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Ponto
de vista: Lya Luft
Ilusões, a casa não é
sua
"A gente brinca de eleições,
sem tempo para
coisas menos importantes. Vamos na onda.
Entrem, ilusões, sintam-se em casa"
Um jornalista me descreve como
"otimista sem ilusões": achei a definição genial.
Sem nenhum otimismo, deveríamos nos matar. Por outro lado,
ilusões exageradas são perigosas. Nós, aqui
e agora, devemos deixá-las de lado e enfrentar a responsabilidade
de nossa escolha fundamental com relação ao país,
ao estado e a nós mesmos. Para que não sobrevenham
tempos piores, pois estes já são duros. Não
recebemos explicações convincentes para tudo o que
observamos e nos constrange, fatos que mereceriam um momento de
reflexão drástico e profundo. A gente brinca de eleições,
sem tempo para coisas menos importantes. Vamos na onda. Entrem,
ilusões, sintam-se em casa, dizemos.
Logo as promessas começarão
a desabar do modo como prevêem os que permaneceram lúcidos.
As bondades que jorram de bolsas abertas (as nossas, indiretamente)
ou de fontes enigmáticas começarão a cobrar
juros diabólicos: nós, criaturas comuns deste país,
pagaremos a conta.
Ilustração Atômica
Studio
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Nada tenho de pessoal contra candidato algum, e nada do que escrevo
tem cunho ofensivo. São meras constatações.
Uma política de interesses e alianças bizarras, partidos
descaracterizados e posicionamentos de fachada me inquieta. Meu
país estar perto do Haiti, em matéria de atraso, tendo
caído para o 75º lugar na liberdade de imprensa, me
estarrece. A falta de projetos reais, as inaugurações
de cenário de papelão, as estradas infernais, os prédios
públicos (como hospitais e universidades) deteriorados, nossa
juventude com péssimos modelos, os adultos sem horizontes,
a pobreza enganada ou comprada com pouco dinheiro em lugar de empregos,
doentes desesperados e médicos consternados nos serviços
de saúde pública. Tudo isso me assombra.
Ardentemente espero que não
acabemos numa grande festa inicial, pensando estar livres dos chatos
que exigem a famosa faxina ética, para logo nos perdermos
num caminho de arrependimento tardio. Pois nossa escolha nos será
cobrada, a nossos filhos e netos, por muito tempo, caso a gente
esteja entretido ou fragilizado demais para avaliar bem o que fazemos,
e por que o fazemos. Na condição de alguém
que ama este país onde nasceu, em cuja vida cotidiana se
espelham as ações dos que administram a nação
e a servem, é que me pergunto:
Afinal, que povo somos? Uma nação
folclórica e atrasada? Um povo humilde e sofredor que se
contenta com muito pouco, ou gente alienada que não enxerga
além da borda do prato? Um povo fissurado no osso individual
que engana a fome, ou na fútil ilusão de estabilidade?
Um povo que escolhe ignorar os desmandos, a impunidade e a estagnação
que contaminam a nossa pátria e não deixam dormir
os que ainda pensam? Espero que o resultado de nossa escolha nestes
dias revele o contrário: uma nação que pensa
e escolhe com determinação, uma gente pacífica
mas firme, não arrogante, mas altiva e capaz.
Com várias gerações
de antepassados, lutei do jeito que podia para que este fosse um
país onde a gente se orgulha de viver, onde os líderes
são exemplos, os bens públicos são administrados
com clareza e habilidade, a cultura floresce, a saúde é
para todos, a Justiça funciona e a esperança viceja.
Não lutei com armas concretas, pois creio na paz, e minha
vocação de Joana d'Arc é pífia. Não
dei e nunca tive dinheiro para suborno ou agrado. Paguei, muitas
vezes com angústia, meus duros impostos, ah, sim. Como a
maior parte das pessoas, lutei numa vida de trabalho e decência,
e usei as únicas armas que sei manejar: a esperança
e as palavras.
Com elas escrevo esta coluna,
partilhando com os leitores minhas inquietações, receios
e encantamentos, ou, como hoje, tentando ver como a gente se livra
de ilusões que enganam e atordoam.
Lya Luft é escritora
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