Edição 1 626 - 1º/12/1999

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O bandido agradece

Governo anuncia local e data de operação
contra o tráfico nos maconhais do Nordeste

Alexandre Secco

O Congresso abriu uma primeira picada na selva do narcotráfico ao montar sua CPI. Agora, percebendo que o tema repercute na opinião pública, outras autoridades estão querendo tirar um naco desse pudim. A mais fabulosa das iniciativas nesse sentido partiu do governo federal, mais precisamente do general Alberto Cardoso, chefe da Casa Militar. Na semana passada, durante uma entrevista à imprensa no Palácio do Planalto, o general divulgou um plano de ataque aos maconhais do Nordeste. A partir desta semana 1.500 homens, entre militares e policiais federais, serão enviados ao sertão de Pernambuco e da Bahia com a missão de prender traficantes e erradicar plantações. Além dos soldados, o governo vai mandar quinze aviões e helicópteros da Aeronáutica e 25 embarcações da Marinha. A operação está orçada em 7,5 milhões de reais, vem sendo preparada nas últimas cinco semanas e tem nome: Mandacaru. O ataque pode surtir efeitos, nunca se sabe. Mas é difícil compreender aonde quer chegar o general. Por que anunciar uma ação policial com tanto barulho se ela poderia produzir resultados mais positivos caso fosse planejada na surdina?

A resposta é evidente: se a operação fosse feita em silêncio, não seria possível extrair dividendos políticos para o Planalto no momento em que se verifica o sucesso de público da CPI do Narcotráfico. No lugar do alarde, a boa prática policial recomenda uma investigação silenciosa. Só assim é possível descobrir quem são os donos das fazendas onde se planta a erva. Mantendo suas intenções em segredo, o governo poderia tentar prender esses senhores com a enxada na mão, em flagrante. O Brasil tem lei que manda desapropriar as fazendas usadas para o cultivo de drogas. Só que ela quase nunca é aplicada porque o dono das terras costuma sumir ao primeiro sinal de perigo. Mas o general Cardoso preferiu os holofotes e informou dia e lugar à imprensa (e aos bandidos que compram jornal e vêem televisão).

O campo de batalha do general fica na divisa de Pernambuco, Bahia e Alagoas, conhecida como polígono da maconha, onde o governo acredita que 40.000 pessoas vivam do cultivo da droga – um em cada dez moradores da região. Além da ação policial, o general informou na entrevista que Brasília prepara um ataque no âmbito econômico. Segundo contas do governo, o lucro com as plantações de maconha chega a ser 100 vezes maior do que o obtido a partir de outra cultura tradicional na região, como o tomate. A idéia é montar um programa de financiamento a novas lavouras com linhas de crédito especial para quem decidir abandonar o cultivo da maconha. O Banco do Nordeste prometeu investir 400 milhões de reais no programa até 2003. Em outros países onde a estratégia já foi tentada o expediente fracassou. Os agricultores tomavam o dinheiro e acabavam empregando-o nas plantações de coca.

Os refletores estimularam não só o Palácio do Planalto. Além do general, outras autoridades anunciaram ações antidroga. A Assembléia Legislativa de São Paulo poderá ter duas CPIs diferentes para tratar do assunto. Uma foi proposta pelo PTB e deverá investigar especificamente o narcotráfico. Outra foi sugerida pelo PSDB do governador Mário Covas e poderá apurar também o crime organizado, notadamente o roubo de cargas. Minas Gerais já aprovou sua CPI do Narcotráfico. Lá, os partidos se entenderam e distribuíram os cargos entre eles de acordo com a representação de cada um, como manda o regimento. No Rio, o governador Anthony Garotinho apresentou a proposta de criação de um instituto para cuidar da segurança no Estado, voltado para políticas de combate ao tráfico na capital.

 

Marcos Peron/Folha Imagem
Suicídio: policial investigado dá um tiro no peito e colegas se revoltam contra a CPI


A CPI do Narcotráfico já alcançou, em oito meses, mais resultados do que a maioria das comissões parlamentares de inquérito. Obteve a prisão de uma centena de bandidos, quatro dezenas deles exclusivamente com base nos trabalhos da comissão, desbaratou meia dúzia de quadrilhas em nove Estados, provocou a cassação de um deputado federal e outro estadual e conseguiu algo raro: ganhou as ruas e uma boa dose de confiança popular. Na semana passada, ela viveu dias difíceis. Na segunda-feira, um investigador de polícia de Campinas, no interior de São Paulo, que estava sob investigação, apareceu morto. Teria supostamente se suicidado. Seu enterro virou um ato de protesto que reuniu 200 policiais contra a CPI. Na mesma semana, a seção paulista da Ordem dos Advogados do Brasil, OAB, pediu e o Tribunal de Justiça do Estado anulou duas prisões importantes decretadas pela CPI. Até o final da semana passada, o único dos grandões que permanecia preso era o ex-deputado federal pelo Acre Hildebrando Pascoal, que se entregou à polícia. Outra má notícia partiu da Receita Federal. Ela anunciou que pretende limitar o número de técnicos disponíveis para auxiliar nos trabalhos da CPI. O excesso de requisições está atrasando o expediente normal do órgão.

Em Brasília, na central de operações da CPI, os depoimentos mais esperados resultaram em um fiasco. No primeiro, Alda Inês dos Anjos Oliveira, ex-namorada do traficante Fernandinho Beira-Mar, apontado como um dos maiores traficantes do Rio de Janeiro, manteve a pose por quase quatro horas de depoimento sem revelar nada sobre Beira-Mar e ainda dispensou um advogado em uma atitude entendida como provocação: "Não preciso de advogado, aqui não!" Ela foi à CPI disposta a negar depoimentos anteriores, mas caiu em contradição dizendo que não o via desde 1992 para mais adiante informar que o havia encontrado no ano passado em Ponta Porã, no Estado do Mato Grosso do Sul. O segundo depoimento mais esperado, do legista Fortunato Badan Palhares, acusado de fornecer laudos falsos para traficantes, levou mais de sete horas sem que nada ficasse esclarecido a respeito das acusações que pesam contra ele. Badan Palhares fez uma defesa inicial que parecia não deixar dúvidas, mas, durante a inquirição, derrapou. Uma das muitas perguntas que deixou sem resposta: por que esperou nove anos para encomendar um exame de DNA de um garoto assassinado no Maranhão a mando de um deputado estadual que já foi cassado e está foragido? Ao final do interrogatório, sem que a CPI tivesse obtido uma prova sequer, o presidente da comissão, deputado Magno Malta (PTB-ES), admitiu numa entrevista: "Se você me perguntar o que está provado contra Badan, é nada".

A preocupação dos deputados agora é que rumo dar às investigações. A CPI iniciou mais de vinte frentes de apuração, mas não obteve prova que conduza à prisão de grandes traficantes. O objetivo da Câmara é evitar uma repetição do desastre ocorrido em 1991. Na ocasião, o então deputado federal pelo PSDB Moroni Torgan, hoje no cargo de relator, presidiu a primeira CPI do narcotráfico. Em novembro daquele ano, depois de seis meses de reuniões e 98 depoimentos, ele apresentou um relatório de 67 páginas que pedia a prisão preventiva de 6.500 acusados de tráfico e o indiciamento de policiais e juízes, além de fazer acusações contra um deputado federal. Quase nada foi provado.

 
Com reportagem de Valéria Blanc, de Brasília