Edição 1882 . 1° de dezembro de 2004

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Tales Alvarenga
Celso e Bob Fields

"Não seria demérito algum para a biografia de
Celso Furtado que alguém apontasse as áreas
mofadas na sua copiosa obra acadêmica"

Toda unanimidade é burra, dizia Nelson Rodrigues. Nos últimos dias, a inteligência nacional se rendeu a duas unanimidades. Caiu gulosa sobre o presidente demitido do BNDES, Carlos Lessa, para estraçalhá-lo na mídia por seu nacionalismo retrógrado. O outro caso é o de um amigo de Carlos Lessa, o economista Celso Furtado, que morreu aos 84 anos, cercado por salamaleques. Era também um nacionalista da velha estirpe. Paradoxalmente, não se viu nenhum notável fazendo uma leitura crítica de sua obra. Havia várias décadas, Celso Furtado vinha sendo venerado como um símbolo do intelectual virtuoso. A reverência o acompanhou ao túmulo.

Celso Furtado era um dicionário vivo dos chavões do nacionalismo. Combatia as companhias estrangeiras como ameaça à autonomia do Brasil e à sobrevivência de suas indústrias. Era a favor da intervenção do Estado na economia. Atribuía o atraso brasileiro ao "receituário neoliberal a serviço da consolidação da política imperial dos Estados Unidos". Em resumo, dizia coisas que nem o PT tem mais coragem de dizer, porque parecem enferrujadas. Seus livros foram lidos com devoção por uma geração de jovens românticos. Nunca foi um economista muito amigo da matemática. Fundou a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), nos anos 50. Na década de 60, foi ministro do Planejamento de Jango Goulart, fazendo dueto com San Tiago Dantas, na Fazenda. A dupla não teve sucesso na condução da economia brasileira. No golpe de 1964, foi para o exterior e passou boa parte do resto de sua vida lecionando em Paris. Celso Furtado, dizem os amigos, era muito atencioso. Não consta que tenha feito inimigos. Era calmo, equilibrado, decente, respeitável.

Não seria demérito algum para a biografia de Celso Furtado que alguém apontasse as áreas mofadas na sua copiosa obra acadêmica. Ele acreditava que o subdesenvolvimento nos países "periféricos" era uma decorrência direta do fortalecimento do capitalismo no mundo desenvolvido. Essa teoria, com audiência atenta na segunda metade do século passado, foi desbaratada pelo salto dos Tigres Asiáticos, que eram pobres até os anos 70. Para Furtado, a partir dos anos 90, o vilão do atraso brasileiro era o neoliberalismo. Problema: o neoliberalismo jamais foi aplicado no Brasil. Ao contrário, desde Getúlio Vargas, o país tem sido pela maior parte do tempo um laboratório de experiências intervencionistas feitas pelo Estado.

A trajetória de Celso Furtado é oposta à do economista Roberto Campos, seu contemporâneo e antípoda, que também foi ministro do Planejamento (nos anos 60, no governo Castello Branco). Campos, em companhia de Octavio Bulhões, na Fazenda, desbravaria o terreno para a explosão do que viria a ser conhecido como "milagre brasileiro", uma fase de crescimento a taxas asiáticas até meados da década de 70. Roberto Campos defendia tudo o que Celso criticava: desregulamentação da economia, privatização, inserção do Brasil no processo de globalização, incentivo à entrada de capitais estrangeiros. Mordaz, agressivo, insistente na defesa de suas idéias, Campos foi perseguido durante metade de sua vida por uma multidão de inimigos que o chamava ironicamente de "Bob Fields". Para Roberto Campos, o Brasil nunca chegou a ser sequer capitalista. Tudo o que ele pedia era que o país desse uma chance à racionalidade. Pela conhecida síndrome da embriaguez ideológica da intelectualidade brasileira, ela se identificava com Celso Furtado e repudiava Roberto Campos. Mas era Campos que estava certo.

 
 
 
 
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