Edição 1882 . 1° de dezembro de 2004

Índice
Lya Luft
Millôr
Diogo Mainardi
Tales Alvarenga
André Petry
Roberto Pompeu de Toledo
Carta ao leitor
Entrevista
Cartas
Radar
Holofote
Contexto
Veja essa
Gente
Datas
VEJA Recomenda
Os livros mais vendidos
 
 

Religião
Guerra de culturas

A Europa enfrenta o desafio de conviver
com costumes medievais praticados por
imigrantes vindos de países islâmicos


Diogo Schelp

 
AP
Manifestação em Paris: a França tem a maior população islâmica da Europa, com 5 milhões de pessoas

EXCLUSIVO ON-LINE
Em Profundidade: Islamismo

Os europeus enfrentam um desafio: aprender a lidar com a sociedade islâmica paralela que se estabeleceu no Velho Continente, regida por regras próprias e valores muitas vezes incompatíveis com a cultura ocidental. O pensamento politicamente correto manda que as diferenças culturais e religiosas sejam toleradas. Mas o que fazer quando os hábitos de muitos imigrantes, levados às últimas conseqüências, entram em choque com as leis e os princípios básicos que a Europa levou milênios para desenvolver, como a liberdade individual, a tolerância religiosa e os direitos das mulheres? O discurso da tolerância fez com que os governos dos países europeus fechassem os olhos para o que estava acontecendo de errado nos guetos de imigrantes muçulmanos: assassinatos em nome da honra, violência doméstica e líderes religiosos pregando o ódio contra a civilização que os acolheu.

Na semana passada, o chanceler alemão Gerhard Schroeder alertou para a possibilidade de uma "guerra entre culturas" na Europa. Ele exigiu que os muçulmanos adequassem seus costumes às regras da sociedade alemã. O discurso do governante alemão foi uma reação à morte do cineasta Theo van Gogh, no início de novembro, na Holanda. Van Gogh foi assassinado por um jovem muçulmano ofendido com seu filme Submissão, que critica o tratamento dado às mulheres islâmicas. Como conseqüência desse crime, a Holanda viveu dias tensos nas últimas semanas, com uma seqüência de ataques de retaliação mútua a mesquitas e a igrejas protestantes. Há 11 milhões de muçulmanos vivendo na União Européia. Uma parte deles – especialmente a que veio das aldeias e das periferias urbanas dos países islâmicos – vive sob um modelo de comunidade patriarcal que procura justificativas religiosas para impor submissão às mulheres.

A honra da família é considerada mais importante do que a vida das esposas e das filhas. Na Inglaterra, estão sob investigação 117 casos de crimes de honra, aqueles em que a própria família mata a mulher suspeita de comportamento sexual indevido. São histórias como a de Heshu Yones, uma garota de 16 anos que foi morta a facadas pelo pai, um curdo, em 2002. O motivo? Dois dias antes ele havia recebido uma carta anônima dizendo que a filha tinha um namorado. Na Alemanha, 38% das mulheres turcas já apanharam do marido. No total da população feminina, esse índice é de 25%. Uma pesquisa realizada pelo governo alemão neste ano revelou que uma em cada quatro imigrantes turcas só conheceu o marido no dia do casamento e que uma em cada dez se casou contra a vontade.

A memória do passado nazista fez com que a crítica a outras culturas e religiões se tornasse um tabu na Alemanha. Resultado: é a nação mais tolerante com as intolerâncias dos imigrantes. Os alemães aceitam até a poligamia, desde que o imigrante venha de um país no qual ter mais de uma esposa seja prática oficializada. A França tem uma postura mais agressiva. Recentemente proibiu o uso de véu nas escolas públicas. Oficialmente, a medida visa a evitar símbolos religiosos ostensivos numa nação com separação entre Estado e Igreja. Na prática, trata-se de estratégia para enfraquecer um costume que, no entender do governo francês, simboliza a submissão feminina nos guetos árabes.

Costumes que parecem bárbaros alimentam os preconceitos de muitos europeus contra os muçulmanos. "Os imigrantes e seus descendentes fecham-se em suas tradições, porque se sentem excluídos da sociedade européia, e os europeus fingem que não vêem as práticas ilegais que ocorrem nas comunidades islâmicas", disse a VEJA o cientista político holandês Edwin Bakker, do Instituto de Relações Internacionais da Holanda, em Haia. "Essa combinação explosiva só tem uma saída: os europeus devem tentar entender melhor o Islã, e os muçulmanos que não quiserem se adequar às regras da Europa devem ir embora."

 
Foto AFP

 

 
 
 
 
topovoltar