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Polícia
Cabeça
de ladrão
Criminosos,
policiais e psiquiatras contam o que faz
um assaltante atirar
Thaís Oyama
Antonio Milena
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Código
do crime: a tatuagem
com
cinco pontos
em círculo identifica
autores de roubo
à mão armada
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"Vai
limão aí?" O falso vendedor caminha em
direção ao Vectra parado no sinal. Enquanto
se aproxima do rapaz ao volante, vai tirando o revólver
da cintura. No instante em que aponta a arma para ele,
nota uma pistola escondida entre suas pernas. O ladrão
nem pisca: atira. "O cara devia ter uns 30 anos. Não
sei se morreu. Não fiquei lá para saber",
lembra "Bronca", apelido pelo qual pede para ser identificado
esse assaltante de carros paulista, 32 anos, quinze
de roubo. O episódio aconteceu há seis
meses num cruzamento da Avenida Rebouças, em
São Paulo. O motorista, atingido no pescoço,
mal teve tempo de entender o que se passava. Com a arma
já apontada em sua direção, é
possível que nem tentasse reagir ao assalto.
Mesmo assim, Bronca atirou e não se arrepende.
"Se ele estava armado, pediu para levar. Zero a zero,
então. Só não mirei na cabeça
porque não tive tempo de levantar o cano", afirma.
Um
em cada cinco paulistas já foi assaltado. No
Rio de Janeiro, 29% da população foi vítima
de pelo menos um roubo em período recente. Mas
se muita gente sabe dizer o que sente alguém
obrigado a entregar um bem sob a mira de um revólver,
poucos têm idéia do que passa pela cabeça
de quem segura a arma. Como pensa um ladrão?
Por que ele atira? O que o enraivece e o que o comove?
Segundo o psiquiatra forense Guido Palomba, que tem
no currículo a avaliação psicológica
de 7.000
criminosos, nenhuma das respostas para essas perguntas
é óbvia. Por um motivo simples: "Assaltantes
são, antes de tudo, indivíduos que não
raciocinam com a lógica das vítimas".
Mesmo emperrado por esse obstáculo, o Centro
de Observação Criminológica, órgão
da Secretaria da Administração Penitenciária
de São Paulo encarregado de avaliar o perfil
psicológico de criminosos condenados, lista as
três características principais dos chamados
assaltantes habituais (categoria que exclui psicopatas
e iniciantes no ramo): imediatismo, pouca tolerância
à frustração e enorme necessidade
de ser admirado por seu grupo.
Do
furto ao assalto O
imediatismo é o trampolim para o ingresso no
crime: roubo é sinônimo de dinheiro rápido
e fácil. Já a incapacidade de absorver
uma derrota e a preocupação com o julgamento
dos parceiros são os fatores que, em grau acentuado,
contribuem para fazer com que o assaltante acabe se
transformando também em assassino. "Um motorista
que acelera no sinal quando é abordado não
morre porque o ladrão se assustou. Em geral,
ou ele atira para vingar-se da vítima que frustrou
a ação, ou para não ser visto diante
de seus pares como um fraco, alguém que se deixa
afrontar", explica Palomba. A perspectiva da punição
é o que menos pesa nesse momento. "Todo ladrão
tem a fantasia da impunidade", diz outro psiquiatra
forense, Talvane Marins de Moraes.
Por esses
e outros motivos, nunca se matou tanto em assaltos.
Neste ano, o Estado de São Paulo deve registrar
recorde histórico de latrocínios. Só
de janeiro a setembro, segundo dados da Secretaria de
Segurança, pelo menos 500 pessoas foram mortas
durante roubos ou tentativas um aumento de 26% em
comparação ao mesmo período do
ano passado. "Os assaltantes são cada vez mais
jovens, mais inconseqüentes e, principalmente,
mais violentos", afirma o delegado Godofredo Bittencourt,
diretor do Departamento de Investigações
sobre Crimes Patrimoniais, Depatri. Um salto impressionante,
e assustador, se comparado às estatísticas
e ao perfil do assaltante na primeira metade do século,
quando o terror das metrópoles era o gatuno sorrateiro,
para quem não havia janela indevassável
nem batente intransponível. Pouco afeitos à
violência, alguns se gabavam da cortesia que dispensavam
às vítimas, como o lendário bandido
Gino Meneghetti. O "rei dos ladrões", como ficou
conhecido esse ítalo-paulista morto em 1976,
vestia ternos finos e tratava suas vítimas de
"senhor" e "senhora".
A maioria dos gatunos não
exibia tanta fidalguia, mas pelo menos não fazia
questão de andar armada. "Os criminosos de antigamente
desprezavam a violência. Tinham orgulho de recorrer
apenas à destreza e à habilidade", relata
Guilherme Silveira Rodrigues, autor do Manual
de Tatuagens das Prisões,
compilação traduzida dos símbolos
usados pelos presos. Na década de 50, nas penitenciárias
do Estado de São Paulo, 36% dos detentos cumpriam
pena por furto (crime sem uso de violência) e
apenas 6% eram assaltantes armados. Em 1974, a relação
se inverteu pela primeira vez, e hoje 47% dos presos
do Estado cumprem pena por assalto. A situação
não é muito diferente nos demais Estados,
afirma o sociólogo Tulio Kahn, do Ilanud, braço
da Organização das Nações
Unidas que trata da violência. O mais recente
Censo Penitenciário Nacional, de 1995, indica
que 33% dos detentos do país foram condenados
por roubo e 16% por furto.
Qual
a razão da mudança de tática, por
assim dizer, dos ladrões? Uma é o acesso
às armas, que nunca foi tão fácil.
Outra, o abismo entre ricos e miseráveis, que
não diminui e, com a TV por toda parte e a profusão
de símbolos de ostentação, fica
cada vez mais evidente. À parte as mazelas sociais,
o mundo se sofisticou e, com ele, sofisticaram-se também
as ciladas inventadas para proteger o patrimônio
e frustrar o ladrão que prontamente se adaptou
aos novos tempos. "Quando os alarmes não eram
tão bons, eu pegava o carro estacionado. Agora,
vou armado e levo o proprietário junto, para
evitar o problema", explica Bronca.
O crack entornou de vez o caldo
da violência nas metrópoles. Usado por
70% das crianças e adolescentes de rua da região
central de São Paulo, segundo o SOS Criança,
e por pelo menos 20% dos presos de São Paulo,
de acordo com a Secretaria da Administração
Penitenciária, ele causa adição
quase imediata e, como a maior parte das drogas, altera
os reflexos do usuário e rebaixa sua autocensura.
Juntem-se os métodos agressivos do ladrão
moderno aos efeitos do crack e à urgência
que o vício demanda e o resultado são
assaltos cada vez mais sangrentos. Carlão (nome
fictício), 20 anos, ladrão de pedestres
em São Paulo, conta um episódio que dá
a exata medida de como o desejo de conseguir uma nova
dose pode colocar em risco uma vida no caso,
a dele mesmo. Ao sair certa vez de um ponto-de-venda
de crack com uma pedra no bolso, o assaltante foi abordado
por policiais. "A fissura era tanta que eu nem botei
a mão na cabeça: mandei o polícia
atirar e saí correndo. Só queria saber
de fumar a minha pedra", conta. O policial não
atirou.
Abismo
intransponível Carlão
é o que se costuma chamar de ladrão pé-de-chinelo.
Sem casa, sem família, sem quadrilha, perambula
pelas ruas do centro de São Paulo unindo-se a
um ou outro parceiro eventual, com quem pratica pequenos
roubos. Nos intervalos, cheira cola e apanha da polícia.
Paulo César dos Santos Oliveira, 30 anos, está
na ponta oposta da pirâmide do crime. Assaltante
de banco, foi pego recentemente numa ação
ousada e solitária no Rio. Antes de se render,
manteve um funcionário na mira de seu 38 por
quase meia hora. Aproveitou o tempo para fazer discurso
e registrar seu protesto contra a festa de aniversário
que a socialite Vera Loyola organizou para a cadela
"Pepezinha", em outubro.
Articulado
e experiente confessou dez assaltos, todos a
banco , Oliveira tem mais em comum com Carlão,
e com a maior parte dos assaltantes, do que o simples
fato de viver do dinheiro alheio: ele não vê
problema algum em roubar. Na lógica dos ladrões,
afirmam especialistas, assaltar é quase um direito,
uma espécie de distribuição de
renda feita à força. "Ao contrário
de muitos tipos de homicida, por exemplo, o ladrão
não encara seu crime como algo reprovável",
diz o psiquiatra forense José Geraldo Taborda,
da Associação Brasileira de Psiquiatria.
Carlão confirma, com tosco raciocínio:
"O sujeito anda mais bonito que eu, é melhor
do que eu. Eu estou na desgraça e ele está
na melhor. Vou achar errado roubar ele por quê?"
Complementa, na mesma linha, o assaltante de bancos
Oliveira: "Alguns escolhem catar lata, outros escolhem
ter patrão. Eu sou diferente: quero mais do que
só comer, beber e pegar no pesado".
Criminosos,
afirmam especialistas, muitas vezes têm valores
tão próprios que é como se falassem
outra língua. "Por causa disso, engana-se quem
pensa que pode demover um assaltante de seus propósitos
com ponderações que lhe parecem razoáveis",
afirma o psiquiatra Taborda. Um argumento com freqüência
invocado pela vítima, especialmente quando considera
estar sob ameaça de morte, é que tem filhos
e família para sustentar. R.S., 20 anos, que
assalta desde criança e hoje cumpre pena na Casa
de Detenção, conta o que sente um criminoso
diante de um apelo como esse: "Dá mais é
revolta. O ladrão também tem filhos e,
muitas vezes, está roubando para sustentar a
família. Por que os parentes da vítima
valem mais do que os parentes dele? Esse tipo de fala
não amolece bandido". Para os psiquiatras, a
tentativa de "amolecer" o bandido é, na melhor
das hipóteses, inútil. "Entre o ladrão
e a vítima existe um abismo intransponível.
Ignorá-lo ou tentar saltá-lo pode ser
o primeiro passo para provocar a própria morte",
afirma Palomba.
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