Edição 1882 . 1° de dezembro de 2004

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Medicina
Agora com crianças

O governo americano patrocinará o
maior estudo sobre a saúde infantil.
O novo levantamento vem se somar
a grandes pesquisas que mudaram
os rumos da medicina


Anna Paula Buchalla

A partir de 2007, será realizado nos Estados Unidos o maior estudo sobre a saúde das crianças. Do nascimento aos 21 anos, 100.000 meninos e meninas terão o seu desenvolvimento físico e mental avaliado periodicamente. O objetivo é recolher o maior número de dados possível, para entender o que os faz suscetíveis a certas doenças – se é o ambiente em que vivem, a influência da família, o componente genético, os hábitos do dia-a-dia, ou a combinação de alguns ou de todos esses fatores. Da água que eles bebem e do ar que respiram ao alimento que comem, nada escapará à análise clínica e observacional. Os pesquisadores também querem detectar tendências a problemas na vida adulta. O estudo, coordenado pelo Instituto Nacional de Saúde americano, é o primeiro grande levantamento populacional a se debruçar sobre a saúde infantil. Nos dois maiores estudos em andamento – o Framingham Heart Study, cujos trabalhos começaram em 1948, e o Nurses' Health Study, que teve início em 1976 –, as crianças ficaram de fora. Da pequena cidade americana de Framingham saíram descobertas fundamentais sobre a origem de doenças cardiovasculares. O Nurses', por sua vez, trouxe informações preciosas para as mulheres, como a de que a terapia de reposição hormonal aumenta o risco de câncer de mama.

Desde meados do século XIX a medicina tenta entender como o ambiente pode estar ligado ao surgimento de determinadas doenças. Mas só 100 anos mais tarde, com o avanço da estatística e dos métodos de diagnóstico, foi possível lançar mão de estudos com milhares de participantes. Os primeiros resultados apareceram na década de 60, com a divulgação dos dados iniciais obtidos com o Framingham. Esses levantamentos são de extrema importância porque se propõem a medir algo imensurável a curto prazo, como a influência do estilo de vida e da genética. Para que seus resultados sejam confiáveis, é preciso contar com a adesão de participantes voluntários honestíssimos e desinteressados do ponto de vista material. Praticamente todos os moradores de Framingham, uma cidade-dormitório a 50 quilômetros de Boston, assumiram o compromisso de se submeter a repetidos testes ao longo da vida. E sem ganhar nada por isso.

A história da cardiologia pode ser dividida em antes e depois de Framingham. As observações feitas ao longo de mais de cinqüenta anos proporcionaram mais de 1.000 artigos científicos. Graças a essa população, conheceram-se os principais fatores de risco para derrames e infartos, o que representou uma revolução na medicina preventiva. Do estudo saíram ainda informações importantes sobre demência, osteoporose, artrite, diabetes e câncer. Framingham teve como ponto de partida o impressionante alastramento dos distúrbios cardiovasculares nos Estados Unidos verificado na década de 30. No fim dos anos 40, eles já eram a maior causa de morte por doença no país. A pesquisa foi idealizada justamente para entender o porquê desse crescimento acelerado. Num primeiro momento, ela compreendia 5.200 moradores da cidadezinha, com idade entre 30 e 60 anos. Em 1971, foram incluídas mais 5.124 pessoas, a segunda geração de participantes. A cada dois ou quatro anos, elas passam por extensos exames clínicos e laboratoriais. Agora, os pesquisadores já começam a avaliar a saúde de uma terceira geração de pesquisados.

Antes de Framingham, a maior parte dos cardiologistas acreditava que a aterosclerose fosse uma conseqüência inevitável do processo de envelhecimento e também tinha como certo que a pressão arterial aumentava com a idade, fazendo com que o coração dos mais velhos não conseguisse bombear sangue para as artérias. Ninguém havia estabelecido, até então, a relação entre os níveis altos de colesterol no sangue e os infartos. E, principalmente, não se sabia que apenas com a mudança de hábitos – como abandonar o cigarro, alimentar-se melhor e praticar exercícios físicos – era possível reverter ou retardar doenças. Atualmente, os pesquisadores de Framingham buscam nos genes as respostas para o metabolismo do colesterol. Aliás, hoje, é no campo da genética que se concentra a maior parte dos estudos de grandes populações. O pioneiro foi o Finnish Twin Cohort. Desde 1974, médicos finlandeses acompanham 20.000 pares de gêmeos, para avaliar o peso dos genes em doenças crônicas, como cânceres e distúrbios cardiovasculares.

Nesses levantamentos, a vida se apresenta como ela realmente é. Não há nenhum tipo de intervenção médica junto aos pesquisados: as análises baseiam-se na mais pura observação (são prospectivas, na linguagem científica). E a seleção dos participantes obedece a critérios meramente estatísticos, como distribuição por sexo e idade – o contrário do que ocorre nas pesquisas clínicas, entre elas as que testam novos remédios. "Nos estudos clínicos com esses fins, a seleção de voluntários é tão rigorosa que se acaba tendo uma amostra irreal da população", diz o professor João Massud Filho, do curso de medicina farmacêutica da Universidade Federal de São Paulo. Como se desenrolam durante um longo arco de tempo, os estudos de grandes populações vão incorporando novos objetivos. O Nurses' Health Study, por exemplo, foi inicialmente implementado apenas para investigar as conseqüências do uso de contraceptivos orais. Em 1980, com o reconhecimento de que a nutrição tinha um peso relevante na gênese de doenças crônicas, esse ponto entrou para os questionários anuais enviados às participantes. Com a popularização da terapia de reposição hormonal, o assunto também passou a ser abordado pelos pesquisadores. Em 2002, eles descobriram a relação entre a terapia e o câncer de mama. Com isso, a reposição hormonal passou a ser receitada de forma mais criteriosa.

 

A TRAGÉDIA DE TUSKEGEE

Um dos estudos populacionais mais desastrosos da história da medicina leva o nome de Tuskegee, centro de saúde onde foi realizado. Durante quarenta anos, de 1932 a 1972, o serviço de saúde pública dos Estados Unidos acompanhou a saúde de 600 homens negros – 399 com sífilis e 201 sem a doença (o grupo de controle). Eles viviam na cidade de Macon, no estado do Alabama. Até aqui nada de mais, não fosse o objetivo do Tuskegee saber como a sífilis evoluía sem tratamento. Em outras palavras, centenas de vidas foram sacrificadas para que os pesquisadores soubessem com exatidão como a bactéria destrói o corpo humano. O pior: não foi dito a nenhum dos participantes que eles tinham a doença. O que eles sabiam, apenas, é que eram portadores de uma doença do "sangue ruim". Como incentivo para participar do projeto, os voluntários recebiam acompanhamento médico periódico (inócuo, sem que eles soubessem), uma refeição no dia dos exames e pagamento das despesas com o funeral. Embora nos primeiros anos do estudo ainda não houvesse um tratamento específico para sífilis, os pesquisadores pecaram por omitir um diagnóstico conhecido e também o possível prognóstico para cada paciente. Mesmo com a definição de um tratamento-padrão para a doença, à base de penicilina, em 1947, os doentes não foram tratados. Todas as instituições de saúde dos Estados Unidos receberam uma lista com o nome dos participantes com sífilis, para evitar que qualquer um deles recebesse o remédio. Uma infâmia. Quando o estudo foi encerrado, em 1972, havia apenas 74 participantes vivos. O escândalo do caso Tuskegee viria a estourar com a publicação de uma reportagem no jornal The New York Times. Em 1997, o então presidente Bill Clinton fez um pedido de desculpas formal em nome do governo americano, pelo tratamento negado aos participantes. Quando Clinton pediu perdão, somente oito deles ainda viviam. Um dos sobreviventes, Herman Shaw, afirmou: "Fomos tratados injustamente como cobaias humanas e as feridas não podem ser desfeitas".

 

 

 


 
 
 
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