Edição 1882 . 1° de dezembro de 2004

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Salvo pelas letras

Chega ao Brasil a ficção de Edward
Bunker, o ex-criminoso que se tornou
autor cultuado


Jerônimo Teixeira


Divulgação

Cães de Aluguel: um dos ídolos de Tarantino, Bunker fez um papel

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Trecho do livro

Aos 70 anos, o escritor americano Edward Bunker leva uma vida confortável ao lado da mulher e do filho de 10 anos em Los Angeles, na Califórnia. Está trabalhando em seu quinto romance. Escreve roteiros de cinema e às vezes faz pontas em filmes – acabou de filmar The Longest Yard, comédia com Adam Sandler. Ele só não conta com amigos de infância e da juventude com quem possa dividir esses dias tranqüilos. Morreram todos. "Criminosos têm vida curta", diz Bunker em entrevista a VEJA. Ele sabe do que está falando: foi um bandido antes de se converter em escritor cultuado por figuras como o diretor Quentin Tarantino. Traficou maconha, participou de assaltos, deu pequenos golpes. Sua ficção crua e visceral é calcada em sua experiência no submundo. Recém-lançado no Brasil, Cão Come Cão (tradução de Francisco R.F. Innocêncio; Barracuda; 284 páginas; 38 reais) é considerado pelo próprio autor o menos autobiográfico de seus romances. Mesmo assim, é possível reconhecer no protagonista, Troy, uma certa identidade com Bunker. É um ladrão que leu Dostoievski. A diferença fundamental é que Troy não consegue dar o passo definitivo para fora do mundo do crime.

Filho de uma dançarina abandonada pelo marido, Bunker passou por diversos lares adotivos, escolas militares e reformatórios. "Fui criado pelo Estado", diz. Aos 15 anos, fez sua primeira entrada na Cadeia Municipal de Los Angeles por ter esfaqueado um guarda no reformatório (o guarda sobreviveu; quando lhe perguntam se já matou alguém, Bunker se recusa a responder). A reputação de tipo perigoso e instável ajudou-o a conquistar respeito entre os detentos mais velhos. "Eu não era muito forte, mas era rápido e tinha fama de louco", lembra. Foi em uma prisão posterior, com 17 anos, que Bunker descobriu a literatura. Era o maior freqüentador da biblioteca do presídio, lendo uma média de cinco livros por semana. A conversão à vida honesta, porém, foi lenta e difícil. Só se completou em 1975, quando Bunker terminou sua última pena, por um assalto frustrado a um banco em Beverly Hills. Seu primeiro romance, Nem os Mais Ferozes – que chegará às livrarias brasileiras em breve –, foi publicado em 1973, quando ele ainda estava encarcerado.

Elogiado por escritores como James Ellroy e William Styron (autor dos prefácios de Nem os Mais Ferozes e Cão Come Cão), Bunker também é um roteirista respeitado. Orgulha-se de Expresso para o Inferno, filme do russo Andrei Konchalovski. "Nos créditos, meu nome aparece ao lado de outros dois. Mas aquele roteiro é meu", afirma. Sua fama consolidou-se graças à admiração de Tarantino por sua obra. Bunker não só está entre as várias fontes obscuras que o cineasta utiliza em seus filmes, como também fez um papel pequeno em sua fita de estréia, Cães de Aluguel. O escritor devolveu a homenagem: em Cão Come Cão, Pulp Fiction é citado como o único filme a que o ex-presidiário Troy gostaria de assistir.

 
 
 
 
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