Edição 1 626 - 1º/12/1999

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O ursinho progressista

Ilustração Alê Setti
Li que a Igreja Católica brasileira está comercializando um urso de pelúcia que, de joelhos, reza o Pai-nosso toda vez que as crianças lhe apertam as patinhas. Como se trata de uma iniciativa da ala progressista da Igreja, presumo que, apertando-lhe a barriga, o urso de pelúcia se ponha a bradar as palavras de ordem dos sem-terra durante um saque à fazenda do presidente. Depois do urso de pelúcia, parece que a Igreja também pretende vender outros produtos como refrescos, ovos de Páscoa, sorvetes e quebra-cabeças. Todas essas coisas servem para financiar obras beneficentes, claro. A caridade justifica qualquer extravagância.

Ao mesmo tempo que lança o ursinho carola, a cúpula eclesiástica mostra-se preocupada com o sucesso dos padres-cantores. O temor é que, cantando e dançando, eles acabem vulgarizando a liturgia católica, transformando a missa num mero espetáculo. Na verdade, o problema é outro. De acordo com boa parte do clero, os padres-cantores não se empenham o suficiente na luta de classes. Bastaria inserir em suas missas aeróbicas uma ou duas frases de protesto contra o governo que todo mundo ficaria contente. Ou seja, transformar a missa num espetáculo musical é ruim; muito melhor transformá-la num comício.

O fato é que, independentemente da ala política a que pertencem, os católicos se renderam aos protestantes e adotaram todos os seus métodos. Em matéria de disputa teológica, o máximo que resta, hoje em dia, é saber quem vende mais discos, o padre católico ou o pastor protestante. Isso porque os católicos imitaram um protestantismo bastante particular, uma espécie de paródia terceiro-mundista dos televangelistas americanos. Eu chegaria a dizer que Billy Graham e Rex Humbard, os decanos dos pastores televisivos dos Estados Unidos, tiveram uma influência muito mais profunda sobre o catolicismo dos brasileiros do que qualquer papa do último século.

Brigar por fatias de mercado da indústria de entretenimento pode ser discutível do ponto de vista religioso, mas é extremamente lucrativo. Estima-se que o padre Marcelo Rossi, por exemplo, arrecade cerca de 900.000 reais por mês para a sua diocese. A essa altura, porém, coloca-se um problema de transparência. Veja-se o caso do cardeal de Nápoles, Michele Giordano. A Justiça italiana acusa-o de ter desviado verbas da Cúria para operações de agiotagem, emprestando dinheiro a juros exorbitantes, semelhantes aos de um banco brasileiro. Ele só conseguiu fazer isso porque cardeais têm absoluta autonomia financeira, não sendo obrigados a prestar contas a ninguém. Não seria justo se, aumentando seu peso econômico, a Igreja Católica se comportasse como uma grande indústria e começasse a divulgar todos os seus números? E não seria justo se, intensificando seu papel político, ela nos permitisse eleger democraticamente o próximo papa?