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Ensaio:
Roberto Pompeu de Toledo O
Brasil continua
Votos pós-eleitorais:
que se minta e roube menos, que impere o estado de direito,
que se desarmem os espíritos Bem,
assim são as coisas. Agora devemos desarmar a árvore,
Pôr a decoração de volta nas caixas de papelão
Algumas quebraram e levá-las para o
sótão. W.H. Auden, Oratório de Natal
Bem, assim são as coisas. Tal qual no poema
do inglês Auden, que celebra o fim do Natal, cumprimos mais uma etapa. A
interminável temporada eleitoral terminou. Agora é recolher as faixas
e os cartazes (felizmente menos numerosos que de outras vezes), ver mais cedo
a novela, deixar de comer os dedos uns dos outros, tentar relaxar. O horário
político, tão trapaceiro no épico desfile de obras quanto
no lirismo rastaqüera das crianças sorridentes, estourando de tanta
confiança no futuro, ficou para trás. Ficaram para trás os
debates ai, os debates! Aquelas vozes que já não se agüenta
mais ouvir, as respostas que não respondem, as estocadas ensaiadas, os
números que sufocam como um travesseiro na cara... Fixemo-nos no que esta
campanha trouxe de bom ela desmoralizou os debates. Nunca mais alguém
em seu juízo dirá: "O que está faltando nesta campanha é
debate". Façamos votos de que, com as faixas
e os cartazes e os bonés, e as camisetas, e os palanques nos quais
gente com manchas de suor na camisa capricha no truque simplório de ritmar
a voz como senha para desencadear os aplausos, e os cretinos em volta, como macaquinhos
amestrados, obedecem e aplaudem , também as altas doses de mentira
e de meias verdades sejam recolhidas ao sótão, até a próxima
temporada. Não façamos ilusão: a mentira e as meias verdades
não serão eliminadas. Elas continuarão nossas companheiras
de viagem, mesmo porque muitas vezes provocadas pelo fato de que nós, o
eleitorado, não suportaríamos a verdade. (Como disse um governante
europeu: "Todos nós sabemos o que devemos fazer. O que não sabemos
é como ganhar as eleições depois".) Mas podemos desejar mentiras
e meias verdades melhores. Um pouco menos deslavadas, menos cínicas.
Já tivemos campanhas lamentáveis. Quase todas são um atentado
à inteligência e ao bom gosto. Desta vez, porém, numa conjunção
astral de rara infelicidade, tínhamos um candidato ébrio de soberba,
prisioneiro do delírio de ter-se como o Predestinado, o Messias, contra
o mestre-escola que aos domingos faz bico como sacristão. Ai!!! Dada a
diferença nas preferências em favor de um sobre o outro nas pesquisas,
prenunciava-se uma campanha morna. Mas curiosa campanha, esta a
certa altura o caldo desandou, e a intolerância contaminou vastas fatias
da população, dividiu o eleitorado em linhas nítidas de classe
social e escolaridade, rachou o país em regiões e estados de preferências
opostas. Devagar com o andor. Assim como se impõe
desarmar a árvore, depois do Natal, impõe-se desarmar os espíritos,
cumprido este outro marco do calendário que são as eleições.
A divisão é uma praga que leva as nações à
perdição. Fidel Castro não se recuperou, quase cinqüenta
anos passados, do erro de ter dividido o país. Contra ele e seu regime,
aguardando a melhor oportunidade, velam inimigos sedentos de vingança.
Hugo Chávez foi pela mesma trilha envenenada. Que neste período
pós-eleitoral não se venha com a conversa do impeachment ou do "fora"
este ou aquele. Não há país que resista a um impeachment
a cada temporada. Também não há vantagem, só mais
uma manobra de quem cultiva o esporte do tiro no próprio pé, em
destronar um presidente para criar a figura ainda mais poderosa do mártir.
Os perdedores devem se consolar com o pensamento
de que os governos não podem ser tão diferentes uns dos outros.
Fora do sistema não há salvação. Fora do sistema é
condenar-se ao atraso, como Cuba ou Coréia do Norte, quando não
à fome. Dadas as condicionantes, internas e externas, não sobra
tanta margem de manobra. Fora do capitalismo não há salvação.
Desejável é que o capitalismo seja temperado pelos ideais de justiça
e eqüidade. E pronto. Eis no que se resumem as balizas entre as quais embicar
o Estado, na presente quadra histórica. Esperar grandes transformações
na passagem de um governo para outro é cair na mesma ilusão de imaginar,
na noite do réveillon, que no ano que vem será tudo diferente.
Que o próximo governo não roube, ou roube menos. Que não
atente contra esse bem precioso, embora negado pelos cegos e mal-intencionados,
que é o estado de direito. E que nossos ouvidos sejam poupados (este é
um pedido especial) da hórrida retórica do "jamais visto neste país",
ou "pela primeira vez em quinhentos anos". O Brasil não está aí
para ser inaugurado toda hora. Nenhum país está. Achar o contrário
é fruto da ilusão, da ignorância ou da má-fé.
Que sejamos poupados, inversamente, da idéia de que se avizinha o fim do
mundo. Também não é assim tão fácil chegar
ao fim. Apenas cumprimos um rito, como o do Natal, para o qual se arma a árvore,
e depois se desarma, e no outro ano se arma de novo, e depois se desarma. O Brasil
continua. |