|
|
Polícia
|
"Ser
preso faz parte do jogo, ainda vou rir disso"
"Antes
de fazer meu primeiro assalto, treinei um mês
em casa. Ensaiei até as frases para dizer
para o caixa. A mão suava só de
me imaginar de frente para o vigilante. Agora,
não: é igual pular de bungee-jump.
Quando estou de frente para o banco, dá
aquele frio na barriga. No que eu entro, a coisa
vai sozinha. Faço cinco caixas em quarenta
segundos. Quando a polícia chega, já
caí no mundão e aí
é só felicidade.
No
Rio, o ladrão acha que tem de assaltar
de camiseta e bermuda, só na atitude. Mas
eu aprendi a roubar com um paulista foi
ele quem me deu o toque: tem de trabalhar com
a roupa certa. Antes, eu odiava roupa social,
me achava ridículo. Agora, acho que fico
legal de terno. Na rua, as pessoas me vêem
como alguém de bem e, na favela, me tomam
como crente. O jeito de falar também conta.
Mesmo bem vestido, já fui parado pela polícia
não tremi na voz nem desbotei na
cor. Eles não ouviram uma gíria
da minha boca. Saí andando.
Que
eu saiba, a gente só tem uma vida, e
eu quero um mínimo de condição
para viver essa vida. Depois, não estou
tirando dinheiro de pai de família. Eu
tiro do banco e o meu trabalho ajuda muita gente.
É como uma cadeia: eu fico feliz porque
estou com dinheiro no bolso; o banqueiro fica
feliz porque a seguradora dá a grana
para ele; e as pessoas da favela ficam felizes
porque eu faço as minhas colaborações.
Dessa vez, eu caí. Mas isso é
do jogo. Só tenho 30 anos e sei que vou
rir disso um dia. Estar preso hoje só
quer dizer que ainda não valeu a pena."
Paulo
César dos Santos Oliveira, 30
anos,
assaltante de banco carioca
|
|
"Vítima
boa é vítima quieta: reagiu, sai
furada"
Ricardo
Benichio
"Faço
de tudo: pedestre, loja e saidinha de banco, que
é caixa eletrônico. Com o pessoal
que eu ando, a gente quase não vai maquinado,
vai mais é com faca. Vítima boa
é vítima quieta. Reagiu, sai furada.
Isso acontece muito, infelizmente. Eu nunca furei,
mas já enchi uns de pancada. O que me dá
mais gosto roubar é engravatado. Porque
eles são os culpados por tudo o que está
acontecendo no país. Agora, se eu vou enquadrar
uma pessoa e acho droga com ela, não faço.
Porque, se está com droga, ou é
viciado ou é traficante ou está
fazendo um avião. Então, é
ladrão que nem eu. Deixo quieto.
O assalto melhor que eu fiz foi um engravatado.
Catei 3 000. Comprei calça, camisa, tênis
de marca, fui para uma boate, paguei bebida para
os manos, comprei droga. Antes, usava crack. Agora,
só boto droga fraca na mente: cola, maconha.
Já estou roubando há três
anos. Quando tenho dinheiro, faço acerto
com os policiais e tudo bem. Quando não
tenho, tomo um couro e depois eles me liberam.
Cadeia, nunca peguei. Quando estou assaltando,
vou com pensamento positivo, nunca penso que pode
dar errado. Algumas vezes, tenho orgulho dos meus
assaltos. Que nem o que eu fiz no Brás,
mês passado. Cheguei num bar e pedi para
o cara me arrumar um copo de água. Ele
me negou isso me deixou revoltado. Passei
duas semanas olhando o bote. Aí, chamei
os manos, fui na madrugada e fizemos o bar. Aí,
de manhã, voltei lá. O bar ainda
estava todo arregaçado. Entrei e falei
para o cara: 'Olha aí, tá vendo?
Não se nega um copo de água para
ninguém'. Acho que ele entendeu o recado."
"Carlão",
20 anos, assaltante de São Paulo
|
|
"Nunca
assalto homem de óculos escuros"
"Olho
para a cara do sujeito. Se ele já estiver
olhando para mim, não vou. É sinal
de que está ligado. É por isso que
não roubo cara de Ray-ban. O sujeito de
Ray-ban você não sabe para onde está
indo o olho dele. Entre homem e mulher, fico com
homem. Mulher é muito inoportuna. Mas o
que manda mesmo é o carro. Vectra e Ômega
são os melhores, o Ômega novo está
muito confortável, tem até computador
de bordo. O Ka também anda bem cotado.
Quatro
ou cinco carros por mês para mim está
ótimo. Dá uns 5 ou 6 000. Já
trabalhei de carteira assinada, mas hoje tenho
muita despesa. Defendo o meu e não roubo
trabalhador, roubo carro. Carro a seguradora paga.
Então, eu me considero praticamente um
assalariado. Outro dia, tive de dar um pau num
sujeito que me faltou com o respeito. Estava na
Rebouças, limão nas costas para
desbaratinar. Cheguei no cara, ofereci a mercadoria.
Ele falou: 'Que limão! Vai trabalhar!'
Fiquei com ódio. Saquei o revólver,
caí para dentro do carro, o cara não
acreditou. Levei ele para bem longe e dei-lhe
um cambau! Apanhou legal, para ficar bem malandro
e nunca mais fazer isso com ninguém.
As
desvantagens de estar no crime é que eu
posso rodar a qualquer hora e deixar meu filho
no mundo e minha família desamparada. A
vantagem é poder ter tudo dentro de casa,
poder ir ao shopping. Meu filho, que tem 10 anos,
só anda com tênis da hora, calça
da hora. Eu digo para ele que sou vendedor. Quando
juntar o suficiente para pagar a faculdade dele,
paro de roubar."
"Bronca",
32
anos, ladrão de carro de São Paulo
|
Nem
tudo o que é impressão geral sobre
o
modo de agir dos ladrões se confirma.
Veja
alguns mitos e realidades
Ladrões
preferem assaltar mulheres
Falso:
Assaltantes
consideram as mulheres imprevisíveis e,
portanto, mais perigosas
Ladrões
sempre agem sob efeito de droga
Quase
sempre verdadeiro: Mesmo
assaltantes de banco, tidos como mais cuidadosos,
costumam recorrer, no mínimo, a uma dose
de álcool para aumentar a coragem
O
assaltante se comove quando a vítima
diz
que tem família para sustentar
Falso:
Falar,
em geral, irrita o ladrão, que quer, antes
de tudo, uma vítima calada
Quem acelera o carro num
assalto corre o risco de ser baleado porque assusta
o ladrão
Falso:
O
assaltante não atira porque se assusta,
e sim para se vingar da vítima que ousou
fugir e não ficar desprestigiado perante
o parceiro
O
assaltante, ao contrário dos homicidas,
nunca se arrepende do crime
Verdadeiro:
Para
a grande maioria dos ladrões habituais,
assalto é contravenção apenas
legal. Do ponto de vista "ético", consideram
que não há nada de errado em cometê-lo
Fonte: Centro de Observação
Criminológica do Estado de São Paulo
|
|