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Tales
Alvarenga
Celso e Bob Fields
"Não seria demérito algum
para a biografia de
Celso Furtado que alguém apontasse as áreas
mofadas na sua copiosa obra acadêmica"
Toda unanimidade é burra, dizia Nelson
Rodrigues. Nos últimos dias, a inteligência nacional
se rendeu a duas unanimidades. Caiu gulosa sobre o presidente demitido
do BNDES, Carlos Lessa, para estraçalhá-lo na mídia
por seu nacionalismo retrógrado. O outro caso é o
de um amigo de Carlos Lessa, o economista Celso Furtado, que morreu
aos 84 anos, cercado por salamaleques. Era também um nacionalista
da velha estirpe. Paradoxalmente, não se viu nenhum notável
fazendo uma leitura crítica de sua obra. Havia várias
décadas, Celso Furtado vinha sendo venerado como um símbolo
do intelectual virtuoso. A reverência o acompanhou ao túmulo.
Celso Furtado era um dicionário vivo
dos chavões do nacionalismo. Combatia as companhias estrangeiras
como ameaça à autonomia do Brasil e à sobrevivência
de suas indústrias. Era a favor da intervenção
do Estado na economia. Atribuía o atraso brasileiro ao "receituário
neoliberal a serviço da consolidação da política
imperial dos Estados Unidos". Em resumo, dizia coisas que nem o
PT tem mais coragem de dizer, porque parecem enferrujadas. Seus
livros foram lidos com devoção por uma geração
de jovens românticos. Nunca foi um economista muito amigo
da matemática. Fundou a Superintendência de Desenvolvimento
do Nordeste (Sudene), nos anos 50. Na década de 60, foi ministro
do Planejamento de Jango Goulart, fazendo dueto com San Tiago Dantas,
na Fazenda. A dupla não teve sucesso na condução
da economia brasileira. No golpe de 1964, foi para o exterior e
passou boa parte do resto de sua vida lecionando em Paris. Celso
Furtado, dizem os amigos, era muito atencioso. Não consta
que tenha feito inimigos. Era calmo, equilibrado, decente, respeitável.
Não seria demérito algum para
a biografia de Celso Furtado que alguém apontasse as áreas
mofadas na sua copiosa obra acadêmica. Ele acreditava que
o subdesenvolvimento nos países "periféricos" era
uma decorrência direta do fortalecimento do capitalismo no
mundo desenvolvido. Essa teoria, com audiência atenta na segunda
metade do século passado, foi desbaratada pelo salto dos
Tigres Asiáticos, que eram pobres até os anos 70.
Para Furtado, a partir dos anos 90, o vilão do atraso brasileiro
era o neoliberalismo. Problema: o neoliberalismo jamais foi aplicado
no Brasil. Ao contrário, desde Getúlio Vargas, o país
tem sido pela maior parte do tempo um laboratório de experiências
intervencionistas feitas pelo Estado.
A trajetória de Celso Furtado é
oposta à do economista Roberto Campos, seu contemporâneo
e antípoda, que também foi ministro do Planejamento
(nos anos 60, no governo Castello Branco). Campos, em companhia
de Octavio Bulhões, na Fazenda, desbravaria o terreno para
a explosão do que viria a ser conhecido como "milagre brasileiro",
uma fase de crescimento a taxas asiáticas até meados
da década de 70. Roberto Campos defendia tudo o que Celso
criticava: desregulamentação da economia, privatização,
inserção do Brasil no processo de globalização,
incentivo à entrada de capitais estrangeiros. Mordaz, agressivo,
insistente na defesa de suas idéias, Campos foi perseguido
durante metade de sua vida por uma multidão de inimigos que
o chamava ironicamente de "Bob Fields". Para Roberto Campos, o Brasil
nunca chegou a ser sequer capitalista. Tudo o que ele pedia era
que o país desse uma chance à racionalidade. Pela
conhecida síndrome da embriaguez ideológica da intelectualidade
brasileira, ela se identificava com Celso Furtado e repudiava Roberto
Campos. Mas era Campos que estava certo.
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