A vez dos pobres
Presidente
do Banco Mundial está otimista
com a economia brasileira, mas diz que passa da hora de
o país resolver a
má distribuição de renda
Alexandre
Mansur, de
Washington
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Michele Ianacci
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"No
Brasil, às vezes
é difícil
provocar mudanças porque há
muitos
interesses envolvidos."
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O escritório
de James Wolfensohn, presidente do Banco Mundial, Bird,
está plantado no 12º
andar da imponente sede da instituição, bem
em frente aos prédios do Fundo Monetário Internacional,
FMI, em Washington. O cruzamento é conhecido como
"esquina do dinheiro" pelos moradores de Washington. Mas,
embora as ruas limpas da capital americana nem de longe
lembrem as favelas latino-americanas nem as aldeias da África,
o lamento dos pobres não sai da cabeça de
Wolfensohn. Eles são o mote do discurso que ele fará,
nesta semana, na abertura da conferência da Organização
Mundial do Comércio, OMC, em Seattle. Seu banco empresta,
todo ano, de 20 a 25 bilhões de dólares. Filho
de judeus poloneses pobres que emigraram para a Austrália,
Wolfensohn fez fama e fortuna em Wall Street, que abandonou
em 1995, quando foi convidado para assumir o Bird. Ao completar
60 anos encantou os amigos com uma festa surpresa inesquecível.
Convidou-os para um concerto no famoso Carnegie Hall, em
Nova York, onde ele mesmo subiu ao palco e se exibiu tocando
bem um violoncelo. Na semana passada, Wolfensohn
falou a VEJA.
Veja
O
Bird está começando um programa ambicioso
para combater a corrupção nas nações
em desenvolvimento. Como saber se os políticos e
as lideranças de um país estão realmente
empenhados nisso?
Wolfensohn
Não
podemos ter certeza do que um governo faz em lugar nenhum.
Nós somos o Banco Mundial, e não o governo
mundial. Mas o que eu aprendi nos últimos três
anos, desde que começamos nosso programa, é
que a corrupção não é uma questão
política, mas social e econômica. Isso não
havia sido feito antes pelo Bird por medo de invadir um
terreno político. Descobri que, depois que você
chama a atenção para a corrupção
em um determinado país e abre o debate, libera forças
na sociedade que passam a fazer pressão sobre os
políticos. Dê uma olhada no que aconteceu com
o presidente Suharto na Indonésia. Veja a reação
que está surgindo agora na Rússia. Está
virando um movimento mundial. E não é de causar
surpresa. As pessoas pobres podem tolerar a pobreza se todo
mundo for pobre também. Mas ficam loucas se alguns
poucos estiverem lucrando à custa delas.
Veja
O
senhor poderia mencionar alguma nação em desenvolvimento
que conseguiu chegar ao nível dos países industrializados?
Wolfensohn
A
Coréia do Sul. Há 25 anos, sua economia tinha
dimensões africanas. Agora é a 11ª do
mundo. Seu crescimento foi comprometido por uma crise recente,
mas eles já estão se recuperando rapidamente.
Ainda falta no país uma estrutura legal apropriada.
A Coréia não fazia uma boa supervisão
do sistema bancário. E tem bastante corrupção,
como foi indicado pelo presidente Kim Dae Jung, recentemente
eleito. Mesmo assim, é um país que conseguiu
se erguer com investimentos em educação e
trabalho duro. Também podemos mencionar Malásia,
Cingapura e Costa Rica. O próprio Brasil também
não foi mal.
Veja
Que
tipo de avanço o senhor destacaria no Brasil?
Wolfensohn
É
um país que adoro e venho acompanhando há
trinta anos. A diferença entre pobres e ricos, as
disparidades nos níveis de educação
são bem nítidas no Brasil. E acredito que
o presidente Fernando Henrique Cardoso, em seu governo,
compreende isso. O que aprecio na estratégia de FHC
é que ele e o ministro Paulo Renato estão
dando ênfase à educação. Ainda
existem grandes diferenças entre os Estados. Está
melhorando. Há governadores realmente empenhados
no desenvolvimento de seus Estados. Mas é preciso
lidar com as questões sociais e de distribuição
de renda. Em seu país, às vezes é difícil
provocar mudanças porque há muitos interesses
envolvidos. Mas há cada vez mais empresários
e banqueiros participando de atividades sociais. Eles estão
sendo forçados a isso pelo aumento da criminalidade
e da insegurança nas ruas. Vocês têm
uma estrutura básica extraordinária. Vejo
o Brasil sempre como um lugar complicado. Mas também
como um país que está progredindo. Acho que
vocês têm uma imensa quantidade de criatividade
e boas lideranças no país.
Veja
O
que o senhor acha das iniciativas contra a pobreza sugeridas
pelo Parlamento brasileiro?
Wolfensohn
Tenho
acompanhado a proposta de imposto de Antonio Carlos Magalhães
e a posição do governo, de que isso pode ser
feito dentro do orçamento já existente. Se
você precisa de um imposto extra ou se isso pode ser
feito dentro do orçamento é um assunto doméstico
do Brasil. Mas o que me deixa aliviado é saber que
no cerne dessa discussão está a idéia
de dirigir parte do dinheiro do país para combater
a pobreza.
Veja
Atualmente
a popularidade do presidente FHC está baixa. Quais
seriam seus prognósticos para o Brasil?
Wolfensohn
Acho
que as coisas vão melhorar. Naturalmente, não
posso comentar os níveis de popularidade do presidente.
Acho, pessoalmente, que ele e sua mulher são pessoas
notáveis, com um grande senso de responsabilidade
social. Isso está claro até na formação
acadêmica dele. O presidente foi importante para colocar
em pauta a questão fiscal. Mas todo mundo sabe que
as questões sociais precisam ser tratadas com mais
agressividade. Em meu entendimento, é isso que o
governo está se propondo a fazer. Vocês estão
com uma base econômica bem mais estável agora.
Provavelmente, podem fazer mais na área social. Eu
sei que é muito difícil trabalhar esses dois
aspectos com equilíbrio. Mas vocês não
têm milhares por cento de inflação,
possuem uma moeda relativamente estável, têm
um balanço fiscal decente e um orçamento que
parece funcionar. Agora precisam garantir que, dentro do
orçamento, exista ação apropriada e
rápida, como em educação, reforma agrária
e outros assuntos que são urgentes para o povo.
Veja
Quando
o senhor defende uma ênfase maior nas questões
sociais não há o risco de dar munição
àqueles que se opõem às medidas de
ajuste fiscal?
Wolfensohn
Claro
que existe. É preciso chegar a um equilíbrio.
Às vezes se consegue, às vezes não.
E sempre haverá críticas. Não importa
o que você esteja fazendo.
Veja
Nos
últimos anos, o Brasil e outros países em
desenvolvimento se abriram às importações.
Já os industrializados aumentaram suas barreiras
comerciais. Será que os países em desenvolvimento
se precipitaram?
Wolfensohn
O acesso
a livres mercados é importante para todo mundo. Mas
é absolutamente crucial que os países desenvolvidos
dêem acesso total aos países em desenvolvimento.
Certamente, não faz sentido algum ter mercados abertos
em uma direção e fechados em outra. Eu tenho
sido um dos grandes defensores da abertura de mercados para
as exportações dos países em desenvolvimento.
A propósito, o Brasil não foi tão mal.
Suas exportações estão crescendo e
o país tem uma participação efetiva
no mercado global de automóveis e de outros produtos
tecnológicos e manufaturados, muito além dos
recursos naturais. É um país que tem sido
capaz de se adaptar e competir globalmente.
Veja
O
senhor acha que os países em desenvolvimento deveriam
ser mais agressivos nas reuniões da OMC?
Wolfensohn
Eles
deveriam participar mais e transformar as próximas
reuniões em rodadas do desenvolvimento. Acho que
é isso que elas deveriam ser.
Veja
O
senhor diria que o Brasil é um bom país para
se investir?
Wolfensohn
Não
sou mais banqueiro de investimento e não posso fazer
recomendações. Mas, se você examinar
os indicadores demográficos, olhar para a força
do país e comparar com outras nações
que enfrentaram o desafio do crescimento, deve ter bastante
confiança no Brasil.
Veja
Há
um ano, a Malásia adotou um programa de ajuste fiscal,
restringindo drasticamente a saída de capitais do
país. Parece ter funcionado. O que o senhor diria
desse exemplo?
Wolfensohn
Sempre acreditei que mercados frágeis precisam de
algum tipo de proteção. Isso varia em cada
país. Vocês tiveram isso na América
Latina. O Chile é um bom exemplo. Mesmo o Brasil
controlou os fluxos de capitais várias vezes em sua
história. Sou amplamente a favor dos mercados abertos.
Mas acredito que, para chegar lá, você muito
freqüentemente precisa ter alguma forma de controle
de capital. Acho que até o FMI também acredita
nisso agora.
Veja
Ao
dizer isso, há algum risco de assustar os investidores?
Wolfensohn
É
preciso ter um plano coerente e consistente. Movimentos
abruptos para impor ou suspender controles de capitais podem
ser bastante perigosos e assustar os investidores. Mas um
programa cuidadoso e bem modulado faz bastante sentido.
Na minha juventude, na Austrália, eles fizeram um
programa desse tipo até o país poder se abrir
para os mercados.
Veja
Nos
últimos anos, a economia global cresceu. Mas a pobreza
também aumentou no mundo. Como o senhor explica esse
contraste?
Wolfensohn
Para
começar, temos grandes diferenças geográficas.
Em algumas partes do mundo, como na Índia ou na China,
houve reduções significativas na pobreza.
Em outros lugares, houve um desenvolvimento menos eqüitativo.
Esse é o desafio principalmente nas nações
da ex-União Soviética e na América
Latina. Apesar do crescimento nessas áreas, os níveis
de pobreza continuaram iguais, ou cresceram. No Brasil,
os mais ricos, que são 1% da população,
têm uma renda maior do que a metade mais pobre do
país.
Veja
Que
tipo de medidas podem ser tomadas na América Latina
para reduzir as desigualdades?
Wolfensohn
Para
começar, é preciso que as lideranças,
não apenas no governo mas também no Congresso,
reconheçam que justiça social é uma
questão tão importante quanto crescimento
econômico. A curto prazo, você pode manter a
desigualdade. Mas a longo prazo não dá para
ter uma sociedade estável. Isso já foi provado
tantas vezes que os governos precisam aceitar. É
necessário criar oportunidades para que as pessoas
pobres se desenvolvam, investindo em educação
e em reforma agrária. Além disso, é
preciso criar redes de segurança para que as pessoas
que estão à beira do abismo tenham algo que
as sustente e lhes dê a chance de se equilibrar de
novo e avançar. Acho que no mundo todo e na América
Latina em especial é preciso entender que as pessoas
pobres não são o problema, mas parte da solução.
Para progredir, devemos pensar no problema como uma questão
de capacitação, em vez de caridade.
Veja
Quem
está conseguindo resolver isso?
Wolfensohn
Tenho
visto isso acontecer no Brasil, nas favelas do Rio de Janeiro,
onde uma combinação de ONGs, setor privado
e governo municipal está fornecendo água e
sistema de esgotos. Os moradores da favela não apenas
pagam por isso, mas também passam a ter um sentimento
de dignidade que permite que progridam. Se você puder
combinar o sentimento de dignidade, de oportunidade e de
proteção porque o crime é um problema
enorme em muitas cidades brasileiras então poderá
realmente reverter a pobreza. Mas se eles (os favelados)
estiverem expostos à criminalidade e não souberem
se confiam na polícia ou no bandido, você só
terá essa atmosfera carregada, que não é
boa para ninguém, nem para os ricos, nem para os
pobres.
Veja
Em
geral, os programas de equilíbrio fiscal nos países
em desenvolvimento passam por medidas austeras, que vêm
causando recessão e desemprego. Existe alguma outra
maneira de fazer esse equilíbrio?
Wolfensohn
É importante ter um programa econômico apropriado
e estabilidade contra a inflação, porque quem
mais sofre com ela são as pessoas pobres. Mas não
há sentido em jogar a sociedade em uma condição
na qual a pobreza aumenta enquanto você está
tentando conseguir estabilidade. Acredito que todos nós
aprendemos. Agora, com os novos Joint Poverty Reduction
Strategy Papers, que serão feitos pelo Bird e pelo
FMI, nosso foco principal vai ser o impacto sobre a pobreza.
Podemos crer que, no futuro, veremos um equilíbrio
melhor do que no passado entre medidas fiscais e programas
sociais.
Veja
Podemos
esperar algum tipo de mudança na estratégia
do FMI?
Wolfensohn
O
FMI já indicou que está buscando um meio-termo
entre o equilíbrio fiscal e as questões relacionadas
à pobreza, como lembrou Michel Camdessus. E já
começamos a trabalhar no desenvolvimento de estratégias
conjuntas, reunindo as atividades do Bird e do FMI. Elas
envolvem um conteúdo muito maior de temas sociais
e questões ligadas à pobreza.
Veja
Como
podemos interpretar o pedido de demissão de Michel
Camdessus?
Wolfensohn
Apenas
que treze anos é um longo tempo para ter um emprego
como esse. Eu sei o que é isso e posso bem compreendê-lo.
Este tipo de emprego não combina com atividades pessoais.
Ele, muito corretamente, quer fazer outras coisas e ter
mais tempo para se dedicar à família.
Veja
A
oposição em países como o Brasil costuma
afirmar que o FMI e o Bird mandam mais que os governos.
Como podemos responder a esse tipo de acusação?
Wolfensohn
Eu
não posso falar em nome de cada ação
do Bird em cada país. Mas posso garantir que a política
desta instituição é trabalhar para
e com os governos. Inclusive, em nossa estratégia
para o Brasil, em vez de chegar com respostas para os problemas,
estamos ouvindo a sociedade civil, organizações
de comércio e críticos do Bird. Estamos aprendendo
bastante. De fato, as pessoas das comunidades sabem mais
sobre o que as aflige do que nós. Seríamos
loucos se chegássemos com soluções
prontas de Washington. Se isso já ocorreu algum dia,
não acredito que seja mais
verdade
hoje.