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Medicina Agora
com crianças O governo americano patrocinará
o maior estudo sobre a saúde infantil. O novo levantamento vem se
somar a grandes pesquisas que mudaram os rumos da medicina  Anna
Paula Buchalla
A partir de 2007, será realizado
nos Estados Unidos o maior estudo sobre a saúde das crianças. Do
nascimento aos 21 anos, 100.000 meninos e meninas terão
o seu desenvolvimento físico e mental avaliado periodicamente. O objetivo
é recolher o maior número de dados possível, para entender
o que os faz suscetíveis a certas doenças se é o ambiente
em que vivem, a influência da família, o componente genético,
os hábitos do dia-a-dia, ou a combinação de alguns ou de
todos esses fatores. Da água que eles bebem e do ar que respiram ao alimento
que comem, nada escapará à análise clínica e observacional.
Os pesquisadores também querem detectar tendências a problemas na
vida adulta. O estudo, coordenado pelo Instituto Nacional de Saúde americano,
é o primeiro grande levantamento populacional a se debruçar sobre
a saúde infantil. Nos dois maiores estudos em andamento o Framingham
Heart Study, cujos trabalhos começaram em 1948, e o Nurses' Health Study,
que teve início em 1976 , as crianças ficaram de fora. Da
pequena cidade americana de Framingham saíram descobertas fundamentais
sobre a origem de doenças cardiovasculares. O Nurses', por sua vez, trouxe
informações preciosas para as mulheres, como a de que a terapia
de reposição hormonal aumenta o risco de câncer de mama.
Desde
meados do século XIX a medicina tenta entender como o ambiente pode estar
ligado ao surgimento de determinadas doenças. Mas só 100 anos mais
tarde, com o avanço da estatística e dos métodos de diagnóstico,
foi possível lançar mão de estudos com milhares de participantes.
Os primeiros resultados apareceram na década de 60, com a divulgação
dos dados iniciais obtidos com o Framingham. Esses levantamentos são de
extrema importância porque se propõem a medir algo imensurável
a curto prazo, como a influência do estilo de vida e da genética.
Para que seus resultados sejam confiáveis, é preciso contar com
a adesão de participantes voluntários honestíssimos e desinteressados
do ponto de vista material. Praticamente todos os moradores de Framingham, uma
cidade-dormitório a 50 quilômetros de Boston, assumiram o compromisso
de se submeter a repetidos testes ao longo da vida. E sem ganhar nada por isso.
A história da cardiologia pode ser dividida
em antes e depois de Framingham. As observações feitas ao longo
de mais de cinqüenta anos proporcionaram mais de 1.000
artigos científicos. Graças a essa população, conheceram-se
os principais fatores de risco para derrames e infartos, o que representou uma
revolução na medicina preventiva. Do estudo saíram ainda
informações importantes sobre demência, osteoporose, artrite,
diabetes e câncer. Framingham teve como ponto de partida o impressionante
alastramento dos distúrbios cardiovasculares nos Estados Unidos verificado
na década de 30. No fim dos anos 40, eles já eram a maior causa
de morte por doença no país. A pesquisa foi idealizada justamente
para entender o porquê desse crescimento acelerado. Num primeiro momento,
ela compreendia 5.200 moradores da cidadezinha, com
idade entre 30 e 60 anos. Em 1971, foram incluídas mais 5.124
pessoas, a segunda geração de participantes. A cada dois ou quatro
anos, elas passam por extensos exames clínicos e laboratoriais. Agora,
os pesquisadores já começam a avaliar a saúde de uma terceira
geração de pesquisados. Antes de
Framingham, a maior parte dos cardiologistas acreditava que a aterosclerose fosse
uma conseqüência inevitável do processo de envelhecimento e
também tinha como certo que a pressão arterial aumentava com a idade,
fazendo com que o coração dos mais velhos não conseguisse
bombear sangue para as artérias. Ninguém havia estabelecido, até
então, a relação entre os níveis altos de colesterol
no sangue e os infartos. E, principalmente, não se sabia que apenas com
a mudança de hábitos como abandonar o cigarro, alimentar-se
melhor e praticar exercícios físicos era possível
reverter ou retardar doenças. Atualmente, os pesquisadores de Framingham
buscam nos genes as respostas para o metabolismo do colesterol. Aliás,
hoje, é no campo da genética que se concentra a maior parte dos
estudos de grandes populações. O pioneiro foi o Finnish Twin Cohort.
Desde 1974, médicos finlandeses acompanham 20.000
pares de gêmeos, para avaliar o peso dos genes em doenças crônicas,
como cânceres e distúrbios cardiovasculares.
Nesses levantamentos, a vida se apresenta como ela realmente é. Não
há nenhum tipo de intervenção médica junto aos pesquisados:
as análises baseiam-se na mais pura observação (são
prospectivas, na linguagem científica). E a seleção dos participantes
obedece a critérios meramente estatísticos, como distribuição
por sexo e idade o contrário do que ocorre nas pesquisas clínicas,
entre elas as que testam novos remédios. "Nos estudos clínicos com
esses fins, a seleção de voluntários é tão
rigorosa que se acaba tendo uma amostra irreal da população", diz
o professor João Massud Filho, do curso de medicina farmacêutica
da Universidade Federal de São Paulo. Como se desenrolam durante um longo
arco de tempo, os estudos de grandes populações vão incorporando
novos objetivos. O Nurses' Health Study, por exemplo, foi inicialmente implementado
apenas para investigar as conseqüências do uso de contraceptivos orais.
Em 1980, com o reconhecimento de que a nutrição tinha um peso relevante
na gênese de doenças crônicas, esse ponto entrou para os questionários
anuais enviados às participantes. Com a popularização da
terapia de reposição hormonal, o assunto também passou a
ser abordado pelos pesquisadores. Em 2002, eles descobriram a relação
entre a terapia e o câncer de mama. Com isso, a reposição
hormonal passou a ser receitada de forma mais criteriosa.
A TRAGÉDIA DE TUSKEGEE
Um dos estudos populacionais mais desastrosos da história da medicina leva
o nome de Tuskegee, centro de saúde onde foi realizado. Durante quarenta
anos, de 1932 a 1972, o serviço de saúde pública dos Estados
Unidos acompanhou a saúde de 600 homens negros 399 com sífilis
e 201 sem a doença (o grupo de controle). Eles viviam na cidade de Macon,
no estado do Alabama. Até aqui nada de mais, não fosse o objetivo
do Tuskegee saber como a sífilis evoluía sem tratamento. Em outras
palavras, centenas de vidas foram sacrificadas para que os pesquisadores soubessem
com exatidão como a bactéria destrói o corpo humano. O pior:
não foi dito a nenhum dos participantes que eles tinham a doença.
O que eles sabiam, apenas, é que eram portadores de uma doença do
"sangue ruim". Como incentivo para participar do projeto, os voluntários
recebiam acompanhamento médico periódico (inócuo, sem que
eles soubessem), uma refeição no dia dos exames e pagamento das
despesas com o funeral. Embora nos primeiros anos do estudo ainda não houvesse
um tratamento específico para sífilis, os pesquisadores pecaram
por omitir um diagnóstico conhecido e também o possível prognóstico
para cada paciente. Mesmo com a definição de um tratamento-padrão
para a doença, à base de penicilina, em 1947, os doentes não
foram tratados. Todas as instituições de saúde dos Estados
Unidos receberam uma lista com o nome dos participantes com sífilis, para
evitar que qualquer um deles recebesse o remédio. Uma infâmia. Quando
o estudo foi encerrado, em 1972, havia apenas 74 participantes vivos. O escândalo
do caso Tuskegee viria a estourar com a publicação de uma reportagem
no jornal The New York Times. Em 1997, o então presidente Bill Clinton
fez um pedido de desculpas formal em nome do governo americano, pelo tratamento
negado aos participantes. Quando Clinton pediu perdão, somente oito deles
ainda viviam. Um dos sobreviventes, Herman Shaw, afirmou: "Fomos tratados injustamente
como cobaias humanas e as feridas não podem ser desfeitas". | |
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