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Espírito
Santo
Ousadia sem limite
Terrorismo urbano em Vitória. Guerra
entre quadrilhas no Rio. Onde isso vai parar?

Ronaldo França
Nestor Muller/AE
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| Soldados nas ruas de Vitória: ação
emergencial para conter a onda de violência ordenada pelos
traficantes |
O Brasil desta primeira década do século
XXI poderá ser lembrado no futuro por duas incômodas
características: a violência urbana desmedida e a leniência
com que se lida com o assunto. O país ocupa o quarto lugar
no mundo em número de assassinatos. Entre os jovens de 15
a 24 anos, é o quinto colocado, segundo os dados mais recentes
da Organização das Nações Unidas para
a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
Esse é um indicador relevante. Não se pode pensar
no destino de uma nação sem saber o que acontecerá
com seus jovens. Na raiz desse problema está o tráfico
de drogas. É uma atividade cuja enorme capacidade de recrutamento
de crianças e cujo poderio bélico descomunal nos confrontos
armados produzem vítimas em escala industrial justamente
entre os mais novos. Para um país que pretende um futuro
próspero, seria de esperar uma ação firme dos
governantes. Em vez disso, o que se vê são cenas como
as da semana passada, em que traficantes impuseram mais uma vez
sua rotina de intimidação às autoridades e
medo à população de duas capitais do Sudeste.
Marcelo Carnaval/Ag. O Globo
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| Rio de Janeiro: cidade em pânico |
Em Vitória, no Espírito Santo, dez ônibus foram
incendiados em apenas quatro dias. O governo viu-se obrigado a paralisar
a rede de ensino público no período noturno, e as
escolas privadas aderiram ao toque de recolher. A frota de ônibus
que atende uma população de 1,4 milhão de pessoas
na região metropolitana foi reduzida em 70%. O Exército,
a pedido do governo estadual, teve de enviar 450 soldados para garantir
a ordem nos principais pontos da cidade. O governador do estado,
Paulo Hartung, disse a VEJA na quinta-feira que solicitará
ao governo federal o envio da Força Nacional de Segurança
Pública, uma espécie de força de paz que está
sendo organizada pelo Ministério da Justiça. O objetivo
do governador é garantir a segurança quando o Exército
deixar as ruas. É uma atitude louvável, mas tardia.
Seus antecessores ficaram inertes diante da questão e o crime
organizado implantou representantes nos mais altos escalões
do governo estadual. Criou-se uma bomba difícil de ser desarmada.
No Rio de Janeiro, onde o crime parece ter fincado raízes
mais fortes, vários bairros ficaram reféns da criminalidade
na semana passada. No coração da Zona Sul carioca,
houve uma nova batalha na guerra entre traficantes que se arrasta
há oito meses, numa disputa pelo controle da venda de drogas
na favela da Rocinha. Os bandidos lançaram até granadas
contra os policiais.
Cada vez mais armados com o dinheiro da venda
de drogas, os traficantes ampliaram seu poderio. O Brasil, pode-se
afirmar, se tornou uma sociedade violenta sem que o governo desse
a devida importância ao assunto. O governo do presidente Fernando
Henrique Cardoso, tão cioso da estabilidade econômica,
parece ter desprezado a velocidade galopante com que dispararam
os índices de criminalidade. No Ministério da Fazenda,
houve apenas um ministro em oito anos. No Ministério da Justiça,
encarregado de zelar pela segurança no país, foram
nove os ocupantes. Com a troca de governo, em 2003, pouca coisa
mudou. De uma só canetada, foram reduzidos 36% dos cargos
da Secretaria Nacional de Segurança Pública, uma máquina
ainda em ajuste. Somente em outubro o Espírito Santo recebeu
os recursos de 2004 provenientes do Fundo Nacional de Segurança
Pública, verba destinada a financiar as ações
de combate à violência. Não é mais possível
haver tamanha morosidade. Está na hora de a sociedade brasileira,
que já se mobilizou em conquistas históricas, dar
um basta na escalada da violência.
Fonte: Mapa da Violência IV, da
Unesco
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