Edição 1 626 - 1º/12/1999

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Polícia

Cabeça de ladrão

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um assaltante atirar

Thaís Oyama


Antonio Milena
Código do crime: a tatuagem com
cinco
pontos em círculo identifica
autores de
roubo à mão armada


"
Vai limão aí?" O falso vendedor caminha em direção ao Vectra parado no sinal. Enquanto se aproxima do rapaz ao volante, vai tirando o revólver da cintura. No instante em que aponta a arma para ele, nota uma pistola escondida entre suas pernas. O ladrão nem pisca: atira. "O cara devia ter uns 30 anos. Não sei se morreu. Não fiquei lá para saber", lembra "Bronca", apelido pelo qual pede para ser identificado esse assaltante de carros paulista, 32 anos, quinze de roubo. O episódio aconteceu há seis meses num cruzamento da Avenida Rebouças, em São Paulo. O motorista, atingido no pescoço, mal teve tempo de entender o que se passava. Com a arma já apontada em sua direção, é possível que nem tentasse reagir ao assalto. Mesmo assim, Bronca atirou – e não se arrepende. "Se ele estava armado, pediu para levar. Zero a zero, então. Só não mirei na cabeça porque não tive tempo de levantar o cano", afirma.

Um em cada cinco paulistas já foi assaltado. No Rio de Janeiro, 29% da população foi vítima de pelo menos um roubo em período recente. Mas se muita gente sabe dizer o que sente alguém obrigado a entregar um bem sob a mira de um revólver, poucos têm idéia do que passa pela cabeça de quem segura a arma. Como pensa um ladrão? Por que ele atira? O que o enraivece e o que o comove? Segundo o psiquiatra forense Guido Palomba, que tem no currículo a avaliação psicológica de 7.000 criminosos, nenhuma das respostas para essas perguntas é óbvia. Por um motivo simples: "Assaltantes são, antes de tudo, indivíduos que não raciocinam com a lógica das vítimas". Mesmo emperrado por esse obstáculo, o Centro de Observação Criminológica, órgão da Secretaria da Administração Penitenciária de São Paulo encarregado de avaliar o perfil psicológico de criminosos condenados, lista as três características principais dos chamados assaltantes habituais (categoria que exclui psicopatas e iniciantes no ramo): imediatismo, pouca tolerância à frustração e enorme necessidade de ser admirado por seu grupo.  

Do furto ao assalto – O imediatismo é o trampolim para o ingresso no crime: roubo é sinônimo de dinheiro rápido e fácil. Já a incapacidade de absorver uma derrota e a preocupação com o julgamento dos parceiros são os fatores que, em grau acentuado, contribuem para fazer com que o assaltante acabe se transformando também em assassino. "Um motorista que acelera no sinal quando é abordado não morre porque o ladrão se assustou. Em geral, ou ele atira para vingar-se da vítima que frustrou a ação, ou para não ser visto diante de seus pares como um fraco, alguém que se deixa afrontar", explica Palomba. A perspectiva da punição é o que menos pesa nesse momento. "Todo ladrão tem a fantasia da impunidade", diz outro psiquiatra forense, Talvane Marins de Moraes.

Por esses e outros motivos, nunca se matou tanto em assaltos. Neste ano, o Estado de São Paulo deve registrar recorde histórico de latrocínios. Só de janeiro a setembro, segundo dados da Secretaria de Segurança, pelo menos 500 pessoas foram mortas durante roubos ou tentativas – um aumento de 26% em comparação ao mesmo período do ano passado. "Os assaltantes são cada vez mais jovens, mais inconseqüentes e, principalmente, mais violentos", afirma o delegado Godofredo Bittencourt, diretor do Departamento de Investigações sobre Crimes Patrimoniais, Depatri. Um salto impressionante, e assustador, se comparado às estatísticas e ao perfil do assaltante na primeira metade do século, quando o terror das metrópoles era o gatuno sorrateiro, para quem não havia janela indevassável nem batente intransponível. Pouco afeitos à violência, alguns se gabavam da cortesia que dispensavam às vítimas, como o lendário bandido Gino Meneghetti. O "rei dos ladrões", como ficou conhecido esse ítalo-paulista morto em 1976, vestia ternos finos e tratava suas vítimas de "senhor" e "senhora".

A maioria dos gatunos não exibia tanta fidalguia, mas pelo menos não fazia questão de andar armada. "Os criminosos de antigamente desprezavam a violência. Tinham orgulho de recorrer apenas à destreza e à habilidade", relata Guilherme Silveira Rodrigues, autor do Manual de Tatuagens das Prisões, compilação traduzida dos símbolos usados pelos presos. Na década de 50, nas penitenciárias do Estado de São Paulo, 36% dos detentos cumpriam pena por furto (crime sem uso de violência) e apenas 6% eram assaltantes armados. Em 1974, a relação se inverteu pela primeira vez, e hoje 47% dos presos do Estado cumprem pena por assalto. A situação não é muito diferente nos demais Estados, afirma o sociólogo Tulio Kahn, do Ilanud, braço da Organização das Nações Unidas que trata da violência. O mais recente Censo Penitenciário Nacional, de 1995, indica que 33% dos detentos do país foram condenados por roubo e 16% por furto.

Qual a razão da mudança de tática, por assim dizer, dos ladrões? Uma é o acesso às armas, que nunca foi tão fácil. Outra, o abismo entre ricos e miseráveis, que não diminui e, com a TV por toda parte e a profusão de símbolos de ostentação, fica cada vez mais evidente. À parte as mazelas sociais, o mundo se sofisticou e, com ele, sofisticaram-se também as ciladas inventadas para proteger o patrimônio e frustrar o ladrão – que prontamente se adaptou aos novos tempos. "Quando os alarmes não eram tão bons, eu pegava o carro estacionado. Agora, vou armado e levo o proprietário junto, para evitar o problema", explica Bronca.

O crack entornou de vez o caldo da violência nas metrópoles. Usado por 70% das crianças e adolescentes de rua da região central de São Paulo, segundo o SOS Criança, e por pelo menos 20% dos presos de São Paulo, de acordo com a Secretaria da Administração Penitenciária, ele causa adição quase imediata e, como a maior parte das drogas, altera os reflexos do usuário e rebaixa sua autocensura. Juntem-se os métodos agressivos do ladrão moderno aos efeitos do crack e à urgência que o vício demanda e o resultado são assaltos cada vez mais sangrentos. Carlão (nome fictício), 20 anos, ladrão de pedestres em São Paulo, conta um episódio que dá a exata medida de como o desejo de conseguir uma nova dose pode colocar em risco uma vida – no caso, a dele mesmo. Ao sair certa vez de um ponto-de-venda de crack com uma pedra no bolso, o assaltante foi abordado por policiais. "A fissura era tanta que eu nem botei a mão na cabeça: mandei o polícia atirar e saí correndo. Só queria saber de fumar a minha pedra", conta. O policial não atirou.  

Abismo intransponível – Carlão é o que se costuma chamar de ladrão pé-de-chinelo. Sem casa, sem família, sem quadrilha, perambula pelas ruas do centro de São Paulo unindo-se a um ou outro parceiro eventual, com quem pratica pequenos roubos. Nos intervalos, cheira cola e apanha da polícia. Paulo César dos Santos Oliveira, 30 anos, está na ponta oposta da pirâmide do crime. Assaltante de banco, foi pego recentemente numa ação ousada e solitária no Rio. Antes de se render, manteve um funcionário na mira de seu 38 por quase meia hora. Aproveitou o tempo para fazer discurso e registrar seu protesto contra a festa de aniversário que a socialite Vera Loyola organizou para a cadela "Pepezinha", em outubro.

Articulado e experiente – confessou dez assaltos, todos a banco –, Oliveira tem mais em comum com Carlão, e com a maior parte dos assaltantes, do que o simples fato de viver do dinheiro alheio: ele não vê problema algum em roubar. Na lógica dos ladrões, afirmam especialistas, assaltar é quase um direito, uma espécie de distribuição de renda feita à força. "Ao contrário de muitos tipos de homicida, por exemplo, o ladrão não encara seu crime como algo reprovável", diz o psiquiatra forense José Geraldo Taborda, da Associação Brasileira de Psiquiatria. Carlão confirma, com tosco raciocínio: "O sujeito anda mais bonito que eu, é melhor do que eu. Eu estou na desgraça e ele está na melhor. Vou achar errado roubar ele por quê?" Complementa, na mesma linha, o assaltante de bancos Oliveira: "Alguns escolhem catar lata, outros escolhem ter patrão. Eu sou diferente: quero mais do que só comer, beber e pegar no pesado".

Criminosos, afirmam especialistas, muitas vezes têm valores tão próprios que é como se falassem outra língua. "Por causa disso, engana-se quem pensa que pode demover um assaltante de seus propósitos com ponderações que lhe parecem razoáveis", afirma o psiquiatra Taborda. Um argumento com freqüência invocado pela vítima, especialmente quando considera estar sob ameaça de morte, é que tem filhos e família para sustentar. R.S., 20 anos, que assalta desde criança e hoje cumpre pena na Casa de Detenção, conta o que sente um criminoso diante de um apelo como esse: "Dá mais é revolta. O ladrão também tem filhos e, muitas vezes, está roubando para sustentar a família. Por que os parentes da vítima valem mais do que os parentes dele? Esse tipo de fala não amolece bandido". Para os psiquiatras, a tentativa de "amolecer" o bandido é, na melhor das hipóteses, inútil. "Entre o ladrão e a vítima existe um abismo intransponível. Ignorá-lo ou tentar saltá-lo pode ser o primeiro passo para provocar a própria morte", afirma Palomba.