Edição 1 626 - 1º/12/1999

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Polícia

"Ser preso faz parte do jogo, ainda vou rir disso"

"Antes de fazer meu primeiro assalto, treinei um mês em casa. Ensaiei até as frases para dizer para o caixa. A mão suava só de me imaginar de frente para o vigilante. Agora, não: é igual pular de bungee-jump. Quando estou de frente para o banco, dá aquele frio na barriga. No que eu entro, a coisa vai sozinha. Faço cinco caixas em quarenta segundos. Quando a polícia chega, já caí no mundão – e aí é só felicidade.

No Rio, o ladrão acha que tem de assaltar de camiseta e bermuda, só na atitude. Mas eu aprendi a roubar com um paulista – foi ele quem me deu o toque: tem de trabalhar com a roupa certa. Antes, eu odiava roupa social, me achava ridículo. Agora, acho que fico legal de terno. Na rua, as pessoas me vêem como alguém de bem e, na favela, me tomam como crente. O jeito de falar também conta. Mesmo bem vestido, já fui parado pela polícia – não tremi na voz nem desbotei na cor. Eles não ouviram uma gíria da minha boca. Saí andando.

Que eu saiba, a gente só tem uma vida, e eu quero um mínimo de condição para viver essa vida. Depois, não estou tirando dinheiro de pai de família. Eu tiro do banco e o meu trabalho ajuda muita gente. É como uma cadeia: eu fico feliz porque estou com dinheiro no bolso; o banqueiro fica feliz porque a seguradora dá a grana para ele; e as pessoas da favela ficam felizes porque eu faço as minhas colaborações. Dessa vez, eu caí. Mas isso é do jogo. Só tenho 30 anos e sei que vou rir disso um dia. Estar preso hoje só quer dizer que ainda não valeu a pena."

Paulo César dos Santos Oliveira, 30 anos,
assaltante de banco carioca

 

"Vítima boa é vítima quieta: reagiu, sai furada"

Ricardo Benichio
"Faço de tudo: pedestre, loja e saidinha de banco, que é caixa eletrônico. Com o pessoal que eu ando, a gente quase não vai maquinado, vai mais é com faca. Vítima boa é vítima quieta. Reagiu, sai furada. Isso acontece muito, infelizmente. Eu nunca furei, mas já enchi uns de pancada. O que me dá mais gosto roubar é engravatado. Porque eles são os culpados por tudo o que está acontecendo no país. Agora, se eu vou enquadrar uma pessoa e acho droga com ela, não faço. Porque, se está com droga, ou é viciado ou é traficante ou está fazendo um avião. Então, é ladrão que nem eu. Deixo quieto.

O assalto melhor que eu fiz foi um engravatado. Catei 3 000. Comprei calça, camisa, tênis de marca, fui para uma boate, paguei bebida para os manos, comprei droga. Antes, usava crack. Agora, só boto droga fraca na mente: cola, maconha. Já estou roubando há três anos. Quando tenho dinheiro, faço acerto com os policiais e tudo bem. Quando não tenho, tomo um couro e depois eles me liberam. Cadeia, nunca peguei. Quando estou assaltando, vou com pensamento positivo, nunca penso que pode dar errado. Algumas vezes, tenho orgulho dos meus assaltos. Que nem o que eu fiz no Brás, mês passado. Cheguei num bar e pedi para o cara me arrumar um copo de água. Ele me negou – isso me deixou revoltado. Passei duas semanas olhando o bote. Aí, chamei os manos, fui na madrugada e fizemos o bar. Aí, de manhã, voltei lá. O bar ainda estava todo arregaçado. Entrei e falei para o cara: 'Olha aí, tá vendo? Não se nega um copo de água para ninguém'. Acho que ele entendeu o recado."

"Carlão", 20 anos, assaltante de São Paulo

 

"Nunca assalto homem de óculos escuros"

"Olho para a cara do sujeito. Se ele já estiver olhando para mim, não vou. É sinal de que está ligado. É por isso que não roubo cara de Ray-ban. O sujeito de Ray-ban você não sabe para onde está indo o olho dele. Entre homem e mulher, fico com homem. Mulher é muito inoportuna. Mas o que manda mesmo é o carro. Vectra e Ômega são os melhores, o Ômega novo está muito confortável, tem até computador de bordo. O Ka também anda bem cotado.

Quatro ou cinco carros por mês para mim está ótimo. Dá uns 5 ou 6 000. Já trabalhei de carteira assinada, mas hoje tenho muita despesa. Defendo o meu e não roubo trabalhador, roubo carro. Carro a seguradora paga. Então, eu me considero praticamente um assalariado. Outro dia, tive de dar um pau num sujeito que me faltou com o respeito. Estava na Rebouças, limão nas costas para desbaratinar. Cheguei no cara, ofereci a mercadoria. Ele falou: 'Que limão! Vai trabalhar!' Fiquei com ódio. Saquei o revólver, caí para dentro do carro, o cara não acreditou. Levei ele para bem longe e dei-lhe um cambau! Apanhou legal, para ficar bem malandro e nunca mais fazer isso com ninguém.

As desvantagens de estar no crime é que eu posso rodar a qualquer hora e deixar meu filho no mundo e minha família desamparada. A vantagem é poder ter tudo dentro de casa, poder ir ao shopping. Meu filho, que tem 10 anos, só anda com tênis da hora, calça da hora. Eu digo para ele que sou vendedor. Quando juntar o suficiente para pagar a faculdade dele, paro de roubar."

"Bronca", 32 anos, ladrão de carro de São Paulo

 

Verdades e mentiras

Nem tudo o que é impressão geral sobre o modo de agir dos ladrões se confirma. Veja alguns mitos e realidades

Ladrões preferem assaltar mulheres
Falso: Assaltantes consideram as mulheres imprevisíveis e, portanto, mais perigosas

Ladrões sempre agem sob efeito de droga
Quase sempre verdadeiro: Mesmo assaltantes de banco, tidos como mais cuidadosos, costumam recorrer, no mínimo, a uma dose de álcool para aumentar a coragem
 
O assaltante se comove quando a vítima diz que tem família para sustentar
Falso:
Falar, em geral, irrita o ladrão, que quer, antes de tudo, uma vítima calada

Quem acelera o carro num assalto corre o risco de ser baleado porque assusta o ladrão
Falso:
O assaltante não atira porque se assusta, e sim para se vingar da vítima que ousou fugir e não ficar desprestigiado perante o parceiro  

O assaltante, ao contrário dos homicidas, nunca se arrepende do crime
Verdadeiro:
Para a grande maioria dos ladrões habituais, assalto é contravenção apenas legal. Do ponto de vista "ético", consideram que não há nada de errado em cometê-lo

Fonte: Centro de Observação Criminológica do Estado de São Paulo