Edição 1882 . 1° de dezembro de 2004

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Livros
Língua ferina

Um retrato apimentado das décadas de
70 e 80 na crônica do jornalista Telmo Martino


Jerônimo Teixeira


Martino: ninguém se salva de sua malícia

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Trechos do livro
Trecho 1
Trecho 2
Trecho 3

A irreverência é a principal qualidade de Serpente Encantadora (Planeta; 336 páginas; 39,90 reais), de Telmo Martino. O jornalista carioca até se permite, ocasionalmente, algum elogio para celebridades merecedoras. Em geral, porém, dispensa a todos – artistas, políticos, esportistas, escritores – a mesma malícia. Essa atitude ferina faz com que tenha um lugar de distinção na crônica social brasileira. Serpente Encantadora é um testemunho de sua independência. E é também – e principalmente – um apimentado retrato das artes, da sociedade e da política brasileiras nos anos 70 e 80.

O livro reúne as colunas que Martino escreveu no Jornal da Tarde, de São Paulo, entre 1975 e 1985. Alguns personagens satirizados nesses textos já caíram no esquecimento. A maioria, porém, continua por aí, garantindo a atualidade do livro. O talento de Martino para definir personalidades em tiradas rápidas é assombroso. Dois exemplos, ambos referentes a cantoras: Elba Ramalho é "a frajola do flagelo". Simone é "a estrela da balada-orgasmo". Para compor esses epítetos, Martino às vezes recorria a estrangeirismos. Washington Olivetto é "o golden boy da publicidade", e o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso aparece em várias crônicas como o sénateur mulâtre ("senador mulato"). E isso em 1985, muito antes de ele ter dito que tinha "um pé na cozinha". Talvez a crônica que melhor represente o virtuosismo do autor em compor apelidos impagáveis seja aquela em que se descreve um show de Caetano Veloso em São Paulo. As fictícias damas chiques da platéia traçam comparações inusitadas entre o compositor baiano e os figurões da literatura francesa: "É o Mallarmé do afoxé! É o Cocteau do agogô! É o Rimbaud do bongô!".

A censura da ditadura militar, a esquerda festiva, as vanguardas artísticas – ninguém se salva da mordacidade de Martino. O único reparo a Serpente Encantadora é editorial: um livro como esse exigiria um índice onomástico. Facilitaria muito colher o veneno de Telmo Martino. Aliás, o colunista veterano (que não revela a idade) continua ativo, agora no espaço virtual. Na semana passada, sua coluna no site Babado recomendava ao crítico de cinema Rubens Ewald Filho que renovasse o "visual facial" para não ser confundido com Zé do Caixão.

 
 
 
 
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