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Diogo
Mainardi Lessa
é com "b" de besteira "No dia em
que foi demitido do BNDES, Carlos Lessa
declarou orgulhosamente que a comida a quilo nos elevou à condição
de 'povo que derrotou o McDonald's'. Não sei de onde Lessa tirou
a idéia de que os restaurantes a quilo são uma genial invenção
brasileira. Em toda a nossa história, jamais conseguimos inventar algo"
O brasileiro com "b" maiúsculo é
aquele que come em restaurante a quilo. Quem estabeleceu a relação
entre sentimento patriótico e comida a quilo foi o economista Carlos Lessa,
em sua maior contribuição teórica à história
do pensamento nacional. No dia em que foi demitido do BNDES, Lessa enrolou-se
na bandeira verde-amarela e, num discurso emocionado, enalteceu a brasilidade,
declarando orgulhosamente que a comida a quilo nos elevou à condição
de "povo que derrotou o McDonald's". O mesmo conceito já havia sido defendido
por ele, de maneira mais detalhada, no livro O Rio de Todos os Brasis,
publicado quatro anos atrás. A comida a quilo, segundo Lessa, representa
uma poderosa trincheira contra "o Império estadunidense e seus corifeus
locais", porque, ao misturar arroz, feijão, pastel de carne, espaguete
e sushi num único prato, o brasileiro exprimia seu caráter antropofágico,
sempre propenso a mesclar. Não sei de onde
Lessa tirou a idéia de que os restaurantes a quilo são uma genial
invenção brasileira. De um fato podemos estar certos: em toda a
nossa história, jamais conseguimos inventar algo. Muito menos algo genial.
As metrópoles do Império estadunidense estão cheias de restaurantes
a quilo, iguais aos nossos, onde telefonistas e chefes de almoxarifado fazem combinações
repugnantes de arroz marroquino, feijão mexicano, pastel de carne indiano,
espaguete e sushi. A seguir, pesam suas marmitas de plástico e pagam no
caixa, exatamente como aqui. Também não sei de onde Lessa tirou
a idéia de que derrotamos o McDonald's. A rede de lanchonetes fatura cerca
de 2 bilhões de reais por ano no país. O Brasil é o oitavo
maior faturamento da empresa no mundo. Para quem foi derrotado, até que
não é tão ruim assim. Lessa,
em sua despedida do BNDES, definiu-se como neonacionalista e neopopulista. Afirmou
acreditar na potencialidade do "povão brasileiro", que ouve música
funk e come sanduíche x-tudo. Por outro lado, condenou a elite que usa
anglicismos como "deletar" e "printar", e que está preparando manobras
astuciosas para enganar o presidente Lula e garantir "um padrão de vida
de Primeiro Mundo com mão-de-obra barata de Terceiro Mundo". É a
velha cretinice propagada por todos os nossos ideólogos desenvolvimentistas.
De acordo com eles, a elite sempre copiou os modelos de consumo estrangeiros,
naquilo que Celso Furtado chamou de mimetismo cultural. Esse mimetismo cultural
levaria os mais ricos a oprimir os mais pobres a fim de manter seus luxos e privilégios.
A criminalização da elite arruinou o Brasil. Legitimou a ocupação
da economia por parte de governos autoritários. O Estado passou a determinar
quem podia continuar ganhando dinheiro e quem não podia. Ou seja: quem
podia permanecer na elite e quem não podia. Se a elite quisesse ter acesso
a crédito, como o do BNDES, tinha de se subordinar aos caprichos do poder
público. O que só gerou corrupção e desperdício.
O brasileiro com "b" maiúsculo, portanto,
não é o que come em restaurante a quilo, mas o que fala "deletar",
mora na Barra da Tijuca e anda de SUV blindado. |