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Entrevista: Irshad Manji
A reinvenção do Islã
A escritora muçulmana diz que é
preciso ler o Corão com olhar crítico
e parar de segui-lo ao pé da letra

Tania Menai, de Nova York
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Divulgação/TV Ontario

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"Acredito
que é possível seguir a ortodoxia do Islă e, ao mesmo
tempo, ser tolerante com o mundo moderno" |
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A canadense Irshad Manji, 36 anos, é
muçulmana, feminista, jornalista e homossexual. Âncora
do programa Big Ideas (Grandes Idéias), exibido pela
TV Ontario, ela entrevista personagens do mundo intelectual. Antes
disso, apresentou durante quatro anos um premiado programa sobre
a vida gay. Irshad era pequena quando sua família fugiu da
Uganda do ditador Idi Amin, em 1972. Ela cresceu em Vancouver, onde,
vestindo véu, freqüentava a madraçal, escola
islâmica, todos os sábados. Dos ensinamentos, recorda-se
de dois: as mulheres são inferiores aos homens e os judeus
devem ser odiados. Aos 14 anos, foi expulsa por seu professor, pois
"questionava demais". Durante vinte anos, ela estudou o Corão
sozinha em busca de respostas. Sua imersão resultou no polêmico
livro The Trouble with Islam (Minha Briga com o Islã,
no título da edição brasileira que chega às
livrarias nesta semana). Por causa do livro, no qual questiona a
religião de dentro para fora, ela foi ameaçada de
morte. Irshad recebeu VEJA para a seguinte entrevista na casa de
amigos (aliás, judeus), em Nova York.
Veja Qual é, afinal,
sua briga com o Islã?
Irshad É contra a maneira como a religião
é praticada atualmente, com base na interpretação
literal do Corão. Isso faz com que os muçulmanos
vivam sob uma lei marcial, sem liberdade para pensar ou discordar.
Trata-se de um problema que surgiu há séculos, muito
antes da colonização européia ou da criação
de Israel, e está cada vez pior. Nos primórdios da
religião, o Islã adotou a tradição do
pensamento crítico, chamado ijtihad. O espírito
do ijtihad estimulou um clima de criatividade e de curiosidade
que permitia à civilização muçulmana
liderar o mundo no aspecto da inovação. Na Espanha
islâmica, acadêmicos instigavam os estudantes a ler
o Corão com olhar crítico, mesmo que isso contrariasse
a opinião do clero. Se essa tradição já
existiu no Islã, temos apenas de redescobri-la.
Veja Quando os muçulmanos
passaram a interpretar o Corão de forma literal?
Irshad No fim do século XI, os portões
do ijtihad foram fechados em decorrência de disputas
internas no império muçulmano. As 135 escolas de pensamento
independente que existiam ficaram reduzidas a quatro, todas conservadoras.
Isso levou à leitura inflexível do Corão.
Os acadêmicos foram proibidos de rejeitar ou contestar
as opiniões legais, as chamadas fatwas. O castigo
para quem o fizesse era a morte. No milênio seguinte, os acadêmicos
islâmicos passaram apenas a imitar uns aos outros, incluindo
seus preconceitos. Embora esses problemas sejam antigos, sua gravidade
ficou latente apenas nos últimos anos. Com a queda do Muro
de Berlim e o fim da Guerra Fria, o mundo tornou-se unipolar, dominado
por uma superpotência, os Estados Unidos. Os radicais islâmicos
se autoproclamaram os únicos capazes de desafiar os valores
de pluralismo, consumismo e materialismo que a cultura americana
representa. Espanta que muitos não-muçulmanos concordem
com eles.
Veja Os Estados Unidos demoraram
para levar a sério o fundamentalismo islâmico?
Irshad Os Estados Unidos só se deram conta
desse problema no mundo muçulmano depois dos atentados de
Nova York e Washington. Um livro como o meu não poderia ter
sido publicado antes de 11 de setembro de 2001. Não que os
assuntos nele tratados não fossem relevantes, mas porque
o Ocidente não estava prestando atenção. Isso
é trágico por sugerir que nós, seres humanos,
com toda a nossa tecnologia, inteligência e desejo de fazer
alguma diferença, ainda somos intelectualmente letárgicos.
É preciso passar por uma crise dessas para constatar que
precisamos ficar atentos o tempo todo. Caso contrário, o
que acontecer em outra parte do mundo se voltará contra nós.
Veja Qual a reação
dos muçulmanos que discordam de suas idéias?
Irshad É comum me acusarem de ser uma "judia
camuflada" ou de "agente do Mossad", o serviço secreto israelense.
Também me chamam de "muçulmana ismaili", expressão
que se refere a um setor liberal do islamismo composto de pessoas
com educação de alto nível, empreendedoras
e ligadas à filantropia. Por causa dessas qualidades, esse
grupo é chamado de "judeus do mundo muçulmano". É
um grande elogio, mas, obviamente, não estão me elogiando.
Recebo muitas ameaças de morte por e-mail e, às vezes,
pessoalmente. Certa vez, uma amiga que me acompanhava num aeroporto
foi abordada por um árabe. Ele disse que ela tinha mais sorte
do que eu. Com a mão, imitou o gesto de puxar o gatilho de
uma arma em minha direção. E foi embora. Por outro
lado, desde o lançamento do livro tenho recebido apoio de
muçulmanos do mundo todo, principalmente de jovens e mulheres.
Mas é um apoio secreto: eles não podem verbalizar
publicamente suas opiniões porque temem represálias.
Para chamar atenção para o assunto, resolvi não
viajar mais com guarda-costas para fazer palestras, a não
ser que a polícia local insista. Se acredito na possibilidade
de seguir a ortodoxia da religião islâmica e, ao mesmo
tempo, ser tolerante com o mundo moderno, não posso carregar
um leão-de-chácara comigo. Seria hipocrisia da minha
parte.
Veja O Canadá é
um país seguro e, mesmo assim, a senhora precisa de guarda-costas?
Irshad Sim, mas uso esporadicamente. Primeiro, porque
custa caro. O Estado não paga por ele, nem a editora do livro
sou eu quem pago. Nós, aqueles com coragem de levantar
assuntos polêmicos e pregar a moderação, temos
de encarar os seguidores da Jihad nos olhos e dizer que nos
recusamos a viver com medo. Não vou viver com paranóia,
mas também não quero ser uma vítima inocente.
Temo apenas a morte prematura, que cortaria uma vida cheia de propósitos.
Veja Seria possível
escrever este livro se a senhora estivesse vivendo num país
muçulmano?
Irshad Mil vezes não. Essa é uma
das razões pela qual agradeço a Alá todas as
manhãs pela liberdade que tenho nesta parte do mundo. Sou
uma refugiada que veio parar num país onde posso ser uma
muçulmana engajada e explorar todo o meu potencial. Quantas
muçulmanas têm esse privilégio? Quero desafiar
todos os muçulmanos que vivem no Ocidente a usufruir essa
liberdade preciosa.
Veja O que esses muçulmanos
podem fazer?
Irshad Eles precisam ter a segurança de que
podem ter fé e, ao mesmo tempo, idéias próprias.
Por isso, estou criando um instituto para estimular o pensamento
islâmico independente. A idéia é formar um centro
de liderança para educar jovens muçulmanos sobre a
arte de debater, sobre a Era de Ouro do Islã, quando judeus,
cristãos e muçulmanos conviviam em harmonia. Quero
trazer acadêmicos de outras religiões para conversar
com esses jovens. Depois, devolveríamos esses jovens para
suas comunidades, para que eles pudessem dar início a um
processo de abertura no Islã dentro da realidade em que cada
um deles vive. Ninguém é capaz de fazer isso sozinho.
Quando um jovem muçulmano me questiona sobre o próximo
passo, eu devolvo a pergunta. Digo que cada um é o seu próprio
líder.
Veja Como seria possível
melhorar a situação das mulheres no mundo muçulmano?
Irshad O melhor caminho é a educação.
Quando se educa um menino, educa-se apenas aquele menino. Quando
se educa uma menina, educa-se a família inteira. Não
quero parecer romântica, mas quando as mulheres têm
permissão para aprender tornam-se capazes de interpretar
as ambigüidades do Corão sobre os direitos delas.
Assim, podem dispensar os conselhos dos mulás, que, aliás,
nunca mencionam direito algum. A participação feminina
é vital para tirar o Islã do atoleiro em que ele se
encontra.
Veja O Corão
condena as mulheres à posição submissa ou isso
é um tema aberto a interpretações?
Irshad Diferentemente da Bíblia, o Corão
não diz que Adão foi criado antes de Eva. Portanto,
não há base para alegar a superioridade masculina.
Na verdade, o Corão manda honrar a figura da mãe.
O problema é que apenas algumas linhas adiante dá
uma guinada com a afirmação de que os homens foram
criados superiores às mulheres. Impressionam as interpretações
de uma determinada passagem, na qual se lê: "As mulheres são
seus campos. Vá a elas e faça o que quiser". Alguns
acadêmicos vêem aí uma comparação
positiva, visto que os campos precisam ser cultivados. Ou seja,
precisam do esperma masculino para se desenvolver em algo vibrante
e robusto, e também de amor. Mas isso só diz respeito
ao campo. E quanto ao "faça o que quiser"? Não será
um modo de estabelecer um poder desproporcional? É curioso
que são exatamente as passagens negativas existentes no Corão
que influenciam as leis no mundo muçulmano.
Veja Muitos muçulmanos
acham que a senhora não deve ser levada a sério por
ser homossexual. Como a senhora lida com essa questão?
Irshad O Corão é ambíguo,
e quem quiser segui-lo à risca terá de escolher a
qual passagem dar ênfase. É verdade que alguns trechos
corânicos condenam o homossexualismo. Ao mesmo tempo, o livro
sagrado diz que tudo o que Alá criou é excelente
e nada do que Ele criou foi em vão. Se devemos acreditar
no Corão, como os muçulmanos podem conciliar
esses ensinamentos com a condenação ao homossexualismo?
Posso estar errada, mas pergunto aos meus críticos: como
eles sabem que estão certos? Não estou pedindo que
aceitem ou aprovem minha orientação sexual. Foi Deus
quem me criou. Apenas Ele irá me aprovar, ou não.
Peço, somente, que haja espaço para debater esses
assuntos.
Veja Como o mundo árabe
vê os Estados Unidos?
Irshad É uma relação de amor
e ódio. Políticos árabes cometem falcatruas
para enriquecer e mandar seus filhos para universidades americanas.
São os mesmos que gritam "Abaixo os Estados Unidos". No íntimo,
devem acrescentar "mas só depois que meu filho se formar".
Em geral, os árabes não consideram os americanos responsáveis
por seus problemas. Se há decepção é
porque julgam insuficiente a interferência dos Estados Unidos
na região. Muitos governos americanos deixaram de apoiar
os movimentos pelos direitos humanos no mundo árabe. Reside
aí a origem desse ressentimento. Se o presidente George W.
Bush fala em democratizar o Iraque, por que não faz o mesmo
com relação ao Irã e ao Egito?
Veja O que a levou a visitar
Israel?
Irshad Para reportar sobre qualquer conflito,
é preciso estar lá, ouvir as pessoas. Escutei de vários
árabes israelenses, secretamente, que a vida deles é
melhor em Israel do que seria em qualquer país árabe.
Eles dispõem de um sistema judiciário independente,
têm direito de votar e são representados por cinco
partidos políticos, o que é muito mais do que em qualquer
outra parte do Oriente Médio. Por fim, têm oportunidades
de trabalho e de estudo. Sei que Israel ocupa indevidamente territórios
palestinos e isso tem de acabar. Existe, contudo, algo pior: a ocupação
ideológica dos palestinos, pelos seus líderes. Por
que o texto do acordo de Oslo, de 1993, entre Israel e os palestinos
nunca foi traduzido para o árabe? Isso permitiria que pessoas
comuns o lessem e decidissem por si. Acredito na democracia para
os palestinos, mas isso não vai acontecer até que
as duas ocupações acabem.
Veja Por que os palestinos
aceitam essa situação?
Irshad Eles têm medo. Não é desculpa,
apenas a realidade. Quando estive em Ramallah, na Cisjordânia,
procurei o escritor Raja Shehadeh. Ele escreveu um livro que me
impressionou, no qual critica o sistema tribal que marca as relações
entre os palestinos. O encontro, na presença de outros ativistas
palestinos, foi uma decepção. Shehadeh simplesmente
se calou, e ainda mudou o discurso disse que Israel era o
opressor e os palestinos, os oprimidos. Provavelmente, ele percebeu
que colocaria sua vida em risco ao dizer o que pensa. E ele é
um advogado que criou uma organização de direitos
humanos. Imagine o que acontece com os pobres.
Veja A senhora costuma dizer
que o Islã precisa se livrar da herança árabe.
Por quê?
Irshad Os árabes representam apenas 13% dos
muçulmanos, mas o peso de seus costumes é enorme no
islamismo. É preciso separar o Islã dos conceitos
tribais que são tradicionais entre os árabes. O profeta
Maomé levou o Islã para o mundo árabe justamente
para que ele aprendesse a fazer a paz. A intenção
era unificar as tribos árabes, que brigavam entre si. Um
psiquiatra na Faixa de Gaza disse-me que, em vez de abafar a parte
negativa da cultura árabe, o Islã acabou estimulando-a.
Em janeiro, o Hamas tomou uma decisão "progressista": permitiu
que mulheres se candidatassem a ataques suicidas. Contudo, só
aquelas que desonraram sua família. Ou seja, as que casaram
fora de sua fé, que foram estupradas ou que traíram
o marido. A morte, segundo o Hamas, as salvaria.
Veja Seu livro está
sendo traduzido para o árabe. Alguma editora se dispôs
a publicá-lo?
Irshad Não, nenhuma. Mas jovens muçulmanos
me deram a idéia de publicá-lo na íntegra,
em árabe, no meu website. Estará também disponível
em urdu, a língua do Paquistão. Assim, muito mais
gente terá acesso, com privacidade e sem medo.
Veja Osama bin Laden representa
o Islã?
Irshad Não, ao contrário. Líderes
fundamentalistas como Osama bin Laden não têm a importância
religiosa que lhes é atribuída. Eles usam o Islã
apenas para alcançar o poder. Seu regime dos sonhos é
baseado no nazismo, não tem nada a ver com religião.
Muitos muçulmanos estão cansados com o que está
acontecendo com sua fé. Se alguém me perguntasse há
alguns anos quanto de rancor antiocidental existe entre os muçulmanos,
eu teria dito 80%. Hoje, eu diria 50%. Algo já mudou, e para
melhor. O apoio que estou recebendo seria impensável no passado.
O desafio será transformar essa sede por mudanças
em um fenômeno visível. E isso significa dar à
próxima geração de muçulmanos poder
para transcender esse medo de violência e de marginalização.
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