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O bandido agradece
Governo
anuncia local e data de operação
contra o tráfico nos maconhais do Nordeste
Alexandre
Secco
O
Congresso abriu uma primeira picada na selva do narcotráfico
ao montar sua CPI. Agora, percebendo que o tema repercute
na opinião pública, outras autoridades
estão querendo tirar um naco desse pudim. A mais
fabulosa das iniciativas nesse sentido partiu do governo
federal, mais precisamente do general Alberto Cardoso,
chefe da Casa Militar. Na semana passada, durante uma
entrevista à imprensa no Palácio do Planalto,
o general divulgou um plano de ataque aos maconhais
do Nordeste. A partir desta semana 1.500
homens, entre militares e policiais federais, serão
enviados ao sertão de Pernambuco e da Bahia com
a missão de prender traficantes e erradicar plantações.
Além dos soldados, o governo vai mandar quinze
aviões e helicópteros da Aeronáutica
e 25 embarcações da Marinha. A operação
está orçada em 7,5 milhões de reais,
vem sendo preparada nas últimas cinco semanas
e tem nome: Mandacaru. O ataque pode surtir efeitos,
nunca se sabe. Mas é difícil compreender
aonde quer chegar o general. Por que anunciar uma ação
policial com tanto barulho se ela poderia produzir resultados
mais positivos caso fosse planejada na surdina?
A resposta
é evidente: se a operação fosse
feita em silêncio, não seria possível
extrair dividendos políticos para o Planalto
no momento em que se verifica o sucesso de público
da CPI do Narcotráfico. No lugar do alarde, a
boa prática policial recomenda uma investigação
silenciosa. Só assim é possível
descobrir quem são os donos das fazendas onde
se planta a erva. Mantendo suas intenções
em segredo, o governo poderia tentar prender esses senhores
com a enxada na mão, em flagrante. O Brasil tem
lei que manda desapropriar as fazendas usadas para o
cultivo de drogas. Só que ela quase nunca é
aplicada porque o dono das terras costuma sumir ao primeiro
sinal de perigo. Mas o general Cardoso preferiu os holofotes
e informou dia e lugar à imprensa (e aos bandidos
que compram jornal e vêem televisão).
O campo
de batalha do general fica na divisa de Pernambuco,
Bahia e Alagoas, conhecida como polígono da maconha,
onde o governo acredita que 40.000
pessoas vivam do cultivo da droga um em cada
dez moradores da região. Além da ação
policial, o general informou na entrevista que Brasília
prepara um ataque no âmbito econômico. Segundo
contas do governo, o lucro com as plantações
de maconha chega a ser 100 vezes maior do que o obtido
a partir de outra cultura tradicional na região,
como o tomate. A idéia é montar um programa
de financiamento a novas lavouras com linhas de crédito
especial para quem decidir abandonar o cultivo da maconha.
O Banco do Nordeste prometeu investir 400 milhões
de reais no programa até 2003. Em outros países
onde a estratégia já foi tentada o expediente
fracassou. Os agricultores tomavam o dinheiro e acabavam
empregando-o nas plantações de coca.
Os refletores
estimularam não só o Palácio do
Planalto. Além do general, outras autoridades
anunciaram ações antidroga. A Assembléia
Legislativa de São Paulo poderá ter duas
CPIs diferentes para tratar do assunto. Uma foi proposta
pelo PTB e deverá investigar especificamente
o narcotráfico. Outra foi sugerida pelo PSDB
do governador Mário Covas e poderá apurar
também o crime organizado, notadamente o roubo
de cargas. Minas Gerais já aprovou sua CPI do
Narcotráfico. Lá, os partidos se entenderam
e distribuíram os cargos entre eles de acordo
com a representação de cada um, como manda
o regimento. No Rio, o governador Anthony Garotinho
apresentou a proposta de criação de um
instituto para cuidar da segurança no Estado,
voltado para políticas de combate ao tráfico
na capital.
Marcos Peron/Folha Imagem
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Suicídio:
policial investigado dá um tiro no
peito
e colegas se
revoltam contra
a CPI
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A CPI do Narcotráfico já alcançou,
em oito meses, mais resultados do que a maioria das
comissões parlamentares de inquérito.
Obteve a prisão de uma centena de bandidos, quatro
dezenas deles exclusivamente com base nos trabalhos
da comissão, desbaratou meia dúzia de
quadrilhas em nove Estados, provocou a cassação
de um deputado federal e outro estadual e conseguiu
algo raro: ganhou as ruas e uma boa dose de confiança
popular. Na semana passada, ela viveu dias difíceis.
Na segunda-feira, um investigador de polícia
de Campinas, no interior de São Paulo, que estava
sob investigação, apareceu morto. Teria
supostamente se suicidado. Seu enterro virou um ato
de protesto que reuniu 200 policiais contra a CPI. Na
mesma semana, a seção paulista da Ordem
dos Advogados do Brasil, OAB, pediu e o Tribunal de
Justiça do Estado anulou duas prisões
importantes decretadas pela CPI. Até o final
da semana passada, o único dos grandões
que permanecia preso era o ex-deputado federal pelo
Acre Hildebrando Pascoal, que se entregou à polícia.
Outra má notícia partiu da Receita Federal.
Ela anunciou que pretende limitar o número de
técnicos disponíveis para auxiliar nos
trabalhos da CPI. O excesso de requisições
está atrasando o expediente normal do órgão.
Em Brasília,
na central de operações da CPI, os depoimentos
mais esperados resultaram em um fiasco. No primeiro,
Alda Inês dos Anjos Oliveira, ex-namorada do traficante
Fernandinho Beira-Mar, apontado como um dos maiores
traficantes do Rio de Janeiro, manteve a pose por quase
quatro horas de depoimento sem revelar nada sobre Beira-Mar
e ainda dispensou um advogado em uma atitude entendida
como provocação: "Não preciso de
advogado, aqui não!" Ela foi à CPI disposta
a negar depoimentos anteriores, mas caiu em contradição
dizendo que não o via desde 1992 para mais adiante
informar que o havia encontrado no ano passado em Ponta
Porã, no Estado do Mato Grosso do Sul. O segundo
depoimento mais esperado, do legista Fortunato Badan
Palhares, acusado de fornecer laudos falsos para traficantes,
levou mais de sete horas sem que nada ficasse esclarecido
a respeito das acusações que pesam contra
ele. Badan Palhares fez uma defesa inicial que parecia
não deixar dúvidas, mas, durante a inquirição,
derrapou. Uma das muitas perguntas que deixou sem resposta:
por que esperou nove anos para encomendar um exame de
DNA de um garoto assassinado no Maranhão a mando
de um deputado estadual que já foi cassado e
está foragido? Ao final do interrogatório,
sem que a CPI tivesse obtido uma prova sequer, o presidente
da comissão, deputado Magno Malta (PTB-ES), admitiu
numa entrevista: "Se você me perguntar o que está
provado contra Badan, é nada".
A preocupação
dos deputados agora é que rumo dar às
investigações. A CPI iniciou mais de vinte
frentes de apuração, mas não obteve
prova que conduza à prisão de grandes
traficantes. O objetivo da Câmara é evitar
uma repetição do desastre ocorrido em
1991. Na ocasião, o então deputado federal
pelo PSDB Moroni Torgan, hoje no cargo de relator, presidiu
a primeira CPI do narcotráfico. Em novembro daquele
ano, depois de seis meses de reuniões e 98 depoimentos,
ele apresentou um relatório de 67 páginas
que pedia a prisão preventiva de 6.500
acusados de tráfico e o indiciamento de policiais
e juízes, além de fazer acusações
contra um deputado federal. Quase nada foi provado.
Com
reportagem de
Valéria Blanc, de
Brasília
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