Edição 1 626 - 1º/12/1999

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Uma acomodação perigosa

Ricardo Stuckert
Sessão do Congresso: reforma tributária encalacrada


A confusão da semana passada em torno da sempre prometida reforma tributária trouxe uma revelação assombrosa. Em nenhum momento o governo empenhou-se genuinamente na produção de um texto de reforma eficaz, que permitiria desonerar a produção industrial e modernizar o atual sistema de tributos. Pior. O Executivo deu a nítida impressão de que é verdadeira a tese de que, no fundo, no fundo, não deseja mexer na bagunça do sistema tributário. Ao descobrir que estava andando de vento em popa na Câmara o projeto do deputado Mussa Demes, o Ministério da Fazenda derrubou uma chuva de críticas técnicas ao relatório do deputado e deu início a uma articulação parlamentar para que o trabalho de Demes não tenha futuro. Com isso, perdem os brasileiros, que entram no novo milênio com uma das cargas tributárias mais exageradas do planeta, eivada de impostos ruins e taxações em excesso que minam a eficácia da economia e empobrecem o país.

É justo perguntar por que um governo tão inequivocamente comprometido com a reforma das instituições em tantos outros campos faz corpo mole quando o assunto é acabar com o caos dos impostos. Parte da resposta é a convicção de técnicos do governo de que qualquer reforma, mesmo a melhor delas, produz num primeiro instante diminuição da arrecadação. Isso não é tudo. Faltou visão de longo prazo ao presidente Fernando Henrique Cardoso e a seus auxiliares mais próximos. O governo acomodou-se porque a arrecadação vem subindo mês a mês, em parte por uma razão que ninguém gosta de admitir publicamente no Planalto: o aumento da inflação. A acomodação é perigosa. E ruinosa para a imagem do presidente. Já se disse que a diferença entre o político e o estadista é que o primeiro pensa na próxima eleição, enquanto o segundo pensa na próxima geração. O Brasil ganharia se o presidente Fernando Henrique encarasse a reforma tributária com o dilema acima na cabeça.