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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo
A educação pela pedra
Memórias da
infância de Celso Furtado,
no sertão, entre os perigos
do cangaço,
da política e da natureza
Para o menino Celso Furtado a vida era uma
sucessão de perigos. O perigo dos cangaceiros que vez por
outra invadiam Pombal, sua cidade natal, no sertão da Paraíba,
por exemplo. "Lá vêm os cangaceiros", avisavam, e todo
mundo saía correndo. Os cangaceiros avançavam pelas
ruas em cavalgadas que espalhavam poeira e terror. Uns queriam bancar
os bem-educados e sentavam-se no bar, pediam café, respeitavam
as senhoras. Outros agiam como brutamontes. Ameaçavam, atiravam,
agrediam, intimidavam, barbarizavam. Numa dessas ocasiões
o pai de Celso agarrou-o e levou-o a um esconderijo, onde ficaram
até os cangaceiros irem embora. "Tantas vezes vi pessoas
mortas na rua", lembraria ele, muitos e muitos anos depois. Convocado
para o serviço militar no período da II Guerra, Celso
integrou-se à Força Expedicionária Brasileira,
na Itália mas dizia que viu mais mortos na Paraíba,
na infância, do que nas frentes de batalha.
Havia a violência política, em
acréscimo à dos fazendeiros. Todo mundo estava envolvido
na "política", mas não se pense que essa "política"
tenha a ver com o debate dos problemas do município, do estado
ou das grandes questões nacionais. A "política" se
traduzia em escaramuças entre famílias rivais. Eram
particularmente agudas em épocas eleitorais, e podiam degenerar
em pequenas guerras civis.
Num dia de 1930 alguém chegou correndo
à casa de Celso: "Mataram João Pessoa!". Não
era um dia qualquer para o menino. Era o dia em que completava 10
anos, 26 de julho. Quem trazia a notícia era um empregado.
Eram sempre os empregados que traziam as notícias. E não
podia haver notícia mais terrível Pessoa, o
popular governador (ou presidente, como se dizia então) da
Paraíba, fora emboscado por um inimigo numa confeitaria do
Recife. Entre as pessoas simples do estado, João Pessoa gozava
de mística que tangenciava o sobrenatural. Celso ouvia da
empregada da casa histórias como a de que o governador se
disfarçava de pessoa comum e saía "para fazer o bem"
nos bairros pobres. Era a mesma legenda que acompanhava os "reis
bons" da Idade Média. À noite, a empregada o levou
a uma procissão encabeçada por um andor onde ia o
retrato de João Pessoa, venerado como santo.
Seguiu-se um período em que os adversários
políticos do líder assassinado, em cada cidade paraibana,
eram atacados como se cada um deles fosse o assassino. Agrediam-nos
nas ruas, incendiavam-lhes as casas, feriam, matavam. Na manhã
seguinte, ao sair de casa, a primeira coisa com que Celso deparou
foi o cadáver de um homem estendido na rua. Ali perto ficava
a usina de propriedade de um notório adversário de
João Pessoa. Um alvo fácil para os vingadores do governador,
portanto, tanto assim que soldados do Exército foram destacados
para protegê-lo. A família Furtado, pelo sim, pelo
não, achou prudente afastar-se do bairro. Refugiou-se na
casa da avó de Celso, até o ambiente se acalmar.
Quando não vinha dos homens, o perigo
vinha da natureza. Celso tinha 4 anos na época da grande
cheia de 1924. As águas, em fúria, invadiram sua casa,
destruindo-lhe a parte da frente. A casa só não veio
abaixo por milagre. Vários de seus compartimentos ficaram
inutilizados, inclusive a cozinha. Tiveram de trazer o fogão
para a sala, por causa disso. Temerária decisão. Celso,
numa hora em que brincava sozinho na sala, jogou uma bola para cima
e ela foi cair bem no caldeirão que ardia no fogo. O caldeirão
tombou nas costas do menino. "Ah, sofri muito", recordaria. Uma
marca da queimadura ficou-lhe nas costas pelo resto da vida.
E havia os perigos do fanatismo religioso.
Celso Furtado cresceu num tempo em que a Guerra de Canudos ainda
estava fresca na memória dos povos do sertão. Um tio-avô
seu participou da guerra, do lado das forças que combatiam
os beatos de Antônio Conselheiro. Muitas histórias
do período se contavam na família. Depois veio o padre
Cícero, ainda vivo quando Celso despertava para o mundo.
Para o menino, João Pessoa e padre Cícero eram figuras
da mesma extração. Pertenciam ambos ao mesmo universo
popular e místico.
Celso Furtado, que morreu no sábado,
dia 20, tinha um olhar triste. Ele foi ministro, embaixador, conselheiro
de presidentes, membro da Academia Brasileira de Letras. Notabilizou-se
como professor nos melhores centros universitários do mundo,
escreveu livros e artigos traduzidos em múltiplos idiomas.
Conheceu os grandes deste mundo. Era reconhecido como um dos mais
destacados intelectuais brasileiros. No entanto, o olhar triste
denunciava a eterna presença, lá no fundo, do menino
assustado entre os cangaceiros, a violência política
e a fúria da natureza. Era um nordestino educado pela pedra,
para usar a expressão de outro filho da região, o
poeta João Cabral de Melo Neto.
Nota: as recordações de infância aqui alinhadas
foram relatadas por Celso Furtado ao autor destas linhas em duas
longas séries de entrevistas, uma em 1993, outra em 1999.
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