|
|
Livros
Língua ferina
Um retrato apimentado das décadas de
70 e 80 na crônica do jornalista Telmo Martino

Jerônimo Teixeira
 |
 |
| Martino: ninguém se salva de sua
malícia |
A irreverência é a principal qualidade
de Serpente Encantadora (Planeta; 336 páginas;
39,90 reais), de Telmo Martino. O jornalista carioca até
se permite, ocasionalmente, algum elogio para celebridades merecedoras.
Em geral, porém, dispensa a todos artistas, políticos,
esportistas, escritores a mesma malícia. Essa atitude
ferina faz com que tenha um lugar de distinção na
crônica social brasileira. Serpente Encantadora é
um testemunho de sua independência. E é também
e principalmente um apimentado retrato das artes,
da sociedade e da política brasileiras nos anos 70 e 80.
O livro reúne as colunas que Martino
escreveu no Jornal da Tarde, de São Paulo, entre 1975
e 1985. Alguns personagens satirizados nesses textos já caíram
no esquecimento. A maioria, porém, continua por aí,
garantindo a atualidade do livro. O talento de Martino para definir
personalidades em tiradas rápidas é assombroso. Dois
exemplos, ambos referentes a cantoras: Elba Ramalho é "a
frajola do flagelo". Simone é "a estrela da balada-orgasmo".
Para compor esses epítetos, Martino às vezes recorria
a estrangeirismos. Washington Olivetto é "o golden boy
da publicidade", e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aparece
em várias crônicas como o sénateur mulâtre
("senador mulato"). E isso em 1985, muito antes de ele ter dito
que tinha "um pé na cozinha". Talvez a crônica que
melhor represente o virtuosismo do autor em compor apelidos impagáveis
seja aquela em que se descreve um show de Caetano Veloso em São
Paulo. As fictícias damas chiques da platéia traçam
comparações inusitadas entre o compositor baiano e
os figurões da literatura francesa: "É o Mallarmé
do afoxé! É o Cocteau do agogô! É o Rimbaud
do bongô!".
A censura da ditadura militar, a esquerda
festiva, as vanguardas artísticas ninguém se
salva da mordacidade de Martino. O único reparo a Serpente
Encantadora é editorial: um livro como esse exigiria
um índice onomástico. Facilitaria muito colher o veneno
de Telmo Martino. Aliás, o colunista veterano (que não
revela a idade) continua ativo, agora no espaço virtual.
Na semana passada, sua coluna no site Babado recomendava ao crítico
de cinema Rubens Ewald Filho que renovasse o "visual facial" para
não ser confundido com Zé do Caixão.
|