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O ursinho progressista
Ilustração Alê Setti
Li
que a Igreja Católica brasileira está comercializando
um urso de pelúcia que, de joelhos, reza o Pai-nosso
toda vez que as crianças lhe apertam as patinhas.
Como se trata de uma iniciativa da ala progressista da
Igreja, presumo que, apertando-lhe a barriga, o urso de
pelúcia se ponha a bradar as palavras de ordem
dos sem-terra durante um saque à fazenda do presidente.
Depois do urso de pelúcia, parece que a Igreja
também pretende vender outros produtos como refrescos,
ovos de Páscoa, sorvetes e quebra-cabeças.
Todas essas coisas servem para financiar obras beneficentes,
claro. A caridade justifica qualquer extravagância.
Ao mesmo
tempo que lança o ursinho carola, a cúpula
eclesiástica mostra-se preocupada com o sucesso
dos padres-cantores. O temor é que, cantando e
dançando, eles acabem vulgarizando a liturgia católica,
transformando a missa num mero espetáculo. Na verdade,
o problema é outro. De acordo com boa parte do
clero, os padres-cantores não se empenham o suficiente
na luta de classes. Bastaria inserir em suas missas aeróbicas
uma ou duas frases de protesto contra o governo que todo
mundo ficaria contente. Ou seja, transformar a missa num
espetáculo musical é ruim; muito melhor
transformá-la num comício.
O fato
é que, independentemente da ala política
a que pertencem, os católicos se renderam aos protestantes
e adotaram todos os seus métodos. Em matéria
de disputa teológica, o máximo que resta,
hoje em dia, é saber quem vende mais discos, o
padre católico ou o pastor protestante. Isso porque
os católicos imitaram um protestantismo bastante
particular, uma espécie de paródia terceiro-mundista
dos televangelistas americanos. Eu chegaria a dizer que
Billy Graham e Rex Humbard, os decanos dos pastores televisivos
dos Estados Unidos, tiveram uma influência muito
mais profunda sobre o catolicismo dos brasileiros do que
qualquer papa do último século.
Brigar
por fatias de mercado da indústria de entretenimento
pode ser discutível do ponto de vista religioso,
mas é extremamente lucrativo. Estima-se que o padre
Marcelo Rossi, por exemplo, arrecade cerca de 900.000
reais por mês para a sua diocese. A essa altura,
porém, coloca-se um problema de transparência.
Veja-se o caso do cardeal de Nápoles, Michele Giordano.
A Justiça italiana acusa-o de ter desviado verbas
da Cúria para operações de agiotagem,
emprestando dinheiro a juros exorbitantes, semelhantes
aos de um banco brasileiro. Ele só conseguiu fazer
isso porque cardeais têm absoluta autonomia financeira,
não sendo obrigados a prestar contas a ninguém.
Não seria justo se, aumentando seu peso econômico,
a Igreja Católica se comportasse como uma grande
indústria e começasse a divulgar todos os
seus números? E não seria justo se, intensificando
seu papel político, ela nos permitisse eleger democraticamente
o próximo papa?
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