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Edição 1980 . de novembro de 2006

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Ensaio: Roberto Pompeu de Toledo
O Brasil continua

Votos pós-eleitorais: que se minta
e roube menos, que impere o estado
de direito, que se desarmem os espíritos

Bem, assim são as coisas. Agora devemos desarmar a árvore, Pôr a decoração de volta nas caixas de papelão
Algumas quebraram e levá-las para o sótão.
W.H. Auden,
Oratório de Natal
 

Bem, assim são as coisas. Tal qual no poema do inglês Auden, que celebra o fim do Natal, cumprimos mais uma etapa. A interminável temporada eleitoral terminou. Agora é recolher as faixas e os cartazes (felizmente menos numerosos que de outras vezes), ver mais cedo a novela, deixar de comer os dedos uns dos outros, tentar relaxar. O horário político, tão trapaceiro no épico desfile de obras quanto no lirismo rastaqüera das crianças sorridentes, estourando de tanta confiança no futuro, ficou para trás. Ficaram para trás os debates – ai, os debates! Aquelas vozes que já não se agüenta mais ouvir, as respostas que não respondem, as estocadas ensaiadas, os números que sufocam como um travesseiro na cara... Fixemo-nos no que esta campanha trouxe de bom – ela desmoralizou os debates. Nunca mais alguém em seu juízo dirá: "O que está faltando nesta campanha é debate".

Façamos votos de que, com as faixas e os cartazes – e os bonés, e as camisetas, e os palanques nos quais gente com manchas de suor na camisa capricha no truque simplório de ritmar a voz como senha para desencadear os aplausos, e os cretinos em volta, como macaquinhos amestrados, obedecem e aplaudem –, também as altas doses de mentira e de meias verdades sejam recolhidas ao sótão, até a próxima temporada. Não façamos ilusão: a mentira e as meias verdades não serão eliminadas. Elas continuarão nossas companheiras de viagem, mesmo porque muitas vezes provocadas pelo fato de que nós, o eleitorado, não suportaríamos a verdade. (Como disse um governante europeu: "Todos nós sabemos o que devemos fazer. O que não sabemos é como ganhar as eleições depois".) Mas podemos desejar mentiras e meias verdades melhores. Um pouco menos deslavadas, menos cínicas.

Já tivemos campanhas lamentáveis. Quase todas são um atentado à inteligência e ao bom gosto. Desta vez, porém, numa conjunção astral de rara infelicidade, tínhamos um candidato ébrio de soberba, prisioneiro do delírio de ter-se como o Predestinado, o Messias, contra o mestre-escola que aos domingos faz bico como sacristão. Ai!!! Dada a diferença nas preferências em favor de um sobre o outro nas pesquisas, prenunciava-se uma campanha morna. Mas – curiosa campanha, esta – a certa altura o caldo desandou, e a intolerância contaminou vastas fatias da população, dividiu o eleitorado em linhas nítidas de classe social e escolaridade, rachou o país em regiões e estados de preferências opostas.

Devagar com o andor. Assim como se impõe desarmar a árvore, depois do Natal, impõe-se desarmar os espíritos, cumprido este outro marco do calendário que são as eleições. A divisão é uma praga que leva as nações à perdição. Fidel Castro não se recuperou, quase cinqüenta anos passados, do erro de ter dividido o país. Contra ele e seu regime, aguardando a melhor oportunidade, velam inimigos sedentos de vingança. Hugo Chávez foi pela mesma trilha envenenada. Que neste período pós-eleitoral não se venha com a conversa do impeachment ou do "fora" este ou aquele. Não há país que resista a um impeachment a cada temporada. Também não há vantagem, só mais uma manobra de quem cultiva o esporte do tiro no próprio pé, em destronar um presidente para criar a figura ainda mais poderosa do mártir.

Os perdedores devem se consolar com o pensamento de que os governos não podem ser tão diferentes uns dos outros. Fora do sistema não há salvação. Fora do sistema é condenar-se ao atraso, como Cuba ou Coréia do Norte, quando não à fome. Dadas as condicionantes, internas e externas, não sobra tanta margem de manobra. Fora do capitalismo não há salvação. Desejável é que o capitalismo seja temperado pelos ideais de justiça e eqüidade. E pronto. Eis no que se resumem as balizas entre as quais embicar o Estado, na presente quadra histórica. Esperar grandes transformações na passagem de um governo para outro é cair na mesma ilusão de imaginar, na noite do réveillon, que no ano que vem será tudo diferente.

Que o próximo governo não roube, ou roube menos. Que não atente contra esse bem precioso, embora negado pelos cegos e mal-intencionados, que é o estado de direito. E que nossos ouvidos sejam poupados (este é um pedido especial) da hórrida retórica do "jamais visto neste país", ou "pela primeira vez em quinhentos anos". O Brasil não está aí para ser inaugurado toda hora. Nenhum país está. Achar o contrário é fruto da ilusão, da ignorância ou da má-fé. Que sejamos poupados, inversamente, da idéia de que se avizinha o fim do mundo. Também não é assim tão fácil chegar ao fim. Apenas cumprimos um rito, como o do Natal, para o qual se arma a árvore, e depois se desarma, e no outro ano se arma de novo, e depois se desarma. O Brasil continua.

 
 
 
 
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