Edição 1882 . 1° de dezembro de 2004

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Você é otimista , Millôr?

Como não? Vivo no melhor dos tempos. Violência? Voltem pra Idade Média. O rei podia tudo, o barão podia tudo e a porrada comia solta. Era regra. Cortavam a mão do ladrão e o pinto do prevaricador. E só havia uma atividade; tomar a terra do outro barão, de passagem decapitando tudo que era camponês. E fingindo não ver os leprosos.

E o começo da era cristã? Ou vocês não viram Mel Gibson estraçalhando JC? E pouco mais pra trás era comum Nabucodonosor mandar redecorar as muralhas de suas fortalezas com a pele dos inimigos. As visitas a-do-ra-a-vam. E a sangueira das santas cruzadas? E a Inquisição, na qual o cara (Antônio José da Silva, o Judeu) era levado à morte só por escrever "céu da boca". Ah, bons tempos em que a gente podia ir tricotar na primeira fila da execução e jogar mais um graveto na pira em que John Huss era queimado, ele ainda agradecendo: "Sancta simplicitas!"

Mas não vamos esquecer o grande Ataturk, que modernizou a Turquia com seus "jovens turcos". Liquidou 1 milhão de armênios (um terço da população da Armênia), muito mais do que, proporcionalmente, morreram judeus nos campos de concentração nazistas. Falar em nazistas, o comunista do Stalin matou 10 ou 40 milhões de companheiros? Opiniões.

E nas nossas Américas, segundo os cálculos – como é que eles calculam? – não foram mortos pelo menos 100 milhões de nativos? No Haiti, não sobrou um nativo. A população de hoje é toda importada.

Pois encham a boca com o Império Romano, Alexandre, Grécia. Ah, Grécia. Citem um atleta da época com a elegância e eficiência de Ronaldinho Gaúcho. Da Grécia eu só conheço restos de mitologia e atletas sem braços. E fiquem com o "Período Elisabetano" (um grupo de exploradores sugando o sal do mundo), a Belle Époque (uma sociedadezinha afetada, que se vestia porcamente, e cujo único valor foi provocar a obra de Marcel Proust).

E fiquem com os tempos em que luditas de todas as inocências lutavam contra teares e máquinas a vapor. Porque iam tirar empregos. E iam mesmo. Revoluções perdidas felizmente, a humanidade avançando. Da média de vida de 41 anos há um século chegamos à de 80, hoje. No Brasil, a expectativa é só 67. Devido à eterna luta entre a "fome zero" e o "semi-árido".

Responda depressa: aonde é que o pessoal ia quando não tinha cinema? A música era coisa de superelite. CD, nem pensar. Dor? Agüenta, nego. E boa parte da humanidade era boi. Vivia naquilo que Marx chamou de "a idiotia da vida do campo".

Não diz nada a ninguém – nunca houve um tempo tão maravilhoso quanto o nosso. Benefícios e alegrias chegam a mais gente do que jamais chegaram. Na maior parte dos países, Brasil incluído, a televisão é universal. Há poucos meses, pela primeira vez na história, mais de metade da população da Terra – mais de 3 bilhões de pessoas –, ricos, pobres e até párias, assistiu, junta, às Olimpíadas de Atenas. Em 2001 já tinham visto também, fascinados, as duas torres do WTC vindo abaixo. Eta nóis, hein, mãe?

Pois é, paradoxalmente a violência é resultado da melhoria da vida humana. A automação, como temiam os luditas, provocou, e provoca, desemprego em massa. Mas, quando isso começou, eu vaticinei: "Calma, agora temos o socialismo".

Pois cada vez se torna menos essencial o trabalho humano primário. E, desempregadas as pessoas, estas – não apenas os "revolucionários" – saem às ruas, queimam pneus, põem a boca no mundo. Sabendo o que querem. O que querem é simples – comida, bebida, habitação, e algum trocado. Só existe uma saída, distribuir, dividir. Embora eu já tenha feito as contas: dividindo a riqueza do mundo pela miséria do mundo não dá um prato de farinha pra cada um. Mas vamos tentar. Ou esta pomba explode. Em vinte, cinqüenta anos, no máximo. Enquanto isso, relaxem e aproveitem.

Eu já estou nessa. Ligo o ar-refrigerado, acesso a internet, vejo um filme DVD no computador, tomo uma cerveja gelada, desligo o CD de um Mahler meio chato, puxo um Zeca Pagodinho pelo MP3, e ainda ouço, ao natural, lá longe, no alto do morro, uma mulher cantando, em tom passado: "Mamãe eu quero, mamãe eu quero...".

Mas gozem depressa. Stephen Hawking, astrofísico, um dos homens de ponta de nosso tempo, avisa no genial O Universo numa Casca de Noz (só entendi 10%): "Dentro de 600 anos, apenas 600 anos!, o mundo terá um ser humano encostado no ombro do outro. E haverá consumo de energia tão grande que a Terra ficará incandescente".

E, neste mundo de mecânica quântica, 10 dimensões, supergravidade, P-branas e
buracos negros, Lula proclama, entusiasmado:
"O Brasil vai a todo vapor"

 
 
 
 
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