Edição 1882 . 1° de dezembro de 2004

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Espírito Santo
Ousadia sem limite

Terrorismo urbano em Vitória. Guerra
entre quadrilhas no Rio. Onde isso vai parar?


Ronaldo França


Nestor Muller/AE
Soldados nas ruas de Vitória: ação emergencial para conter a onda de violência ordenada pelos traficantes

O Brasil desta primeira década do século XXI poderá ser lembrado no futuro por duas incômodas características: a violência urbana desmedida e a leniência com que se lida com o assunto. O país ocupa o quarto lugar no mundo em número de assassinatos. Entre os jovens de 15 a 24 anos, é o quinto colocado, segundo os dados mais recentes da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Esse é um indicador relevante. Não se pode pensar no destino de uma nação sem saber o que acontecerá com seus jovens. Na raiz desse problema está o tráfico de drogas. É uma atividade cuja enorme capacidade de recrutamento de crianças e cujo poderio bélico descomunal nos confrontos armados produzem vítimas em escala industrial justamente entre os mais novos. Para um país que pretende um futuro próspero, seria de esperar uma ação firme dos governantes. Em vez disso, o que se vê são cenas como as da semana passada, em que traficantes impuseram mais uma vez sua rotina de intimidação às autoridades e medo à população de duas capitais do Sudeste.

Marcelo Carnaval/Ag. O Globo
Rio de Janeiro: cidade em pânico


Em Vitória, no Espírito Santo, dez ônibus foram incendiados em apenas quatro dias. O governo viu-se obrigado a paralisar a rede de ensino público no período noturno, e as escolas privadas aderiram ao toque de recolher. A frota de ônibus que atende uma população de 1,4 milhão de pessoas na região metropolitana foi reduzida em 70%. O Exército, a pedido do governo estadual, teve de enviar 450 soldados para garantir a ordem nos principais pontos da cidade. O governador do estado, Paulo Hartung, disse a VEJA na quinta-feira que solicitará ao governo federal o envio da Força Nacional de Segurança Pública, uma espécie de força de paz que está sendo organizada pelo Ministério da Justiça. O objetivo do governador é garantir a segurança quando o Exército deixar as ruas. É uma atitude louvável, mas tardia. Seus antecessores ficaram inertes diante da questão e o crime organizado implantou representantes nos mais altos escalões do governo estadual. Criou-se uma bomba difícil de ser desarmada. No Rio de Janeiro, onde o crime parece ter fincado raízes mais fortes, vários bairros ficaram reféns da criminalidade na semana passada. No coração da Zona Sul carioca, houve uma nova batalha na guerra entre traficantes que se arrasta há oito meses, numa disputa pelo controle da venda de drogas na favela da Rocinha. Os bandidos lançaram até granadas contra os policiais.

Cada vez mais armados com o dinheiro da venda de drogas, os traficantes ampliaram seu poderio. O Brasil, pode-se afirmar, se tornou uma sociedade violenta sem que o governo desse a devida importância ao assunto. O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, tão cioso da estabilidade econômica, parece ter desprezado a velocidade galopante com que dispararam os índices de criminalidade. No Ministério da Fazenda, houve apenas um ministro em oito anos. No Ministério da Justiça, encarregado de zelar pela segurança no país, foram nove os ocupantes. Com a troca de governo, em 2003, pouca coisa mudou. De uma só canetada, foram reduzidos 36% dos cargos da Secretaria Nacional de Segurança Pública, uma máquina ainda em ajuste. Somente em outubro o Espírito Santo recebeu os recursos de 2004 provenientes do Fundo Nacional de Segurança Pública, verba destinada a financiar as ações de combate à violência. Não é mais possível haver tamanha morosidade. Está na hora de a sociedade brasileira, que já se mobilizou em conquistas históricas, dar um basta na escalada da violência.

 


Fonte: Mapa da Violência IV, da Unesco

 

 
 
 
 
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