Edição 1 626 - 1º/12/1999

VEJA esta semana

Brasil
Internacional
Geral
Economia e Negócios
Guia
Artes e Espetáculos
Colunas
Cláudio de Moura Castro
Gustavo Franco
Diogo Mainardi
Roberto Pompeu de Toledo
Seções
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Contexto
Holofote 
Veja essa
Notas internacionais
Hipertexto
Gente
Datas
Cotações

Banco de Dados 

Para pesquisar digite uma ou mais palavras no campo abaixo. 


A vez dos pobres

Presidente do Banco Mundial está otimista
com a economia brasileira, mas diz que passa da hora de
o país resolver
a má distribuição de renda

Alexandre Mansur, de Washington

Michele Ianacci

 

"No Brasil, às vezes é difícil
provocar mudanças porque há
muitos
interesses envolvidos."

O
escritório de James Wolfensohn, presidente do Banco Mundial, Bird, está plantado no 12º andar da imponente sede da instituição, bem em frente aos prédios do Fundo Monetário Internacional, FMI, em Washington. O cruzamento é conhecido como "esquina do dinheiro" pelos moradores de Washington. Mas, embora as ruas limpas da capital americana nem de longe lembrem as favelas latino-americanas nem as aldeias da África, o lamento dos pobres não sai da cabeça de Wolfensohn. Eles são o mote do discurso que ele fará, nesta semana, na abertura da conferência da Organização Mundial do Comércio, OMC, em Seattle. Seu banco empresta, todo ano, de 20 a 25 bilhões de dólares. Filho de judeus poloneses pobres que emigraram para a Austrália, Wolfensohn fez fama e fortuna em Wall Street, que abandonou em 1995, quando foi convidado para assumir o Bird. Ao completar 60 anos encantou os amigos com uma festa surpresa inesquecível. Convidou-os para um concerto no famoso Carnegie Hall, em Nova York, onde ele mesmo subiu ao palco e se exibiu tocando – bem – um violoncelo. Na semana passada, Wolfensohn falou a VEJA.
 
Veja – O Bird está começando um programa ambicioso para combater a corrupção nas nações em desenvolvimento. Como saber se os políticos e as lideranças de um país estão realmente empenhados nisso?
Wolfensohn – Não podemos ter certeza do que um governo faz em lugar nenhum. Nós somos o Banco Mundial, e não o governo mundial. Mas o que eu aprendi nos últimos três anos, desde que começamos nosso programa, é que a corrupção não é uma questão política, mas social e econômica. Isso não havia sido feito antes pelo Bird por medo de invadir um terreno político. Descobri que, depois que você chama a atenção para a corrupção em um determinado país e abre o debate, libera forças na sociedade que passam a fazer pressão sobre os políticos. Dê uma olhada no que aconteceu com o presidente Suharto na Indonésia. Veja a reação que está surgindo agora na Rússia. Está virando um movimento mundial. E não é de causar surpresa. As pessoas pobres podem tolerar a pobreza se todo mundo for pobre também. Mas ficam loucas se alguns poucos estiverem lucrando à custa delas.
 
Veja – O senhor poderia mencionar alguma nação em desenvolvimento que conseguiu chegar ao nível dos países industrializados?
Wolfensohn – A Coréia do Sul. Há 25 anos, sua economia tinha dimensões africanas. Agora é a 11ª do mundo. Seu crescimento foi comprometido por uma crise recente, mas eles já estão se recuperando rapidamente. Ainda falta no país uma estrutura legal apropriada. A Coréia não fazia uma boa supervisão do sistema bancário. E tem bastante corrupção, como foi indicado pelo presidente Kim Dae Jung, recentemente eleito. Mesmo assim, é um país que conseguiu se erguer com investimentos em educação e trabalho duro. Também podemos mencionar Malásia, Cingapura e Costa Rica. O próprio Brasil também não foi mal.
 
Veja – Que tipo de avanço o senhor destacaria no Brasil?
Wolfensohn – É um país que adoro e venho acompanhando há trinta anos. A diferença entre pobres e ricos, as disparidades nos níveis de educação são bem nítidas no Brasil. E acredito que o presidente Fernando Henrique Cardoso, em seu governo, compreende isso. O que aprecio na estratégia de FHC é que ele e o ministro Paulo Renato estão dando ênfase à educação. Ainda existem grandes diferenças entre os Estados. Está melhorando. Há governadores realmente empenhados no desenvolvimento de seus Estados. Mas é preciso lidar com as questões sociais e de distribuição de renda. Em seu país, às vezes é difícil provocar mudanças porque há muitos interesses envolvidos. Mas há cada vez mais empresários e banqueiros participando de atividades sociais. Eles estão sendo forçados a isso pelo aumento da criminalidade e da insegurança nas ruas. Vocês têm uma estrutura básica extraordinária. Vejo o Brasil sempre como um lugar complicado. Mas também como um país que está progredindo. Acho que vocês têm uma imensa quantidade de criatividade e boas lideranças no país.
 
Veja – O que o senhor acha das iniciativas contra a pobreza sugeridas pelo Parlamento brasileiro?
Wolfensohn – Tenho acompanhado a proposta de imposto de Antonio Carlos Magalhães e a posição do governo, de que isso pode ser feito dentro do orçamento já existente. Se você precisa de um imposto extra ou se isso pode ser feito dentro do orçamento é um assunto doméstico do Brasil. Mas o que me deixa aliviado é saber que no cerne dessa discussão está a idéia de dirigir parte do dinheiro do país para combater a pobreza.
 
Veja – Atualmente a popularidade do presidente FHC está baixa. Quais seriam seus prognósticos para o Brasil?
Wolfensohn – Acho que as coisas vão melhorar. Naturalmente, não posso comentar os níveis de popularidade do presidente. Acho, pessoalmente, que ele e sua mulher são pessoas notáveis, com um grande senso de responsabilidade social. Isso está claro até na formação acadêmica dele. O presidente foi importante para colocar em pauta a questão fiscal. Mas todo mundo sabe que as questões sociais precisam ser tratadas com mais agressividade. Em meu entendimento, é isso que o governo está se propondo a fazer. Vocês estão com uma base econômica bem mais estável agora. Provavelmente, podem fazer mais na área social. Eu sei que é muito difícil trabalhar esses dois aspectos com equilíbrio. Mas vocês não têm milhares por cento de inflação, possuem uma moeda relativamente estável, têm um balanço fiscal decente e um orçamento que parece funcionar. Agora precisam garantir que, dentro do orçamento, exista ação apropriada e rápida, como em educação, reforma agrária e outros assuntos que são urgentes para o povo.
 
Veja – Quando o senhor defende uma ênfase maior nas questões sociais não há o risco de dar munição àqueles que se opõem às medidas de ajuste fiscal?
Wolfensohn – Claro que existe. É preciso chegar a um equilíbrio. Às vezes se consegue, às vezes não. E sempre haverá críticas. Não importa o que você esteja fazendo.
 
Veja – Nos últimos anos, o Brasil e outros países em desenvolvimento se abriram às importações. Já os industrializados aumentaram suas barreiras comerciais. Será que os países em desenvolvimento se precipitaram?
Wolfensohn – O acesso a livres mercados é importante para todo mundo. Mas é absolutamente crucial que os países desenvolvidos dêem acesso total aos países em desenvolvimento. Certamente, não faz sentido algum ter mercados abertos em uma direção e fechados em outra. Eu tenho sido um dos grandes defensores da abertura de mercados para as exportações dos países em desenvolvimento. A propósito, o Brasil não foi tão mal. Suas exportações estão crescendo e o país tem uma participação efetiva no mercado global de automóveis e de outros produtos tecnológicos e manufaturados, muito além dos recursos naturais. É um país que tem sido capaz de se adaptar e competir globalmente.
 
Veja – O senhor acha que os países em desenvolvimento deveriam ser mais agressivos nas reuniões da OMC?
Wolfensohn – Eles deveriam participar mais e transformar as próximas reuniões em rodadas do desenvolvimento. Acho que é isso que elas deveriam ser.
 
Veja – O senhor diria que o Brasil é um bom país para se investir?
Wolfensohn – Não sou mais banqueiro de investimento e não posso fazer recomendações. Mas, se você examinar os indicadores demográficos, olhar para a força do país e comparar com outras nações que enfrentaram o desafio do crescimento, deve ter bastante confiança no Brasil.
 
VejaHá um ano, a Malásia adotou um programa de ajuste fiscal, restringindo drasticamente a saída de capitais do país. Parece ter funcionado. O que o senhor diria desse exemplo?
Wolfensohn – Sempre acreditei que mercados frágeis precisam de algum tipo de proteção. Isso varia em cada país. Vocês tiveram isso na América Latina. O Chile é um bom exemplo. Mesmo o Brasil controlou os fluxos de capitais várias vezes em sua história. Sou amplamente a favor dos mercados abertos. Mas acredito que, para chegar lá, você muito freqüentemente precisa ter alguma forma de controle de capital. Acho que até o FMI também acredita nisso agora.
 
VejaAo dizer isso, há algum risco de assustar os investidores?
Wolfensohn – É preciso ter um plano coerente e consistente. Movimentos abruptos para impor ou suspender controles de capitais podem ser bastante perigosos e assustar os investidores. Mas um programa cuidadoso e bem modulado faz bastante sentido. Na minha juventude, na Austrália, eles fizeram um programa desse tipo até o país poder se abrir para os mercados.
 
VejaNos últimos anos, a economia global cresceu. Mas a pobreza também aumentou no mundo. Como o senhor explica esse contraste?
Wolfensohn – Para começar, temos grandes diferenças geográficas. Em algumas partes do mundo, como na Índia ou na China, houve reduções significativas na pobreza. Em outros lugares, houve um desenvolvimento menos eqüitativo. Esse é o desafio principalmente nas nações da ex-União Soviética e na América Latina. Apesar do crescimento nessas áreas, os níveis de pobreza continuaram iguais, ou cresceram. No Brasil, os mais ricos, que são 1% da população, têm uma renda maior do que a metade mais pobre do país.
 
VejaQue tipo de medidas podem ser tomadas na América Latina para reduzir as desigualdades?
Wolfensohn – Para começar, é preciso que as lideranças, não apenas no governo mas também no Congresso, reconheçam que justiça social é uma questão tão importante quanto crescimento econômico. A curto prazo, você pode manter a desigualdade. Mas a longo prazo não dá para ter uma sociedade estável. Isso já foi provado tantas vezes que os governos precisam aceitar. É necessário criar oportunidades para que as pessoas pobres se desenvolvam, investindo em educação e em reforma agrária. Além disso, é preciso criar redes de segurança para que as pessoas que estão à beira do abismo tenham algo que as sustente e lhes dê a chance de se equilibrar de novo e avançar. Acho que no mundo todo – e na América Latina em especial – é preciso entender que as pessoas pobres não são o problema, mas parte da solução. Para progredir, devemos pensar no problema como uma questão de capacitação, em vez de caridade.
 
VejaQuem está conseguindo resolver isso?
Wolfensohn – Tenho visto isso acontecer no Brasil, nas favelas do Rio de Janeiro, onde uma combinação de ONGs, setor privado e governo municipal está fornecendo água e sistema de esgotos. Os moradores da favela não apenas pagam por isso, mas também passam a ter um sentimento de dignidade que permite que progridam. Se você puder combinar o sentimento de dignidade, de oportunidade e de proteção – porque o crime é um problema enorme em muitas cidades brasileiras – então poderá realmente reverter a pobreza. Mas se eles (os favelados) estiverem expostos à criminalidade e não souberem se confiam na polícia ou no bandido, você só terá essa atmosfera carregada, que não é boa para ninguém, nem para os ricos, nem para os pobres.
 
VejaEm geral, os programas de equilíbrio fiscal nos países em desenvolvimento passam por medidas austeras, que vêm causando recessão e desemprego. Existe alguma outra maneira de fazer esse equilíbrio?
Wolfensohn – É importante ter um programa econômico apropriado e estabilidade contra a inflação, porque quem mais sofre com ela são as pessoas pobres. Mas não há sentido em jogar a sociedade em uma condição na qual a pobreza aumenta enquanto você está tentando conseguir estabilidade. Acredito que todos nós aprendemos. Agora, com os novos Joint Poverty Reduction Strategy Papers, que serão feitos pelo Bird e pelo FMI, nosso foco principal vai ser o impacto sobre a pobreza. Podemos crer que, no futuro, veremos um equilíbrio melhor do que no passado entre medidas fiscais e programas sociais.
 
VejaPodemos esperar algum tipo de mudança na estratégia do FMI?
Wolfensohn – O FMI já indicou que está buscando um meio-termo entre o equilíbrio fiscal e as questões relacionadas à pobreza, como lembrou Michel Camdessus. E já começamos a trabalhar no desenvolvimento de estratégias conjuntas, reunindo as atividades do Bird e do FMI. Elas envolvem um conteúdo muito maior de temas sociais e questões ligadas à pobreza.
 
VejaComo podemos interpretar o pedido de demissão de Michel Camdessus?
Wolfensohn – Apenas que treze anos é um longo tempo para ter um emprego como esse. Eu sei o que é isso e posso bem compreendê-lo. Este tipo de emprego não combina com atividades pessoais. Ele, muito corretamente, quer fazer outras coisas e ter mais tempo para se dedicar à família.
 
VejaA oposição em países como o Brasil costuma afirmar que o FMI e o Bird mandam mais que os governos. Como podemos responder a esse tipo de acusação?
Wolfensohn –
Eu não posso falar em nome de cada ação do Bird em cada país. Mas posso garantir que a política desta instituição é trabalhar para e com os governos. Inclusive, em nossa estratégia para o Brasil, em vez de chegar com respostas para os problemas, estamos ouvindo a sociedade civil, organizações de comércio e críticos do Bird. Estamos aprendendo bastante. De fato, as pessoas das comunidades sabem mais sobre o que as aflige do que nós. Seríamos loucos se chegássemos com soluções prontas de Washington. Se isso já ocorreu algum dia, não acredito que seja mais verdade hoje.

Saiba mais

Banco Mundial