|
|
Religião
Guerra de culturas
A Europa enfrenta o desafio de conviver
com costumes medievais praticados por
imigrantes vindos de países islâmicos

Diogo Schelp
AP
 |
| Manifestação em Paris: a França tem a maior
população islâmica da Europa, com 5 milhões de pessoas |
Os europeus enfrentam um desafio: aprender
a lidar com a sociedade islâmica paralela que se estabeleceu
no Velho Continente, regida por regras próprias e valores
muitas vezes incompatíveis com a cultura ocidental. O pensamento
politicamente correto manda que as diferenças culturais e
religiosas sejam toleradas. Mas o que fazer quando os hábitos
de muitos imigrantes, levados às últimas conseqüências,
entram em choque com as leis e os princípios básicos
que a Europa levou milênios para desenvolver, como a liberdade
individual, a tolerância religiosa e os direitos das mulheres?
O discurso da tolerância fez com que os governos dos países
europeus fechassem os olhos para o que estava acontecendo de errado
nos guetos de imigrantes muçulmanos: assassinatos em nome
da honra, violência doméstica e líderes religiosos
pregando o ódio contra a civilização que os
acolheu.
Na semana passada, o chanceler alemão
Gerhard Schroeder alertou para a possibilidade de uma "guerra entre
culturas" na Europa. Ele exigiu que os muçulmanos adequassem
seus costumes às regras da sociedade alemã. O discurso
do governante alemão foi uma reação à
morte do cineasta Theo van Gogh, no início de novembro, na
Holanda. Van Gogh foi assassinado por um jovem muçulmano
ofendido com seu filme Submissão, que critica o tratamento
dado às mulheres islâmicas. Como conseqüência
desse crime, a Holanda viveu dias tensos nas últimas semanas,
com uma seqüência de ataques de retaliação
mútua a mesquitas e a igrejas protestantes. Há 11
milhões de muçulmanos vivendo na União Européia.
Uma parte deles especialmente a que veio das aldeias e das
periferias urbanas dos países islâmicos vive
sob um modelo de comunidade patriarcal que procura justificativas
religiosas para impor submissão às mulheres.
A honra da família é considerada
mais importante do que a vida das esposas e das filhas. Na Inglaterra,
estão sob investigação 117 casos de crimes
de honra, aqueles em que a própria família mata a
mulher suspeita de comportamento sexual indevido. São histórias
como a de Heshu Yones, uma garota de 16 anos que foi morta a facadas
pelo pai, um curdo, em 2002. O motivo? Dois dias antes ele havia
recebido uma carta anônima dizendo que a filha tinha um namorado.
Na Alemanha, 38% das mulheres turcas já apanharam do marido.
No total da população feminina, esse índice
é de 25%. Uma pesquisa realizada pelo governo alemão
neste ano revelou que uma em cada quatro imigrantes turcas só
conheceu o marido no dia do casamento e que uma em cada dez se casou
contra a vontade.
A memória do passado nazista fez com
que a crítica a outras culturas e religiões se tornasse
um tabu na Alemanha. Resultado: é a nação mais
tolerante com as intolerâncias dos imigrantes. Os alemães
aceitam até a poligamia, desde que o imigrante venha de um
país no qual ter mais de uma esposa seja prática oficializada.
A França tem uma postura mais agressiva. Recentemente proibiu
o uso de véu nas escolas públicas. Oficialmente, a
medida visa a evitar símbolos religiosos ostensivos numa
nação com separação entre Estado e Igreja.
Na prática, trata-se de estratégia para enfraquecer
um costume que, no entender do governo francês, simboliza
a submissão feminina nos guetos árabes.
Costumes que parecem bárbaros alimentam
os preconceitos de muitos europeus contra os muçulmanos.
"Os imigrantes e seus descendentes fecham-se em suas tradições,
porque se sentem excluídos da sociedade européia,
e os europeus fingem que não vêem as práticas
ilegais que ocorrem nas comunidades islâmicas", disse a VEJA
o cientista político holandês Edwin Bakker, do Instituto
de Relações Internacionais da Holanda, em Haia. "Essa
combinação explosiva só tem uma saída:
os europeus devem tentar entender melhor o Islã, e os muçulmanos
que não quiserem se adequar às regras da Europa devem
ir embora."
|