|
|
André
Petry
Cobertos de hipocrisia
"Menores de idade (até os pobres
e descalços)
têm a liberdade de andar pelas
ruas e calçadas
da cidade, no pleno gozo do elementar direito
constitucional de ir e vir"
O que certas autoridades e certos comerciantes
do Rio de Janeiro gostariam de dizer em público é
o seguinte: queremos que a polícia prenda todos os pobres,
livrando as áreas turísticas da cidade desses miseráveis
que, volta e meia, assaltam e até matam turistas estrangeiros,
denunciando nosso fracasso em garantir segurança pública
e prejudicando nossos negócios. Mas, é claro, ninguém
pode dizer isso. Então, apela-se para a sutileza da hipocrisia.
A primeira tacada aconteceu com o lançamento da operação
Turismo Seguro, promovida pela Polícia Civil do Rio de Janeiro.
Os policiais se encarregavam de retirar das ruas crianças
e adolescentes menores de idade, assim livrando os turistas das
ameaças de trombadinhas. Por incrível que pareça,
a tal operação, apesar de ser flagrantemente ilegal,
durou quase dez dias. Só agora foi proibida pela Justiça
sob o argumento cristalino e irrefutável de que menores de
idade (até os pobres e descalços) têm a liberdade
de andar pelas ruas e calçadas da cidade, no pleno gozo do
elementar direito constitucional de ir e vir.
Em seguida, veio a segunda tacada da hipocrisia.
Falou-se que a liberdade concedida aos menores de idade como
a de andar livremente pelas ruas à noite era uma concessão
excessiva e equivocada do Estatuto da Criança e do Adolescente,
o famoso ECA. Excessiva e equivocada porque, a pretexto de dar direitos
e liberdades aos menores, o ECA teria acabado por promover-lhes
a desproteção como a de andar desprotegidamente
pelas ruas à noite. Nessa linha de raciocínio, portanto,
seria preciso mudar o ECA, restringir as liberdades dos menores
e, enfim, criar-lhes um ambiente mais seguro e protegido. Talvez
isso tudo seja realmente necessário, talvez o ECA tenha errado
em alguns aspectos, talvez os jovens não estejam suficientemente
protegidos, mas tal discussão esconde uma camada de hipocrisia
não é a proteção de crianças
e adolescentes menores de idade, e quase sempre pobres, que está
em pauta para as autoridades e os comerciantes do Rio de Janeiro.
O que realmente lhes interessa são os turistas e seus dólares,
que fluem tanto mais quanto menos trombadinhas andarem pelas ruas
da cidade.
É absolutamente legítimo que
os donos de hotéis, restaurantes, bares, lojas do Rio de
Janeiro queiram segurança para deslanchar seus negócios,
criar empregos e ganhar dinheiro o que, de resto, beneficia
a própria cidade e seus pobres. O problema está no
disfarce desorientador: fazendo de conta que se está preocupado
com os menores, nunca se chegará a uma solução
satisfatória para ambas as coisas. Nem para o dilema dos
menores, e o rastro de violência que patrocinam, nem para
o dilema dos comerciantes. Mesmo porque um e outro requerem abordagens
distintas. Sacar jovens das ruas, numa operação policial,
pode até servir temporariamente à segurança
do turismo, mas nem de longe contempla a raiz do problema. E, antes
de jogar pedras no ECA, é bom refletir sobre um aspecto
o de uma sociedade que se tornou incapaz de garantir direitos amplos
e plenos a seus jovens. É um fracasso. E cobri-lo de hipocrisia
não ajuda nada. Apenas piora.
|