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Você é otimista , Millôr?
Como não? Vivo no melhor dos tempos.
Violência? Voltem pra Idade Média. O rei podia tudo,
o barão podia tudo e a porrada comia solta. Era regra. Cortavam
a mão do ladrão e o pinto do prevaricador. E só
havia uma atividade; tomar a terra do outro barão, de passagem
decapitando tudo que era camponês. E fingindo não ver
os leprosos.
E o começo da era cristã? Ou
vocês não viram Mel Gibson estraçalhando JC?
E pouco mais pra trás era comum Nabucodonosor mandar redecorar
as muralhas de suas fortalezas com a pele dos inimigos. As visitas
a-do-ra-a-vam. E a sangueira das santas cruzadas? E a Inquisição,
na qual o cara (Antônio José da Silva, o Judeu) era
levado à morte só por escrever "céu da boca".
Ah, bons tempos em que a gente podia ir tricotar na primeira fila
da execução e jogar mais um graveto na pira em que
John Huss era queimado, ele ainda agradecendo: "Sancta simplicitas!"
Mas
não vamos esquecer o grande Ataturk, que modernizou a Turquia
com seus "jovens turcos". Liquidou 1 milhão de armênios
(um terço da população da Armênia), muito
mais do que, proporcionalmente, morreram judeus nos campos de concentração
nazistas. Falar em nazistas, o comunista do Stalin matou 10 ou 40
milhões de companheiros? Opiniões.
E nas nossas Américas, segundo os cálculos
como é que eles calculam? não foram
mortos pelo menos 100 milhões de nativos? No Haiti, não
sobrou um nativo. A população de hoje é toda
importada.
Pois encham a boca com o Império Romano,
Alexandre, Grécia. Ah, Grécia. Citem um atleta da
época com a elegância e eficiência de Ronaldinho
Gaúcho. Da Grécia eu só conheço restos
de mitologia e atletas sem braços. E fiquem com o "Período
Elisabetano" (um grupo de exploradores sugando o sal do mundo),
a Belle Époque (uma sociedadezinha afetada, que se
vestia porcamente, e cujo único valor foi provocar a obra
de Marcel Proust).
E fiquem com os tempos em que luditas de todas
as inocências lutavam contra teares e máquinas a vapor.
Porque iam tirar empregos. E iam mesmo. Revoluções
perdidas felizmente, a humanidade avançando. Da média
de vida de 41 anos há um século chegamos à
de 80, hoje. No Brasil, a expectativa é só 67. Devido
à eterna luta entre a "fome zero" e o "semi-árido".
Responda depressa: aonde é que o pessoal
ia quando não tinha cinema? A música era coisa de
superelite. CD, nem pensar. Dor? Agüenta, nego. E boa parte
da humanidade era boi. Vivia naquilo que Marx chamou de "a idiotia
da vida do campo".
Não diz nada a ninguém
nunca houve um tempo tão maravilhoso quanto o nosso. Benefícios
e alegrias chegam a mais gente do que jamais chegaram. Na maior
parte dos países, Brasil incluído, a televisão
é universal. Há poucos meses, pela primeira vez na
história, mais de metade da população da Terra
mais de 3 bilhões de pessoas , ricos, pobres
e até párias, assistiu, junta, às Olimpíadas
de Atenas. Em 2001 já tinham visto também, fascinados,
as duas torres do WTC vindo abaixo. Eta nóis, hein, mãe?
Pois é, paradoxalmente a violência
é resultado da melhoria da vida humana. A automação,
como temiam os luditas, provocou, e provoca, desemprego em massa.
Mas, quando isso começou, eu vaticinei: "Calma, agora temos
o socialismo".
Pois cada vez se torna menos essencial o trabalho
humano primário. E, desempregadas as pessoas, estas
não apenas os "revolucionários" saem às
ruas, queimam pneus, põem a boca no mundo. Sabendo o que
querem. O que querem é simples comida, bebida, habitação,
e algum trocado. Só existe uma saída, distribuir,
dividir. Embora eu já tenha feito as contas: dividindo a
riqueza do mundo pela miséria do mundo não dá
um prato de farinha pra cada um. Mas vamos tentar. Ou esta pomba
explode. Em vinte, cinqüenta anos, no máximo. Enquanto
isso, relaxem e aproveitem.
Eu já estou nessa. Ligo o ar-refrigerado,
acesso a internet, vejo um filme DVD no computador, tomo uma cerveja
gelada, desligo o CD de um Mahler meio chato, puxo um Zeca Pagodinho
pelo MP3, e ainda ouço, ao natural, lá longe, no alto
do morro, uma mulher cantando, em tom passado: "Mamãe eu
quero, mamãe eu quero...".
Mas gozem depressa. Stephen Hawking, astrofísico,
um dos homens de ponta de nosso tempo, avisa no genial O Universo
numa Casca de Noz (só entendi 10%): "Dentro de 600 anos,
apenas 600 anos!, o mundo terá um ser humano encostado no
ombro do outro. E haverá consumo de energia tão grande
que a Terra ficará incandescente".
E, neste mundo de mecânica quântica,
10 dimensões, supergravidade, P-branas e
buracos negros, Lula proclama, entusiasmado:
"O Brasil vai a todo vapor"
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