base governista, contra a proposta do deputado. Sem o apoio do Planalto não haveria como modificar a atrasada legislação brasileira sobre impostos. Diante disso, na quinta-feira houve uma reunião que contou com a participação do governo federal, de parlamentares e de secretários estaduais da Fazenda. Nela, chegou-se a um acordo pelo qual a reforma continua em pauta, mas passa a valer só para o exercício fiscal de 2001.

O governo decidiu atacar o substitutivo de Mussa Demes depois que a proposta foi aprovada, por 35 votos a 1, na comissão da Câmara que estuda o assunto. Antes da votação, o ministro Pedro Malan tinha avisado que, se o relatório fosse aprovado na forma em que estava, denunciaria em entrevista os riscos contidos nele. Por isso, ao saber da decisão dos deputados, Malan tornou público um documento de dezoito páginas, em que aponta aquilo que chama de "vícios do substitutivo". Pela análise do ministro, a proposta poderia gerar, entre outras tragédias, elevação da carga tributária, volta da inflação, aumento de preços e perda de arrecadação de alguns Estados. Pelos cálculos da Receita Federal, Tocantins perderia 95% de suas receitas, Rondônia, 61% e Bahia, 17%. Fernando Henrique recebeu na Itália o documento, leu na viagem de volta ao Brasil e ficou convencido de que a reforma seria um desastre.

Os deputados da comissão ficaram revoltados com o documento de Malan. Numa nota oficial, com o apoio do presidente da Câmara, Michel Temer, acusaram o ministro de fazer "terrorismo tecnocrático". Os parlamentares lembram que até agora foram feitas 78 audiências públicas e 135 reuniões para discutir a reforma. Em nenhum momento o governo apresentou temores dessa ordem. "O governo está confundindo o direito de ser ouvido com a obrigação de ser atendido", resume a nota. O próprio Fernando Henrique ligou para Temer e se prontificou a receber os parlamentares para discutir o assunto. Na sexta-feira, o deputado Mussa Demes viajou de carona com o presidente para o Piauí, seu Estado de origem. O deputado era apontado, dentro do governo, como "um traidor", porque teria prometido fazer mudanças no substitutivo – e não cumpriu. "Foi um erro eu não ter apresentado o relatório ao presidente antes da votação", admitiu Mussa Demes ao final da viagem para o Piauí.

A mudança na legislação tributária é fundamental para o Brasil, um país travado por mais de meia centena de impostos. Alguns se sobrepõem. Outros incidem em cascata. Há uma infinidade de leis sobre o assunto, algumas com orientações e interpretações diferentes das outras. Há casos em que a lei vale para um Estado e não para o vizinho. O sistema tributário brasileiro funciona como uma peneira repleta de brechas para sonegação, porque dificulta o trabalho de fiscalização da Receita Federal. Com a reforma, quase nada vai mudar para o contribuinte que já cumpre a sua parte ao pagar impostos. É possível que haja queda nos preços de alguns produtos, mas o Leão manterá a mordida quase do mesmo tamanho da atual
(veja quadro). O que muda é a distribuição da carga tributária entre municípios, Estados e União. E aí a coisa complica.

O grande problema está na redefinição do ICMS, imposto sobre circulação de mercadorias e serviços, responsável pela maior parte da arrecadação do Estados. Até agora, o imposto era usado como arma na guerra fiscal, funcionando a favor dos Estados que concedem isenções de pagamento do tributo para atrair a instalação de fábricas e empresas. O sucessor do ICMS criado pela reforma chama-se imposto sobre valor agregado, IVA. Será recolhido no Estado onde as mercadorias forem consumidas e não mais onde foram produzidas, como acontece atualmente. Dessa maneira, o Estado que produz fica impedido de abrir mão de imposto para atrair investimentos. Esse tem sido um ponto nevrálgico nas discussões em torno da reforma.


Parte considerável da confusão se deve à falta de disposição do governo para fazer a reforma tributária prosperar. Mas não há como negar que o relator Mussa Demes, que já enfrentou problemas com o Leão da Receita, tem-se revelado alguém com estatura inferior à necessária para tocar a missão. A costura do novo pacto tributário é uma tarefa que exige habilidade e competência. Só assim será possível, finalmente, simplificar os impostos e desonerar a produção, sem alterar a arrecadação.