|
|
Ponto
de vista: Lya
Luft
Quando o homem
é uma ilha
"No mais trivial comentário,
por que, em lugar
de prestar atenção ao outro,
a gente prefere
discriminar, marcando a ferro e fogo
o flanco
alheio com um rótulo invisível
e ao mesmo
tempo tão evidente?"
Meus assombros de menina: qual era a verdade
de cada pessoa, daquelas que me rodeavam numa casa geralmente alegre?
Eu descobrira que nem sempre dizia o que pensava: e os outros?
Perplexidades adultas: por que nos perdemos
tanto? Por que tantos encontros amigos ou amorosos, e mesmo profissionais,
começam com entusiasmo e de repente ou lenta e insidiosamente
se transformam em objeto de indiferença, irritação
ou até mesmo crueldade?
Ninguém se casa, tem filho, assume
um trabalho querendo que saia tudo errado, querendo falhar ou ser
triturado. Quantas vezes, porém, depois de algum tempo trilhamos
uma estrada de desencanto e rancor?
No mais trivial comentário, por que,
em lugar de prestar atenção ao outro, a gente prefere
rotular, discriminando, marcando a ferro e fogo o flanco alheio
com um rótulo invisível e ao mesmo tempo tão
evidente? "Burro", "arrogante", "falso", "preguiçoso", "mentiroso",
"omisso", "desleal", "vulgar" muitas vezes, humilhamos logo
de saída, demonstrando nossos preconceitos sem nos envergonharmos
deles, pois nem nos damos conta.
Parece que não convivemos com pessoas:
convivemos com imagens construídas pela nossa falta de generosidade.
Pergunto a uma amiga pelo seu genro: "Aquele?
Cada vez mais gordo!" Mas talvez eu quisesse saber se ele estava
empregado, se estava contente, se fazia a filha dela feliz.
E nossa amiga comum? "Ah, essa? Irreconhecível,
deve ter feito a milésima plástica na cara, mas os
peitos estão um horror de caídos!" Não me disse
se a mulher de quem falávamos se recuperara da viuvez, se
estava deprimida ou já superara o trauma, se parecia serena
ou aflita. Parece que invariavelmente acordamos com raiva de tudo
e de todos. "Sujeito metido a besta", "professor ultrapassado",
"alunos medíocres", "cantor desafinado", "empresário
falido"...
Não vemos gente ao nosso redor. Vemos
etiquetas. Difícil, assim, sentir-se acompanhado; difícil,
desse jeito, amar e ser estimado. Vivemos como se estivéssemos
isolados, com o olhar rápido e superficial, o julgamento
à mão, armado: "um idiota", "uma dondoca", "um fracassado".
Quem era, como se chamava, que idade tinha, se teve filhos, amigos,
sucessos, fracassos, de que morreu, como viveu? É esse tipo
de coisa que quero saber quando leio notícias do tipo "Aposentado
morre de infarto na rua", "Idosa atropelada na avenida", "Mulher
assaltada no caixa eletrônico".
Não admira que a gente sinta medo,
solidão, raiva mesmo que imprecisa, nem sabemos do quê
ou de quem. Atacamos antes que nos ataquem, o outro é sempre
uma ameaça, não uma possibilidade de afeto ou alegria.
Todo homem será uma ilha?
Lya Luft é escritora
|