Edição 1882 . 1° de dezembro de 2004

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Diogo Mainardi
Lessa é com "b"
de besteira

"No dia em que foi demitido do BNDES,
Carlos Lessa declarou orgulhosamente que
a comida a quilo nos elevou à condição de
'povo que derrotou o McDonald's'. Não sei de
onde Lessa tirou a idéia de que os restaurantes
a quilo são uma genial invenção brasileira. Em toda
a nossa história, jamais conseguimos inventar algo"

O brasileiro com "b" maiúsculo é aquele que come em restaurante a quilo. Quem estabeleceu a relação entre sentimento patriótico e comida a quilo foi o economista Carlos Lessa, em sua maior contribuição teórica à história do pensamento nacional. No dia em que foi demitido do BNDES, Lessa enrolou-se na bandeira verde-amarela e, num discurso emocionado, enalteceu a brasilidade, declarando orgulhosamente que a comida a quilo nos elevou à condição de "povo que derrotou o McDonald's". O mesmo conceito já havia sido defendido por ele, de maneira mais detalhada, no livro O Rio de Todos os Brasis, publicado quatro anos atrás. A comida a quilo, segundo Lessa, representa uma poderosa trincheira contra "o Império estadunidense e seus corifeus locais", porque, ao misturar arroz, feijão, pastel de carne, espaguete e sushi num único prato, o brasileiro exprimia seu caráter antropofágico, sempre propenso a mesclar.

Não sei de onde Lessa tirou a idéia de que os restaurantes a quilo são uma genial invenção brasileira. De um fato podemos estar certos: em toda a nossa história, jamais conseguimos inventar algo. Muito menos algo genial. As metrópoles do Império estadunidense estão cheias de restaurantes a quilo, iguais aos nossos, onde telefonistas e chefes de almoxarifado fazem combinações repugnantes de arroz marroquino, feijão mexicano, pastel de carne indiano, espaguete e sushi. A seguir, pesam suas marmitas de plástico e pagam no caixa, exatamente como aqui. Também não sei de onde Lessa tirou a idéia de que derrotamos o McDonald's. A rede de lanchonetes fatura cerca de 2 bilhões de reais por ano no país. O Brasil é o oitavo maior faturamento da empresa no mundo. Para quem foi derrotado, até que não é tão ruim assim.

Lessa, em sua despedida do BNDES, definiu-se como neonacionalista e neopopulista. Afirmou acreditar na potencialidade do "povão brasileiro", que ouve música funk e come sanduíche x-tudo. Por outro lado, condenou a elite que usa anglicismos como "deletar" e "printar", e que está preparando manobras astuciosas para enganar o presidente Lula e garantir "um padrão de vida de Primeiro Mundo com mão-de-obra barata de Terceiro Mundo". É a velha cretinice propagada por todos os nossos ideólogos desenvolvimentistas. De acordo com eles, a elite sempre copiou os modelos de consumo estrangeiros, naquilo que Celso Furtado chamou de mimetismo cultural. Esse mimetismo cultural levaria os mais ricos a oprimir os mais pobres a fim de manter seus luxos e privilégios. A criminalização da elite arruinou o Brasil. Legitimou a ocupação da economia por parte de governos autoritários. O Estado passou a determinar quem podia continuar ganhando dinheiro e quem não podia. Ou seja: quem podia permanecer na elite e quem não podia. Se a elite quisesse ter acesso a crédito, como o do BNDES, tinha de se subordinar aos caprichos do poder público. O que só gerou corrupção e desperdício.

O brasileiro com "b" maiúsculo, portanto, não é o que come em restaurante a quilo, mas o que fala "deletar", mora na Barra da Tijuca e anda de SUV blindado.

 
 
 
 
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