Edição 1882 . 1° de dezembro de 2004

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A guerra contra a depressão e a ansiedade

Na maior parte dos transtornos psíquicos, a associação entre remédios e terapias é benéfica. Os sintomas e os tratamentos mais utilizados

TRANSTORNOS DA FAMÍLIA DA ANSIEDADE

SÍNDROME DO PÂNICO
SINTOMAS – Recorrência de ataques de ansiedade de curta duração. Sintomas físicos: taquicardia, falta de ar, tonturas e sudorese. Alguns pacientes desenvolvem também agorafobia, que é o medo de passar mal em lugares públicos onde não possam ser socorridos
TRATAMENTO – Medicamentos antidepressivos (fluoxetina, paroxetina, clomipramina, imipramina) são eficazes para controlar as crises. Para combater a agorafobia, é necessária psicoterapia

FOBIAS
SINTOMAS – Crises de ansiedade desencadeadas por situações específicas: andar de avião ou de elevador, dirigir, ir a lugares altos, interagir com animais etc.
TRATAMENTO – A terapia do "enfrentamento", da linha cognitivo-comportamental, é considerada o tratamento mais eficaz. Consiste em expor o paciente, de forma gradual, às situações que teme. Remédios devem ser ministrados apenas em casos mais graves: quando a ansiedade traz efeitos desagradáveis, como diarréia, ou quando a fobia impede que o paciente realize suas tarefas normais do dia-a-dia  

ANSIEDADE GENERALIZADA
SINTOMAS – Expectativa, inquietude, dificuldade de concentração, irritabilidade, tensão muscular, alterações do sono – esses sintomas devem ser clinicamente significativos, ou seja, a ponto de perturbar a vida social ou profissional do paciente
TRATAMENTO – Remédios antidepressivos (venlafaxina, clomipramina e paroxetina). A psicoterapia pode ser um poderoso recurso para ajudar o paciente a identificar as situações de ansiedade e lidar com elas

TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO
SINTOMAS
– Obsessões são idéias, impulsos ou imagens que se impõem de forma intrusiva à consciência, contra a vontade do paciente, causando sofrimento. Em geral são associadas a agressão (medo de ferir ou causar um acidente), contaminação (medo de tocar objetos), dúvidas (se fechou ou não a porta ou o gás), ordem ou conteúdo sexual. Por causa das obsessões, o paciente em geral elabora rituais (compulsões) e se torna escravo deles
TRATAMENTO – Antidepressivos como clomipramina, paroxetina, fluvoxamina e sertralina reduzem os sintomas em 30% a 60%. O controle do TOC, no entanto, só pode ser obtido por meio de terapia. Com ela, o paciente é treinado a resistir às compulsões  

STRESS POS-TRAUMÁTICO
SINTOMAS – O stress pós-traumático em geral é desencadeado quando o paciente passa por uma situação estranha ao ciclo normal da vida: seqüestro, violência sexual, perda de parente de forma violenta, guerra, catástrofes. Dificilmente é desencadeado por eventos como separação conjugal ou morte de parente próximo por doença. As imagens da situação traumatizante voltam de forma recorrente, gerando crises de ansiedade
TRATAMENTO – Combinação entre alguns antidepressivos e terapia, na qual o paciente aprende a lidar com o trauma

TRANSTORNOS DE HUMOR

DISTIMIA
SINTOMAS – É uma depressão leve e crônica. A distimia muitas vezes é confundida com o mau humor. O quadro patológico se caracteriza quando a visão negativa se torna incapacitante. Os distímicos podem ter prejuízos importantes na área do trabalho e do relacionamento e cometem suicídio na mesma proporção dos deprimidos graves
TRATAMENTO – Num primeiro momento, são ministrados medicamentos antidepressivos, como fluoxetina, paroxetina, sertralina, citalopram, imipramina, amitriptilina, nortriptilina, venlafaxina e mirtazapina. A idéia é aliviar os sintomas e controlar eventuais impulsos suicidas. Num segundo momento, é recomendada a terapia para ajudar o paciente a reconstruir sua vida. Muitos distímicos se separam dos seus cônjuges ou perdem o emprego – e a terapia é importante para a reinserção social

DEPRESSÃO
SINTOMAS
– Além da tristeza, do desânimo e da dificuldade em desfrutar atividades prazerosas, verificam-se lentidão de raciocínio, dificuldade de concentração, perda de memória e alterações no sono e no apetite. Nos casos mais graves, aparecem idéias recorrentes de suicídio e delírios
TRATAMENTO – Um deprimido tem de tomar remédios (os mesmos dos distímicos) para manter as crises sob controle e minimizar o risco de suicídio. A terapia, nesse caso, funciona como poderoso auxiliar para diminuir a fragilidade psicológica do deprimido, equacionar seus conflitos e reinseri-lo na sociedade

TRANSTORNO BIPOLAR
SINTOMAS
– O paciente alterna momentos de depressão e euforia. Nas fases de tristeza, os sintomas são os mesmos da depressão. Nas de euforia, o bipolar costuma apresentar alegria exagerada, hipersexualidade, além de pensamentos fora da realidade. Durante uma crise, o paciente pode ter, por exemplo, graves prejuízos financeiros. O transtorno ataca principalmente adolescentes e adultos jovens, e é incurável. Pode ser controlado, mas os episódios aparecem várias vezes ao longo da vida
TRATAMENTO – Os remédios clássicos são os chamados estabilizadores de humor. A primeira escolha continua sendo o lítio. Outras opções são valproato, carbamazepina e lamotrigina. A terapia é fundamental, pois os pacientes têm muitos prejuízos na vida social. Atualmente, terapias psicoeducacionais, em que pacientes e seus familiares são instruídos sobre o transtorno, são consideradas altamente efetivas

Fontes: Ricardo Moreno e Miréia Roso, do Hospital das Clínicas de São Paulo,
e José Alberto Del Porto, da Escola Paulista de Medicina

 

[LUCAS GUERRA | 20 anos | Florianópolis |
TRANSTORNO OBSESSIVO-COMPULSIVO]

Eduardo Marques


Aos 16 anos, o catarinense Lucas Guerra passou a sentir um terrível medo de contaminação. Tomava dois banhos por dia, e cada um durava duas horas e meia. Lavava as mãos compulsivamente, antes e depois de tocar nos objetos, a ponto de deixar as palmas em carne viva. Em pouco tempo, parou de sair de casa, com medo de se contaminar. Obrigou a família a tirar todos os móveis da sala, para não acumular pó. Não conversava com ninguém, por receio de ficar doente por meio de contato com a saliva de outra pessoa. Depois de três anos recorrendo, sem sucesso, a psiquiatras que atendiam em domicílio, a família decidiu internar Lucas. Na clínica psiquiátrica, ele começou um tratamento com remédios e terapia cognitivo-comportamental. Depois de alguns dias de puro desespero, descobriu que poderia sobreviver a outra cama que não a sua. Recuperou-se aos poucos, voltou para casa e, atualmente, tem vida social e até luta jiu-jítsu. "Agora, quero compensar os anos que perdi."

 

[REGINA DOURADO | 56 anos |
Recife | STRESS POS-TRAUMÁTICO]

Barbara Wagner/Ag. Lumiar


A empresária Regina Dourado viveu uma das piores tragédias que um ser humano pode suportar. Em maio de 2003, sua filha Maria Eduarda, de apenas 16 anos, foi brutalmente assassinada. A menina desapareceu durante uma curta viagem e seu corpo só foi encontrado dez dias depois, num canavial. Acometida de stress pós-traumático, Regina passou meses alimentando-se mal e dormindo pouco. Começou a ter pesadelos, e as imagens da filha morta não saíam de sua cabeça. Hoje vive à base de calmantes e antidepressivos. Acha que a psicoterapia a ajuda a lidar com a dor da perda, ainda muito presente. "Mantive o quarto como ela deixou. Às vezes passo pela porta e tenho a impressão de vê-la deitada na cama, mas logo percebo que são apenas almofadas. Quem perde um filho não o enterra nunca."

 

[ESTÊVÃO GOMES | 42 anos | Belo Horizonte | TRANSTORNO BIPOLAR]

Nélio Rodrigues


O mineiro Estêvão Gomes sentiu os primeiros sintomas de transtorno mental em 1990 e sofreu com os diagnósticos incorretos. Num primeiro momento, achou-se que tinha depressão. Os remédios, no entanto, o deixavam falando compulsivamente, e ele chegou a ser internado como esquizofrênico. Em 1996, seu verdadeiro mal foi diagnosticado: transtorno bipolar. Durante ataques da doença, Estêvão, que vivia com um salário modesto, chegou a comprar um papagaio de 1 000 dólares com cartão de crédito e a se hospedar num hotel de luxo em São Paulo, como se fosse milionário. Hoje se trata com estabilizadores de humor, psicanálise e terapia cognitivo-comportamental. "Desde que comecei a fazer os tratamentos simultâneos, passei a levar uma vida quase normal." Atualmente, dá aulas particulares de inglês no município de Contagem.

 

[SABRINA FREITAS | 24 anos | São Paulo |
SÍNDROME DO PÂNICO
]

Raphael Falavigna


"O coração acelera, o corpo começa a suar frio, a garganta vai se fechando e você se desespera por pensar que a respiração vai parar por completo. É como se você fosse morrer." Assim, a paulistana Sabrina Freitas descreve as crises de pânico que a acometem desde os 12 anos de idade. Tratou-se na adolescência e teve uma melhora significativa. Em 2000, quando entrou na faculdade, as crises voltaram, dessa vez acompanhadas de transtorno bipolar – alternância de estados de euforia e depressão. Ela só conseguiu voltar a estudar quando passou a fazer tratamento combinado. De um lado, toma remédios estabilizadores de humor. De outro, faz terapia cognitivo-comportamental. "Através da terapia aprendi a entender que nada de mau ia me acontecer se eu saísse de casa. Tive de trabalhar muito na minha cabeça esse pensamento positivo."

 

[VANESSA ANASTÁCIO | 29 anos | São Paulo | DEPRESSÃO]

Raphael Falavigna


A paulistana Vanessa Anastácio descobriu que tinha depressão aos 23 anos, ao ler uma reportagem sobre o assunto. Identificou-se com os sintomas, foi a um médico e ouviu o diagnóstico. Os remédios não fizeram o efeito desejado. Tentou o suicídio duas vezes, uma com overdose de calmantes, outra cortando os pulsos no banheiro. Teve também distúrbios de memória – perdia-se nas ruas próximas a sua casa. Não queria fazer terapia, pois achava que era "coisa de gente louca". Um dia, incentivada por colegas de faculdade, decidiu experimentar. A terapia cognitivo-comportamental, associada aos medicamentos, fez com que ela melhorasse. Por causa do transtorno, Vanessa largou o emprego e divorciou-se. Está tentando reconstruir a vida. "Dou risada quando passo pelas ruas onde me perdia antes. Mas sei que a depressão é uma doença que adormece e pode voltar."

 

[CAIO VIEIRA | 18 anos | Belo Horizonte | DEPRESSÃO]

Nélio Rodrigues/1º Plano


O estudante mineiro Caio Vieira teve os primeiros sintomas de depressão aos 16 anos, quando começou a se cortar com estilete e caco de vidro. Preocupados, os pais o levaram a uma terapia baseada em técnicas alternativas, como florais de Bach e reiki. O tratamento foi ineficaz, e Caio o abandonou em pouco tempo. Ficou meses sem nenhum suporte terapêutico ou medicamentoso. Voltou a ter crises, que o obrigaram a largar a escola. Começou também a ter insônia e a evitar o convívio social. Finalmente foi diagnosticada a depressão, e ele passou a se tratar com uma psicóloga da linha comportamental. Foi ela quem o encaminhou a um psiquiatra, para fazer o tratamento combinado. Hoje ele tem uma sessão semanal de terapia e toma remédios – a dosagem foi aumentada há duas semanas, depois de uma crise. Devagar, Caio está retomando o convívio social. Ele atribui a melhora à combinação de tratamentos. "O psiquiatra me disse uma coisa certa: o remédio abre a porta e o psicólogo ajuda você a passar por ela."

 

A POLÊMICA DOS ANTIDEPRESSIVOS

Matt Miller: suicídio com menos de um mês de tratamento

Em julho de 1997, aos 13 anos, Matt Miller foi diagnosticado como portador de depressão. O estudante americano de Kansas City começou a se tratar com sertralina, um dos antidepressivos mais conhecidos. Com menos de um mês sob o efeito da droga, enforcou-se usando um cinto. O episódio causou comoção nos Estados Unidos e levantou suspeitas sobre a conveniência de receitar antidepressivos a crianças e adolescentes. Pesquisas posteriores demonstraram que o uso de determinadas substâncias realmente aumentava a incidência de pensamentos suicidas. Uma delas, patrocinada pelo Food and Drug Administration (FDA), órgão responsável pela liberação dos remédios nos Estados Unidos, mostrou que o risco de ter pensamentos suicidas entre jovens que tomaram Prozac foi 50% maior em relação a uma amostra de adolescentes tratados com placebo. Outra pesquisa, realizada pelo laboratório farmacêutico GlaxoSmithKline com o antidepressivo paroxetina, confirmou a tese. Não se sabe exatamente por que isso ocorre. "A idéia de que os antidepressivos atuam muito rápido contra a letargia da depressão, fornecendo energia para levar a cabo pensamentos suicidas, é verdadeira até certo ponto", avalia a médica Lee Fu I, supervisora do serviço de psiquiatria infantil da Universidade de São Paulo. "Em psiquiatria, no entanto, não se deve trabalhar com causas únicas." Outra hipótese é a do falso diagnóstico. Matt seria na verdade um portador de transtorno bipolar, a quem o antidepressivo teria sido receitado erroneamente.

Com reportagem de José Edward e Roberta Faria

 
 
 
 
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